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Quinta-feira, 30 de Setembro de 2010

NOBEL DA LITERATURA: APOSTAS

























Para quem quiser ganhar dinheiro, se possível ficar rico, há algo que oferece mais chances que o euromilhões e é, nada mais nada menos, do que apostar no vencedor do próximo Prémio Nobel da Literatura. Coloco aqui as betting odds do Ladbrokes.com, partindo Tomas Transtromer (poeta e tradutor sueco) numa espécie de Pole Position, embora o nosso António Lobo Antunes nem esteja muito mal posicionado. Boa sorte.

Tomas Transtromer 5/1
Adam Zagajewski 8/1
Ko Un 8/1
Adonis 8/1
Antonio Tabucchi 10/1
Haruki Murakami 11/1
Les Murray 11/1
Yves Bonnefoy 15/1
Assia Djebar 15/1
Thomas Pynchon 18/1
Philip Roth 18/1
Joyce Carol Oates 18/1
Margaret Atwood 18/1
Alice Munro 18/1
A.S. Byatt 18/1
Michel Tournier 18/1
Don DeLillo 22/1
Claudio Magris 22/1
Milan Kundera 25/1
Amos Oz 25/1
Maya Angelou 25/1
E.L Doctorow 25/1
Peter Handke 25/1
Gitta Sereny 30/1
Cees Nooteboom 30/1
Ernesto Cardinal 30/1
Luis Goytisolo 30/1
Arnošt Lustig 35/1
Juan Marse 35/1
Bei Dao 35/1
Patrick Modiano 35/1
António Lobo Antunes 35/1
Vaclav Havel 35/1
Bella Akhmadulina 35/1
Javier Marias 40/1
Mario Vargas Llosa 45/1
Eeva Kilpi 45/1
Carlos Fuentes 45/1
William Trevor 45/1
Shlomo Kalo 45/1
Umberto Eco 45/1
Chinua Achebe 45/1
Elias Khoury 45/1
Anne Carson 50/1
A.B. Yehoshua 50/1
Per Petterson 50/1
Ismail Kadare 50/1
Ian McEwan 50/1
David Malouf 50/1
Jonathan Littell 66/1
Michael Ondaatje 66/1
Salman Rushdie 66/1
John Banville 66/1
Paul Auster 66/1
Cormac McCarthy 66/1
Jon Fosse 66/1
Mahasweta Devi 66/1
Harry Mulisch 66/1
Ulrich Holbein 66/1
Kjell Askildsen 75/1
Julian Barnes 75/1
Ngugi wa Thiong'o 75/1
Atiq Rahimi 75/1
Nestor Amarilla 100/1
Peter Carey 100/1
F. Sionil Jose 100/1
Marge Piercy 100/1
Mary Gordon 100/1
William H. Gass 100/1
Yevgeny Yevtushenko 100/1
Vassilis Aleksaskis 125/1
Bob Dylan 150/1 

Na foto: Harold Pinter

Quarta-feira, 29 de Setembro de 2010

JOEL HENRIQUES: O PINTOR

























Descobri recentemente a obra do pintor (entre outras coisas) Joel Henriques, que nada tem que ver com o poeta português Joel Henriques de que aqui falei a propósito do livro A Claridade. Provavelmente ambos ignoram a existência um do outro e talvez este post lhes altere, quanto a esse ponto, o destino, e nasça mais tarde, mais pelo segundo do que pelo primeiro, um romance ao jeito de O Homem Duplicado, de José Saramago.  Não sei. Para já posto uma imagem do pintor e vou dormir que é tarde.

Terça-feira, 28 de Setembro de 2010

POETRY MUST BE ON TV: POESIA E VÍDEO

Bem interessantes os vídeos do projecto Poetry Must Be On Tv, que procurou aliar a poesia à expressão do vídeo. Seleccionei o vídeo de Manuel Vilarinho, com interpretação de José Moreira, à volta do poema No País dos Sacanas, de Jorge de Sena. 


