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quinta-feira, 11 de novembro de 2010

A TEMÁTICA DO TEMPO NA POESIA MODERNA

























A TEMÁTICA DO TEMPO NA POESIA MODERNA

Tenho escrito essencialmente poemas para o futuro. Ainda que o seu corpo os remeta para um tempo passado, ainda que as palavras pareçam exorcizar fantasmas do passado. Em bom rigor não existem poemas do passado. No preciso momento em que se escreve só há presente e futuro. É esta a escolha natural pela qual o poeta se bate. Não falaria em opção, uma vez que não me parece que um poeta, um dos verdadeiros, tenha opções quanto ao que escreve. É sim um seguir um caminho que emerge do próprio poeta. É como olhar. Pode-se olhar ao perto, ao longe, para os lados. Pouco sentido faz falar em opções do olhar. A poesia, como a concebo, é um submundo da natureza, um submundo que oscila entre pólos e que é posto a girar em virtude de situações acidentais e defeitos do ser humano. Só um poema para o futuro pode alterar o que quer que seja. Aplica-se aqui o que disse em relação a Herberto Helder. A questão do reviver e já não do reproduzir. É que este reviver é um viver actualizado, com os condimentos da ficção resfriadora do intervalo que passou, com a distância que permite ver melhor. O poeta, se quiser mudar (o seu) mundo, deverá assumir os riscos desse distanciamento, dispor das palavras como peças num jogo de xadrez, até à última palavra, à última peça. E assim será fazendo previsões, o que não é mais do que imaginar imagens e dispará-las num tempo sem finitude, criar ampliações, diminuições de fenómenos do interior, retirar utilidade às coisas, humanizá-las, como faz Manoel de Barros. Bem se sabe que a missão não se assegura fácil. E por isso mesmo é que, quando acontece, é mágico e é poesia, não oferecendo equívocos na qualificação.

Sylvia Beirute
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segunda-feira, 8 de novembro de 2010

ARISTÓTELES - POÉTICA



















O poeta é imitador, como o pintor ou qualquer outro imaginário; por isso, sua imitação incidirá num destes três objectos: coisas quais eram ou quais são, quais os outros dizem que são ou quais parecem, ou quais deveriam ser. Tais coisas, porém, ele as representa mediante uma elocução que compreende palavras estrangeiras e metáforas e que, além disso, comporta múltiplas alterações, que efectivamente consentimos ao poeta.

Acresce, ainda, que não é igual o critério de correcção na poética e na política, e, semelhantemente, o de qualquer outra arte, em confronto com a poesia. Na arte poética, erros de duas espécies se podem dar: essenciais ou acidentais. Portanto, se propostos tais objectos, a imitação resulta deficiente por incapacidade do poeta, o erro é intrínseco à própria poesia; se, pelo contrário, o defeito consiste apenas em não haver concebido corretamente o objecto da imitação - como querendo imitar um cavalo que movesse a um tempo as duas patas do lado direito- o erro não é intrínseco à poesia, como o não é qualquer que se cometa relativamente a uma arte particular (medicina ou outra), ou quando se representam coisas impossíveis.

Importa, por conseguinte, resolver as críticas que os problemas contêm, considerando-as dos pontos de vista precedentes.

Primeiro, vejamos as críticas respeitantes à própria arte. O poeta representou impossíveis. É um erro - desculpável, contudo, se atingiu a finalidade própria da poesia (da finalidade já falámos), e se, de tal maneira, resultou mais impressionante essa parte do poema, ou outra qualquer. Exemplo: a perseguição de Heitor. Mas, caso possa atingir mais ou menos a mesma finalidade, respeitando as regras da arte, o erro é injustificável, porque, sendo possível, não deveria haver erro nenhum.

Mas então vejamos: será o erro cometido daqueles que ofendem a essência da arte, ou não será antes um erro acidental à poesia? Pois falta menor comete o poeta que ignore que a corça não tem cornos, que o poeta que a represente de modo não artístico.

Aristóteles
em Poética
tradução de Eudoro de Sousa
Imprensa Nacional-Casa da Moeda
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segunda-feira, 1 de novembro de 2010

