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sexta-feira, 5 de novembro de 2010

FERNANDO ESTEVES PINTO - POEMAS, POESIA, ANÁLISE CRÍTICA, BIOGRAFIA

























sb: série poetas

FERNANDO ESTEVES PINTO

A poesia de Fernando Esteves Pinto (Cascais, 1961), poeta e romancista que reside no Algarve há já longos anos, constrói-se a partir de listas de (im)possibilidades, de temáticas de investigação íntima, de ambientes que dependem de outros, encontrando-se, estes e aqueles, numa relação de tensão, de benefícios e malefícios. Os poemas partem de um lume brando de ideias, que se intensifica até ao seu final, pela digestão, pelo leitor, das interligações dos fragmentos das cenas e das ideias que vão levando o poema até à sua gravidade absoluta, até à instauração do seu sacrifício emocional. Este último aspecto parece-me crucial na compreensão destes poemas. Fernando Esteves Pinto é um daqueles poetas que eu apelido de "poetas emocionais por omissão", ou seja, a linguagem escolhida (dentro da qual se integra toda a forma e a opção de palavras) não conduz por si só qualquer emoção quente. Pelo contrário, dá-se a exploração do vazio da existência, da ausência de um íntimo que de imediato faz avançar o sangue. Dá-se pois uma certa reflexividade dentro da linguagem e das ideias que ela suporta, sendo que as emoções são diferidas, adiadas para o momento da absorção de todo o espaço poético. É ao leitor que cabe compor a emoção depois de recebido o bolo frio, seguindo as pistas que o poeta deixa, os caminhos, nunca em linha recta, que ele dispõe sobre, e entre, o texto, numa sobriedade que dilui o verdadeiro no ficcional, o paradoxo na razão pura mas completa, a projecção da metáfora nas inscrições de memória. É notável este Criança Com língua de Fora (inédito, com reprodução integral), que em muito representa estas notas: "Este sou eu. / Venho para desafiar as leis dos homens / E dos animais. / Guardo da infância diálogos inacabados. / Imagens que se apagam na observação do que serei. / Estas são as minhas máscaras: / Apago o rosto e esqueço o corpo. / A infância é um animal de estimação. / Um animal que cresce comigo na incerteza e no medo. / Uma imagem sem fim: o medo. / A mutilação dos corpos é uma vingança. / São brincadeiras humanas à beira da destruição. / O meu pensamento animal / por tudo o que é humano."
Este texto minucioso é uma espécie de auto-evasão, subversão do ser completo para que a renovação se realize numa outra fórmula, noutra proposta, num novo conceito de esquecimento próximo do esquecimento parcial de uma criança, um animal ainda não socializado, não normalizado para os padrões que vigoram na sociedade massificada dos dias de hoje. O existencialismo é transversal a toda a poesia deste poeta, surgindo como uma condição de acção do «eu poético», condição-obediência a um ideal de vida sempre em ruptura. E esta ruptura prende-se com a necessidade de mudança, de descoberta, de ver o que está por detrás do silêncio e, em última instância, por detrás das próprias palavras enquanto meio de comunicação entre duas pessoas, dois mundos, ou dois inevitáveis nadas. A matéria poética de Esteves Pinto, no seu substrato mais narrativo, tem pontos de ligação com outros poetas de cuja obra aqui tenho falado (Gertrude Stein, Leonard Cohen, Samuel Beckett, etc), poetas por vezes próximos daquilo a que chamo de extrapoesia, sendo certo que António Ramos Rosa (Faro, 1924) parece ser a mais forte influência na obra poética do autor.

