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Quinta-feira, 31 de Março de 2011

ALGUÉM PARTE UMA LARANJA EM SILÊNCIO - HERBERTO HELDER - POEMA

























Alguém parte uma laranja em silêncio, à entrada
de noites fabulosas.
Mergulha os polegares até onde a laranja
pensa velozmente, e se desenvolve, e aniquila, e depois
renasce. Alguém descasca uma pêra, come
um bago de uva, devota-se
aos frutos. E eu faço uma canção arguta
para entender.
Inclino-me para as mãos ocupadas, as bocas,
as línguas que devoram pela atenção dentro.
Eu queria saber como se acrescenta assim
a fábula das noites. Como o silêncio
se engrandece, ou se transforma com as coisas. Escrevo
uma canção para ser inteligente dos frutos
na língua, por canais subtis, até
uma emoção escura.

Porque o amor também recolhe as cascas
e o mover dos dedos
e a supensão da boca sobre o gosto
confuso. Também o amor se coloca às portas
das noites ferozes
e procura entender como elas imaginam seu
poder estrangeiro.
Aniquilar os frutos para saber, contra
a paixão do gosto, que a terra trabalha a sua
solidão - é devotar-se,
esgotar a amada, para ver como o amor
trabalha na sua loucura.
Uma canção de agora dirá que as noites
esmagam
o coração. Dirá que o amor aproxima
a eternidade, ou que o gosto
revela os ritmos diuturnos, os segredos
da escuridão.
Porque é com nomes que alguém sabe
onde estar um corpo
por uma ideia, onde um pensamento
faz a vez da língua.
- É com as vozes que o silêncio ganha.

em Ou o poema contínuo
súmula
Assírio & Alvim
.

Quarta-feira, 30 de Março de 2011

SIGUR RÓS - HOPPIPOLLA

Terça-feira, 29 de Março de 2011

OCTAVIO PAZ - POEMA - A PONTE


















A PONTE

entre o agora e o agora,
entre o que sou e o que és,
a palavra ponte.

entrando nela
entras em ti:
a palavra liga
e fecha como um anel.

de um banco ao outro
há sempre
um corpo longo:
um arco-íris.
dormirei sob as suas cores.

Octavio Paz
versão de Pedro Calouste


Octavio Paz Lozano (Cidade do México, 31 de Março de 1914 — Cidade do México, 19 de Abril de 1998) foi um poeta, ensaísta, tradutor e diplomata mexicano, notabilizado, principalmente, por seu trabalho prático e teórico no campo da poesia moderna ou de vanguarda. Recebeu o Nobel de Literatura de 1990. Escritor prolífico cuja obra abarcou vários géneros, é considerado um dos maiores escritores do século XX e um dos grandes poetas hispânicos de todos os tempos.

(Fonte: wikipédia)
.

Segunda-feira, 28 de Março de 2011

JOGO - POEMA - SYLVIA BEIRUTE

















JOGO

não tem palavras este poema
se todos entendem este poema
e não é dizendo isto
que tem palavras este poema;
porque as palavras apenas 
servem aqui o propósito
da ausência de palavras 
deste poema.
e já é muito tarde e é difícil:
reconhecer esse silêncio:
o silêncio dentro de um silêncio,
fugindo num outro poema
com excesso de palavras 
de escassos significados.

Sylvia Beirute
inédito
.

Domingo, 27 de Março de 2011

FERNANDO PESSOA SERIA HOMOSSEXUAL?

Biografia polémica do poeta português sai no mês de Abril

Fernando Pessoa seria homossexual?


O livro só sai em Abril mas já está a causar polémica: ‘Fernando Pessoa: uma quase autobiografia’, que o brasileiro José Paulo Cavalcanti escreveu ao longo de oito anos de trabalho e cinco horas de escrita diária – com várias viagens a Lisboa por ano – retrata o poeta como um homem “sem imaginação”, que escreveu apenas sobre pessoas e locais que existiam, e um homossexual latente, que visitava os bordéis mas tinha pouco entusiasmo pelo sexo oposto.

Ao longo de quase 700 páginas – em que o brasileiro diz ter procurado escrever o livro que gostaria de ler – Cavalcanti usou centenas de citações do poeta, sempre entre aspas, e muitos depoimentos de pessoas que conviveram com o poeta. Alguns deles poderão surpreender o leitor.

