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Segunda-feira, 31 de Janeiro de 2011

JAPÃO: RYUICHI SAKAMOTO - PLAYING THE PIANO






















Ryuichi Sakamoto: o meu pianista preferido e um grande álbum. Um pouco dele aqui. Quando se ouve algo tão belo deixa de haver muita vontade de fazer qualquer outra coisa.
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Quarta-feira, 26 de Janeiro de 2011

ANTÓNIO MARIA LISBOA - POEMA - RECUSA



















RECUSA

I

É muito possível durante os primeiros meses
uma importante viagem à Ásia - essa
é uma das consequências
secretas
em que não se tomaram quaisquer resoluções finais
e ambas chegaram igualmente.

II

ainda um cu marinho de agonia onde eu
sou um copo de aguardente francesa e tu
uma gaivota que passa rente ao barco que me leva

III

- Eu sou uma coisa qualquer
Eu sou uma qualquer coisa
sou uma qualquer coisa eu
uma qualquer coisa eu sou
qualquer coisa eu sou uma
coisa eu sou uma qualquer
EU NÃO SOU UMA COISA QUALQUER
- eu sou uma cidade
- eu sou ZANONI de Bulwer Lyton
- eu sou uma errata
- onde está a minha vida deve-se a ver a nossa vida
- onde está Deus deve-se ver o Diabo
- onde está o Amor deve estar o Grande Amor Mágico Amor Meu
- onde estou Eu deves estar Tu
- onde estão os lábios da nossa vida HÁ uma porta secreta minúscula

O-AMOR
MEU AMOR

António Maria Lisboa
em Poesia


António Maria Lisboa, nasceu em Lisboa em 1 de Agosto de 1928 e morreu na mesma cidade em 11 de Novembro de 1953. É, com Mário Cesariny de Vasconcelos, um dos principais poetas do surrealismo português. Fez parte do Grupo Surrealista de Lisboa que, com Mário Cesariny de Vasconcelos, Cruzeiro Seixas, Pedro Oom, Henrique Risques Pereira e António Maria Lisboa, se formou em 1948. A sua obra (em parte publicada postumamente por Luiz Pacheco na Contraponto) é composta pelos seguintes livros: «Afixação Proibida» (1949), «Erro Próprio» (1950), «Ossóptico» (1952), «A Verticalidade e a Chave» (1956), «Exercício sobre o Sono e A Vigília de Alfred Jarry seguido de O senhor Cágado e o Menino» (1958), « Em 1980 foi publicado pela Assírio e Alvim um volume com a sua obra completa. (biografia lida no blogue Aventar)
.

CARLOS VINAGRE - QUIROMANCIA SANGUÍNEA - POEMA
























QUIROMANCIA SANGUÍNEA

o meu público esmaga-se com amoras
e uvas de sangue nas mãos e nas manhãs
e esta chuva, que irrompe como uma catástrofe e uma náusea,
reencontra o seu sentido num passeio de fogo e dióxido e petróleo

com as marés sobre os lábios
transito para o outro lado da ponte com as luzes apagadas
e amarro-me nas gretas
com as amoras presas sobre o tempo e a chuva

lanternas de negro submersas nas candeias
abismo de pulsos e gotas de sangue
que os meus vidros cristalizam uma outra dor
- a da vida -
e esta manhã irrompe-me a boca com amoras
e tonturas

adivinho a dor por entre os dentes
e as artérias

Carlos Vinagre
lido no Moluscos
.

Terça-feira, 25 de Janeiro de 2011

NOMEAÇÕES ÓSCARES 2010



Foram hoje anunciadas as nomeações para os Óscares de 2010 e “O Discurso do Rei”, de Tom Hooper, e “Indomável”, dos irmãos Coen, partem à cabeça, respectivamente com doze e dez nomeações.