Poesia seleccionada:

Ellington sempre me parecera nervoso.
O mesmo acontecia com os nossos jogos psicológicos.
Havia na família uma moldura diferente
atribuída a cada sentimento.
Depois de nos degolarmos na sala a pergunta era esta:
que moldura sentimos que faça parte do nosso espírito?
Eu dizia tristeza e murmurava sempre tristeza
e o coração do pai abandonava-nos com vergonha
a mãe enrolava as mãos a segurar o amor
e eu adormecia em delírio e despertava sempre em delírio.
O jogo da moldura tinha a vantagem da incompreensão.
Numa família há os realizadores de molduras
e os que sentem a realização da matéria emocional.
As mais belas resoluções eram feitas
na presença de Ellington.
Improviso ambiental familiar.

Fernando Esteves Pinto
em Área Afectada 
ed: Temas Originais, 2010
.
*
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Uma desordem, senhor Ellington.
Não vou ignorar que és uma imagem a perfurar-me a mente
uma capacidade da razão em sentir uma música com maus humores
verdades de natureza agressiva soavam em ambientes familiares
por vezes era excessivo o ódio que a melodia se refugiava no coração.
Frequentávamos uma sala impregnada de dúvidas
onde a arte só era entendida pelo sofredor.

Entre a voz maternal e o dilema espumoso de Ellington
a atenção é o meu sacrifício.

Pensamento sinuoso este bocejo musical:
que perigo me leva a abandonar uma palavra?
que palavra me orienta para um som chicoteado?
que chicote volteia riscando na consciência uma mão musical?
Ellington é brutal e pavoroso como o sol
através dos vidros em dia de educação.
Oiço a voz do pai: as pedras da casa a caírem em cortinas
diante dos meus olhos
a solidez audível da emoção escondida no tempo.
.
Fernando Esteves Pinto
em Área Afectada 
ed: Temas Originais, 2010
.
*
.
Apoderava-se das minhas palavras
como se fossem uma toalha do seu rosto
alguns utensílios reservados para a sua vida.
Eu escrevia casa e a casa teria de ser a defesa do nosso amor.
Eu escrevia cama e a cama transformava-se num jogo de silêncio.
Vivia por trás da minha escrita
como se preenchesse a alma de tudo o que não entendia.
Queria que eu mobilasse a vida só com palavras
breves imagens que fossem o retrato do meu pensamento.
Eu proporcionava-lhe a felicidade como um enigma
em cada palavra um sentimento formalmente virtual
depois abandonava-a com a ilusão do espaço decorativo.
.
Fernando Esteves Pinto
em Área Afectada 
ed: Temas Originais, 2010
.
*
.
Havia sempre pedras em casa.
Ninguém tinha a possibilidade de falar sem antes erguer uma parede
palavras e pedras construíam a tortura
blocos emocionais desmoronando-se pelo tempo.
As vozes eram a grande educação
os degraus que suportavam o ensinamento.
No fundo tudo era triste, compreensível e provisório
o mundo funcionava como um tapete
no qual ensaiávamos os passos lúcidos.

O objectivo é encontrarmo-nos com as palavras dos outros
fazer dessa imagem uma porta existencial
circular pela casa e recolher o que existe de interior num abandono
respirar contra as paredes trémulas e mesmo assim violentas.
.
Fernando Esteves Pinto
em Área Afectada 
ed: Temas Originais, 2010
.
*
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Chet baker consegue mostrar o pior da felicidade
Um som que se agita no fundo da alma
E faz vir à superfície as borras do prazer.
A arte não pode respeitar o erro.
Temos como refeição uma música honesta.
Leio sobre as grandes obras marítimas
As incrustações de vida nas pedras.
Eu sei que nenhuma informação ajuda
A digerir este itinerário musical.
O ensaio tem um tempero enciclopédico.
Chet baker funde todas as lâmpadas do prazer.
Resta-me obstruir a minha função visual.
.
Fernando Esteves Pinto
em Ensaio entre portas
Ed: Almargem, 1997

.
*
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UM SISTEMA DE RELAÇÃO
.