ANTÓNIO RAMOS ROSA - A POBREZA DA POESIA

A POBREZA DA POESIA

A poesia é uma linguagem na linguagem, como disse, se não me engano, Paul Valéry. Nela as palavras da linguagem comum são transmutadas numa metamorfose essencial. Diante da página branca, o poeta é um ser despojado que ignora o que vai fazer, porque nenhuma técnica, nenhum sentimento, nenhuma ética pode predeterminar a eclosão do poema que é uma espécie de relâmpago entre dois pólos (a linguagem e o silêncio ou a consciência e o desconhecido) sem que, no entanto, a palavra atinja a plenitude total, uma vez que ela é apenas o pressentimento de uma palavra absoluta. Assim como há uma cumplicidade imediata do espaço quando nos deslocamos nele ou quando contemplamos uma paisagem, assim o poema insere-nos imediatamente no seu espaço próprio, quer o interpretemos logo, quer nos deslumbremos com o seu fulgor enigmático, sem apreender o seu significado. A poesia é uma invenção livre e aberta mas é ao mesmo tempo uma insurreição vital, a eclosão de insuspeitadas energias que se actualizam na palavra segundo um modo de organização flexível e uma coerência não constrangedora para a sua incoerência essencial. Na medida em que a palavra poética se abre ao informulado, o poeta ignora o que faz e por isso o poema não é uma experiência nem a apropriação de um objecto de conhecimento. O poeta transpõe este momento fugidio, mas total e uno, numa linguagem que tende a preservar esse momento e a dar-lhe continuidade através das vicissitudes e transgressões da operação poética. Daí que o poeta seja um fingidor, como diz Pessoa, porque, embora tendo vivido esse instante de graça, tem de reinventá-lo e transpô-lo num plano em que a conivência com esse momento originário terá de ser uma conversão e não uma tradução ou uma confirmação, uma ficção e não uma reprodução. Se assim é, a leitura poética terá de ter em conta o que ultrapassa as significações a fim de sentir na ficção do poema a pulsação desse momento que precedeu o poema e que o poema reinaugura na sua substância verbal. O poema é, na sua essência, uma realização e uma libertação do silêncio. É o silêncio que converte a palavra numa palavra poética, tornando-a assim irredutível à significação e à determinação do sentido. Porque o silêncio é indeterminável e indefinível e ao ser libertado pela palavra poética não perde a sua indeterminação. Elie Wiesel diz, num número do Le Courrier do Centre International d'Études Poétiques: «Le poète se sert de la parole non pas pour la subjuguer, ni même pour en dégager un sens caché, mais pour en libérer le silence emprisonné avant la libérer elle-même». Por sua vez, Eduardo Lourenço escreveu num artigo publicado há tempos no Jornal de Letras a seguinte frase que eu retive de memória: «Deus é uma não imagem, um silêncio». Esta frase impressionou-me muito e embora não se referisse à poesia, mas a Deus, relacionei-a com a criação poética. É que, em verdade, o silêncio na poesia é uma comunicação essencial com o desconhecido ou o indizível. Ao contrário das palavras dos homens públicos, que falam «subjugando» a palavra, ao contrário dos que têm uma «mensagem» e que supõem possuir a autoridade que uma mensagem requer, o poeta não fala em nome de ninguém, nem dele próprio, inventando o seu caminho, num ritual que se renova em cada poema a partir da página em branco. Por isso as suas palavras são pobres e ao mesmo tempo singularmente ricas, verdadeiras e falsas, fictícias e plenas de substância sensível do real. O poeta dá o que não tem, num gesto que ultrapassa a sua individualidade e assim consagra o Uno, o essencial. Contra todos os sistemas, o poeta mantém viva, pela linguagem, a respiração do desejo.

António Ramos Rosa,
em A Parede Azul
(Estudos sobre poesia e artes plásticas)

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quinta-feira, 28 de outubro de 2010

ANTÓNIO RAMOS ROSA - O POEMA ABERTO E NU

O POEMA ABERTO E NU

Estar no mundo é ter a experiência de uma participação e ao mesmo tempo de uma separação irredutível. A distância que o homem sente em relação ao mundo tem uma correspondência na linguagem que é constituída por significantes em que o objecto ou o referente só está presente através da distância da palavra em relação ao objecto. Por isso se pode dizer que a presença do referente na palavra é a presença da ausência. É nesta distância que o poeta cria e constitui o poema que, no seu modo de ser, não representa nem traduz, porque o poema é o fruto de uma imaginação radical que segue mais as impulsões do inconsciente do que as determinações da razão e da consciência. Por isso a poesia é indeterminável. Contra o mito da totalidade racional e contra as determinações da sociedade, a poesia erige-se fiel ao mito da integridade do ser, ou seja, da união do divino e do terrestre, segundo a tradição das sociedades primitivas e da civilização grega, por exemplo. É assim que a separação ontológica do homem pode coincidir, em certos momentos, com a unidade primeira que o ser humano conhecer nos seus primórdios. E se formos mais longe, poderemos dizer até que o poeta reactualiza por vezes a unidade da matéria inorgânica a que todo o ser vivo tende a regressar, segundo Freud. É por esta razão que o poema é originário e irredutível na sua indeterminação. As energias que o promovem diferenciam-no de todo e qualquer modelo estabelecido pela representação social ou pela racionalidade da consciência. Vemos assim que a poesia é a abertura nua que não se pode delimitar, a intimidade mais pura e mais selvagem de algo que não podemos traduzir ou determinar segundo os esquemas da compreensão racionalizante. Todavia, o poema não é um enigma. Ele é evidente na sua obscuridade ou na sua claridade ofuscante. O poema é uma manifestação da origem ou, por outras palavras, da Vida absoluta, e por isso mesmo é um mistério real. O leitor, tal como o poeta, é um cego que não tem outra luz além daquela que o poema projecta sobre si.