FERNANDO ESTEVES PINTO - POEMA

















Ellington sempre me parecera nervoso.
O mesmo acontecia com os nossos jogos psicológicos.
Havia na família uma moldura diferente
atribuída a cada sentimento.
Depois de nos degolarmos na sala a pergunta era esta:
que moldura sentimos que faça parte do nosso espírito?
Eu dizia tristeza e murmurava sempre tristeza
e o coração do pai abandonava-nos com vergonha
a mãe enrolava as mãos a segurar o amor
e eu adormecia em delírio e despertava sempre em delírio.
O jogo da moldura tinha a vantagem da incompreensão.
Numa família há os realizadores de molduras
e os que sentem a realização da matéria emocional.
As mais belas resoluções eram feitas
na presença de Ellington.
Improviso ambiental familiar.

Fernando Esteves Pinto
em Área Afectada 
ed: Temas Originais, 2010

VEDAÇÃO - POEMA - SYLVIA BEIRUTE


















VEDAÇÃO

remove o ego de cada palavra, usa o ego de uma palavra menor
numa palavra maior. as palavras testemunham
umas pelas outras. então remove a capacidade
de testemunho de uma palavra maior e coloca-a numa palavra menor.
põe as palavras menores - pequenos substantivos do
dia-a-dia, adjectivos de olhos vendados, advérbios de modo fácil - 
a testemunharem as fitas métricas do teu mundo.
e continua a falar. distancia-te entre interlúdios de verdades
meramente ditas. passa para as palavras intermédias.
as palavras intermédias não têm ego, viajam na consciência reprimida 
da boca, participam dos sentidos restritos com a moderação de um 
cidadão de uma pequena cidade do interior.
diz que tens um desejo ou que descansarias perfeitamente na lua
e tenta perceber que outras palavras
procuram as tuas palavras.

Sylvia Beirute
inédito

FERREIRA GULLAR: POEMAS, POESIA, BIOGRAFIA
























sb: série poetas


A poesia de Ferreira Gullar (São Luís do Maranhão, Brasil, 10 de Setembro de 1930, poeta, crítico de arte, biógrafo, tradutor, memorialista e ensaísta) assume-se dentro das palavras que a suportam, numa espécie de meditação do acaso – acaso este que também medita e enforma a atenção de uma “flagrância” de impulsos, gritos, e negações conscientes. Os versos raramente arrefecem, embora o poema de Gullar seja por vezes composto por fragmentos, pequenas peças, contudo com um íman que as puxa, aproxima, cada qual com a sua manifestação poética autónoma, correndo e concorrendo para o todo da coerência e do impacto. Aqui, a inspiração parece fundar-se numa outra, representativa desse homem do quotidiano, desse Ferreira Gullar mais perto de 1930 e de São Luís do Maranhão. Veja-se,  a este respeito, mas abaixo, o poema PRIMEIROS ANOS, escrito em 1975, em Buenos Aires, poema em que se percebe a realidade brasileira de forma muito sentidamente autobiográfica, aliada ao que lhe sobrou do neoconcretismo (que fundou com autores como Lygia Clark e Hélio Oiticica, grupo que viria a abandonar nos anos 60), movimento esse que surge por oposição ao concretismo puro, que faz da arte geometria pura e inanimação. Pelo contrário, no neoconcretismo de Ferreira Gullar o objecto artístico adquire dimensão humana, participando e sendo passível de observação subjectiva, precisamente porque aqui ele é expressivo e digno de um grande campo de interpretação. É nesse contexto neoconcretista que o poeta se insere, explorando o silêncio e as suas múltiplas partículas, a curiosidade do primeiro espectador de um tempo em metamorfose, a intensificação do consciente pronunciado. Uma grande parte da sua obra poética é acessível ao grande (termo que na poesia deveria sempre vir entre aspas) público. As palavras e as ideias não são, em geral, intelectualizadas, possuindo a estrutura poemática um efeito directo e não menos forte, suprimindo habilmente as barreiras que a linguagem por vezes impõe. E isto, claro, sem ignorar as imagens, comparações e metáforas que essa poesia nos oferece, muitas delas ligadas ao físico e ao palpável, o que acaba por ser, eu diria, uma marca da poesia de Ferreira Gullar. Em certos poemas o aspecto "visualístico" assume uma importância bem medida, consubstanciado na métrica dos versos e sua inserção específica no confronto com o resto do texto, buscando a tradução da harmonia do momento, o movimento de transformação, a dialéctica dos dias. Tendo publicado 16 livros de poesia inédita, foi recentemente galardoado com o Prémio Camões 2010.