Considere-se o caso em que A é igual a 1.
Obtém-se a função ípsilon igual a X à vida inteira
partindo da convicção que nenhum amor é para sempre
sendo A o mínimo absoluto do que és capaz de amar
e 1 uma falha de expressão comum ao tempo
em que sofrias fechada num quarto
a sentir uma régua de luz com origem sobre o teu rosto
a definir a região inundada do teu espaço
à medida que o tempo ocupa uma parte da cidade
e a tua situação representada numa estação de comboios
onde o esquema da vida se define por perpendiculares
aos dias cruzados na tua memória
sendo cada dia um gesto que te posiciona
em relação a todos os medos
mentiras de origem abjectas
e a proporção de ípsilon na mais estranha irracionalidade
no centro de um jardim onde se passeia geometricamente
apenas com o pensamento intimamente ligado
por símbolos de circunferência e dimensões harmoniosas
comparando o valor da vida à mais bela arquitectura
da experiência e da perda
um processo prático desenvolvido no laboratório
das horas mais simples e gráficas
ordenadas de uma forma circular
no teu caso um valor compreendido
entre duas questões humanas
por comparação do que foi destruído
pois há uma maior concentração de tristeza nos teus olhos
se designarmos por sofrimento algumas atitudes provocadas por 1
e se traçarmos duas rectas de amor paralelas à desigualdade de amar
e que passem pelos dias intuitivamente felizes
nesse quarto classificado de nuvens pesadas
onde a tua vida é agora inferior à média da felicidade
se concluirmos que o estado de ser feliz é um ponto diário
que varia de predominância e influência
nos tempos nulos condenados e negativos
na figura mínima encostada ao balcão do álcool
numa noite de cubos de gelo
e o que uma bebida especial
servida à mistura com a estratégia das palavras fez dos teus planos
calculando agora o valor referente aos lucros do amor e das promessas
introduz as marcas do teu corpo e obténs as medidas do teu prejuízo
define o tempo correspondente a cada acto de amor
seleccionando o menu da tua experiência
e tens uma lista que confirma o historial da tua personalidade
para que função o problema X tem significado
se o volume da tua casa tem todas as janelas fechadas
e o teu corpo é um fio de comprimento que mede a solidão dos dias
ou se os teus braços já não traçam uma recta de prazer abaixo da cintura
ou ainda se o teu sexo é um foco distante que se fecha em curva
e não há intersecção nem arco entre dois corpos
considerando as arestas da tua vida propriedade de defesa
uma estimativa do tempo ao fim do qual tudo se perde
e tens deste modo um amor protagonizado pelo desespero
sujeito às regras da obediência e da ilusão.
.
Fernando Esteves Pinto
em Os Dias do Amor (antologia)
2009, Ministério dos Livros
.
.
Fernando Esteves Pinto nasceu em Cascais em 1961. Colaborou no DN Jovem e no Jornal de Letras. Em 1990 recebeu o Prémio Inasset Revelação de Poesia do Centro Nacional de Cultura. É publicado em Espanha  por revistas literárias e editores independentes. Em 1998 obteve uma bolsa de criação literária  pelo Ministério da  Cultura /Instituto Português do Livro e das Bibliotecas. Está representado na Antologia DN Jovem, 1990, na antologia "Os Dias do Amor" (Ministério dos Livros, 2009) e na Antologia "O Prisma de Muitas Cores" (Labirinto, 2010). É editor da Revista Sulscrito e das editoras 4 Águas e Popsul, e esteve na criação da Linguagem de Cálculo, associação cultural que de dedica à promoção da arte, sobretudo do Algarve, da qual é vice-presidente.

