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Quarta-feira, 29 de Dezembro de 2010

PROSA - UMA CASA EM BEIRUTE (2)

















UMA CASA EM BEIRUTE (2)

            um nome. as pessoas reduzem-se a um nome. a linguagem agrava as coisas. as pessoas também se reduzem a linguagens. na realidade o nome e tudo o que ele comporta, como o chamar, o entoar, o evocar, reduz-se a uma linguagem. quando a criança me chamou, disse o meu nome: «Carlaiz», disse ela. disse-o de uma forma diferente. disse-o como se se desmoronasse a linguagem subjacente. eu nunca pensei no meu nome com esta sensação associada, concluí. nunca o meu nome conheceu uma matéria tão informe, sem opositor chamativo, com uma redução subliminar, própria do domínio do puro. Carlaiz, perguntava a criança, aceitas jantar connosco na sexta-feira? e eu pensava. eu não parava de pensar na primeira questão. disse «porque não?»  com um sorriso como se pudesse fugir sem pernas. «ainda tenho de tratar do meu contrato, acabei de chegar à cidade», acrescentei.
.
            a questão filosófica mais importante numa pessoa sozinha no mundo, senão num espaço, maior ou menor, é a possibilidade (ou capacidade) de escolher a própria família. se for num espaço estrangeiro esse acolhimento é paradoxalmente mais efectivo. como que há um distanciamento natural entre quem recebe e quem chega, mas que aproxima pela descoberta, conquista, ou curiosidade radiográfica. mas que será isto? por que será assim?
.
            de seguida propus-me a não responder a quaisquer perguntas que pudesse naturalmente formular. trazia muitas questões, procurava respostas. respostas daquelas que não perguntam de novo.  especialmente aquelas que não perguntam o mesmo que já fora perguntado.
            quando cheguei a casa rezei e chorei. tenho o hábito de fazer sempre duas coisas ao mesmo tempo. acoplá-las ainda que aparentemente de tal não sejam passíveis. rezar e chorar creio que, ao contrário de outras, são duas funções que se podem executar em conjunto. com o tempo, quando chorava instantaneamente, também rezava. era como se impusesse ao verbo um outro lado transitivo. e vivia a experiência. dir-se-ia que rezava o choro. certos contrários não fazem sentido. não podia dizer que chorava a reza, por exterior a mim.
           comecei a viver em beirute uma outra dimensão. a minha casa seria decorada segundo outros padrões, podia começar relações do zero, esconder o meu passado, desarticular-me por completo no exercício do ser individual.
            no meu ouvido ainda permanecia o meu nome dito pela criança: «Carlaiz».

Sylvia Beirute
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Domingo, 26 de Dezembro de 2010

A MINHA IDADE É ASSIM - POEMA - SYLVIA BEIRUTE

















A MINHA IDADE É ASSIM

voltar a ser o que voltámos a ser. instante mínimo. 
penúltima estação. gravação
que irrompe de um lugar interno. silenciosos sem
precisar do silêncio no núcleo duro 
de algumas palavras.
voltar a ser o que voltámos a ser. sem nunca o ser. 
sem nunca o saber. sem um plano para existências fixas.
sem ossos divinos  no precipício da alma que respira 
pela raiz de sua hipocondria.
{e isto não dói. isto é bom.} e isto volta a ser o que
voltámos a ser:
um amanhã que nos atravessa os pés, uma outra figura
fugitiva na menstruação das vírgulas.
e pouco mais. muito pouco mais.
a minha idade é uma leve saliva na ilusão da febre.

Sylvia Beirute
inédito
.

Sexta-feira, 24 de Dezembro de 2010

VÉSPERA DE NATAL - POEMA - SYLVIA BEIRUTE
























VÉSPERA DE NATAL

absorver. e desaparecer. no encontro das mãos.
actuar na volta do estômago, na
superfície do coração pulsado. indigesto. matriz
de ferida profunda. descontínua.
mescla de mapas o objecto temeroso realizando
o meu centro que viola o espírito circundante
da dialéctica. do sepulcro vivo.

e a sede do meu vício feminista
condena o género perverso das letras 
que capitulam a distinção entre bater, precipitar, 
e proclamar o silêncio principiante da 
abertura das prendas como se saíssem versos 
para o vazio purista em neutropénia, 
sem causa fixa e eloquente,
lentamente buscando a prestidigitação.

e é natal. natal embebido nos orifícios do espelho 
dos lábios informulados na fundura do rosto,
reflectindo palavras que já não dizem 
o que um dia quiseram dizer.