Poemas seleccionados:


PRIMEIROS ANOS

Para uma vida de merda
nasci em 1930
na rua dos prazeres

Nas tábuas velhas do assoalho
por onde me arrastei
conheci baratas, formigas carregando espadas
caranguejeiras
que nada me ensinaram
exceto o terror

Em frente ao muro negro no quintal
as galinhas ciscavam, o girassol
Gritava asfixiado
longe longe do mar
(longe do amor)

E no entanto o mar jazia perto
detrás de mirantes e palmeiras
embrulhado em seu barulho azul

E as tardes sonoras
rolavam
sobre nossos telhados
sobre nossas vidas .
Do meu quarto
ouvia o século XX
farfalhando nas árvores lá fora.

Depois me suspenderam pela gola
me esfregaram na lama
me chutaram os colhões
e me soltaram zonzo
em plena capital do país
sem ter sequer uma arma na mão.

*

NÃO HÁ VAGAS


O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

- porque o poema, senhores,
   está fechado:
   "não há vagas"

Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

            O poema, senhores,
            não fede
            nem cheira

*
.
POEMA

Se morro
universo se apaga como se apagam
as coisas deste quarto
                                 se apago a lâmpada:
os sapatos - da - ásia, as camisas
e guerras na cadeira, o paletó -
dos - andes,
          bilhões de quatrilhões de seres
e de sóis
        morrem comigo.

Ou não:
       o sol voltará a marcar
       este mesmo ponto do assoalho
       onde esteve meu pé;
                                     deste quarto
       ouvirás o barulho dos ônibus na rua;
           uma nova cidade
           surgirá de dentro desta
           como a árvore da árvore.

Só que ninguém poderá ler no esgarçar destas nuvens
a mesma história que eu leio, comovido.

*

NO CORPO

De que vale tentar reconstruir com palavras
O que o verão levou
Entre nuvens e risos
Junto com o jornal velho pelos ares

O sonho na boca, o incêndio na cama,
o apelo da noite
Agora são apenas esta
contração (este clarão)
do maxilar dentro do rosto.

A poesia é o presente. 

*

MADRUGADA

Do fundo de meu quarto, do fundo
de meu corpo
clandestino
ouço (não vejo) ouço
crescer no osso e no músculo da noite
a noite

a noite ocidental obscenamente acesa
sobre meu país dividido em classes

*

EXTRAVIO

Onde começo, onde acabo,
se o que está fora está dentro
como num círculo cuja
periferia é o centro?

Estou disperso nas coisas,
nas pessoas, nas gavetas:
de repente encontro ali
partes de mim: risos, vértebras.

Estou desfeito nas nuvens:
vejo do alto a cidade
e em cada esquina um menino,
que sou eu mesmo, a chamar-me.

Extraviei-me no tempo.
Onde estarão meus pedaços?
Muito se foi com os amigos
que já não ouvem nem falam.

Estou disperso nos vivos,
em seu corpo, em seu olfato,
onde durmo feito aroma
ou voz que também não fala.

Ah, ser somente o presente:
esta manhã, esta sala.

*

Bibliografia (fonte: wilipedia)

Poesia
  • Um pouco acima do chão, 1949
  • A luta corporal, 1954
  • Poemas, 1958
  • João Boa-Morte, cabra marcado para morrer (cordel), 1962
  • Quem matou Aparecida? (cordel), 1962
  • A luta corporal e novos poemas, 1966
  • História de um valente, (cordel; na clandestinidade, como João Salgueiro), 1966
  • Por você por mim, 1968
  • Dentro da noite veloz, 1975
  • Poema sujo, (onde localiza-se a letra de Trenzinho do Caipira) 1976
  • Na vertigem do dia, 1980
  • Crime na flora ou Ordem e progresso, 1986
  • Barulhos, 1987
  • O formigueiro, 1991
  • Muitas vozes, 1999
  • Em alguma parte alguma, 2010
Antologias
  • Antologia poética, 1977
  • Toda poesia, 1980
  • Ferreira Gullar - seleção de Beth Brait, 1981
  • Os melhores poemas de Ferreira Gullar - seleção de Alfredo Bosi, 1983
  • Poemas escolhidos, 1989
Contos e crônicas
  • Gamação, 1996
  • Cidades inventadas, 1997
  • Resmungos, 2007
Teatro
  • Um rubi no umbigo, 1979
Crônicas
  • A estranha vida banal, 1989
  • O menino e o arco-íris, 2001
Memórias
  • Rabo de foguete - Os anos de exílio, 1998
Biografia
Ensaios
  • Teoria do não-objeto, 1959
  • Cultura posta em questão, 1965
  • Vanguarda e subdesenvolvimento, 1969
  • Augusto do Anjos ou Vida e morte nordestina, 1977
  • Tentativa de compreensão: arte concreta, arte neoconcreta - Uma contribuição brasileira, 1977
  • Uma luz no chão, 1978
  • Sobre arte, 1983
  • Etapas da arte contemporânea: do cubismo à arte neoconcreta, 1985
  • Indagações de hoje, 1989
  • Argumentação contra a morte da arte, 1993
  • O Grupo Frente e a reação neoconcreta, 1998
  • Cultura posta em questão/Vanguarda e subdesenvolvimento, 2002
  • Rembrandt, 2002
  • Relâmpagos, 2003 
Artigo escrito por Sylvia Beirute