A sua obra inclui:


Na Escrita e no Rosto (poesia) Editora Europresas;
Siete Planos Coreográficos (poesia, edição bilingue) Editora 1900, Huelva;
Ensaio Entre Portas (poesia) Editora Almargem;
Conversas Terminais (romance) Editora Campo das Letras;
Sexo Entre Mentiras (romance) Editora Leiturascom.Net.
Privado (textos, ficção) Canto Escuro
Área Afectada (poesia) Editora Temas Originais.
.
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Artigo de Sylvia Beirute

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segunda-feira, 1 de novembro de 2010

ANTONIO CÍCERO: POEMAS, POESIA, ANÁLISE CRÍTICA, BIOGRAFIA




















sb: série poetas


ANTONIO CÍCERO

Escrever boa poesia sobre a contemporaneidade é necessariamente um risco, ainda que poucos o percebam, embrenhados que estão num simplismo gratuito ou, no extremo oposto, nos confins de uma linguagem sem correspondência. Ainda há pouco, numa conversa sobre poesia que mantinha com Ricardo Domeneck, ele mostrava-me uma citação de The ABC of Reading, de Ezra Pound, em que este se referia ao equilíbrio que deve existir na poesia, o difícil equilíbrio da poesia, dentro do qual  "o poema deveria entusiasmar o leigo e deliciar o especialista". Toda esta introdução inicial serve para falar do poeta brasileiro Antonio Cícero (Rio de Janeiro, 1945), ele que congrega nos seus poemas os equilíbrios entre consciência e inconsciência, compreensão e conformação, contemplação e crítica. Fá-lo numa linguagem ecléctica, com denominadores comuns de actualidade e casualidade; uma linguagem que lhe busca o sublime sem esforço, a análise, pela imagem, que a palavra suporta ao receber o que se afasta, aproximando-o da voz pragmática mas proteccionista do sujeito. Esta poesia formula a plenitude da sua liberdade, a liberdade dos olhos, reais ou virtuais, que parecem sobreviver à sobrevivência dos outros sentidos, sobrevivência que é um misto de opacidade e transparência, requinte e destronização. Por isso, trata-se de uma poética com um pendor reflexivo muito assinalável, sempre procurando as instâncias intermédias da visualização de lugares, de matérias, de temas do íntimo. Algumas composições são de índole confessional, assemelhando-se ao conteúdo de epístolas. Há como que um diálogo entre dois sujeitos poéticos em épocas e condições sociais distintas. É como se um procurasse o outro e lhe desse imagens de um outro tempo, de uma realidade com predisposições diferentes. Como tal, encontra-se em Antonio Cícero diferentes estados de consciência, por vezes um lado ingénuo que confere aos poemas autenticidade e ao mesmo tempo uma autonomia e independência para se oferecerem, de corpo (forma) e alma (conteúdo), à poesia, à poesia que muda, que nunca tem certezas de nada, que busca a beleza, ainda que esta  se apresente como  exageradamente verdadeira, violenta e cega.

Poemas Seleccionados:


A CIDADE E OS LIVROS

para D.Vanna Piraccini

O Rio parecia inesgotável
àquele adolescente que era eu.
Sozinho entrar no ônibus Castelo,
saltar no fim da linha, andar sem medo
no centro da cidade proibida,
em meio à multidão que nem notava
que eu não lhe pertencia - e de repente,
anônimo entre anônimos, notar
eufórico que sim, que pertencia
a ela, e ela a mim - , entrar em becos,
travessas, avenidas, galerias,
cinemas, livrarias: Leonardo
da Vinci Larga Rex Central Colombo
Marrecas Íris Meio-Dia Cosmos
Alfândega Cruzeiro Carioca
Marrocos Passos Civilização
Cavé Saara São José Rosário
Passeio Público Ouvidor Padrão
Vitória Lavradio Cinelândia:
lugares que antes eu nem conhecia
abriam-se em esquinas infinitas
de ruas doravante prolongáveis.

Antonio Cícero 

*

O PAÍS DAS MARAVILHAS

Não se entra no país das maravilhas,
pois ele fica do lado de fora,
não do lado de dentro. Se há saídas
que dão nele, estão certamente à orla
iridescente do meu pensamento,
jamais no centro vago do meu eu.
E se me entrego às imagens do espelho
ou da água, tendo no fundo o céu,
não pensem que me apaixonei por mim.
Não: bom é ver-se no espaço diáfano
do mundo, coisa entre coisas que há
no lume do espelho, fora de si:
peixe entre peixes, pássaro entre pássaros,
um dia passo inteiro para lá.