António Ramos Rosa,
em A Parede Azul
(Estudos sobre poesia e artes plásticas)

sobre a obra poética de António Ramos Rosa, seguir este link.
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terça-feira, 19 de outubro de 2010

POEMA E POESIA: TENTATIVA DE DISTINÇÃO

























Entrando no assunto da construção do poema, discussão benignamente gerada na qualidade de alguns blogues do sul, deixo um contributo que pretende focar a génese.


POEMA E POESIA: TENTATIVA DE DISTINÇÃO
contributo pessoal

É curial a distinção nos dias de hoje, mais do que antigamente, entre poema e poesia. Costumo distinguir estas duas realidades tomando a análise dos versos do poema (o poema enquanto conjunto de versos). Para mim um poema contém poesia se cada um dos seus versos, tomado isoladamente, de certa forma contrariar o tema do poema e conseguir ter uma existência autónoma. Caso não o consiga, muito provavelmente esse verso terá uma linha muito recta entre si e o seu único significado e a probabilidade de não conter poesia é grande.
Gosto de entender a poesia, separando-a definitivamente da prosa, enquanto contraficção. O que quero dizer é tão-somente isto: a vida impõe-nos uma ficção mais ou menos consciente: vamos para o trabalho, deparamo-nos com as mais variadas situações do dia-a-dia, há uma gestão pessoal que nos é, mais ou menos, imposta, há gente bem intencionada, gente mal intencionada no nosso caminho, etc. A poesia, enquanto momento de libertação, pode ser uma contra-resposta pessoal em termos de reequilíbrio do cérebro e emoções. Será essa contraficção. Mas esta contraficção pode e deve fugir à frieza da realidade em estado puro; pode e deve, também, conter elementos de nova ficção, de fantasia, do poético como o defini acima, da realidade que se superioriza em altura, dentro de uma linguagem que pretende descobrir o oculto, o longínquo. Talvez a diferença entre poema e poesia se resuma, afinal, a um «ver ao perto», no caso do poema que não participa da poesia como a configurei, e a um «ver ao longe», no caso da poesia propriamente dita, a mesma que pode ser encontrada no interior de um poema ou noutro qualquer texto.

Sylvia Beirute

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

UMA LISTA DE COMPRAS PODE SER POESIA? por Pedro Ludgero























UMA LISTA DE COMPRAS PODE SER POESIA?

Vamos para Moscovo em Junho, mas até lá ainda faltam Fevereiro, Março, Abril, Maio…”
(Irina em “Três irmãs” de Anton P. Tchekhov)