“Cisne Negro”, “Último Round”, “A Origem”, “Os Miúdos Estão Bem”, “O Discurso do Rei”, “127 Horas”, “A Rede Social”, “Toy Story 3”, “Indomável” e “Despojos de Inverno” são os dez candidatos à estatueta de Melhor Filme de 2010, segundo os membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.

As cinco indigitadas para Melhor Actriz são Annette Bening (por “Os Miúdos Estão Bem”), Nicole Kidman (“Rabbit Hole”), Jennifer Lawrence (“Despojos de Inverno”), Natalie Portman (“Cisne Negro”) e Michelle Williams (“Blue Valentine – Só Tu e Eu”).

Para Melhor Actor, os cinco nomeados são Javier Bardem (por “Biutiful”), Jeff Bridges (“Indomável”), Jesse Eisenberg (“A Rede Social”), Colin Firth (“O Discurso do Rei”) e James Franco (“127 Horas”).

Na corrida de Melhor Realizador estão nomeados Darren Aronofsky (“Cisne Negro”), David O. Russell (“Último Round”), Tom Hooper (“O Discurso do Rei”), David Fincher (“A Rede Social”) e os irmãos Joel e Ethan Coen (“Indomável”).

“O Discurso do Rei”, que ficcionaliza a história verdadeira da ascensão ao poder do rei Jorge VI de Inglaterra e chega às salas portuguesas no próximo dia 10 de Fevereiro, recebeu um total de doze nomeações, entre as quais ainda Melhor Actor Secundário para Geoffrey Rush, Melhor Actriz Secundária para Helena Bonham Carter, e ainda Melhor Realização e Melhor Argumento Original.

“Indomável”, “remake” do “western” de Henry Hathaway “A Velha Raposa” com estreia marcada entre nós para 17 de Fevereiro, foi citado para dez prémios, entre os quais Melhor Realização e Melhor Argumento Adaptado.

Seguem-se na lista dos nomeados, ex-aequo com oito nomeações cada, “A Rede Social”, de David Fincher (actualmente em sala), e “A Origem”, de Christopher Nolan. O primeiro recebeu quatro das suas referências em categorias artísticas (Filme, Realização, Argumento Original e Actor); o segundo foi nomeado maioritariamente para categorias técnicas, com excepção de duas artísticas, Filme e Argumento Original.

Seguem-se “Último Round”, de David O. Russell (sete nomeações, incluindo três nas categorias de representação secundárias: Christian Bale, Amy Adams e Melissa Leo; estreia a 10 de Fevereiro), “127 Horas” de Danny Boyle (seis nomeações; estreia a 24 de Fevereiro); ex-aequo com cinco nomeações cada, “Cisne Negro”, de Darren Aronofsky (estreia a 3 de Fevereiro), e “Toy Story 3” de Lee Unkrich; e, ex-aequo com quatro nomeações, “Despojos de Inverno”, de Debra Granik (estreia a 24 de Fevereiro) e “Os Miúdos Estão Bem”, de Lisa Cholodenko.

Na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, os cinco nomeados são “Biutiful”, do mexicano Alejandro González Iñárritu (estreia na próxima quinta-feira); “Canino”, do grego Yorgos Lanthimos; “Fora da Lei”, do franco-argelino Rachid Bouchareb (actualmente em sala); “Havenen”, da dinamarquesa Susanne Bier; e “Incendies”, do canadiano Denis Villeneuve.

Os cinco documentários de longa-metragem nomeados, por seu lado, são “Exit Through the Gift Shop”, de Banksy, “Gasland”, de Josh Fox, “Inside Job – A Verdade da Crise”, de Charles Ferguson (actualmente em sala), “Restrepo”, de Tim Hetherington e Sebastian Junger, e “Waste Land”, de Lucy Walker.

A cerimónia de entrega dos Óscares terá lugar em Los Angeles, a 27 de Fevereiro próximo.