DENIS JOHNSON: FILHO DE JESUS

























João Tordo dixit: Em breve nas livrarias, cortesia das edições Ahab: Filho de Jesus, um arrebatador e perturbante romance de Denis Johnson, altamente recomendado para quem gosta da melhor literatura contemporânea. Há dois anos a Ahab publicou John Fante e o seu Pergunta ao Pó (um dos grandes romances dos anos trinta inédito entre nós), um autor que continuou a desconstrução do sonho americano após a epifania de Fitzgerald; agora, o caminho continua a ser desbravado por Denis Johnson, um romancista-poeta-dramaturgo que, algumas décadas depois de Fante, remexe no caldeirão da melhor americana e produz uma alucinante e magistral pérola neo-gótica que atravessa toda uma geração perdida; uma geração que amou Kerouac e Bukowski, que estudou com Carver, que alucinou com Burroughs. Uma geração que é, literalmente, filha de um deus menor, de um deus há muito crucificado e esquecido. Filho de Jesus é um romance obrigatório.

Domingo, 26 de Setembro de 2010

COISAS QUASE HUMANAS - POEMA - SYLVIA BEIRUTE

  



















COISAS QUASE HUMANAS

apanhaste-me distribuída
num tom quase humano,
fingindo intuição;
não há lugar a perguntas
e claro que não sabias;
se falamos um bocado sobre isso
acreditamos nisso
e nada necessita da nossa
intervenção.
e o tom muda. é um privado
disfarçado de íntimo.
e os olhos são uma página.
impossível virá-la.

Sylvia Beirute
inédito

FERNANDO MACHADO SILVA - A MORTE É UMA TERRA INACABADA


























A MORTE É UMA TERRA INACABADA

os muros circundam aquele pedaço de terra
e o horário de trabalho fecha
por completo o carpir das velhas
mulheres. isto nunca acaba,
sempre há novas ervas a arrancar
folhas que ocultam os nomes
queridos dos idos sempre antes
do tempo. dizem
ao ouvido das lajes:
fazes cá falta, a vida
é dura para uma pessoa só
quando se tem duas
casas a tratar
e um amor a cumprir

Fernando Machado Silva
em Revista Transe Atlântico

PAULO RODRIGUES FERREIRA






Gosto muito de pequenos textos, próximos do poético, da síntese final, textos que sejam concentração de tensões, indecisões, respostas, questões. Este Then Come the Ashes, de Paulo Rodrigues Ferreira, autor do livro A Prisão do Ético, tem tudo isso, num nível de qualidade que é de assinalar. Um blogue a visitar com regularidade. 

«A vida não pode ser só isto.» Quem o diz é a senhora da peixaria sempre que, após me perguntar o que desejo, lhe respondo, em tom de brincadeira, que o que desejava era estar morto. A vida não pode ser só isto. A morrer de enfarte, B de trombose, C de acidente rodoviário.