Sylvia Beirute
inédito
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Quinta-feira, 23 de Dezembro de 2010

PROSA - UMA CASA EM BEIRUTE (1)



















UMA CASA EM BEIRUTE (1)

            sair de casa sem saber como se sente é uma coisa perigosa. todas as coisas se contrapõem à base diária do sentimento. não conhecer tal fundamento é permitir a auto-estrada das emoções avulsas; ou pior, em caso de inacessibilidade da mesma ou pagamento de portagem não acessível ao bolso, a imposição de caminhos muito secundários, que vão dar às partes mais estranhas e surpreendentes do corpo. hoje saí de casa, coisa que não fazia há alguns dias. fi-lo como se o meu olho trocasse o ver pelo desempenhar. desempenhar no sentido de ser uma lagartixa às nove da manhã olhando as margens da rua, ou escutar através do olho clínico as margens da voz nas pessoas que usam as palavras na boca como cigarros. há minutos alguém o fazia. a palavra era «palavra». ele falava de palavras como se alguma vez lhes tivesse visto as tripas ou como se aquelas tivessem uma espécie de bicho da fruta. sair de casa tem destas coisas. mas não sair de casa também tem coisas. coisas como experimentar o infinito interior da paralisação dos abdómens mentais, das vírgulas emocionais que sempre devem existir para que o pensamento seja, como deve ser, um sujeito autónomo, com pernas, braços, equilíbrios frágeis, e outros elementos. porque se o pensamento não for um homem, estagna; não se reveste da dignidade da luta e possível conquista. o pensamento não pode ser teu. «o pensamento poderá ser teu», é este o slogan que deve ser usado.
.
            eu agora não estou na rua, mas é como se estivesse, pois estive há pouco. a rua também prende palavras. palavras que embora não livres, pois se confinam ao universo da rua, são abertas. é uma razão para se sair de casa, a abertura da linguagem. ainda que tão aberta que o querer-dizer se fique pelos indícios. e o meu corpo começou a sentir palavras. até que uma senhora disse «os meus ossos são muito transitivos», e eu não percebi que tipo de linguagem era aquela: não sabia se ainda pertencia à linguagem aberta da rua, se à linguagem fechada do estar em casa e que erroneamente tinha sido colocada ali. o contexto não entendi, muito porque uma criança próxima de mim abusava da palavra «mãe», o que me perturbou o sentido momentâneo, sentido, talvez o sexto ou o sétimo, que nos faz perceber a realidade desde que haja um esforço sério naquele momento. se o momento passa e a apreensão não se faz, a sua reprodução tardia torna-se difícil, para não dizer impossível.
.
            sair de casa sem saber o que se sente faz com que a existência seja uma quimera, completamente nua, para além de nua; como se o corpo nu ainda procurasse a sua nudez. levemente toquei no meu pescoço, e depois nos ombros como se este último gesto me pudesse fazer perceber a «questão transitiva» dos ossos. creio que não percebi, mas senti, sem  porém saber o que sentia. 
            e entrar em casa sem saber o que se sente é uma coisa perigosa. o relógio pariu uma hora nova, dentro da qual eu fui dormir. beirute estava finalmente em silêncio.

Sylvia Beirute
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Quarta-feira, 22 de Dezembro de 2010

TRÍPTICO DE FIM DE ANO - POEMA - SYLVIA BEIRUTE
























TRÍPTICO DE FIM DE ANO

estes deuses aceitam donuts.
este fogo de nuvens aceita o equilíbrio da torre
na maratona de chuva.
este silêncio aceita a peneira de azul riscado
e indigência de vaga-lume.
esta garrafa de beleza e frases aceita 
uma agitação por defeito, uma palavra que se 
silencia ao ver, do seu interior,
as práticas de um mundo morto.
este corpo aceita um outro como confirmação
de órgãos-chave que lhe permitam
ficar sem permanecer. este 
nós aceita o um e o um como hospitalidade sã
num exercício de demolição íntima.
esta desilusão aceita esperança.

Sylvia Beirute
inédito
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VALZHYNA MORT - FOSSE EU BOLA NUMERADA - POEMA

















Valzhyna Mort, poetisa e tradutora, nasceu em 1981, em Minsk, Biolorússia, e tem publicado regularmente em revistas de literatura. Vejo em alguma da sua poesia o que procuro na minha: a extrapolação das letras, a representação do mundo numa só perspectiva mas suficientemente audaz e ambiciosa para se fazer entender. Achei delicioso este Fosse Eu Bola Numerada. Porque é a imposição do espaço condicionado perante uma existência isolada, a sobrevivência do ser na hipotética janela aberta para uma outra realidade. É a poesia enquanto entrega total na mutação do quotidiano, por vezes no seu lado mais marginal. Valzhyna Mort vive nos Estados Unidos da América.
 