Lido no Público
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COMPONENTES NA MASSA DE TEXTO - POEMA - SYLVIA BEIRUTE
















COMPONENTES NA MASSA DE TEXTO

{ao Manuel Fidalgo}

um breve componente; 
a conclusão significativa na espessura da leitura
que choca com o texto
inicial em relação ao momento de realização 
do corpo do homem nas palavras 
que se mostram presas em sinos;
e então nós lemos em japonês, 
com o espírito de uma síntese 
reduzida ao pó das estações, ao lago de uma 
imaginação que representa a memória 
inexistente, sozinha no sono, vazia 
no interior da natureza intensa.
e somos felizes; felizes com novos formatos,
em novas massas de texto, 
em novas eliminações cirúrgicas de nós mesmos.

Sylvia Beirute
inédito
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JAPÃO: MIZUTA MASAHIDE
























Incendiou a minha casa,
agora nada obstrui
a visão da lua.

Mizuta Masahide
(tradução de Pedro Calouste)
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CZESLAW MILOSZ: POEMAS; BIOGRAFIA



DESCRIÇÃO HONESTA DE MIM PRÓPRIO BEBENDO UM WHISKY NO AEROPORTO, DIGAMOS DE MINEÁPOLIS

Os meus ouvidos escutam cada vez menos as conversas, os meus
_______[olhos enfraquecem, continuando insaciados.

Vejo as pernas delas de mini-saia, de calças
_____________[ou de tecidos vaporosos,

Espreito cada uma, os seus rabos e coxas, pensativo,
________________[embalado por sonhos porno.

Ó lascivo velho jarreta, estás com os pés para a cova
____[e não para jogos e brincadeiras de juventude.

Mas não é verdade, faço apenas aquilo que sempre fiz,
______[compondo as cenas desta terra, movido pela
_______________________ [imaginação erótica.

Czeslaw Milosz
em Alguns gostam de poesia
- Antologia - Czeslaw Milosz e Wislawa Szymbroska
Tradução de Elżbieta Milewska e Sérgio das Neves


É CLARO

É claro que não dizia o que realmente pensava,
pois os mortais merecem respeito
e os segredos da nossa miséria carnal
não podem revelar-se na fala nem na escrita.
Aos vacilantes, fracos e inseguros foi dada uma tarefa:
erguerem-se dois centímetros acima da sua cabeça
e dizerem a quem desespera:
«eu também chorava assim a minha sina».

Czeslaw Milosz
em Alguns gostam de poesia
- Antologia - Czeslaw Milosz e Wislawa Szymbroska
Tradução de Elżbieta Milewska e Sérgio das Neves


AMOR

Amor significa aprenderes a olhar para ti próprio,
Da mesma maneira que olhamos para coisas distantes,
Para ti és apenas uma coisa entre muitas.
E aquele que assim vê, cura o seu coração,
Sem o saber, de vários males -
Um pássaro e uma árvore dizem-lhe: Amigo.

Depois ele quer usar-se e às coisas,
De modo que permaneçam no brilho da maturidade.
Não importa se ele sabe o que serve:
Aquele que serve melhor nem sempre compreende.

Czeslaw Milosz
em Qual é a Minha ou a Tua Língua
Cem poemas de amor de outras línguas
Organização de Jorge de Sousa Braga
.

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Czeslaw Milosz (1911-2004) foi um poeta, escritor e crítico polaco, naturalizado norte-americano. Nasceu na cidade de Sateiniai, na Lituânia. Foi o vencedor do Prémio Nobel da Literatura no ano de 1980. O seu primeiro livro de poesia tem o sugestivo título de "Poemat o Czasie Zastyglym" (Poemas do Tempo Congelado). Os poemas, nessa obra e nas posteriores, têm uma índole catastrofista, característica pela qual Czeslaw Milosz se distinguiu.
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Segunda-feira, 24 de Janeiro de 2011

TIAGO TARON E UM AMOR AO QUADRADO



















de Tiago Taron, visto no Amor ao Quadrado.
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BEIRUT: A SUNDAY SMILE