Qualquer fala de uma peça de Tchékov obriga a que a personagem que a exprime se fale sempre por inteiro. Daí a especial densidade que encenadores, actores, e público reconhecem nos diálogos aparentemente simples do escritor russo. Neste exemplo acima transcrito, Irina, a mais nova das três irmãs (que tudo o que deseja é sair da pequena cidade de província na qual não tem expectativas de uma vida satisfatória, para assim poder regressar a Moscovo, onde passou uma infância feliz, e que por isso mesmo confunde com um lugar de esperança), diz algo de terrível, apesar de não ter consciência disso. Pois as três irmãs nunca chegarão a ir para Moscovo. E assim, Fevereiro, Março, Abril e Maio, sofrerão um processo de adensamento e passarão a representar muito mais tempo do que aquele que na verdade representam. Serão o símbolo do interminável tempo da infelicidade, a multiplicação dos dias correntes da vida por todo o tédio do mundo. Mas convém sublinhar que Tchékov não escreveu: Vamos para Moscovo em Junho, mas até lá ainda falta tanto tempo… Não. O dramaturgo deu-se ao trabalho de enumerar os meses que faltariam até à esperada libertação. Porquê? Será Irina um pouco masoquista, e assim especifique o nome de cada mês para sentir a dor da espera de forma mais detalhada? Ou, pelo contrário, dirá cada um daqueles nomes como se já saboreasse de antemão o ponto de chegada? Como se cada palavra fosse uma guloseima que permitisse antecipar, por um processo especificamente literário, o festim final?
Isto coloca-nos perante o problema da enumeração enquanto recurso criativo.
No seu poema “The wild swans at Coole”, o poeta irlandês William Butler Yeats encena uma tensão entre dois números que confere todo o mistério a uma temática razoavelmente tchekhoviana: a perda de alegria, de esperança, de vitalidade. Num cenário outonal, o poeta contempla os cisnes selvagens que se banham nas águas da região de Coole. São cinquenta e nove. Não sabemos se esse número, que nada tem de mítico, se refere a algum dado oculto, mas concreto, que altere o sentido do poema. Seja como for, a imposição de um número concreto a uma realidade que se pretende lírica, é desde logo causadora de estranheza onírica.
Logo a seguir, o poeta lembra-se de ter contado esses cisnes, no mesmo local, dezanove anos antes. Os dois noves postos em cena estabelecem, de imediato, uma relação entre os dois números. São números prestes a descambarem na dezena, na iminência de serem arredondados por adição. Todavia, a diferença entre eles é abissal. Pois enquanto os dezanove anos se referem a uma passagem do tempo (é um número dinâmico, ainda que lentamente dinâmico), havendo aqui um progresso, os cinquenta e nove cisnes são a matemática do instante em que o poeta os contou, compõem uma evidência vertical.
Os cinquenta e nove cisnes do passado são a imagem que determinou a emotividade do sujeito lírico, imagem essa que se cristalizou e manteve alguns dos seus elementos imutáveis, apesar de ter perdido força com a decadência de vitalidade desse sujeito. A imagem envelheceu adquirindo tons sépia (tornou-se outonal, como uma fotografia), mas o que não envelheceu foi o número: cinquenta e nove. O poeta afirma mesmo que os cisnes continuam a ser movidos pela paixão e pela conquista, ao contrário dele mesmo. Quer tomemos os cisnes por representantes da Natureza (a vida permanece espiritualmente inalterada em tudo aquilo que não é humano), quer sejamos exegetas mais modestos e apenas os consideremos uma imagem casual (um acaso poético que juntou a visão de um grupo de cisnes selvagens a uma génese de esperança), estamos sempre perante a tensão entre um número cristalizado (o cinquenta nove) e um número dinâmico (o dezanove); ou seja, entre uma numeração (a atribuição estável de um número) e uma enumeração (uma sucessão de números).
O que daqui queremos aproveitar não é a temática filosófica do estável contra o mutável, mas a ideia de que, quando um criador se aproxima do artifício da enumeração (neste poema, é ainda uma aproximação), o faz geralmente para aproveitar o conflito dramático entre um número específico, estático, e protagonista, e um conjunto de números secundários em evolução, conflito esse que cria o verdadeiro resultado semântico potenciado pelo recurso estilístico. O número que aqui está em destaque não é propriamente o 59. Pois, na medida em que é um número invariável, em que é uma recordação congelada, torna-se claro que ele funciona como metáfora para o número UM – o número absoluto, acabado, imóvel, eterno, que só pode ser desfeito pelo despertar de um longo sono (a passagem para 60 – entrada em cena do zero, do qual falaremos mais à frente).
Se agora analisarmos um poema que recorre especificamente à enumeração, podemos entender toda a força que o procedimento pode obter. Falo do magnífico “The goblin’s market”, texto em que Christina Rossetti, poeta pré-rafaelita, parece ter conseguido superar-se a si mesma.