Como, por exemplo, a revelação, supostamente feita por António Botto – amigo do poeta e homossexual assumido (apesar de ser casado) – de que Fernando Pessoa teria um pénis muito pequeno, o que lhe causava alguns embaraços.

Segundo o próprio Cavalcanti, muito pouco no livro é da sua lavra, embora neste livro lance a teoria de que Fernando Pessoa teria, afinal, muito mais heterónimos do que vulgarmente se julga.

Polémica, também, é a sua afirmação de que o autor de ‘A Tabacaria’ tinha falta de imaginação.

“Eu lia e pesquisava. Sempre que encontrava num poema qualquer referência, ia procurar para saber se aquele lugar ou aquela pessoa existam de facto. E existiam mesmo. Acabei por chegar à conclusão de que Fernando Pessoa foi o escritor com menos imaginação com quem tive contacto em toda a minha vida. Ele viveu tudo o que escreveu. Não inventou nada.”

O livro de José Paulo Cavalcanti, membro da Academia Pernambucana de Letras, será apresentado no âmbito da exposição ‘Fernando Pessoa: Plural como o Universo’, que já esteve patente em São Paulo e que chegou este fim de semana ao Rio de Janeiro, mais propriamente no Centro Cultural Correios, onde pode ser visitada até 22 de Maio. 

Fonte: Correio da Manhã
.

Sexta-feira, 25 de Março de 2011

NOVIDADES DOS GRANDES

Muito bom este último poema de Ricardo Domeneck.
.

AS PALAVRAS ESCONDEM A VERDADEIRA LINGUAGEM - POEMA - SYLVIA BEIRUTE




















AS PALAVRAS ESCONDEM A VERDADEIRA LINGUAGEM

a minha língua é o ponto mais pequeno
da minha linguagem.
o azul é o ponto maior da minha insegurança.
esta chuva pode ser um homem desfeito.

o inseto vive o mesmo tempo que o seu desejo.
as coisas imortais nunca tiveram corpo.

a dificuldade de escrever revela uma leitura
ineficaz do espírito.

o instinto fechado é a metamorfose em bloco
sem um exercício atual da estátua.

o futuro exorciza o passado e esse exorcismo
é o presente.

nada do que disse acima é correto.

Sylvia Beirute
inédito
.

PEDRO MEXIA - POEMA - FUMAR MATA




















FUMAR MATA

Fumar mata. Com cinco inconclusos cigarros
morrerei decerto doutro motivo.
Cigarros escondidos, obrigatórios, demonstrativos, sexuais,
cigarros ocultos atrás de livros, fumados
na casa de banho que o vento depois não drenava,
cigarros amargos e engasgados na garganta,
comprados, deitados fora,
cigarros infrutíferos como esses anos em tudo o mais,
nem rodapé biográfico mas erupção sociológica.
Fumar mata. De não fumar nada direi.

Pedro Mexia
em Vida Oculta
Relógio D´Água

ANTONIO GAMONEDA - POEMA - A NATUREZA DOS CORPOS




















A NATUREZA DOS CORPOS

A natureza dos corpos é fingir a existência e este conhecimento é o
fim de um espírito rodeado de galinhas ávidas.

Lê nas lâminas de vidro: os argumentos do prazer e os capítulos
da destruição atravessados por um só olhar. Quem fala nesta
transparência?

Só é legível o livro do incerto.

O amolador que possui nas suas cânulas uma só nota, clara como
uma serpente, criadora da infância num espaço de homens vi-
giados, não é mais feliz que a sua própria música destinada ao
inverno.

Assim era o rosto da tua mãe.

A nossa paixão é trivial: um ensinamento atribuído aos pássaros
sobre a neve, aos volumes cuja visão é a forma mais perfeita
da tristeza.

E a convicção cresce unicamente no paladar de homens aptos para
a administração da morte, homens cujas canadas estão cheias
de líquidos mais decisivos que a dor.

Mas, os incrédulos, privados de conduta, que igreja luz nos nossos
gemidos?

Há indícios em narrações impecáveis: o vendedor de figos da ín-
dia cuja pobreza está debaixo da luz e que sorria perto da faca
e a limpeza do seu acto era uma lâmpada incrível, uma pro-
va especial da inexistência coroada de gritos na celebração do
mercado.