Do álbum Flying Cup Club
(sugestão de Pedro Ribeiro)
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BLAISE CENDRARS - POEMA - EU VI

























EU VI

Eu vi
Vi os comboios silenciosos os comboios negros que
vinham do Extremo-Oriente e que passavam como
fantasmas
E o meu olhar, como a lanterna da retaguarda, corre
ainda atrás desses comboios
Em Talga 100 000 feridos agonizavam por falta
de cuidados
Visitei os hospitais de Krasnõiarsk
E em Khi!ok cruzámos com um longo comboio de
soldados loucos
Vi nos lazaretos chagas abertas feridas que
sangravam a jorros.

E os membros amputados dançavam em volta
ou levantavam voo no ar roufenho
O incêndio estava em todos os rostos em todos
os corações
Dedos idiotas tamborilavam em todos os vidros
E sob a pressão do medo os olhares rebentavam
como abcessos
Em todas as estações deitavam fogo aos vagões

E vi
Vi comboios de 60 locomotivas que se escapavam
a todo o vapor perseguidas pelos horizontes
com cio e bandos de corvos que voavam
desesperadamente atrás,
Desaparecer
Na direcção de Porto-Artur.

Em Tchita tivemos alguns dias de descanso
Paragem de cinco dias devido a obstáculos da linha
Passámo-los em casa do Senhor lankéléwitch, que
queria dar-me em casamento a sua filha única.
Depois o comboio tornou a partir.
Agora era eu que me sentara ao piano e tinha dores
de dentes
Revejo quando quero esse interior calmo a loja do pai
e os olhos da filha que vinha à noite para a minha cama
Moussorgsky

E os lieder de Hugo Wolf
E as areias do Gobi
E em Khaïlar uma caravana de camelos brancos
Creio bem que estive bêbedo durante mais de
500 quilómetros
Mas eu estava ao piano e foi tudo quanto vi
Quando se viaja deviam-se fechar os olhos
Dormir
Gostaria tanto de dormir
Reconheço todos os países de olhos fechados pelo
seu odor
E reconheço todos os comboios pelo barulho que
fazem
Os comboios da Europa são a quatro tempos enquanto
os da Ásia são a cinco ou a sete
Outros seguem em surdina são canções de embalar
E há os que no ruído monótono das rodas me lembram
a prosa pesada de Maeterlinck
Decifrei todos os textos confusos das rodas e reuni
os elementos dispersos duma violenta beleza
Que eu possuo
E me força.

Tsitsika e Kharbine
Não vou mais longe
É a última estação
Desembarquei em Kharbine quando acabavam
de deitar fogo às instalações da Cruz Vermelha.

Ó Paris
Grande lareira ardente com os tições entrecruzados
das tuas ruas e velhas casas que se debruçam
por cima e se aquecem
Como os avós
E eis os anúncios, vermelho, verde, multicolores como
o meu passado em resumo amarelo
Amarela a cor altiva dos romances da França
no estrangeiro.
Nas grandes cidades gosto de me meter nos
autocarros em andamento
Os da linha Saint-Germain-Montmartre levam-me
ao assalto da Butte
Os motores mugem como touros de ouro
As vacas do crepúsculo pastam o Sacré-Coeur
Ó Paris
Estação central cais das vontades cruzamento das
inquietações
Só os droguistas têm ainda um pouco de luz por cima
das portas
A Companhia Internacional das Carruagem-Camas
e dos Grandes Expressos Europeus enviou-me
um prospecto
É a mais bela igreja do mundo
Tenho amigos que me rodeiam como barreiras
Têm medo quando eu parto que nunca mais volte