Paulo Rodrigues Ferreira
lido aqui

A REFLEXÃO SOBRE A POESIA

Rosa Oliveira encontrou algumas "dúvidas" na minha reflexão sobre a poesia nas escolas portuguesas. Vou tentar esclarecer. Em momento algum disse ou pensei que Fernando Pessoa ou outro qualquer dos grandes nomes da poesia portuguesa deveria deixar de ser estudado. O que disse foi que a complexidade da poesia do autor não lhe permitia ser uma base no campo da introdução à poesia enquanto género literário. O meu texto, com uma boa dose de utopia, apenas é uma espécie de lamento ou desabafo para a minha insatisfação pessoal quando converso com alguém sobre poesia. Noto, nesses momentos, que as pessoas não fazem a mínima ideia do que se faz actualmente, mantendo a visão da escola. Concluí dizendo que, se ao menos houvesse um cuidado para se fazer referência aos novos autores, mostrando-se a evolução cronológica completa do género, talvez este ganhasse os adeptos que merece. Não me parece que esta minha ideia faça "nivelar por baixo" o que quer que seja. Antes pelo contrário. Apenas coloca lado a lado duas realidades, ambas, a meu ver, com o seu desígnio específico.

LENDO CHARLES BUKOWSKI




















ON READING BUKOWSKI EM PONTA DELGADA
por Vamberto Freitas

Não, não tenho os mais de 45 livros de Charles Bukowski publicados em vida e após a morte, nem lá perto, mas tenho uma boa e essencial colecção da sua obra há muitos anos na minha estante. Bukowski faleceu em San Pedro, Califórnia, em 1994, aos 73 anos de idade. Para a quantia de cigarros e charutos que fumou enquanto bebia litros de cerveja, vinho e outras substâncias celestiais mas mortais, nada mal. Ou então tudo não passou de uma pose bem urdida ao longo da vida. Estou em crer que escrever tanto como ele, só com muitas horas, dias e anos de sobriedade. Alguns dirão que a sua mais do que “conturbada” prosa e poesia desmente precisamente este meu último palpite. O facto é que ele deixou as mais atrevidas, corajosas e indecentes páginas na literatura norte-americana de todos os tempos, nem Hunter S. Thompson se tornou a sua sombra na literatura da maldição, e Henry Miller parecerá um menino de escola dominical ao seu lado. Escreveu ao mesmo tempo dos Beat, a que alguns críticos ainda tentam associa-lo, mas ele só derramou desprezo sobre esses que ele chamava de oportunistas, os que desfrutaram do recém-descoberto amor que a Academia esquerdizada passou a dedicar a todo e qualquer rebelde intelectual a partir dos anos sessenta.
Bukowski levou ao extremo na sua vida pessoal e de escritor nada mais, nada menos do que a Pregação Americana do Individualismo: que a sociedade me deixe em paz, não se preocupe comigo, que eu sobrevirei como quiser e entender. Quanto às grandes ideias e ideais, estamos falados: dá no que tem dado, não me incluem no projecto ou no sonho. Nascido na Alemanha em 1920 de pai americano e mãe alemã, levado para a Grande Los Angeles aos três anos de idade, a sua vida foi sempre de desobediência amena aos ditames da cultura nacional e dos compatriotas vizinhos, esses que eu próprio conheci tão bem durante quase 27 anos a cortar e regar a relva aos sábados e a mexericar sorrateiramente tudo em sua volta, exactamente como num famoso conto de Raymond Carver. O filme “Barfly” feito em Hollywood, gente e cidade que ele só “usava” para cravar os seus magnatas ricos, hipócritas quase sempre no seu, digamos, “amor” por Bukowski, e sem grande imaginação, mostra-o na sua vivência sem regras: marginal, bêbado, sem vontade de trabalhar, amante por algumas horas e de companhia incerta, escritor (na altura) incipiente e sem noções de qualquer grandeza ou significado. Enfim, o supremo invejado de quem sonhou um dia ser verdadeiramente livre, mas sem ter necessariamente de dormir sob uma ponte. Tudo isso transparece em directo na sua prosa e poesia até ao fim da sua longa carreira. É certo que a poucos anos de morrer já desfrutava de algumas benesses (carro novo e vinhos mais finos, supõe-se), provindas da sua crescente fama no estrangeiro e no seu país.