Antonio Cícero

*

SAIR

Largar o cobertor, a cama, o
medo, o terço, o quarto, largar
toda simbologia e religião; largar o
espírito, largar a alma, abrir a
porta principal e sair. Esta é
a única vida e contém inimaginável
beleza e dor. Já o sol,
as cores da terra e o
ar azul — o céu do dia —
mergulharam até a próxima aurora; a
noite está radiante e Deus não
existe nem faz falta. Tudo é
gratuito: as luzes cinéticas das avenidas,
o vulto ao vento das palmeiras
e a ânsia insaciável do jasmim;
e, sobre todas as coisas, o
eterno silêncio dos espaços infinitos que
nada dizem, nada querem dizer e
nada jamais precisaram ou precisarão esclarecer.

Antonio Cícero 
.
*
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MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA

Fica em Boa Viagem. Disco voador
ele não é, pois não pousou na pedra
mas se ergue sobre ela; nem alça vôo:
à orla de cidades e florestas
suspende-se no ar feito pergunta
e o que tem dentro mergulha e se banha
no mundo em volta e o mundo em volta o inunda:
é o museu fora de si, de atalaia
à curva do abismo, à altura das musas,
sobre o mar, sobre a pedra sobre o mar,
e sobre o espelho d'água em que se apura
sobre essa pedra um mar a flutuar,
um céu na terra, quase nada, um aire,
a flor de concreto do Niemeyer.
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Antonio Cícero
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BALANÇO

A infância não foi uma manhã de sol:
demorou vários séculos; e era pífia,
em geral, a companhia. Foi melhor,
em parte, a adolescência, pela delícia
do pressentimento da felicidade
na malícia, na molícia, na poesia,
no orgasmo; e pelos livros e amizades.
Um dia, apaixonado, encarei a minha
morte: e eis que ela não sustentou o olhar
e se esvaiu. Desde então é a morte alheia
que me abate. Tarde aprendi a gozar
a juventude, e já me ronda a suspeita
de que jamais serei plenamente adulto:
antes de sê-lo, serei velho. Que ao menos
os deuses façam felizes e maduros
Marcelo e um ou dois dos meus futuros versos.
.
Antonio Cícero
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Antonio Cícero nasceu no Rio de Janeiro, em 1945 e é formado em Filosofia pelo University College da Universidade de Londres. Poeta e ensaísta, é autor, entre outras coisas, dos livros de poemas Guardar (Record, 1996 - Prêmio Nesdé) e A cidade e os livros (Record, 1996), assim como do ensaio filosófico O mundo desde o fim (Francisco Alves, 1995) e do livro de ensaios sobre poesia e arte Finalidades sem fim (Companhia das Letras, 2005). Junto com o poeta Waly Salomão, editou o livro de ensaios O relativismo enquanto visão do mundo (Francisco Alves, 1994) e organizou a Nova antologia poética de Vinícius de Moraes (Companhia das Letras, 2003). Letrista de canção popular, tem como parceiros e intérpretes Marina Lima, Adriana Calcanhotto, João Bosco e Caetano Veloso, entre outros.
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Artigo de Sylvia Beirute
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segunda-feira, 25 de outubro de 2010