O texto é suficientemente complexo para acolher os mais diversos exercícios de curiosidade. Imbuído do ar de um tempo vitoriano, o poema interessará tanto aos puritanos que nele verão uma moral exemplar (uma adolescente condenada por ter sucumbido a um prazer proibido, redimida apenas pela coragem astuta da irmã), como àqueles religiosos que assumem o seu fascínio pelas diversas dimensões do prazer, e que, por isso mesmo, são especialmente sensíveis à criatividade da tentação (os frutos que os gnomos vendem à jovem constituem um desregulado espectáculo para os sentidos, espectáculo ao qual a poeta dá o necessário provimento estilístico). Para além disso, Christina Rossetti construiu o seu poema narrativo como se fosse um conto de fadas, cheio de subtis achados feéricos acompanhados de segundos, terceiros (e etc.) sentidos, opção que tanto agradará às crianças cujo gosto literário ainda não esteja demasiado formatado, como aos mais sofisticados leitores.
Passando ao lado de um assunto (a força do elo fraterno) que, no texto, nos parece deveras importante, mas que não releva para o que aqui se pretende discutir, centremos a nossa análise na questão da enumeração.
Quer-nos parecer que a principal fonte de prazer que o texto confere ao seu leitor é o seu uso obsessivo (o abuso) da enumeração. É como se esta poeta, aparentemente a mais casta do polémico grupo pré-rafaelita, fosse tão impressionável como a sua protagonista, e não fosse capaz de se distanciar das múltiplas formas de prazer prometidas não tanto pelos frutos proibidos (isso pertence à ontologia da personagem), mas pela evocação desses frutos. A partir do quinto verso, os gnomos enumeram a sua mercadoria (com tanta excitação que encavalitam mais de um fruto por verso), e logo ao quinto elemento lhe acrescentam o afecto da adjectivação (plump unpecked cherries), processo que será repetido várias vezes, com liberdade cada vez maior (como exemplo: bright-fire-like barberries). Neste enorme pregão, tudo o que aprendemos sobre os frutos ou é lírico (o sabermos que as limas vêm do Sul não é um dado mercantil, mas um desvio mítico) ou musical (a repetição que a língua inglesa permite da partícula berry), ou seja, tudo se relaciona com o propósito de fantasiar em torno do sabor dos frutos. Mas o mais importante é que esta estratégia será aplicada à totalidade do poema – a autora usa a enumeração para a descrição dos caracteres (One had a cat’s face,/ One whisked a tail,/ One tramped at a rat’s pace, etc.), das acções (One hauls a basket,/ One bears a plate,/ One lugs a golden dish, etc.), dos estados de espírito (One content, one sick in part;/ One warbling for the mere bright day’s delight,/ One longing for the night, etc.), para o exercício da comparação (Like a rush-imbedded swan,/ Like a lily from the beck,/ Like a moonlit poplar branch, etc.), ou da personificação (Moon and stars gazed in at them,/ Wind sang tothem lullaby, etc.). Ou seja, Christina Rossetti prolonga a volúpia apregoadora dos seus gnomos (caracterizada pela diversidade de oferta, e pelo embelezamento pseudo-publicitário dos produtos) na elaboração do próprio texto.
Não pretendemos salientar nem a riqueza (tanto em quantidade como em qualidade) das imagens assim conseguidas, nem o desconforto irreverente deste abuso da repetição (um trabalho notável a partir dos pressupostos formais da ladainha), nem a presumível nostalgia da escritora por uma realidade que apenas pode viver no seu texto (diferimento que é uma das características fundamentais da enumeração). Nem mesmo pretendemos chamar a atenção para o adensar afectivo que o texto provoca à medida que vai sendo lido. Queremos, isso sim, sublinhar a relação que existe entre esta estratégia retórica e a própria narrativa do poema, relação essa a partir da qual se pode estabelecer uma proposta de interpretação.
O conto de fadas em análise retira a sua comoção do facto de que a incrível variedade de frutos deliciosos só pode ser saboreada uma vez. Uma vez única. Ou seja, e recapitulando o que dissemos sobre o poema de Yeats, o que aqui está em causa é um conflito francamente dramático entre uma enumeração com tendência para a infinitude e um número cristalizado que, neste caso, é assumidamente o número UM. Fica assim encenado o dilema do prazer, nomeadamente o prazer sexual, enquanto actividade ao mesmo tempo dada à profusão (só em Itália podemos ter 1003 relacionamentos eróticos), e à singularidade (o parceiro não deve ser repetido, para que o prazer do sexo não se torne prazer da rotina).
Como se resolve o dilema? A irmã que não está enfeitiçada vai comprar fruta aos malévolos gnomos. Mas em vez de a ingerir, deixa que o alimento seja (sensualmente) espalhado na sua pele. Assim, chegada a casa, faz com que a irmã moribunda prove, de novo, o sabor dos mágicos frutos. Féerie à parte, torna-se evidente o que aqui se passou: o número protagonista deixou de ser o UM, e foi superado pelo DOIS (a jovem comeu duas vezes os frutos que só podiam ser comidos uma vez). Ou seja, passamos do domínio do indivíduo, para a formação do par – no fim do poema, as duas irmãs estão casadas.
Não nos parece que o texto se limite à apologia de uma moral convencional. O que aqui está encenado de forma exímia, e para ser contado às crianças com aparente inocência, é esse problema estranho que é a constituição de uma relação amorosa, que implica que um indivíduo queira repetir (uma, duas, três vezes, até ao incontável) a partilha do prazer sexual com outro indivíduo. O número DOIS traz uma inversão à equação do prazer: em vez do UM se referir à singularidade de cada acto de prazer, passa a referir-se ao indivíduo único que se torna destinatário de todos esses actos. O DOIS traz uma humanização qualitativa (o amor) àquilo que, de outra forma, seria mero gozo quantitativo.