Que tem de especial uma leitura ou (re)leitura de Bukowski em Ponta Delgada? Acontece que numa tarde de Domingo, de céu cinzento e tempo ameaçador, encontrei alguma poesia de Bukowski numa feira do livro local, que tem obras americanas em primeiras edições, graças à globalização em curso, digam outros o que disserem: Come On In! (New Poems), póstumo como ele havia planeado. Vim para casa e diverti-me à brava. Não foi só a delícia de ler inesperadamente mais uma vez Bukowski, olhando para solidão que é o mar dos Açores em dias como estes, como é o sentimento de estar sempre “longe aqui”. Depois, o contraste da liberdade absoluta de um poeta do mundo, mesmo que sempre quieto em casa, mas atento à tremenda ebulição das ruas, dos bairros, das cidades em redor, com a tímida vida de uma sociedade fechada e ainda cheia de medos e complexos de toda a ordem. Na sua linguagem crua, áspera, ofensiva, brutal, directa, Bukowski terá outra “mensagem” para cada um dos seus leitores: o “mundo” és tu, só pode ser tu, está em ti e dentro de ti, não culpes nem o lugar nem os outros, vive como quiseres, e mantém-te atento às tentativas de te vergarem a seu gosto e para o seu interesse. Fernando Pessoa, naturalmente de modo muitíssimo diferente, já tinha dito isto, mais ou menos, quando rejeitava para sempre ser “tributável”, como o queriam e o desejavam. Só que para além das suas imparáveis blasfémias contra a sociedade ou contra quem lhe aborrecesse num determinado dia ou circunstância, Bukowski escondia em si uma imensa erudição de autodidacta -- literatura europeia e americana, música clássica, especialmente – de que poucos outros escritores do seu atribulado tempo se podem gabar; não a ostentava nunca, deixava-a cair estritamente ao serviço de um outro poema, como fundo tranquilizador das suas noites solitárias, ou, mais raramente, como arma satírica na denúncia ou apreciação de outros escritores mais famosos e citados. É claro que foi sempre um autor de culto, no seu país e ainda mais no estrangeiro, particularmente na Europa. Tem todos os seus livros traduzidos em algumas doze línguas, fenómeno pouco habitual até entre os modernos mais canónicos em qualquer parte. Olhar para uma foto de Bukowski em todas as fases da sua vida, é ter medo dos estragos que o corpo humano pode sofrer, mas será também uma fonte de inspiração quando nos damos conta de como o espírito humano livre e determinado poderá sobreviver intacto, e até vingar gloriosamente, no assustador labirinto das sociedades modernas, que tenta aprisionar ou desviar algumas vidas.
Come On In! traz pouco de novo na vasta obra de Charles Bukowski, e creio que os seus fiéis leitores assim o desejavam – o regresso contínuo ao mundo íntimo e desvairado do seu poeta maldito, atirando o seu fogo em todas as direcções, raramente poupando-se a si próprio, ferida aberta desde a sua juventude sangrando, primeiro nas ruas do seu desespero, e eventualmente em páginas de absoluto corte com a Tradição literária do seu país, reinventando estéticas e alargando brutalmente o campo temático da poesia confessional que antes ou paralelamente com a dele se escrevia. You’re just a drunk who writes, said his wife/that’s better than a drunk who just drinks, said the writer.
Que ninguém se engane: do intimismo radical de Bukowski surgem retratos claríssimos de uma outra América, aquela que os americanos sempre pretenderam não existir fora dos seus guetos supostamente invisíveis e intocáveis. Façam o favor de entrar neste seu sujo e perigoso reduto. Ninguém em seu perfeito juízo quereria tal vida; resta-nos, isso sim, o fascínio de o ler e de o acompanhar ao longe nas suas sagas “loucas”, talvez as únicas que restam aos verdadeiramente corajosos. Bukowski viveu muitos dos seus anos de vida literária activa em bairros da classe média de San Pedro, sítio improvável para o quotidiano de um escritor da sua eventual estatura. Seria quase como que um outro desafio seu à placidez e pretensiosismo dos que perseguiam os outros sonhos da pregação oficial.

Vamberto Freitas 

AINDA JOHN MILTON

Relembra-me um amigo que o grande poema épico do século XVII, Paradise Lost, de John Milton, estará no cinema no futuro, pela mão de Alex Proyas. O poema retrata o episódio da expulsão de Adão e Eva do paraíso.


JOHN MILTON: UM INÉDITO






















Descoberto um poema inédito do poeta John Milton, muito diferente da obra conhecida do autor, o que está a intrigar os especialistas.