FOSSE EU BOLA NUMERADA

fosse eu bola numerada
na roda do totoloto
fazendo saltos mortais
e dançando
um rápido fox-trot
que ao anúncio de saída
atenção à bola tal
nunca em toda a eternidade
vai sair a minha bola.

e fujo ali da fidelidade
essa hemorróida persistente
de quem insiste no meu número
para escapar da miséria.
e segue as bolas pelo vidro
como à nevasca branquinha
da janela.

e enquanto gira a minha tômbola
enquanto gira sem parar
apetece-me até ao marasmo
tornar-me a minha irmã de chumbo.

e expelir-me da roda
vestida de prata –
livre!
e alguém fascinado
esconde-me no coração
e veste-me por cima de vermelho.

Valzhyna Mort
Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra
.

MAIRÉAD BYRNE - POEMA - NOMES PARA COISAS
























Tenho alguns poetas de culto que me acompanham há muitos anos. Talvez fale de alguns aprofundadamente na minha Série Poetas, para a qual é preciso algum tempo para amadurecimento da reflexão. Mairéad Byrne é uma poetisa irlandesa, naturalizada americana, de que gosto particularmente. Tal como os concretistas brasileiros, consegue ir à génese das coisas, procurando a beleza da simplicidade. Mairéad Byrne escreve no blogue Heaven.

NAMES FOR THINGS

There's nothing like olives.
There's nothing like parsnips either.
There's nothing like carrots.
There's nothing like potatoes.
There's nothing like lemons.
There's nothing like salt.
Nope there's nothing like salt.
There's nothing like pepper.
There's nothing like celery.
There's nothing like nothing goddammit.
That's why we call them all different things.


NOMES PARA COISAS

não há nada como azeitonas.
não há nada como cherívias tampouco.
não há nada como cenouras.
não há nada como batatas.
não há nada como limões.
não há nada como sal.
não, não há nada como sal.
não há nada como pimenta.
não há nada como aipo.
não há nada como nada, bolas.
é por isso que chamamos a tudo
coisas diferentes.

Mairéad Byrne
(Irlanda, 1957)
Tradução de Sylvia Beirute
.

Terça-feira, 21 de Dezembro de 2010

POESIA + ECONOMIA
























O mercado da poesia, em Portugal e no resto do mundo, é claramente um Oligopsónio, ou seja, uma forma de mercado com inúmeros vendedores e poucos compradores. Receio que com o advento da internet, ainda assim, vá fazer com este mercado se transforme numa espécie de Monopsónio, e um dia, quem sabe, deixe de existir. O que não deixará de existir certamente serão leitores, e tenho a sensação que há cada vez mais. Este blogue tem-me mostrado isso.
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OPIÁRIO - FERNANDO PESSOA - WORDSONG



Aprecio sobremaneira a música que tem como base a palavra. Os Wordsong, de que cheguei a ver um espectáculo ao vivo, fazem-no muito bem, encontrando musicalidade nas repetições que provocam, no ritmo que acham. O vídeo é a recriação musical de Opiário, de um dos heterónimos de Fernando Pessoa, Álvaro de Campos.

OPIÁRIO

Ao Senhor Mário de Sá-Carneiro

É antes do ópio que a minh'alma é doente.
Sentir a vida convalesce e estiola
E eu vou buscar ao ópio que consola
Um Oriente ao oriente do Oriente.

Esta vida de bordo há-de matar-me.
São dias só de febre na cabeça
E, por mais que procure até que adoeça,
Já não encontro a mola pra adaptar-me.

Em paradoxo e incompetência astral
Eu vivo a vincos de ouro a minha vida,
Onda onde o pundonor é uma descida
E os próprios gozos gânglios do meu mal.

É por um mecanismo de desastres,
Uma engrenagem com volantes falsos,
Que passo entre visões de cadafalsos
Num jardim onde há flores no ar, sem hastes.

Vou cambaleando através do lavor
Duma vida-interior de renda e laca.
Tenho a impressão de ter em casa a faca
Com que foi degolado o Precursor.

Ando expiando um crime numa mala,
Que um avô meu cometeu por requinte.
Tenho os nervos na forca, vinte a vinte,
E caí no ópio como numa vala.

Ao toque adormecido da morfina
Perco-me em transparências latejantes
E numa noite cheia de brilhantes,
Ergue-se a lua como a minha Sina.

Eu, que fui sempre um mau estudante, agora
Não faço mais que ver o navio ir
Pelo canal de Suez a conduzir
A minha vida, cânfora na aurora.

Perdi os dias que já aproveitara.
Trabalhei para ter só o cansaço
Que é hoje em mim uma espécie de braço
Que ao meu pescoço me sufoca e ampara.