Ou, nos jardins do verão, o muro quieto na impossibilidade, exter-
no a uma espessura de linhas invisíveis, uma espessura dotada
de melancolia.

Ou, mais ainda, no teu casaco abandonado e entreaberto, ou seja,
numa forma que descreve o teu desaparecimento.

Esta perplexidade é a consciência. O medo faz de pastor, porém
não sabes mais de ti do que um animal absorto sobre a água.


A contradição está na minha alma como os dentes na boca que
fala de misericórdia.

A confusão está na minha alma e penso em rios ao deslizar a mi-
nha língua pelas mulheres que se apiedam dos meus ácidos. A
minha saúde é lasciva diante dessas grandes janelas.

Estes enxames... E a brancura das tuas costas, caminhante cego
que vais à minha frente, ou, nessas taças polidas pela vertigem,
o alimento azul, o preparado para a hora da morte.

Longos assobios chegam dos pátios. Eu escuto até à hora mais tar-
dia e o mundo é vazio e a beleza dos adultérios ferve no fundo
dos copos de noite.

Assim é a véspera de um dia. O leite anuncia a manhã.

Quem entrou nos meus ouvidos?

Antonio Gamoneda
em Descrição Da Mentira
Quasi Edições
Tradução de Vasco Gato
.

Quinta-feira, 24 de Março de 2011

A PRODUÇÃO DE OBJETOS - POEMA - SYLVIA BEIRUTE

























A PRODUÇÃO DE OBJETOS

dizem que produzo objetos para um uso
pessoal do azul
e eu não sei como negar.
mas talvez acrescente algo. e continue
a acrescentar algo.
porque quando acrescentamos algo
negamos a parte nuclear
de uma primeira imagem.

(e devo dizer: que a minha poesia 
sempre buscou 
uma especialidade por nascer.
e talvez me fique por aqui.)

Sylvia Beirute
inédito
.

Terça-feira, 22 de Março de 2011

ANTÓNIO RAMOS ROSA - POEMA - SYLVIA BEIRUTE

























ANTÓNIO RAMOS ROSA

em cada poema morres 
enquanto ficas diferente. diferente
no sentido 
de mais  conhecedor de ti mesmo, morto 
no sentido  
de menos teres por viver.
e imagino que é essa distância
entre aquilo que és e sabes
e aquilo que não sabes que virás a ser
que tem o nome de 

receptividade.

e é um complexo comovente, um jardim 
esperando a neve. é isso

o teu poema subindo alto em mim,
incorporando os seus contrários
no meu exemplo
mais interrompido.

Sylvia Beirute
inédito
.

Segunda-feira, 21 de Março de 2011

DIA MUNDIAL DA POESIA: POEMAS PORTUGUESES

























Uma seleção pessoal:


NA MORTE DA AVÓ

não bastasse a humilhação pública de morrer
espera-se do corpo que cumpra com indiscutível
pompa o intolerável protocolo de ausentar-se

a penosa execução circular e nocturna do velório
a presença inconveniente dos agentes funerários
os adereços lutuosos a obscena maquilhagem

no dia seguinte, o inventário das orações, a concisa

cerimónia (não há muito a dizer, sejamos honestos
e soa até a insulto que se pronuncie o nome de

Lázaro) o caixão é fechado, o dia põe-se bonito
- é quase tão imoral como alguém ter trazido uma
gravata com motivos facetos, uma camisa florida -

depois, em casa, parece que as vozes ressoam como numa
sala a que tivessem subtraído os móveis e houvesse, por isso
a estranheza de uma extensão desprovida, dissemelhante

o avô vai buscar as memórias da infância (por que
razão obscura omite ele as lembranças de casado?) há
na sua voz qualquer coisa de paciente melancolia

como se aceitasse, com constrangedora submissão, que
o tempo não se detenha nunca, que os anos nos empurrem
para um buraco na terra, nos sujeitem a tão bruta descortesia

a prontidão da morte, a ligeireza do tempo, a estupidez
da vida que nunca vai encontrar cura e razão para ela própria
contra tudo isso eu alardeio o poema, antecipo a derrota