Todas as mulheres que conheci erguem-se
nos horizontes
Com gestos lastimosos e olhares tristes de semáforos
à chuva
Bela, Inês, Catarina e a mãe ‘do meu filho na Itália
E ainda a mãe do meu amor na América
Há gritos de sirene que me rasgam a alma
Na Manchúria um ventre estremece ainda como num
parto
Gostaria
Gostaria de nunca ter feito as minhas viagens
Esta noite um grande amor atormenta-me
E contra a minha vontade penso na jovem Joana
de França.
Foi numa noite de tristeza que escrevi este poema
em sua honra
Joana
A jovem prostituta
Estou triste estou triste
Irei ao Lapin Agile recordar-me da minha juventude
perdida
E beber copinhos
Depois voltarei sozinho para casa


Paris
Cidade da Torre única da enorme Forca e da Roda
do Suplício
Paris, 1913


Blaise Cendrars
Poesia em Viagem
Assírio & Alvim, 2005
Tradução de Liberto Cruz 
.

ADOLFO LUXÚRIA CANIBAL (MÃO MORTA) - LETRAS

















ONTEM PELA TARDE ENSOLARADA
.
ONTEM PELA TARDE ENSOLARADA
Circulando através de Berlim a cidade morta
No regresso de um qualquer país estrangeiro
Senti pela primeira vez a necessidade
De ir desenterrar a minha mulher ao seu cemitério
Eu próprio deitei sobre ela duas pazadas cheias
E de ver o que dela ainda resta
Os ossos que nunca vi
De segurar o seu crânio na minha mão
E de imaginar o que era o seu rosto
Por detrás das máscaras que trazia
Através de Berlim a cidade morta e de outras cidades
No tempo em que estava vestido com a sua carne
Não cedi a esta necessidade
Por medo da polícia e dos comentários dos meus amigos.

Adolfo Luxúria Canibal/ Mão Morta
Muller no Hotel Hessischer Hof
(Letras escritas a partir de textos de Heiner Müller)

*

CARTA DE ANO NOVO 1963

Um ano findou-se no barulho
Dos sinos e dos fogos de artifício. O jornal
Que será trazido dentro de uma hora
A ti na tua cidade a mim na minha cidade
Por uma velha mulher com as suas velhas pernas
Três filhos mortos na guerra mas nenhum jornal
O REICH O NEUES DEUTSCHLAND O RHEINISCHER MERKUR
Anunciará um melhor ano como de costume
E o que é negro no teu jornal tu sabe-lo
É branco no meu jornal nós sabemo-lo
Sem cessar a erva cresce na fronteira
E a erva deve ser arrancada
Sem cessar que cresce na fronteira
E os arames farpados devem ser plantados
Sem cessar pela bota cardada
EU SOU A BOTA QUE PLANTA OS ARAMES FARPADOS
Frente à minha janela sobre uma árvore do parque
Só como um bêbado na madrugada
Uma velha gralha bate ruidosamente as asas
Os varredores municipais ALL OUR YESTERDAYS
Começaram o seu trabalho
Muitas coisas voltam muitas outras não
O coração é um grande cemitério
NO PARQUE OS CHOUPOS SUSSURRAM
QUEM MORA NA MINHA CABEÇA
  
Adolfo Luxúria Canibal/ Mão Morta
Muller no Hotel Hessischer Hof
(Letras escritas a partir de textos de Heiner Müller)

*

ANJO AZARENTO 2

Entre cidade e cidade
Depois do muro o abismo
Vento nos ombros Estrangeira
A mão sobre a carne solitária
O anjo ouço-o ainda
Mas já não tem outro rosto senão
O teu que eu não conheço

 Adolfo Luxúria Canibal/ Mão Morta
Muller no Hotel Hessischer Hof
(Letras escritas a partir de textos de Heiner Müller)