Gostava de ter poemas e novelas
Publicados por Plon e no Mercure,
Mas é impossível que esta vida dure.
Se nesta viagem nem houve procelas!

A vida a bordo é uma coisa triste,
Embora a gente se divirta às vezes.
Falo com alemães, suecos e ingleses
E a minha mágoa de viver persiste.

Eu acho que não vale a pena ter
Ido ao Oriente e visto a índia e a China.
A terra é semelhante e pequenina
E há só uma maneira de viver.

Por isso eu tomo ópio. É um remédio
Sou um convalescente do Momento.
Moro no rés-do-chão do pensamento
E ver passar a Vida faz-me tédio.

Fumo. Canso. Ah uma terra aonde, enfim,
Muito a leste não fosse o oeste já!
Pra que fui visitar a Índia que há
Se não há Índia senão a alma em mim?

Sou desgraçado por meu morgadio.
Os ciganos roubaram minha Sorte.
Talvez nem mesmo encontre ao pé da morte
Um lugar que me abrigue do meu frio.

Eu fingi que estudei engenharia.

Vivi na Escócia. Visitei a Irlanda.
Meu coração é uma avòzinha que anda
Pedindo esmola às portas da Alegria.

Não chegues a Port-Said, navio de ferro!
Volta à direita, nem eu sei para onde.
Passo os dias no smokink-room com o conde -
Um escroc francês, conde de fim de enterro.

Volto à Europa descontente, e em sortes
De vir a ser um poeta sonambólico.
Eu sou monárquico mas não católico
E gostava de ser as coisas fortes.

Gostava de ter crenças e dinheiro,
Ser vária gente insípida que vi.
Hoje, afinal, não sou senão, aqui,
Num navio qualquer um passageiro.

Não tenho personalidade alguma.
É mais notado que eu esse criado
De bordo que tem um belo modo alçado
De laird escocês há dias em jejum.

Não posso estar em parte alguma.
A minha Pátria é onde não estou.
Sou doente e fraco. O comissário de bordo é velhaco.
Viu-me co'a sueca...e o resto ele adivinha.

Um dia faço escândalo cá a bordo,
Só para dar que falar de mim aos mais.
Não posso com a vida, e acho fatais
As iras com que às vezes me debordo.

Levo o dia a fumar, a beber coisas,
Drogas americanas que entontecem,

E eu já tão bêbado sem nada! Dessem
Melhor cérebro aos meus nervos como rosas.

Escrevo estas linhas. Parece impossível
Que mesmo ao ter talento eu mal o sinta!
O facto é que esta vida é uma quinta
Onde se aborrece uma alma sensível.

Os ingleses são feitos pra existir.
Não há gente como esta pra estar feita
Com a Tranquilidade. A gente deita
Um vintém e sai um deles a sorrir.

Pertenço a um género de portugueses
Que depois de estar a Índia descoberta
Ficaram sem trabalho. A morte é certa.
Tenho pensado nisto muitas vezes.

Leve o diabo a vida e a gente tê-la!
Nem leio o livro à minha cabeceira.
Enoja-me o Oriente. É uma esteira
Que a gente enrola e deixa de ser bela.

Caio no ópio por força. Lá querer
Que eu leve a limpo uma vida destas
Não se pode exigir. Almas honestas
Com horas pra dormir e pra comer.

Que um raio as parta! E isto afinal é inveja.
Porque estes nervos são a minha morte.
Não haver um navio que me transporte
Para onde eu nada queira que o não veja!

Ora! Eu cansava-me o mesmo modo.
Qu'ria outro ópio mais forte pra ir de ali
Para sonhos que dessem cabo de mim
E pregassem comigo nalgum lodo.

Febre! Se isto que tenho não é febre,
Não sei como é que se tem febre e sente.
O fato essencial é que estou doente.
Está corrida, amigos, esta lebre.

Veio a noite. Tocou já a primeira
Corneta, pra vestir para o jantar.
Vida social por cima! Isso! E marchar
Até que a gente saia pla coleira!

Porque isto acaba mal e há-de haver
(Olá!) sangue e um revólver lá pró fim
Deste desassossego que há em mim
E não há forma de se resolver.

E quem me olhar, há-de-me achar banal,
A mim e à minha vida... Ora! um rapaz...
O meu próprio monóculo me faz
Pertencer a um tipo universal.

Ah quanta alma viverá, que ande metida
Assim como eu na Linha, e como eu mística!
Quantos sob a casaca característica
Não terão como eu o horror à vida?

Se ao menos eu por fora fosse tão
Interessante como sou por dentro!
Vou no Maelstrom, cada vez mais pró centro.
Não fazer nada é a minha perdição.