An Extempore Upon A Faggot

Have you not in a Chimney seen
A Faggot which is moist and green
How coyly it receives the Heat
And at both ends do's weep and sweat?
So fares it with a tender Maid
When first upon her Back she's laid
But like dry Wood th' experienced Dame
Cracks and rejoices in the Flame.

John Milton (1608-1674)

AULAS DE POESIA
























Há dias escrevi um breve ensaio a ser publicado proximamente numa revista. E aí abordava, entre outras coisas, os vários tipos de poesia - do mais simples ao mais complexo, do mais literal ao menos literal, do mais apreensível ao mais difícil ao alcance do leitor. Concluí, quanto a estes pontos, que mesmo a poesia que menos aprecio - a mais directa e "visualística" (sem retratos do interior e criação de cenários que não sejam os da vista) - é importante para o processo de educação do leitor de poesia, tarefa que, como se sabe, não é fácil. Creio, por outro lado, que o ensino (ou melhor, o estudo) da poesia nas escolas não é o mais indicado, uma vez que muitos dos alunos, em vez de se firmarem como leitores, ganham, isso sim, uma aversão ao género. Talvez a ambição do ensino seja o de formar intelectuais e não a de formar leitores. Bem o sei. Mas para tudo na vida é necessário recorrer a truques; truques que captem a atenção do menino que não quer aprender, daquele que meramente decora os aspectos essenciais da poesia do Álvaro de Campos ou do Alberto Caeiro. É lugar-comum dizer-se que "o importante são as bases". Não me parece que a poesia do Fernando Pessoa seja uma base. Longe disso. Talvez se se começasse a, pelo menos, fazer referência a autores portugueses dos mais acessíveis (poesia que propriamente nem necessita de ser estudada) talvez haja esperança e alguém comece a falar de poesia como "uma coisa que até é fixe". Aposto convosco que no futuro já haveria miúdos a ler Baudelaire, Herberto Helder, Nietzsche, e Samuel Beckett. Bastaria que algum provocasse os outros e sugerisse que o que estes liam seria "arte comercial". Que bom sonhar, não é?

Sábado, 25 de Setembro de 2010

JOSÉ AMARO DIONÍSIO: SERIAL KILLER

























em resposta a este post.

SERIAL KILLER

Ela tinha razão, não existe nada para proteger. Disse-o numa frase curta e profissional, e ele sentiu-se ridículo. Quisera introduzir nessa hipnose um pouco de mistério, pôs-se a falar em atmosferas dashiellianas, virá a escrever fspstueiesa quando deveria simplesmente ter perguntado: faria sentido para si termos um encontro inexistente e sem agenda? Visto da janela o nevoeiro curva as árvores, uma criança desenha no passeio a sua ilha, imperceptível na coalha o focinho de um cão. Há instantes assim: o que resta de céu e terra deixa escapar um pouco de luz e a gente semicerra os olhos e a bruma levanta um ecrã gigante. O vinho atravessa então o copo e desfaz a distância, baralho de sombras com a memória escondida em parte incerta da última carta. Mas as coisas realmente importantes não têm nome, inventam o seu vocabulário. Nascem dentro de nós e morrem connosco. Absolvidos na noite cada qual cai então por si e sempre só. Ele próprio teve um nome, mas perdeu-o. É verdade que estava lá, no declínio da perda, havia contudo demasiado brilho à sua volta e só se lembra de ter ficado cego com a ponta do cigarro. Depois veio a rua e veio vazia. Disseram-lhe anos mais tarde que esse tinha sido um instante muito próximo da sua morte, mas isso só lhe disseram porque nessa altura perder a face já não tinha importância para eles. Desde então começou a procurar a blasfémia nos espelhos, e livre o vidro vinha partir-se-lhe nas veias da mão. Hoje só poderá pronunciar um nome que se devore a si mesmo, um nome inexistente, sem rasto, um nome que teça um encontro ele próprio inexistente, feito de nada. Foi isso que pensou quando escreveu fspstueiesa, refugiou-se em boicotes, partes gagas, claro que um encontro desses além de inexistente só poderia ter lugar num não lugar, este quarto surdo aos pés da China, um dia zombie, a igreja de lama, o bar entre pálpebras caído, sentado ao centro, e ela respondeu-lhe, e respondeu bem, deixa-te de códigos secretos não há aqui nada para proteger. Ele devaneia e não pára, pede depois uma vez mais o chão à terra, fodeste-me com a brutalidade dum cavalo a fugir da sua sombra, dirá ela de manhã, um som de voz muito lento, os olhos no rio das Pérolas, e ele sente a elegia da escuridão sem endereço, esse canto onde se pode começar a matar.