Miguel-Manso

*

COMO SE FAZ O POEMA

Para falarmos do meio de obter o poema,
a retórica não serve. Trata-se de uma coisa simples, que não
precisa de requintes nem de fórmulas. Apanha-se
uma flor, por exemplo, mas que não seja dessas flores que crescem
no meio do campo, nem das que se vendem nas lojas
ou nos mercados. É uma flor de sílabas, em que as
pétalas são as vogais, e o caule uma consoante. Põe-se
no jarro da estrofe, e deixa-se estar. Para que não morra,
basta um pedaço de primavera na água, que se vai
buscar à imaginação, quando está um dia de chuva,
ou se faz entrar pela janela, quando o ar fresco
da manhã enche o quarto de azul. Então,
a flor confunde-se com o poema, mas ainda não é
o poema. Para que ele nasça, a flor precisa
de encontrar cores mais naturais do que essas
que a natureza lhe deu. Podem ser as cores do teu
rosto – a sua brancura, quando o sol vem ter contigo,
ou o fundo dos teus olhos em que todas as cores
da vida se confundem, com o brilho da vida. Depois,
deito essas cores sobre a corola, e vejo-as descerem
para as folhas, como a seiva que corre pelos
veios invisíveis da alma. Posso, então, colher a flor,
e o que tenho na mão é este poema que
me deste.

Nuno Júdice

*

UM DIZER AINDA PURO

imagino que sobre nós virá um céu
de espuma e que, de sol em sol,
uma nova língua nos fará dizer
o que a poeira da nossa boca adiada
soterrou já para lá da mão possível
onde cinzentos abandonamos a flor.

dizes: põe nos meus os teus dedos
e passemos os séculos sem rosto,
apaguemos de nossas casas o barulho
do tempo que ardeu sem luz.
sim, cria comigo esse silêncio
que nos faz nus e em nós acende
o lume das árvores de fruto.

diz-me que há ainda versos por escrever,
que sobra no mundo um dizer ainda puro.

Vasco Gato

*

PÁSCOA BAIXA

Durante a manhã inteira a barba
ainda cresceu. O vórtice que me picava
ao fim de um dia de trabalho
já o posso adivinhar
neste círculo de flores.
O seu torso é imóvel. Nada
diviso a mover-se (um relâmpago das pálpebras?
o pensamento de um dedo?)
velo a hesitação da barba qual
néscio agarrando tempo.
Durante a manhã de março a
barba ainda cresceu
qualquer coisa dentro dele ainda
não queria morrer.

João Luís Barreto Guimarães

*

OS NOTICIÁRIOS DA MANHÃ

Os noticiários da manhã abriram com essa imagem
fabulosa: dois poetas construíam um edifício.
Não era um edifício abstracto. Não
era o utópico edifício do coração das obras.
Era um edifício verdadeiro: alicerces,
paredes, telhado; pedra, tijolos,
cimento. Em vez do exercício habitual
de poetas procurando destruir os edifícios
todos da cidade, um a um, disparando canhões
de pólen, estes dois poetas erguiam
um edifício verdadeiro, concreto,
tangível. E isto é de uma humanidade
comovente. E isto chego a pensar
que quase merecia um poema.

José Carlos Barros

*

ÁMEN

Em círculo,
Estão os círios e as candeias,
Nas aldeias de novembro elas também estão
Em círculo,
As mães que fecham a escuridão.
Às vezes a neve cai sobre as palavras que
Os anjos aprenderam no bosque nocturno e
Então abre-se como um livro a casa de luzes
Vermelhas,
Acendendo, num porto antigo, os olhos
Profundos do abismo e da desolação.
Rezamos em silêncio e os sinos dobram e
Na curva da colina
Já se avista o cortejo da música.
Não podemos entrar.
Não há lugar aqui para as rosas do pai,
Inúteis, magoadas pelo furor das nossas mãos.
A mortalha arrefece.
Arrefecem longamente as estrelas que um
Dia vi sobre os jardins. Sem regresso
Estão os cisnes parados, quando a neve cai.

José Agostinho Baptista

.
.