Haveria muitos outros aspectos a referir a propósito de um acto tão simples como a enumeração. Desde o mito da multiplicação (esse milagre de abundância sucessiva a partir da escassez de uma ideia) até à aparentemente contraditória preciosidade de cada indivíduo citado (se Irina explicita o nome de cada mês que falta até à partida para Moscovo, é porque sabe que cada mês tem as suas características, entre prazeres, tédios, e aflições, e que isso representa melhor todo teatro da espera do que a genérica constatação da passagem do tempo), estão nela latentes o espírito de pequeno coleccionador (nem todos podemos pagar um museu imaginário…), a vontade infantil de desmontagem (o desejo de conhecer as peças concretas que compõem cada abstracção), a viagem mental (os meses de Irina são carruagens no comboio da expectativa; num certo sentido, ela pode mesmo estar em Moscovo quando quiser), e até um certo espírito de aplanação apaziguadora. Em relação a este último aspecto, basta notar que quando Stéphane Mallarmé escreve o verso “Solitude, récif, étoile” (verso que, no fim das Poésies é ecoado em “Nuit, désespoir, pierrerie”), para além de mostrar toda a sofisticação da sua oficina, faz com que as diversas dimensões que ele encontra na actividade poética (não são apenas três; o facto de haver um verso paralelo muito semelhante, mas não exactamente igual, sugere que talvez a enumeração pudesse ter continuado) sejam niveladas num mesmo tom emocional e numa grandeza de olhar que tende a confundir a obra com a vida.
No entanto, centramo-nos na ideia de jogo conflitual entre sucessão de números e um número tutelar, para poder distinguir a enumeração do simples catálogo. Não existe grande variedade ao nível deste número tutelar. Ele pode ser o UM (enquanto representante do indivíduo, do eu, da unidade da vida, mas também do Ser, do absoluto, de Deus), o DOIS (a consciência do outro, o par amoroso), eventualmente o TRÊS (a tensão no afecto que permite a passagem ou para o colectivo, ou para o inúmero), o INFINITO (especialmente se for o infinito finito de Alberto Caeiro, pois de outro modo ele tende a confundir-se com o UM, que é a maldição do texto de Rossetti), e esse terrível, o mais terrível entre os números, o ZERO (o não-ser, a morte, e, porque não, o orgasmo). Afinal, há algo de tântrico no afastamento verbal que Irina efectua entre si mesma e a sua ida para Moscovo… Lembramo-nos de um exemplo tremendo deste recurso à tutela do zero, que pudemos ver uma vez num museu portuense: Ignasi Aballi, artista acima de tudo catalogador, decidiu expor uma estante onde, supostamente, deveriam ter estado arrumados alguns livros, mas em vez de mostrar esses livros (de especificar a enumeração), apenas tornou sensível a deformação na madeira causada pelo seu peso na estante, conseguindo assim representar, ao mesmo tempo, uma presença (uma enumeração que só deixou o seu peso) e uma ausência (os livros já não estão lá, a estante está vazia).
Ao contrário de Cesário Verde, que depois de enumerar Madrid, Paris, S. Petersburgo, não sabe se o mundo é um monismo unificador ou um infinito de probabilidades (e nessa hesitação reside a sua sugestão poética), Irina pensa que Moscovo/Junho é um termo certo, um número concreto que terminará a sua enumeração. Se assim fosse, o conflito matemático da sua fala ter-se-ia estabelecido entre a citação concreta dos meses e o número UM (a espera monomaníaca, ou Moscovo como obsessão única de felicidade). No entanto, Tchékov impõe um destino terrível à personagem: Irina não irá para Moscovo. Nem no momento previsto na fala em questão, nem mais tarde. O fim desesperado da peça leva-nos a crer que nunca a personagem atingirá o seu Moscovo (cidade que acaba por tomar carga mais simbólica que espacial). O termo certo, o número concreto a que Irina se agarrava como se isso fosse uma espécie de hybris, esse número transformou-se numa hesitação desesperada que ainda mais a opõe ao verso de Cesário. Pois Moscovo torna-se, por um lado, INFINITO (pode acontecer em qualquer momento do futuro, talvez até após a morte de Irina, nesse futuro longínquo que os indivíduos tchekovianos tanto gostam de evocar), e, por outro, ZERO (Moscovo pode não chegar a existir; até ao fim da peça, pelo menos, não aconteceu; a própria utopia colectiva das conversas filosóficas talvez não passe de ilusão). Numa simples fala, uma tragédia de sentido.
O catálogo é uma enumeração à qual o seu executor deseja retirar toda a tensão. É um rol de números que não tem de combater contra nenhum mito, é a plataforma do cientista ensimesmado na seriação da sua busca. É claro que há Catálogos que se tornaram exemplares Enumerações: é o caso de “O Cravo Bem Temperado” de Johann Sebastian Bach. Mas isso não afecta a integridade da definição.
Não interessa saber se uma lista de compras pode ser, ou não, poesia (até porque não sei se o comprador se dirige a um hipermercado ou ao mercado mágico dos gnomos…). O que importa é que tomemos a decisão de a tratar enquanto catálogo, ou enquanto enumeração.
Os textos:

Os cisnes selvagens de Coole

As árvores estão em beleza de outono,
No bosque os trilhos estão secos,
Sob o crepúsculo de Outubro as águas
Reflectem céus quietos;
No lago que por pouco suas margens transcorre
Estão cisnes, cinquenta e nove.
Já o décimo nono outono sobre mim caiu
Desde essa primeira contagem;
Vi-os, antes de ter chegado ao fim,
De súbito elevarem-se
’spalhando rotação em argolas quebradas
Nas suas clamorosas asas.
Tais brilhantes criaturas contemplei,
E agora o coração tem mágoa.
Tudo mudou desde que, após eu ter ouvido,
No ocaso antigo desta margem,
Sobre a cabeça o toque-de-sino do voar,
Optei por um mais leve caminhar.
Não cansados ainda, amante junto a amante,
Eles remam nas frias
E gregárias correntes ou escalam o ar;
São corações sem velharia;
Paixão, conquista, errância a bel-prazer,
Ao seu serviço ainda hão-de ter.
Mas agora el’s flutuam nas águas paradas,
Tão belos e enigmáticos;
Entre que juncos construirão,
Junto a que orla de lago ou charco
Mostrarão seu encanto, quando eu despertar um dia
E perceber que eles partiram?

William Butler Yeats  
(tradução de Pedro Ludgero)


Ensaio de Pedro Ludgero

terça-feira, 6 de julho de 2010

Um texto interessante sobre o abstraccionismo

A VERDADE SOBRE PEQUENOS MUNDOS ABSTRATOS

Gêneses

No começo do século XX insurgiram nos meios científicos, inúmeras teorias responsáveis por desestruturar o pensamento e o comportamento convencional. Darwin questionando o processo divino da origem das espécies; Nietzsche pondo em dúvida a moral cristã em favor da doutrina da “vontade”; mesmo Marx declarou a religião sendo o ópio da humanidade. Freud ao analisar o subconsciente do homem e os impulsos sexuais põe em dúvida a base moral da sociedade. Até mesmo o desenvolvimento da tecnologia e ciência nas áreas da física e química promoveu certa instabilidade, Einstein com a sua teoria da relatividade questionando e pondo em dúvida certezas estabelecidas desde o século XVII enquanto Rutherford (em 1909) dividia átomos. Num âmbito social, o rápido crescimento do capitalismo industrial e o distanciamento dentro do antagonismo proletário-burguês levaram à revoltas e a popularização do socialismo pela Europa.
É nesse contexto de crise, guerra, questionamento que irrompe o abstracionismo. Artistas como Wassily Kandinsky, Paul Klee, Piet Mondrian, Kasimir Malevich e Hans Arp se voltam para a abstração que se baseava menos nas formas de um mundo incerto e em mutação, para consolidar a arte em valores universais, através da filosofia e em doutrinas místicas. Ao renunciar o “materialismo sem alma” (Kandinsky) do século dezenove estes esperam encontrar um novo foco espiritual para o futuro.
O abstracionismo intriga a maioria das pessoas que o contemplam. Talvez pela aparente contradição de formas, a desvinculação do mundo pictórico até então proposto, a simplicidade da composição… Por ser de difícil compreensão e julgamento, geralmente é desvalorizada. Isso se dá por que a “maioria das pessoas está mais familiarizada com o conteúdo do que com a forma” (Paul Klee, On Modern Art, 11).

Diferentemente de retratos e paisagens que representam a realidade pictórica, a pintura abstrata julga o invisível, mede as sensações e avalia a essência das coisas utilizando-se de elementos básicos da pintura. Sua teorização foi feita por Paul Klee e predominantemente por Kandinsky (este apelidado pelos críticos, por ser um assíduo defensor de sua arte, como “advogado abstracionista”).
Para Paul Klee os elementos da arte abstrata estavam seccionados em três: Medida, caracterizada pelos elementos gráficos empregados numa pintura (linha, traço, ângulo, plano); Peso, caracterizado pela sombra (sendo esta determinada pelo grau de claridade e escuridão empregado); e por fim a Qualidade da pintura, sendo esta determinada pela cor. Porém não a cor avaliada individualmente em efeito, mas a harmonia desenvolvida entre elas, junto com a medida e o peso do quadro.
De outra forma Kandinsky avalia os elementos da arte abstrata. No livro “O futuro da Pintura”, ele expõe sucintamente os fundamentos da arte abstrata, enunciando e teorizando sua estética. Ao combinar a teoria das cores de Goethe com representações geométricas simples, Kandinsky tenta mostrar como as formas se relacionam com cores específicas. Círculo, triângulo e quadrado combinam-se com as três cores primárias azul, amarelo e vermelho, respectivamente, e através desse amálgama formula relações de harmonia e dissonância. Também de forma sinestésica especula a forma e o som, propondo uma tentativa de colocá-las numa ordem sistemática em relação aos espectros e tonalidades da música:
Amarelo: trompete
Laranja: viola
Vermelho: tuba
Violeta: fagote
Azul: violoncelo, contrabaixo, ou órgão
Verde: violinos
No livro “ponto, linha frente ao plano” Kandinsky trata de estabelecer os fundamentos de uma nova linguagem artística baseada na retirada de elementos “supérfluos” da pintura. Aquilo que não justificava plenamente seu direito de existir era eliminado do quadro. O ponto, a linha e o plano são os objetos subjugados pelo rigor intelectual a fim de elevar o caráter intuitivo à categoria de conhecimento. Não se trata obviamente do estudo da geometria, mas do aspecto dúbio destes elementos, considerando o exterior do símbolo e seu significado interior, mais profundo. Kandinsky discute a arte de uma perspectiva “sinestética”, onde os elementos básicos da pintura (ponto, linha e plano) são relacionados com os elementos básicos da música (nota, melodia, tempo, harmonia) e as sensações evocadas pela melodia também são trazidas para o plano da pintura.
Quando um pintor pré Kandinsky pintava uma árvore, captava seu significado pictórico, seu valor estético, representando um objeto em que as raízes possuíam seiva, o tronco servia como lenha e a copa produzia frutos. Ao representar uma árvore o pintor “abstracionista” se expressa através dos sentimentos que a planta evoca nele, captando sua essência de forma sinestésica (não apenas a figuração), abstraindo dela linhas, figuras geométricas coloridas, planos inclinados. Esta, segundo Kandinsky, é a verdadeira representação da matéria.
Como as outras vanguardas, a arte abstrata incita o observador a uma análise mais apurada, não como significado temático, mas por tratar de questões sensoriais primitivas*. É essa análise que será desenvolvida neste ensaio, não de forma geral, mas exumando uma das obras de um dos maiores representantes dessa arte: Wassily Kandinsky (1866-1944). A obra em destaque é uma da série Pequenos Mundos, Pequenos Mundos VII. Essa série foi produzida para a editora Propylaen, após sua chegada em Weimar para lecionar na Bauhaus (1922). Em algumas semanas compôs quatro litografias a cores, quatro xilogravuras e quatro gravuras a água forte, um conjunto que implica numa variedade de técnicas e composições.