GERTRUDE STEIN - POEMAS, POESIA, ANÁLISE CRÍTICA, OBRAS




















sb: série poetas


A poesia de Gertrude Stein (3 de Fevereiro de 1874, Pittsburgh, Estados Unidos da América- 27 de Julho de 1946, Paris) é de orientação personalista, tentacular à mitificação das coisas simples, e com um lado argumentativo e filosófico que a faz estar muito à frente do seu tempo. E nem se diga que é apenas pelo conteúdo destes poemas. Gertrude Stein foi também uma criadora de objectos formais, experimentalista no avanço prático das razões dos seus poemas. Um dos aspectos essenciais que lhe moldam o estilo é o uso recorrente de repetições. O texto poético ganha um ritmo muito peculiar, força a menos paragens, e a respiração é suave. (Se eu lhe contasse ele gostaria. Ele gostaria se eu lhe contasse. / Ele gostaria se Napoleão se Napoleão gostasse gostaria ele gostaria. / Se Napoleão se eu lhe contasse se eu lhe contasse se Napoleão. / Gostaria se eu lhe contasse se eu lhe contasse se Napoleão./ Gostaria se Napoleão se Napoleão se eu lhe contasse. / Se eu lhe contasse se Napoleão se Napoleão se eu lhe contasse. / Se eu lhe contasse ele gostaria ele gostaria se eu lhe contasse. / Já. / Não já. / E já./ Já. - em "Se eu lhe contasse: um retrato acabado de Picasso", tradução de Augusto de Campos). Há nesta poesia, cuja forma é indissociável do seu conteúdo, e se confunde com ele, a busca pelo lado indirecto das coisas, aquele que, curiosamente, é muitas vezes o mais presente na vida humana. A vida é, pois, feita de indecisões, de realidades dentro de realidades, de dúvidas que aparecem com toda a resistência e mundividência. O corpus dos poemas de Stein respeita essa beleza natural das coisas, essa insurreição das palavras que a devem reproduzir e alargar o espírito. Por outro lado, esta poesia aparece como espaço de automeditação, campo de existência de uma cosmovisão expressa na errância das imagens, na retórica das pausas, nas contradições que dão segurança a uma autenticidade. Aí há uma decomposição dos elementos, que após tal facto adquirem uma autonomia complexa, ou melhor, um complexo de pequenos fragmentos, todos eles ascendendo ao todo temático, à expressão das suas consequências. Importa notar que não há em Gertrude Stein uma raiz lírica, ao contrário de muitos dos seus contemporâneos, havendo, pelo contrário, um espírito de vanguarda que ainda se mantém. Os poemas são híbridos, alguns próximos daquilo que eu chamo de "extrapoesia", procurando aspectos da dramaturgia, senão do ensaio. Stein era uma grande intelectual do princípio do século XX e talvez esse hibridismo da sua obra poética se deva ao contacto com personalidades das mais diversas áreas e tendências  (Pablo Picasso, Matisse, Georges Braque, Derain, Juan Gris, Apollinaire, Francis Picabia, Ezra Pound,  Ernest Hemingway e James Joyce, etc). A leitura desta poesia faz lembrar, em muitos aspectos, o surrealismo, embora na sua construção os processos sejam distintos. Stein procura, como se poderá ver na poesia abaixo seleccionada, os significados dentro dos significados, a decomposição dos sentidos e ideias, fazendo-o com expedientes mentais, sempre controlados por si.

Selecção de poemas:

STANZA II

I think very well of Susan but I do not know her name
I think very well of Ellen but which is not the same
I think very well of Paul I tell him not to do so
I think very well of Francis Charles but do I do so
I think very well of Thomas but I do not not do so
I think very well of not very well of William
I think very well of any very well of him
I think very well of him.
It is remarkable how quickly they learn
But if they learn and it is very remarkable how quickly they learn
It makes not only but by and by
And they can not only be not here
But not there
Which after all makes no difference
After all this does not make any does not make any difference
I add added it to it.
I could rather be rather be here.



STANZA II

Penso muito bem de Susan mas não sei o seu nome
Penso muito bem de Ellen mas não é o mesmo
Penso muito bem de Paul digo-lhe que não o faça
Penso muito bem de Francis Charles mas faço-o
Penso muito bem de Thomas mas não não o faço
Penso muito bem de não muito bem de William
Penso muito bem de qualquer muito bem dele
Penso muito bem dele.
É notável que rápido aprendem
Mas se aprendem e é muito notável a rapidez com que o fazem
Suponho não somente senão por e por
E podem não somente estar não aqui
senão não aí
O que afinal não faz diferença
O que afinal não faz nenhuma não faz nenhuma diferença
Adiciono o adicionado a isso.
Bem podia de preferência estar de preferência estar aqui.