Domingo, 20 de Março de 2011

ANDREA CORR E GAVIN FRIDAY




TIME ENOUGH FOR TEARS

Let's read the trees and their Autumn leaves,
As they fall like a dress undone
At the end of Summers, love will find lovers
Who need the shadows of a winter sun

Don't tell me you're leaving we can hide in the evening
It's getting darker than it should
If we read the leaves as they blow in the breeze
Would it stop us now, my love

Time enough for hard questions
Time enough for all our fears
Time is tougher than we both know yet,
Time enough for tears

The moon is milk and the sky where it's split
Is magic, and we all need to believe, that we can
Wake up in the dream, it's not as hard as it seems
You know its harder to leave

Time enough for being braver
Time enough for all the fears
Time is tougher than we both know yet
Time enough for tears

I heard you say underneath your breaths some
kind of prayers I heard
You say underneath your breath that you never
wanted, to feel this way about anybody else

Time enough for hard questions
Time enough for all our fears
Time is tougher than we both know yet
Time enough for tears

Time enough for being braver
Time enough I love this time of year,
Time is tough, its running away from us,
Time enough for tears

Time enough for tears
Time enough for tears

Sábado, 19 de Março de 2011

FOUR$EG#JUR - POEMA - SYLVIA BEIRUTE

























FOUR$EG#JUR

é esta loucura
que me traz
o equilíbrio.

Sylvia Beirute
inédito
.

SOU UM POETA EXTREMAMENTE INFLUENCIÁVEL E UM POUCO PLAGIADOR - ANTÓNIO RAMOS ROSA

SOU UM POETA EXTREMAMENTE INFLUENCIÁVEL E UM POUCO PLAGIADOR

A palavra “Poesia” não é para mim uma palavra densa, plena, isto é, uma palavra de significação inteiramente positiva. Há nela um vazio, uma névoa e uma tenuidade que se sobrepõe ao seu significado e o torna vago e quase imperceptível. Posso comparar esta impressão à sensação que sinto quando, à distância, olho os prédios altos e percepciono não a densidade dos seus moradores mas o vazio infinito que anula todo o pretensiosismo da vida humana. A palavra “poesia” parece-me afogada irremediavelmente num vazio que dilui a sua significação e a torna longínqua e apagada, quase desprovida de sentido. Mas não será essa diluição semântica, observou Mário, o que a torna extremamente poética, uma vez que, assim, é mais aberta e susceptível de nos transmitir o que há de inexprimível na poesia? Sim, talvez tenhas razão, admiti, mas essa palavra confrange-me não sei porquê. Sinto uma espécie de pudor ou vergonha, como se a poesia fosse uma matéria interdita e, de algum modo, inadmissível. Se é assim, objectou Mário, o que há de vago nessa palavra anula a pretensão ou imposição de um sentido dominante. Assim, o que há nela de impreciso vela o seu conteúdo e deixa-o indefinido. Por isso, essa palavra parece-me que não deveria suscitar nenhuma relutância pudica, porque é vaga e desprovida de um sentido positivo e determinado. Olha, Mário, esta questão parece-me destituída de sentido, como se estivéssemos a discutir o sexo dos anjos. Porque não aceitar simplesmente que o nome de poesia é um nome que nos transmite o seu conteúdo sem suscitar qualquer problema? E já agora, para contrabalançar a tendência teorizante dos nossos diálogos, proponho-te que falemos de assuntos mais circunstanciais e mais ligados à realidade imediata e particular. Estou a referir-me à minha experiência de poeta e não tanto no seu processo específico como no que respeita às suas determinações externas e a algumas circunstâncias ou episódios da minha biografia enquanto poeta. Mário disse-me então: Estou perfeitamente de acordo contigo. E, se me permites, colocar-te-ei algumas questões relativas à tua biografia de poeta. Em primeiro lugar, quero perguntar-te como se processou em ti o início da prática da escrita poética? Foi um processo fácil e espontâneo ou uma elaboração difícil e dolorosa? Respondi-lhe: Tenho uma certa dificuldade em explicar o que me levou à prática da poesia. O que sei de uma forma clara é que comecei a escrever porque amava os poetas que lia e com os quais me identificava ao ponto de os querer imitar. Este processo de identificação e de imitação determinou não só os primeiros poemas que escrevi mas também todos ou quase todos os poemas que até agora escrevi. Não tenho qualquer receio em afirmar que a originalidade dos meus poemas, sobre a qual, aliás, não tenho dúvidas, não é resultante apenas da singularidade do sujeito que sou mas também da confluência de inúmeras leituras que me estimularam e foram sempre decisivas na minha formação poética.