*

MÜLLER NO HOTEL HESSISCHER HOF

No restaurante do hotel a inocência dos ricos
O olhar fleumático sobre a fome no mundo
O meu lugar é entre as cadeiras O meu sonho
Cortar a garganta engelhada da viúva na mesa vizinha
Com a faca do criado
Que lhe trincha o lombo de cordeiro Eu
Também não cortarei esta garganta
Durante a minha vida não farei nada de semelhante
Não sou Jesus Quem traz o gládio Eu
Sonho com gládios Sabendo que mais tempo do que eu
Durará a exploração em que tomo parte
Mais tempo do que eu a fome que me alimenta
O terror da violência é a sua cegueira
E os poetas sei-o mentem em demasia
Villon pôde ainda abrir as goelas
Contra a nobreza e o clero não tinha nem cadeira nem cama
E conhecia as prisões por dentro
Brecht enviou Ruth Berlau a Espanha e escreveu
Na Dinamarca AS ESPINGARDAS DA MÃE CARRAR
Gorki enquanto circulava por Moscovo puxado por dois cavalos
Odiava a pobreza PORQUE ELA HUMILHA Porquê
Apenas os pobres Maiakovski já se tinha
Condenado ao silêncio com o seu revólver
As mentiras dos poetas estão gastas
Pelos horrores do século Nos balcões do Banco Mundial
O sangue seco tem o cheiro a cosmético frio
O vagabundo a dormir frente ao ESSO SNACK & SHOP
Contradiz o lirismo da revolução
Eu passo de táxi Posso
Permitir-me Benn pode falar disso à vontade Ele não
Ganhou dinheiro com os seus poemas e teria
Esticado o pernil mesmo sem as dermatoses e as doenças venéreas
Na noite do hotel o meu palco
Não está mais aberto Os textos
Vêm sem rima a língua recusa o verso branco
Frente ao espelho quebram-se as máscaras Nenhum
Comediante me tira o texto Eu sou o drama
MÜLLER NÃO ÉS UM OBJECTO POÉTICO
ESCREVE PROSA A minha vergonha precisa do meu poema 

Adolfo Luxúria Canibal/ Mão Morta
Muller no Hotel Hessischer Hof
(Letras escritas a partir de textos de Heiner Müller)
*

Adolfo Luxúria Canibal (Luanda, Dezembro de 1959), de nome de baptismo Adolfo Morais de Macedo, é um músico e poeta português. Fundador, letrista e vocalista do grupo Mão Morta, desde 1984, depois de ter fundado e exercido igual função nos grupos Bang-Bang (1981), Auaufeiomau (1981-1984) e PVT Industrial (1984). Desde 2000 passou a integrar o grupo francês Mécanosphère, como vocalista. Participou como vocalista ou letrista em diversos discos e espectáculos de mais de uma dezena de grupos e artistas portugueses e estrangeiros, como Pop Dell’Arte, Clã, Moonspell, WrayGunn, Houdini Blues, Pat Kay & The Gajos ou Steve McKay.
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THE FRAMES - SONG FOR SOMEONE



The Frames são uma banda irlandesa de Dublin, fundada em 1990 por Glen Hansard. Este tema, "Song for Someone", é do álbum The Cost.
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STAR-SYSTEM PORTUGUÊS

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Domingo, 23 de Janeiro de 2011

JOANA MASEN - POEMA PARA RAFAELA

















POEMA PARA RAFAELA

Não quero encontrar Rafaela
que anda por aí
como se o mundo fosse dela.
Por isso a rima medíocre,
na medida de Rafaela.
Rafaela queria ser britânica,
moderna e dinâmica,
Trás sempre consigo um walkmann batido,
como fazem os de sua estirpe,
e tece seus sonhos descoloridos
mesmo sem ninguém para ouvir.
Você poderá argumentar:
“- Como é nojenta essa Rafaela!”
Porém, há algo que não se pode negar,
Rafaela é mulher forte
e eu desejo paciência e sorte
para, se por acaso, o amigo a encontrar.