Um inútil. Mas é tão justo sê-lo!
Pudesse a gente desprezar os outros
E, ainda que co'os cotovelos rotos,
Ser herói, doido, amaldiçoado ou belo!

Tenho vontade de levar as mãos
À boca e morder nelas fundo e a mal.
Era uma ocupação original
E distraía os outros, os tais sãos.

O absurdo, como uma flor da tal Índia
Que não vim encontrar na Índia, nasce
No meu cérebro farto de cansar-se.
A minha vida mude-a Deus ou finde-a ...

Deixe-me estar aqui, nesta cadeira,
Até virem meter-me no caixão.
Nasci pra mandarim de condição,
Mas falta-me o sossego, o chá e a esteira.

Ah que bom que era ir daqui de caída
Pra cova por um alçapão de estouro!

A vida sabe-me a tabaco louro.
Nunca fiz mais do que fumar a vida.

E afinal o que quero é fé, é calma,
E não ter estas sensações confusas.
Deus que acabe com isto! Abra as eclusas
E basta de comédias na minh'alma!

(No Canal de Suez, a bordo)

Álvaro de Campos
em Poemas
Heterónimo de Fernando Pessoa
.

«FETISTICAMENTE» ANTON CORBIJN
























Há muito que acompanho o trabalho fotográfico do holandês Anton Corbijn que, com CONTROL, filme sobre a vida do malogrado vocalista dos Joy Division, Ian Curtis, se tornou realizador de cinema. A experiência foi extremamente positiva e é com naturalidade que se vê outro filme de Corbijn, desta vez com um elenco de maior prestígio, com George Clooney à cabeça. Achei interessante esta reportagem com entrevista que anda à volta da vida profissional de Anton Corbijn e deste novo filme: O Americano. Detive-me na palavra fetishistically, que em em português será, creio, algo como «fetisticamente». Era isso que sentia quando ele era apenas um fotógrafo de bandas de música ocultado pela fama destas: um gosto-fetiche, de culto.


.

FLÁVIO DE ARAÚJO - POEMA - ASPIRAÇÃO DO GALO SOB O CÉU DE MANHATTAN






































ASPIRAÇÃO DO GALO SOB O CÉU DE MANHATTAN

Como pragana
os pássaros
desfazendo o azul
da parte mais alta de mim.

Cordatos e plenos
de uma leveza e solitude pelo ar.
Inspecionando nuvens
em ostentação do livre
e pela queda libertando-se
pelas frinchas da abnegação.

Quero tê-los no ventre
em ninhos.
A beligerante serpentina de asas,
essa aspiração do aviador.
O périplo conquistado por um
menino mouro em barcos de papel.

Como pragana
cordatos e plenos
os pássaros.

Enquanto seus desejos planam
sob o céu de Manhatan

- Ó como anseio vossa queda! -

aspiro que chupem tuas asas
em qualquer almoço de domingo.

Flávio de Araújo
(Brasil, 1975)
.

Segunda-feira, 20 de Dezembro de 2010

POEMA DE CHUVA E MÃE - SYLVIA BEIRUTE - POEMA
























POEMA DE CHUVA E MÃE

e muito elementar o material da memória
no rosto da mãe: nos lábios internos, nas
asas dos pássaros que fazem vermelho,
na boa vontade de algo análogo
a um perpétuo silêncio num livro fechado.
e muito manual o escrúpulo
com que descansa serena e longitudinal
sobre os meus braços de chuva que aquecem; 
muito sistémica a minha beleza atin-
gindo a sua promessa, o meu nome que nasce
da confusão de uma outra palavra.
e muito elementar o amor da mãe. apenas
amor. apenas tempo. apenas mãe.

Sylvia Beirute
inédito
.

ALGUNS POEMAS DE NATAL





















POEMAS DE NATAL

DIA DE NATAL

Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
É dia de pensar nos outros – coitadinhos – nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?)
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente acotovela, se multiplica em gestos esfuziante,
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
E como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

A oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra – louvado seja o Senhor! – o que nunca tinha pensado comprar.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.
Cada menino abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora já está desperta.
De manhãzinha
salta da cama,
corre à cozinha em pijama.

Ah!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus,
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.