Naturalmente, os meus primeiros poemas não possuíam nível poético e só mais tarde, depois dos vinte e cinco anos, logrei escrever poemas de uma certa qualidade, como, por exemplo, “O Boi da Paciência”, que escrevi de um jacto, no primeiro andar do café Chave de Ouro. Esse poema nasceu, inesperadamente, com uma violência e uma espontaneidade que me surpreenderam, e foi então que o poeta que sou deu o seu primeiro passo. Esse poema, como, aliás, outros que escrevi posteriormente, não poderia surgir se eu não tivesse lido  deslumbradamente a obra de Carlos Drummond de Andrade, que fou um dos primeiros poetas a influenciar-me juntamente com Paul Éluard. Seria uma questão impertinente pretender saber o que seria especificamente meu e o que seria a contribuição do autor de “A Rosa do Povo”. Esse poema foi o resultado imediato de uma dolorosa experiência humana que veio a encontrar a sua formulação graças à influência libertadora desse grande poeta brasileiro. Supor que a influência e a originalidade constituem uma dicotomia é um erro solipsista e uma perfeita idiotice. As influências são, já por si, resultantes de uma receptividade pessoal em relação a tal ou tal obra e não indiscriminadamente a qualquer autor. Ninguém poderia escrever um poema sem ter lido outro poeta. Supor o contrário é admitir que o poeta é um ser isolado no mundo e, por conseguinte, sem o conhecimento do mundo literário ou, no caso dos poetas populares, sem a existência de uma tradição oral. Mas se é assim, perguntou-me Mário, por que é que os escritores têm tanto receio das influências e de serem acusados de as sofrerem? Penso, respondi, que esse receio se deve a uma falsa noção de originalidade que não tem em conta a sua relação com a confluência das obras que todo o escritor lê, a que não pode deixar de ser sensível e em relação às quais é sempre devedor. No que me diz respeito, esse receio não existe. Considero-me um poeta extremamente influenciável e até um pouco plagiador. Sobre alguns pequenos plágios que cometi em alguns dos meus livros, falar-te-ei daqui a pouco. Aliás, digo-te já que, sendo autor de alguns milhares de versos, me posso permitir cometer um ou outro plágio ou empregando outra palavra, talvez mais justa, uma ou outra incorporação, como o faziam os clássicos e, como por exemplo, Camões logo no primeiro verso de Os Lusíadas. Na verdade, sou extremamente receptivo em relação aos poetas que amo e admiro e os meus livros de poemas não seriam o que são, sobretudo alguns deles, se eu não tivesse lido determinados poetas que exerceram sobre mim uma atracção e um fascínio irresistíveis, tão irresistíveis como o desejo de os imitar e de integrar o que de novo eles traziam na minha escrita poética.