José Amaro Dionísio

RODA GIGANTE - POEMA - SYLVIA BEIRUTE

















RODA GIGANTE

mudo a lentidão às coisas e sei que a inspiração não existe; mas existe a sua textura. e esta é móvel e segue pelo caminho do razoável defeito da violação aos objectos. e mudo o edifício da disciplina e não este poema de auto-incorporação e vozes por reparar; não, não se mudam os poemas. e este está agora  no alto da roda gigante, descendo porque eu desço, gemendo porque eu gemo, elegendo porque eu elejo. mas quando eu descer tudo e o ler, saberei que, tal como todos os outros, este é um desejo que adoeceu longe, num destino que agonizou na memória mais imperial, e que reaparece um dia, como que num braço esquecido de um outro texto, esperando o seu bilhete.

Sylvia Beirute
inédito

Sexta-feira, 24 de Setembro de 2010

REVISTA TRANSE ATLÂNTICO






















A ligação da academia ao mundo exterior – empresarial, mas igualmente cultural, social e político é, creio, um dos desideratos fundamentais da sociedade portuguesa. A nossa sociedade encara sempre com cepticismo,
no mínimo, o académico que termina a sua formação e “chega ao mundo”: não é inusual ouvirem-se coisas como “é só teoria”, “agora é que vai mesmo aprender”. Simetricamente, a academia, em regra, não recebe muito bem quem vem do “exterior”, e atribuem-lhe o labéu de “inculto”, com “falta de preparação teórica”, etc. Estão, creio, equivocados uns e outros. Seja como for, também por ultrapassar esta barreira, fictícia ou não, é de louvar a iniciativa do Mauro Santos Pereira em realizar o seu trabalho de design de comunicação com recurso a textos literários e a fotografias de autor, como se de um autêntico trabalho editorial se tratasse.
Isto é, transe atlântico pode ombrear, também por essa razão mas igualmente pelo trabalho profissional do Mauro, com qualquer revista de arte e cultura. Espero, aliás, que o projecto, em futuro próximo, se efective no mercado (editorial e comercial). Duas palavras sobre os conteúdos. Antes de mais, agradecer a disponibilidade de todos os autores em disponibilizar graciosamente os seus textos e imagens inéditos.
As pontes em transe atlântico fazem-se com ligações afectivas entre Portugal Continental e os Açores, de onde o Mauro é (orgulhosamente) natural, e entre outro arquipélago, o das Canárias (Espanha), e o continental Brasil. As imagens, que não são ilustrativas de nada e que valem (muito) por si só, e, embora em pequena quantidade, são excelentes exemplos da diversidade do que se faz neste âmbito artístico no nosso país. Agregam-se aqui textos, maioritariamente poemas, de “consagrados” e de “novos ou novíssimos” autores. Forma, no conjunto, um bom exemplo, embora heterogéneo, dos consolidados e sempre renovados caminhos da literatura portuguesa e da boa relação que entretece com os parceiros de outros horizontes criativos próximos, quer geográfica, quer historicamente. Naturalmente, nesta avaliação posso ser considerado “suspeito” – pela amizade que me une à generalidade dos participantes neste transe atlântico – e por isso me declaro “culpado”.

Lajes do Pico, 7 de Junho de 2010

PAPA BENTO XVI
























Se Gil Vicente quer matar o Papa Bento XVI, Richard Dawkins é mais moderado e "só" quer mandar prendê-lo, na sequência da protecção aos abusos sexuais a menores no seio da Igreja Católica. A crónica é do Diogo Carvalho e está na Revista Sábado Online.

HOWL TRAILER

No que coloquei aqui, faltou o trailer do filme. Faço-o agora.

SEAMUS HEANEY: HUMAN CHAIN

























Seamus Heaney, de quem falei recentemente, acaba de lançar o seu 12.º livro de poemas. Human Chain é o título. O The New York Times publica um artigo interessante e alguma poesia da obra.