António Gedeão

*

CARTA DE NATAL A MURILO MENDES

Querido Murilo: será mesmo possível
Que você este ano não chegue no Verão
Que seu telefonema não soe na manhã de Julho
Que não venha partilhar o vinho e o pão

Como eu só o via nessa quadra do ano
Não vejo a sua ausência dia-a-dia
Mas em tempo mais fundo que o quotidiano

Descubro a sua ausência devagar
Sem mesmo a ter ainda compreendido
Seria bom Murilo conversar
Neste dia confuso e dividido

Hoje escrevo porém para a Saudade
- Nome que diz permanência do perdido
Para ligar o eterno ao tempo ido
E em Murilo pensar com claridade -

E o poema vai em vez deste postal
Em que eu nesta quadra respondia
- Escrito mesmo na margem do jornal
Na baixa - entre as compras de Natal

Para ligar o eterno a este dia.

Sophia de Mello Breyner Andresen

*

POEMA DE NATAL

Não digo do Natal – digo da nata
do tempo que se coalha com o frio
e nos fica branquíssima e exacta
nas mãos que não sabem de que cio

nasceu esta semente; mas que invade
esses tempos relíquidos e pardos
e faz assim que o coração se agrade
de terrenos de pedras e de cardos

por dezembros cobertos. Só então
é que descobre dias de brancura
esta nova pupila, outra visão,

e as cores da terra são feroz loucura
moídas numa só, e feitas pão
com que a vida resiste, e anda, e dura.

Pedro Tamen

*

A NOITE DE NATAL

Em a noite de Natal
Alegram-se os pequenitos;
Pois sabem que o bom Jesus
Costuma dar-lhes bonitos.

Vão se deitar os lindinhos
Mas nem dormem de contentes
E somente às dez horas
Adormecem inocentes.

Perguntam logo à criada
Quando acorde de manhã
Se Jesus lhes não deu nada.

– Deu-lhes sim, muitos bonitos.
– Queremo-nos já levantar
Respondem os pequenitos.

Mário de Sá-Carneiro

*

HISTÓRIA ANTIGA

Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.

E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da nação.

Mas, por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.

Miguel Torga

*

NATAL

Acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.
Era gente a correr pela música acima.
Uma onda uma festa. Palavras a saltar.

Eram carpas ou mãos. Um soluço uma rima.
Guitarras guitarras. Ou talvez mar.
E acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.

Na tua boca. No teu rosto. No teu corpo acontecia.
No teu ritmo nos teus ritos.
No teu sono nos teus gestos. (Liturgia liturgia).
Nos teus gritos. Nos teus olhos quase aflitos.
E nos silêncios infinitos. Na tua noite e no teu dia.
No teu sol acontecia.

Era um sopro. Era um salmo. (Nostalgia nostalgia).
Todo o tempo num só tempo: andamento
de poesia. Era um susto. Ou sobressalto. E acontecia.
Na cidade lavada pela chuva. Em cada curva
acontecia. E em cada acaso. Como um pouco de água turva
na cidade agitada pelo vento.

Natal Natal (diziam). E acontecia.
Como se fosse na palavra a rosa brava
acontecia. E era Dezembro que floria.
Era um vulcão. E no teu corpo a flor e a lava.
E era na lava a rosa e a palavra.
Todo o tempo num só tempo: nascimento de poesia.

Manuel Alegre

*

NATAL

Se considero o triste abatimento
Em que me faz jazer minha desgraça,
A desesperação me despedaça,
No mesmo instante, o frágil sofrimento.

Mas súbito me diz o pensamento,
Para aplacar-me a dor que me traspassa,
Que Este que trouxe ao mundo a Lei da Graça,
Teve num vil presepe o nascimento.

Vejo na palha o Redentor chorando,
Ao lado a Mãe, prostrados os pastores,
A milagrosa estrela os reis guiando.

Vejo-O morrer depois, ó pecadores,
Por nós, e fecho os olhos, adorando
Os castigos do Céu como favores.

Manuel Maria Barbosa du Bocage

*

NATAL CHIQUE

Percorro o dia, que esmorece
Nas ruas cheias de rumor;
Minha alma vã desaparece
Na muita pressa e pouco amor.

Hoje é Natal. Comprei um anjo,
Dos que anunciam no jornal;
Mas houve um etéreo desarranjo
E o efeito em casa saiu mal.

Valeu-me um príncipe esfarrapado
A quem dão coroas no meio disto,
Um moço doente, desanimado…
Só esse pobre me pareceu Cristo.

Vitorino Nemésio

*

POEMA DE NATAL PARA TIMOR

Era uma pátria, acreditas? Não era só a palavra sândalo, o heroísmo 
de outro tempo, o verso do poeta que te não quis abandonar. 
Ela entrou pelas ruas, chegou ao teu quotidiano mais íntimo: e 
soubeste que podemos ser, por vezes, também nós feitos 
de matéria dos sonhos.