Verifico, porém, que esta fascinação que exercem certos poetas sobre mim e o decorrente desejo de os imitar não se traduz objectivamente numa obra destituída de originalidade e de cunho pessoal. Entre a obra que imitei ou tentei imitar e a obra que escrevi subsiste uma diferença essencial e é essa diferença que me leva a pensar que o meu livro possui a autonomia e a originalidade que considero imprescindíveis numa obra literária e que, de modo algum, foram prejudicadas pela influência que sobre ela exerceu outra obra. Pelo contrário, a influência pode ser decisiva para a descoberta da voz original do poeta que procura o seu caminho ou que, tendo-o encontrado, aspira a novos rumos para que a identidade se renove e se intensifique. Estive todo este tempo a ouvir-te sem te interromper, disse-me Mário, porque quis ouvir a tua argumentação até ao fim, tão interessado estava nela. Estou de acordo contigo, embora tenha ficado um pouco surpreendido, porque nunca pensei que a originalidade e a influência pudessem ser compatíveis. E há muita gente, tanto poetas como leitores, que não pensa assim. E até em Estocolmo, se se soubesse que tu, de vez em quando, cometes um plágio, não te atribuíam o Nobel. Sim, há muita gente que não estará de acordo comigo, porque acharia que a minha argumentação é paradoxal. Quanto ao Nobel, embora te pareça insincero, espero e desejo não vir a ganhá-lo, porque se isso acontecesse seria uma grande catástrofe para o meu sistema nervoso. O mundo da informação, e não só, cair-me-ia em cima, e lá se ia toda a minha tranquilidade, que tanto prezo. Além disso, penso que outros escritores seriam mais dignos desse prémio do que eu, como, por exemplo, Vergílio Ferreira, para só citar aquele que, além da originalidade e riqueza do seu estilo, possui uma dimensão filosófica que fez dele um grande pensador, e que nenhum outro escritor português possui. Reconheço a grandeza desse escritor e a de outros, que merecem o Prémio Nobel, mas, no que me diz respeito, embora seja suficientemente consciente do meu mérito, julgo que a grandeza não cabe a mim, sempre pensei assim, talvez por excessiva modéstia, e assim continuarei a pensar. Voltando aos teus pequenos plágios, sugeriu Mário, porque não me dás um exemplo ou dois desses plágios ou “incorporações”, como também tu lhes chamas. Sim, concordei, não receio fazê-lo. Referirei dois casos interessantíssimos e sumamente engraçados. Estava a trabalhar com um tradutor, aliás excelente, na tradução de um livro que foi editado em França. A certa altura, o nosso trabalho incidiu sobre três ou quatro versos de um poema do meu livro Volante Verde. A versão que o tradutor fizera não me pareceu satisfatória e sugeri-lhe então que traduzisse literalmente aqueles versos para francês. Objectou-me ele, peremptoriamente, que nenhum poeta francês escreveria aqueles versos assim. Retorqui-lhe então: Mas foi um poeta francês que os escreveu: Yves Bonnefoy. Efectivamente, eu incorporara esses versos desse poeta e traduzira-os literal-mente, de tal modo que a retroversão literal para francês coincidia exactamente com o original. Assim, os versos que incorporara no meu poema voltaram à origem sem perderem a sua identidade. O outro caso não é menos interessante, mas é um tanto humilhante para mim. Estava um dia a ler um texto de um poeta francês, Pierre Dhainaut, na revista Gradiva, num número de homenagem a Octavio Paz, quando deparei com uma frase que me deslumbrou, por ser extremamente poética. Imediatamente a traduzi e transformei num pequeno poema que publiquei mais tarde num livro. Curiosamente, o editor, para dar uma amostra da poesia contida nesse livro, inseriu esse poema na contracapa dessa obra. Achei graça, mas senti que essa escolha significava uma desqualificação da minha poesia. No entanto, parece-me que a meia dúzia de plágios que fiz (o maior deles foi uma tradução literal de cinco versos) se justificavam na medida em que, e desse modo, actualizam virtualidades implícitas no contexto original. Mas eu sei que há quem não aceite esta explicação…

Voltando à primeira parte da nossa conversa, atalhou Mário, parece-me que, embora de uma maneira não explícita, tu deprecias a poesia e ao mesmo tempo deprecias-te a ti próprio como poeta e parece-me que estas duas atitudes talvez se relacionem uma com a outra. Bom, retorqui, a minha noção de poesia nunca foi depreciativa. Pelo contrário… Sempre achei que a poesia permite o acesso a uma dimensão essencial do homem, que está atrofiada na sociedade actual, mas que é necessário manter viva para que o homem não seja reduzido à sua escravatura no sistema e para que possa um dia libertar-se dela e viver uma vida mais humana e mais livre. Parece-me que é a mais alta noção que se pode ter de poesia. Mas é, precisamente, por isso que a poesia não se circunscreve ao âmbito literário e aponta a uma realidade que é mais vasta e mais essencial do que ela própria. Digamos que a essência da poesia é revolucionária ou subversiva porque visa a mudança radical da vida. Il faut changer la vie, como dizia Rimbaud. No que me diz respeito, devo dizer-te que a minha auto-estima sempre foi deficiente, embora nos últimos tempos tenha subido um pouco devido a várias circunstâncias, talvez a uma certa maturidade e a uma melhor compreensão do meu próprio valor, para o que contribuiu, de algum modo, o reconhecimento de que tenho sido objecto. Mas isto é um problema pessoal que pouco ou nada interessa aqui. O essencial é a criação poética e é ela que me proporciona a mais profunda satisfação e me recompensa todas as vicissitudes e infortúnios, independentemente das homenagens e dos prémios, que têm vindo por acréscimo e, embora gratificantes, se situam na periferia e não no cerne da minha vida poética. 

