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sexta-feira, 2 de julho de 2010

Gonçalo M. Tavares e o Medo


























DOIS MEDOS

 O que espantava mais Buchmann era o modo como o medo e a velocidade, a determinada altura, se misturavam, deixando de ser possível apontar alternadamente para um e para outro. Estava-se já perante uma nova substância – como o hidrogénio e o oxigénio na molécula de água – substância (medo/velocidade) mais explosiva que dinamite.
          
Ou, talvez com mais exactidão: o grande rastilho do mundo, pois essa mistura não era ainda a explosão mas o trajecto que terminaria na grande explosão. Seremos tanto mais fortes, dizia Buchmann a Kestner nas suas conversas sobre estratégia, quanto mais conseguirmos infiltrar na população esta mistura: movimento rápido e temor. Não os deixar parar para que não deixem de ter medo. Não deixar de os amedrontar para que não parem.
          
Havia, portanto, dois medos, e não apenas um. O primeiro medo arrancava as coisas da sua imobilidade e o segundo, o mais poderoso, mantinha as coisas em movimento. Quando dez mil habitantes de uma determinada etnia, desprotegidos e constituídos quase por completo por velhos, mulheres e crianças, fugiam de um local ao receber essa terrível informação do avanço dos outros, quando tal acontecia, esse primeiro movimento de abandono das terras natais era impulsionado por um primeiro medo. Porém, o que fazia com que esses refugiados, depois de caminharem a pé duzentos quilómetros ainda avançassem o mais velozmente possível, esquecendo já os mais fracos e os que começam a desfalecer, o que fazia com que isso acontecesse, duzentos quilómetros mais tarde, era o segundo medo, o mais poderoso, aquele que mantém em movimento o que está já, há muito, em movimento. Este segundo medo é tão forte que faz vencer a fadiga limite: chegará a noite e nenhum elemento desejará descansar.


Gonçalo M. Tavares
em Aprender a Rezar na Era da Técnica (Caminho)

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Poesia e Viagem















Um amigo passou-me algumas ideias do poeta Billy Collins sobre a criação da poesia. Partilho completamente das sua ideias nesta parte, quando ele diz:

Quando digo que a poesia é a última forma de viajar, reporto-me tanto à imaginação como à geografia. Como Borges, que se descrevia a si mesmo como "leitor hedonista", eu admito que leio por prazer, e um dos grandes prazeres que a poesia oferece é o facto de poder ser movida de um lugar para outro, muitas vezes de um lugar que existe na realidade para outro que apenas existe no seio da imaginação, especialmente se o segundo lugar nunca existiu antes de o poema ser escrito.

Na realidade, não sou um julgador quando leio um poema de outro poeta. Apenas espero que ele me leve a algum lugar. A qualquer lado. E enquanto alguns poemas voam para campos completamente novos, outros nunca deixam o abrigo do avião. Viajar também alivia o tédio associado à escrita. Quando crio algo, procuro o outro lado da estrada, uma escotilha para deixar a primeira parte do poema para trás, e que é normalmente apenas um isco ou o estabelecimento de um tema, e parto para algo novo.

O tédio

























A primeira tarefa é conquistar algo; a segunda é banir o sentimento de que algo foi conquistado; de contrário torna-se um fardo.

Está suficientemente claro que a vida humana deve ser algum tipo de erro, com base no facto de que o homem é uma combinação de necessidades difíceis de satisfazer; ademais, se for satisfeito, tudo que obtém um estado de ausência de dor, no qual nada resta senão o seu abandono ao tédio. essa é uma prova precisa de que a existência em si mesma não tem valor, visto que o tédio é meramente o sentimento do vazio da existência. se, por exemplo, a vida – o desejo pelo qual se constitui o nosso ser – possuísse qualquer valor real e positivo, o tédio não existiria: a própria existência em si nos satisfaria, e não desejaríamos nada. Mas a nossa existência não é uma coisa agradável a não ser que estejamos em busca de algo; então a distância e os obstáculos a serem superados representam a nossa meta como algo que nos satisfará – uma ilusão que desvanece assim que o objectivo é atingido; ou quando estamos engajados em algo que é de natureza puramente intelectual – quando nos distanciamos do mundo a fim de podermos observá-lo pelo lado de fora, como espectadores de um teatro. Mesmo o prazer sensual em si não significa nada além de um esforço contínuo, o qual cessa tão logo quanto o seu objectivo é alcançado. Sempre que não estivermos ocupados em algum desses modos, mas debruçados sobre a existência em si, confrontamo-nos com o seu vazio e futilidade; e isso é o que denominamos tédio. O inato e inextirpável anseio por aquilo que é incomum demonstra quão gratos somos pela interrupção do tedioso curso natural das coisas. Mesmo a pompa e o esplendor dos ricos nos seus castelos imponentes, no fundo, não passam de uma tentativa fútil de escapar da essência existencial, a miséria.