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EUROMILHÕES E CAVACO SILVA


no Quadripolaridades
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Sábado, 22 de Janeiro de 2011

FOTOGRAFIA À BEIRA-MAR - POEMA - SYLVIA BEIRUTE
























FOTOGRAFIA À BEIRA-MAR

à beira-mar. 
e é da interrupção deste desejo 
que nasce este desejo;
é da interrupção desta capacidade
que se realiza esta capacidade;
é da organização do som 
que se mede o poder do embate;
é do soluço desta peixidez
que fazemos por fim nosso
o nosso mar;
sempre uma coisa na dependência
dessa mesma coisa ou algo
à beira-mar.
sempre uma nova pessoa
que nasce dela mesma.

Sylvia Beirute
inédito
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Sexta-feira, 21 de Janeiro de 2011

REVISTA CULTURA ENTRE CULTURAS N.º 2

























O n.º 2 da revista Cultura ENTRE Culturas será apresentado no dia 25 de Janeiro, pelas 18.30, na FNAC - Chiado (Lisboa), pelo Prof. Dr. António Cândido Franco (Univ. Évora), bem como pelo Director, Paulo Borges, e pelo Director artístico, Luiz Pires dos Reys.

Este número tem como tema "Encontro Ocidente-Oriente" e publica ensaio, poesia, fotografia e pintura.

Colaboradores nacionais: Carlos João Correia, Paulo Borges, Rui Lopo, Ricardo Ventura, Duarte Braga, Maria Sarmento, Ethel Feldman, Sylvia Beirute, Donis de Frol Guilhade, Flávio Lopes da Silva, Miguel Gullander, Miguel Real e Abdul Cadre.

Colaboradores estrangeiros: pintor Rômulo de Andrade (Brasil), fotógrafo João Paulo Farkas (Brasil), Dzongsar Khyentse Rinpoche (Butão), monge e cientista Matthieu Ricard (França-Nepal), professores Françoise Bonardel (Sorbonne - França) e Giangiorgio Pasqualotto (Universidade de Pádua - Itália), poeta Vicente Franz Cecim (Brasil), psicólogo Sam Cyrous (Uruguai-Brasil).

A revista publica ainda poesia e textos de Raimon Pannikar, Rumi, Longchenpa, Simeão, o Novo Teólogo, T. S. Eliot e Vergílio Ferreira, bem como dois textos do recentemente falecido pensador António Telmo, entre eles o último que escreveu e deixou inédito.
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GIORGIO BASSANI


Giorgio Bassani, El País
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HAIKU - POEMA - SYLVIA BEIRUTE
















HAIKU

a palavra enquanto
serpente no silêncio -
a poesia.

Sylvia Beirute
inédito
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Quinta-feira, 20 de Janeiro de 2011

NYDIA BONETTI - RISCO - POEMA














Pouco interessa se a poesia é boa ou não, se não for relevante. E aqui é que está a dificuldade, e é por aqui que muitos se perdem. Nydia Bonetti é uma poetisa brasileira muito generosa  em termos de obra, publicada ou inédita, e cuja poesia considero muito relevante. Agradeço o destaque que deu ao meu poema Aviso aos Leitores, e aproveito para recomendar a quem quer ler boa poesia (coisa  rara nos dias que correm) a obra desta senhora de São Paulo.

RISCO

o grande risco do poema
é que ele é feito de giz
.
e não apaga dor 

Nydia Bonetti
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ADIAMENTO - POEMA - SYLVIA BEIRUTE





ADIAMENTO

não posso adiar para outro século a minha vida / nem o meu amor / nem o meu grito de libertação /  

Não posso adiar o coração. 
..............................................................António Ramos Rosa

foi adiado o poema. adiado para a obra
de uma outra língua,
onde muita gente tem talento e vida,
o azul é fragmentário sobre
as tonalidades do imprevisível.
e não resta nada de infância no poema.
ele nasceu no lastro de um desejo maduro
e expõe a esperança através do ilógico.
foi adiado o poema porque a música
lhe parecia uma imagem diferente
e o povo desta nossa língua 
não presta muita atenção às frases.
e o todo: não existe. existem começos.
começos-inícios-princípios.
começos que fingem ser fins, e estes
finalidades retóricas de outra espécie.
e nada disto existe hoje, e o poema foi adiado. 
enviado aos deuses. adiado.