Gertrude Stein
Tradução de Pedro Calouste
.
*
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STANZA XXXVIII

Which I wish to say is this
There is no beginning to an end
But there is a beginning and an end
To beginning.
Why yes of course.
Any one can learn that north of course
Is not only north but north as north
Why were they worried.
What I wish to say is this.
Yes of course.


STANZA XXXVIII

O que desejo dizer é isto
Não há princípio de um fim
Mas há um princípio e um fim
Para um princípio.
Porquê sim claro.
Qualquer um pode aprender esse norte claro
Não é somente norte mas norte como norte
Por que estavam eles preocupados.
O que quero desejo dizer é isto.
Sim claro.
 
Gertrude Stein
Tradução de Pedro Calouste

.
*
.
IF I TOLD HIM: A COMPLETED PORTRAIT OF PICASSO

If I told him would he like it. Would he like it if I told him.
Would he like it would Napoleon would Napoleon would would he like it.
If Napoleon if I told him if I told him if Napoleon. Would he like it if I told him if I told him if Napoleon. Would he like it if Napoleon if Napoleon if I told him. If I told him if Napoleon if Napoleon if I told him. If I told him would he like it would he like it if I told him.
Now.
Not now.
And now.
Now.
Exactly as as kings.
Feeling full for it.
Exactitude as kings.
So to beseech you as full as for it.
Exactly or as kings.
Shutters shut and open so do queens. Shutters shut and shutters and so
shutters shut and shutters and so and so shutters and so shutters shut and so shutters shut and shutters and so. And so shutters shut and so and also. And also and so and so and also.
Exact resemblance. To exact resemblance the exact resemblance as exact
as a resemblance, exactly as resembling, exactly resembling, exactly in
resemblance exactly a resemblance, exactly and resemblance. For this is so.
Because.
Now actively repeat at all, now actively repeat at all, now actively repeat at all.
Have hold and hear, actively repeat at all.
I judge judge.
As a resemblance to him.
Who comes first. Napoleon the first.
Who comes too coming coming too, who goes there, as they go they share, who shares all, all is as all as as yet or as yet.
Now to date now to date. Now and now and date and the date.
Who came first. Napoleon at first. Who came first Napoleon the first.
Who came first, Napoleon first.
Presently.
Exactly do they do.
First exactly.
Exactly do they do too.
First exactly.
And first exactly.
Exactly do they do.
And first exactly and exactly.
And do they do.
At first exactly and first exactly and do they do.
The first exactly.
And do they do.
The first exactly.
At first exactly.
First as exactly.
As first as exactly.
Presently
As presently.
As as presently.
He he he he and he and he and and he and he and he and and as and as he
and as he and he. He is and as he is, and as he is and he is, he is and as he and he and as he is and he and he and and he and he.
Can curls rob can curls quote, quotable.
As presently.
As exactitude.
As trains
Has trains.
Has trains.
As trains.
As trains.
Presently.
Proportions.
Presently.
As proportions as presently.
Father and farther.
Was the king or room.
Farther and whether.
Was there was there was there what was there was there what was there
was there there was there.
Whether and in there.
As even say so.
One.
I land.
Two.
I land.
Three.
The land.
Three
The land.
Three
The land.
Two
I land.
Two
I land.
One
I land.
Two
I land.
As a so.
They cannot.
A note.
They cannot.
A float.
They cannot.
They dote.
They cannot.
They as denote.
Miracles play.
Play fairly.
Play fairly well.
A well.
As well.
As or as presently.
Let me recite what history teaches. History teaches.