Arthur Schopenhauer
in Essays

domingo, 20 de junho de 2010

Livro do Desassossego, de Bernardo Soares


















243.

Quem quisesse fazer um catálogo de monstros, não teria mais que fotografar em palavras aquelas coisas que a noite traz às almas sonolentas que não conseguem dormir. Essas coisas têm toda a incoerência do sonho sem a desculpa incógnita de se estar dormindo. Pairam como morcegos sobre a passividade da alma, ou vampiros que suguem o sangue da submissão.

São larvas do declive e do desperdício, sombras que enchem o vale, vestígios que ficam do destino. Umas vezes são vermes, nauseantes à própria alma que os afaga e cria; outras vezes são espectros, e rondam sinistramente coisa nenhuma; outras vezes, ainda, emergem cobras dos recôncavos absurdos das emoções perdidas.

Lastro do falso, não servem senão para que não sirvamos. São dúvidas do abismo, deitadas na alma, arrastando dobras sonolentas e frias. Duram fumos, passam rastros, e não há mais que o haverem sido na substância estéril de ter tido consciência deles. Um ou outro é como uma peça íntima de fogo-de-artifício: faísca-se um tempo entre sonhos, e o resto é a inconsciência da consciência com que o vimos.

Nastro desatado, a alma não existe em si mesma. As grandes paisagens são para amanhã, e nós já vivemos. Falhou a conversa interrompida. Quem diria que a vida havia de ser assim?
Perco-me se me encontro, duvido se acho, não tenho se obtive. Como se passeasse, durmo, mas estou desperto. Como se dormisse, acordo, e não me pertenço. A vida, afinal, é, em si mesma, uma grande insónia, e há um estremunhamento lúcido em tudo quanto pensamos e fazemos.

Seria feliz se pudesse dormir. Esta opinião é neste momento, porque não durmo. A noite é um peso imenso por detrás do afogar-me como o cobertor mudo do que sonho. Tenho uma indigestão na alma.

Sempre, depois de depois, virá o dia, mas será tarde, como sempre. Tudo dorme e é feliz, menos eu. Descanso um pouco, sem que ouse que durma. E grandes cabeças de monstros sem ser emergem confusas do fundo de quem sou. São dragões do Oriente do abismo, com línguas encarnadas de fora da lógica, com olhos que fitam sem vida a minha vida morta que os não fita.

A tampa, por amor de Deus, a tampa! Concluam-me a insconciência e vida! Felizmente, pela janela fria, de portas desdobradas para trás, um fio triste de luz pálida começa a tirar a sombra do horizonte. Felizmente, o que vai raiar é o dia. Sossego, quase, do cansaço do desassossego. Um galo canta, absurdo, em plena cidade. O dia lívido começa no meu vago sono. Alguma vez dormirei. Um ruído de rodas faz carroça. Minhas pálpebras dormem, mas não eu. Tudo, enfim, é o Destino.

Fernando Pessoa 
em O Livro do Desassossego, de Bernardo Soares

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Lógica Feminina


























A MINHA MULHER

Era uma mulher alta, bem feita de corpo, de belo e altivo perfil. Um nariz direito, um queixo pontiagudo e as pálpebras semicerradas davam à sua fisionomia e ao seu olhar uma expressão de arrogância desdenhosa e de orgulho. Vestia-se com muito esmero e no seu todo exterior só lhe ia mal um excessivo nervosismo e, às vezes, uma certa rudeza nos modos. Eu conhecia bem a sua maneira de ser e dava-lhe o devido apreço, mas o seu mundo intelectual e moral, o seu espírito, as suas concepções, o seu temperamento instável, os olhos odientos, o orgulho, os livros que lia e que por vezes me deixavam espantado, e o seu ar freirático, como na véspera ainda, tudo isso me era desconhecido e incompreensível.