António Ramos Rosa
em Prosas Seguidas de Diálogos
4 Águas
.

Sexta-feira, 18 de Março de 2011

MORTE SÚBITA - SYLVIA BEIRUTE - POEMA

























MORTE SÚBITA

não quero morrer às vezes.

quero morrer em bloco 
mas também
não quero que seja entre 

o espaço e o tempo

porque entre o espaço 
e o tempo
não há um para sempre,

nem nunca houve.

Sylvia Beirute
inédito
.

CARLOS ALBERTO MACHADO - CORPOS





















Chama-se Corpos, com dois poemas: Ouçam-nos e A cinza nos corpos. São 16 páginas de uma plaquette, 200 exemplares, em edição pessoal (azulcobalto, chancela em construção). Está a chegar aqui à ilha, nesta semana; depois, fica disponível para quem gostar de a adquirir. Através do e-mail camlisbon@yahoo.com pode ser encomendada (6 euros, portes incluídos para território nacional; existem igualmente 50 exemplares, numerados e assinados por mim, e cada um custa 26 euros, nas mesmas condições).
Ouçam-nos – Foi escrito como complemento para um exercício teatral coordenado por Tiago de Faria, do CEPiA, com base no meu texto Restos. Interiores. Lajes do Pico, Abril de 2005.
A cinza nos corpos – Teve origem numa oficina de escrita que coordenei para o Teatro de Giz, de que resultou o texto e o espectáculo com o mesmo nome E nós aqui no meio de não saber nada.
Foi posteriormente reformulado. Horta, Março a Outubro de 2008. 


REVISTA ENTRE O VIVO, O NÃO-VIVO E O MORTO


 
Revista "entre o vivo, o não-vivo e o morto"

Concepção de Paulo Serra, edição do CEPiA - Centro de Estudos Performativos i Artísticos. é, no entender do seu criador, uma revista de pensamento e, no seu conteúdo e formato, embora temporariamente extinta - ou seja, descobre-se no plano que faz justiça ao seu nome - continua a ser uma revista única no campo editorial português. não se dirá mais sobre ela - há que tê-la na mão - senão os nomes dos que participaram:

designers - Sara Inglês, Isabel Bilro e Pedro do Ó

ilustradores - Isotta Dardilli e Kaja Avberšek

artistas plásticos - Tamara Alves e Marija Toskovic

escritores - Pedro Ferreira, Jaime Carvalho, Lília Parreira, António Carvalho, Rui Alberto, Pedro Oliveira, Célia Rocha, A. Pedro Ribeiro, Nuno Ramalho, Marta Bernardes, José Manuel Martins, Vítor Moreira, Rui Cancela, Fernando Machado Silva, Sílvia Ramalho, Hugo Milhanas Machado, Pedro S. Martins, Rui Sousa, Adolfo Luxúria Canibal, Rui Manuel Amaral, J. M. de Barros Dias, Paulo José Miranda, Henrique Manuel Bento Fialho, Sílvia das Fadas, valter hugo mãe

entrevistadores - Alexandre Nunes de Oliveira e Gonçalo Frota

entrevistados - Alexander Sokurov, J-P- Simões e Beatriz Batarda

termina assim o editorial da n.º 3:

Agora que cumprimos um ano de existência volto à noção de «abertura» assumida desde o princípio. O conceito de abertura, aqui adoptado, não tem relação directa com dimensão/medida. A entre o vivo, o não-vivo e o morto não pretende abranger tudo - isso não é abertura -, até porque, o próprio conceito de abertura contém nele o fechamento, a exclusão (tal como o conceito de justiça inere o da injustiça); e só assim pode funcionar como projecto de abertura. Talvez os mal-entendidos surjam por pensar em «abertura» como conceito puro, mas se restam dúvidas: não o é. Nem puro nem inocente. O conceito de abertura mantém-se. Mantém-se no editorial. Mantém-se na entre o vivo, o não-vivo e o morto.

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