Luís Filipe de Castro Mendes

*

PRELÚDIO DE NATAL

Tudo principiava
pela cúmplice neblina
que vinha perfumada
de lenha e tangerinas

Só depois se rasgava
a primeira cortina
E dispersa e dourada
no palco das vitrinas

a festa começava
entre odor a resina
e gosto a noz-moscada
e vozes femininas

A cidade ficava
sob a luz vespertina
pelas montras cercada
de paisagens alpinas

David Mourão-Ferreira

*

ROSAS DE INVERNO

Corolas, que floristes
Ao sol do inverno, avaro,
Tão glácido e tão claro
Por estas manhãs tristes.

Gloriosa floração,
Surdida, por engano,
No agonizar do ano,
Tão fora da estação!

Sorrindo-vos amigas,
Nos ásperos caminhos,
Aos olhos dos velhinhos,
Às almas das mendigas!

Desse Natal de inválidos
Transmito-vos a bênção,
Com que vos recompensam
Os seus sorrisos pálidos.

Camilo Pessanha

*

POEMA DE NATAL

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Vinicius de Moraes

*

NATAL...

Natal... Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.

Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
'Stou só e sonho saudade.

E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!

Fernando Pessoa

*

NÃO CORTEM O CORDÃO

Não cortem o cordão que liga o corpo à criança do sonho,
o cordão astral à criança aldebarã, não cortem
o sangue, o ouro. A raiz da floração
coalhada com o laço
no centro das madeiras
negras. A criança do retrato
revelada lenta às luzes de quando
se dorme. Como já pensa, como tem unhas de mármore.
Não talhem a placenta por onde o fôlego
do mundo lhe ascende à cabeça.
Linhas cristalográficas atravessando os cornos.

A veia que a liga à morte.
Não lhe arranquem o bloco de água abraçada aonde chega
braço a braço. Sufoca.
Mas não desatem o abraço louco.

A terra move-a quando se move.

Não limpem o sal na boca. Esse objecto asteróide,
não o removam.
A árvore de alabastro que as ribeiras
frisam, deixem-na rasgar-se:
- Das entranhas, entre duas crianças, a que era viva
e a criança do sopro, suba
tanta opulência. O trabalho confuso:
que seja brilhante a púrpura.
Fieiras de enxofre, ramais de quartzo, flúor agreste nas bolsas
pulmonares. Deixem que se espalhem as redes
da respiração desde o caos materno ao sonho da criança
exacerbada,
única.

Herberto Helder

*

VAT 69

Era depois da morte herberto helder
Ia fazer três anos que morrêramos
três anos dia a dia descontados no relógio
da torre que de sombra nos cobriu a infância:
rodas no adro — gira a borboleta que se atira ao ar
o jogo do berlinde o trinta e um pedradas
nas cabeças nos ninhos nas vidraças
Foi quando verdadeiramente começou
a conspiração dos líquenes cabelos e avencas
na mina onde molhámos nossos jovens pés
e tirámos retratos pra morrer mais uma vez
Os nossos filhos — nós outra vez crianças —
comiam e gostavam das laranjas essas mesmas laranjas
que mordemos em tempos ao chegar nas férias de natal
no quintal que as máximas mãos deixaram já depois abandonado
Era a seguir à morte meu poeta
era na meninice havia festa e na sala da entrada
pensávamos na morte — nunca mais — pela primeira vez
Trincávamos cheirávamos maças no muro sobre a praia
roubávamos o balde ou íamos atrás do homem dos robertos
Era nas férias havia o mar e íamos à missa
ouvíamos a campainha e o padre voltava-se pra nós
—orate frates — ou íamos ao cemitério apesar do catitinha
Era depois da morte sobre a plana infância
o primeiro natal o cheiro do jornal
lido na adega ou na casa do forno
sentados pensativos sobre a terra húmida
Era na infância o sol caía enquanto água corria
entre os pés de feijão e os buracos de toupeiras
calcados prontamente pelas botas
soprava o vento e vinha a moinha da eira
o cão comia o bolo e morria debaixo da figueira
e teria sepultura com enterro e cruz e muitas flores
Havia casamentos o meu pai falava
e os noivos deitavam-nos confeitos das carroças
E os registos mistério tempo da prenhez
Era talvez no outono havia asma
havia a festa da azeitona havia os fritos
ao domingo havia os bêbados estendidos pelas ruas
havia tanta coisa no outono havia o cristovam pavia
Era a primavera o rio rápido subia
os barcos navegavam entre a vinha
e alastrava a sombra e a tarde adensava-se
num espesso e branco nevoeiro de algodão
noite dos candeeiros sombras nas paredes
e minha mãe pegava na espingarda ia à janela
e ouvia-se o chumbo no telhado lá ao longe
O leovigildo o marcolino o sítio do miguel
a sesta a monda das mulheres
a queda do bizarro exposto na igreja
isso e o almoço a saber mal
quando vinham da escola pra saber significados
Eram as despedidas de coelhos e galinhas antes das viagens
Eram as festas era o roubo dos melões
era a menstruação oculta da criada
Era talvez em tempos de tormenta
havia ferros entre a palha por baixo da galinha
que chocava os ovos dentro de um velho cesto
eram as nossas casa em adobe
e era o carnaval os bailes os cortejos
Íamos para a praia e eu lia camilo
ouvia o mar bater sem conseguir compreender
como podia estar ali se tinha estado noutro sítio
Era o tempo dos primeiros amores
eu via o pavão adoecia e só muito mais tarde lia
o trecho que me competia entre as amadas raparigas
A casa não ficava muito longe dos montes
não havia a cidade nem os outros
punham ainda em causa o meu reino de deus
senhor de tudo o que depois não tive
Era depois da morte ou era antes da morte?
Mas haveria a morte verdadeiramente?
Lia o paulo e virgínia chorava e perguntava
se tudo aquilo tinha acontecido
Era o meu pai era esse sonhador incorrigível
sem nunca mais saber que havia de fazer dos dias
Eram as folhas novas eram os perdigotos
saídos não há muito ainda da casca
Era era tanta coisa
Seria realmente após a morte herberto helder