SE EU CONTASSE: UM RETRATO ACABADO DE PICASSO

Se eu lhe contasse ele gostaria. Ele gostaria se eu lhe contasse.
Ele gostaria se Napoleão se Napoleão gostasse gostaria ele gostaria.
Se Napoleão se eu lhe contasse se eu lhe contasse se Napoleão. Gostaria se eu lhe contasse se eu lhe contasse se Napoleão. Gostaria se Napoleão se Napoleão se eu lhe contasse. Se eu lhe contasse se Napoleão se Napoleão se eu lhe contasse. Se eu lhe contasse ele gostaria ele gostaria se eu lhe contasse.
Já.
Não já.
E já.
Já.
Exactamente como como reis.
Tão totalmente tanto.
Exactidão como reis.
Para te suplicar tanto quanto.
Exactamente ou como reis.
Fechaduras fecham e abrem e assim rainhas. Fechaduras fecham e fechaduras e assim fechaduras fecham e fechaduras e assim e assim fechaduras e assim fechaduras fecham e assim fechaduras fecham e fechaduras e assim. E assim fechaduras fecham e assim e assado.
Exacta semelhança e exacta semelhança e exacta semelhança como exacta como uma semelhança, exactamente como assemelhar-se, exactamente assemelhar-se, exactamente em semelhança exactamente uma semelhança, exactamente a semelhança. Pois é assim a acção. Porque.
Repita prontamente afinal, repita prontamente afinal, repita prontamente afinal.
Pulse forte e ouça, repita prontamente afinal.
Juízo o juiz.
Como uma semelhança a ele.
Quem vem primeiro. Napoleão primeiro.
Quem vem também vindo vindo também, quem vem lá, quem vier virá, quem toma lá dá cá, cá e como lá tal qual tal ou tal qual.
Agora para dar data para dar data. Agora e agora e data e a data.
Quem veio primeiro Napoleão de primeiro. Quem veio primeiro. Napoleão primeiro. Quem veio primeiro, Napoleão primeiro.
Presentemente.
Exactamente eles vão bem.
Primeiro exactamente.
Exactamente eles vão bem também.
Primeiro exactamente.
E primeiro exactamente.
Exactamente eles vão bem.
E primeiro exactamente e exactamente.
E eles vão bem.
E primeiro exactamente e primeiro exactamente e eles vão bem.
O primeiro exactamente.
E eles vão bem.
O primeiro exactamente.
De primeiro exactamente.
Primeiro como exactamente.
De primeiro como exactamente.
Presentemente.
Como presentemente.
Como como presentemente.
Se se se se e se e se e e se e se e se e e como e como se e como se e se. Se é e como se é, e como se é e se é, se é e como se e se e como se é e se e se e e se e se.
Cachos roubam anéis cachos fiam, fiéis.
Como presentemente.
Como exactidão.
Como comboios.
Tomo comboios.
Tomo comboios.
Como comboios.
Como comboios.
Presentemente.
Proporções.
Presentemente.
Como proporções como presentemente.
Pais e pois.
Era rei ou quarto.
Pois e vez.
Uma vez uma vez uma vez era uma vez o que era uma vez uma vez uma vez era uma vez vez uma vez.
Vez e em vez.
E assim se fez.
Um.
Eu aterro.
Dois.
Aterro.
Três.
A terra.
Três.
A terra.
Três.
A terra.
Dois.
Aterro.
Um.
Eu aterro.
Dois.
Eu te erro.
Como um tão.
Eles não vão.
Uma nota.
Eles não notam.
Uma bota.
Eles não anotam.
Eles dotam.
Eles não dão.
Eles como denotam.
Milagres dão-se.
Dão-se bem.
Dão-se muito bem.
Um bem.
Tão bem.
Como ou como presentemente.
Vou recitar o que a história ensina. A história ensina.
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Gertrude Stein
tradução de Augusto de Campos
adaptado por Pedro Calouste

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Obra Inclui:
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Ligações Úteis:
Revista Sibila - Gertrude Stein: Um Fracasso Moderno
Revista Modo de Usar & Co, por Augusto de Campos
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Artigo de Sylvia Beirute
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