Quando durante as nossas altercações, tentativa definir o seu tipo humano, a minha psicologia quedava-se em fórmulas comuns, tais como: «estouvada, cabeça no ar, péssimo carácter, lógica feminina», e isto me bastava. Mas agora, que a via chorar, sentia o ardente desejo de descobrir o fundo daquela alma e de olhar lá para dentro a ver o que encerrava.


Anton Tchekov
in A Minha Mulher 

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Actrizes

se eu pudesse provar o meu amor
lambê-lo-ia.

Anna Karina 
em Une femme est une femme, de Godard (1961)


um beijo é um truque mágico 
desenhado pela natureza 
para parar o discurso 
quando as palavras se tornam 
supérfluas.

Ingrid Bergman

sexta-feira, 26 de março de 2010

Todos os Nomes






















DILEMAS

(...) Agora, deitado de costas, com as mãos cruzadas atrás da cabeça, o Sr. José olha o tecto e pergunta-lhe, Que poderei eu fazer a partir daqui, e o tecto respondeu-lhe, Nada, teres conhecido a última morada dela, quer dizer, a última morada do tempo em que frequentou o colégio, não te deu nenhuma pista para continuares a busca, claro que poderás ainda recorrer às moradas anteriores, mas seria uma perda de tempo, se esses comerciantes da rua, que são os mais recentes, não te ajudaram, como te ajudariam os outros, Então achas que devo desistir, Provavelmente não terás outra saída, salvo se te decidires a ir perguntar às finanças, não deve ser difícil, com essa credencial que tens, além disso são funcionários como tu, A credencial é falsa, De facto, será melhor que não a uses, não gostaria de estar na tua pele se um dia destes te apanham em flagrante, Não poderias estar na minha pele, não passas de um tecto de estuque, Sim, mas o que estás a ver de mim também é uma pele, aliás, a pele é tudo quanto queremos que os outros vejam de nós, por baixo dela nem nós próprios conseguimos saber quem somos, Esconderei a credencial, No teu caso, rasgava-a ou queimava-a, Guardá-la-ei com os papéis do bispo, onde a tinha, Tu lá sabes, Não gosto do tom com que o dizes, soa-me a mau agoiro, A sabedoria dos tectos é infinita, Se és um tecto sábio, dá-me uma ideia, Continua a olhar para mim, às vezes dá resultado. A ideia que o tecto deu ao Sr. José foi que interrompesse as férias e voltasse ao trabalho, Dizes ao chefe que já estás com suficientes forças e pedes que te reserve o resto dos dias para outra ocasião, isto no caso de vires ainda a encontrar maneira de sair do buraco em que te meteste, com todas as portas fechadas e sem uma pista que te oriente, O chefe vai achar estranho que um funcionário se apresente ao serviço sem ter obrigação disso e sem ter sido chamado, Coisas muito mais estranhas tens tu andado a fazer nos últimos tempos, Vivia em paz antes desta obsessão absurda, andar à procura de uma mulher que nem sabe que existo, Mas sabes tu que ela existe, o problema é esse, Melhor seria desistir de uma vez, Pode ser, pode ser, em todo o caso lembra-te de que não é só a sabedoria dos tectos que é infinita, as surpresas da vida também o são, Que queres dizer com essa sentença tão rançosa, Que os dias se sucedem e não se repetem, Essa é mais rançosa ainda, não me digas que é nesses lugares-comuns que consiste a sabedoria dos tectos, comentou desdenhoso o Sr. José, Não sabes nada da vida se crês que há mais alguma coisa para saber, respondeu o tecto, e calou-se. O Sr. José levantou-se da cama, escondeu a credencial no armário, entre os papéis do bispo, depois foi buscar o caderno de apontamentos e pôs-se a narrar os frustrantes sucessos da manhã, acentuando em particular os modos antipáticos do farmacêutico e o seu olhar de navalha. No fim do relato, escreveu, como se a ideia tivesse sido sua, Acho melhor voltar ao serviço. (...)

José Saramago, em Todos os Nomes