Sylvia Beirute
inédito

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AVISO AOS LEITORES - POEMA - SYLVIA BEIRUTE
























AVISO AOS LEITORES

as imperfeições / dos meus poemas / servem 
para os humanizar.

Sylvia Beirute
inédito
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Segunda-feira, 17 de Janeiro de 2011

A.M. PIRES CABRAL - POEMAS - AMOR

















AMOR

Escolhemos um incómodo estatuto,
meu amor: um pássaro incorrecto
(para poder voar) morrermos nele.
Mas gerámos alguns filhos eficazes,
ágeis, duradouros. Contemplando-os,
decorrem-nos tão céleres os dias,
nunca exactamente iguais,
nunca diferentes. É que
existe aquela máxima antiga
solidariamente jurada desde o início
de nossos compromissos:
Sê breve nas horas interiores,
mas por fora sê extenso, derramável
qual um rio. O fundamento do amor.

*

O amor visita o corpo,
o necessita. Lícito divaga
por sombrios lugares,
súbito rumorosos e a arder.
Romã, mentrastos - tantos cheiros
e sabores na docente,
digna espiral.
Tudo aberto em luz na câmara escura:
só porque dois mendigos alcançaram
uma migalha, seu
copo de vinho.
Amando. Ah, que intensos mil-
agres doces nos vêm do corpo.
Que incandescente aptidão.

*

Ora, não digam que não
basta o amor
para resgatar o tempo exausto.
Este acto minucioso,
esta sociedade
por que nos ficamos longamente
gratos e escorrendo.
Nem digam que o amor
é arbitrário:
ele elege e fere
doméstico
quem morre de ferir. Que sorte
(digam antes) esta esgrima, este estar
em tantas posições de gritar.

*

Eis contíguos estes corpos,
derramados. A mecânica exacta,
inflexível. As nuvens
encasteladas, prometendo a chuva.
É um limpo exercício, podem crer.
De que fonte o maná mana,
rescendente? Onde a séde da sede?
No corpo se instalam
gratas ocorrências a não
negligenciar; a nunca
renegar - a menos que os
castos dias se avizinhem (pobres coisas,
lentos animais insusceptíveis:
vede o que o tempo faz de nós!)

*

Tens duas mãos capazes de lutar.
Digo: redondamente.
Digo: pelo tacto. Ah,
que guerra honesta podias conduzir
só pelas mãos
noutras mãos
guerreiras. Digo:
mãos com frutos. Há
guerra e guerra. Para bellum
com porções adequadas
do teu corpo. Si vis pacem,
preenchimento pacífico
do tempo. Digo: a
toda a largura do dia.

*

Agora o resto: imagina
corpo contra corpo,
não apenas as mãos, mas já também
a boca esguia, fugitiva,
regressada à boca.
A boca, a broca: a prudente
(intro) missão. Digo: a in(de)cisão.
A guerra em campo aberto.
Até que o suor. Eis o inimigo
liquidado e dado. Percorrido em guerra.
Digo: inguerra, acto
inverso de matar. Por
que esperas, pára a paz,
para bellum.

A.M. Pires Cabral
em Artes Marginais,
Guimarães Editores, 1998
.
A. M. Pires Cabral nasceu em 1941 na freguesia de Chacim, concelho de Macedo de Cavaleiros, Trás-os-Montes. Licenciou-se em Filologia Germânica na Universidade de Coimbra, foi professor do Ensino Secundário em Vila Real, animador cultural e co-organizador das Jornadas Camilianas. Publicou poesia, teatro, romance, conto, ensaio e crítica. Ganhou o Prémio Círculo de Leitores e o Prémio D. Diniz, da Fundação da Casa de Mateus, com o livro de poesia Douro: pizzicato e chula, também publicado pelos Livros Cotovia. 
.