Ruy Belo

*

POSTAL DE NATAL DE UMA PUTA EM MINNEAPOLIS

Olá Charley, estou grávida
E a viver na rua 9
Mesmo por cima de uma livraria nojenta
à beira de Euclid Avenue
Deixei de meter droga
E parei de beber whiskey
O meu homem toca trombone
E trabalha no caminho de ferro

Ele diz que gosta de mim
Ainda que o bebé não seja dele
Diz que o vai criar como a um verdadeiro filho
Ofereceu-me um anel que a mãe costumava usar
E sai comigo pra dançar
Todos os sábados à noite

E Charley, penso sempre em ti
Todas as vezes que passo numa bomba de gasolina
Por causa da brilhantina que usavas o cabelo
E ainda tenho aquele disco de Little Anthony e os Imperials
Mas roubaram-me o gira-disco
O que é que se há-de fazer?...

Olha Charley, quase dei em doida
Quando o Mário foi de cana
Por isso voltei para Omaha
Para viver com os meus velhos
Mas toda a gente que conhecia
Ou morreu ou estava presa
Então voltei para Minneapolis
E desta vez penso que vou ficar por cá

Sabes Charley, pela primeira vez desde o acidente
Parece-me que sou feliz
Só queria ter agora todo o dinheiro
Que costumávamos gastar em droga
Comprava um parque de carros usados
E não vendia nenhum
Para usar um diferente em cada dia
A condizer com a maneira como me sentiste

Oh Charley, por amor de Deus,
Queres saber toda a verdade?
Não tenho nenhum marido
Ele não toca trombone
E preciso de dinheiro emprestado
para pagar ao advogado
E olha Charley, devo sair com pena suspensa
No dia de S. Valentim.

Tom Waits

*

NATAL DE 1971

Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm?
Dos que não são cristãos?
Ou de quem traz às costas
as cinzas de milhões?
Natal de paz agora
nesta terra de sangue?
Natal de liberdade
num mundo de oprimidos?
Natal de uma justiça
roubada sempre a todos?
Natal de ser-se igual
em ser-se concebido,
em de um ventre nascer-se,
em por de amor sofrer-se,
em de morte morrer-se,
e de ser-se esquecido?
Natal de caridade,
quando a fome ainda mata?
Natal de qual esperança
num mundo todo bombas?
Natal de honesta fé,
com gente que é traição,
vil ódio, mesquinhez,
e até Natal de amor?
Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm,
ou dos que olhando ao longe
sonham de humana vida
um mundo que não há?
Ou dos que se torturam
e torturados são
na crença de que os homens
devem estender-se a mão?

Jorge de Sena
 
*

POEMA DE NATAL

continuas a falar da minha poesia. a minha poesia.
a minha poesia e eu digo não e depois não não é
a minha poesia não se trata disso eu tenho
emprego saúde e exercícios simples para fazer
exercícios que são os mesmos que as pessoas fazem
quando têm um objectivo mínimo na vida.
e tu continuas a falar sem acreditar na minha verdade
e então eu escrevo este poema para dizer que nunca
escrevi um poema, embora o meu conhecimento me
dedique poemas poemas e poemas os mesmos que te
aborrecem quando começo a falar assim com este
inframodo esta distância esta boca absurda esta
sonolência esta ********* esta ***********.
é natal e tu continuas a falar da minha poesia.

Sylvia Beirute
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