* “Kandinsky se propôs reproduzir experimentalmente o primeiro contato do ser humano com o mundo do qual não se sabe nada, nem sequer se é habitável” – Argan, 1992, 446


Pequenos Mundos VII


























A sétima composição da série “Pequenos Mundos” (Litografia impressa em cores azul, amarelo, verde e preto sobre papel, dimensionada em imagem 27,2 x 23,4 cm num papel de 35,4 x 28,4 cm) foi produzida no outono de 1922 no período em que Kandinsky iniciava sua carreira como professor na Escola Bauhaus. Animado com as idéias modernistas de Walter Gropius para a escola, o artista russo interpela a nova experiência de forma a introduzi-la em sua arte.
Para avaliar a pintura de Kandinsky, é viável contemplar a arte como ele mesmo a fazia através da estética – “Essa primeira experiência com a realidade” (ARGAN, 1992, 446) – e abstraindo de qualquer análise mais cerebral de imediato discutiremos alguns aspectos estéticos da obra que são relevantes, em função dessa primeira impressão.

Sobre pequenos mundos amarelos, azuis e verdes


























Saturando o quadro evidenciam-se as cores empregadas: amarelo, azul e verde. Estas estão distribuídas na porção direita superior. A disposição do elemento circular amarelo no canto esquerdo superior com o elemento azul posicionado no canto direito inferior secciona o quadro pela metade segundo uma diagonal (evidenciada de vermelho). Esta distinção entre direita superior colorida e esquerda inferior negra tenciona o quadro. O amarelo, que segundo Kandinsky era expansivo se posiciona de forma a se estender sobre o vazio negro. O azul, cor austera, remete junto com o preto um caráter onírico. O verde é “uma equilibrada mistura de azul e amarelo… O movimento horizontal se interrompe; tal como aquele que tanto provém como se dirige ao centro. O efeito da alma através do olho é, assim, imóvel. Esse é um fato reconhecido não apenas por óticos como por todo mundo. O verde é a cor mais relaxante que existe. Em seres humanos extenuados ela exerce um efeito benéfico, mas depois de certo tempo torna-se desgastada; isso contrasta com o calor ativo do amarelo ou do azul escuro”. Para não desgastar a tonalidade da pintura, Kandinsky simula um movimento cromático através da distribuição das formas coloridas e não coloridas no quadro. O elemento verde se desdobra em outros de cores azuis e amarelas, causando um efeito de explosão ou de penetração do observador na tela.

Sobre pequenos mundos geometrizados 

























O quadro é composto por linhas de construção baseadas nos elementos geometricos. Essas linhas estão dispostas a formar planos que divergem de um ponto localizado na porção superior do quadro. A concentração das cores junto ao ponto de partida dos planos se dilui à medida que se desloca para as extremidades do quadro. Esse “ponto de fuga” proposto por essas linhas dá uma noção de profundidade e o deslocamento das cores por essas linhas gera movimento (um ritmo cadenciado pelas formas) criando espaço. Com fluidez taciturna das formas penetrando no negro do quadro, Kandinsky sinestesicamente cria a mesma sensação de fluidez que a música gerava. Como no resto da obra “Pequenos Mundos”, Kandinsky “tentou ilustrar uma espécie de basso continuo da pintura, uma gramática dos elementos formais, tal como os havia concebido como base de uma nova interpretação da pintura na Bauhaus” (Koehler, Karen; Kandinsky’s “Kleine Welten” and Utopian City Plans).

O poema XI do Canto II (Subsolo e Supersolo) de forma sucinta e jucunda assemelha-se com a obra de Kandinsky apresentada previamente. Talvez pelo orfismo, ou pela relação de imagens oníricas; é também pela semelhança de elementos e contrastes, o hermetismo da poesia e a expansão concêntrica dos elementos que torna um anexo ao outro.
Não concluirei este trabalho de forma a garantir uma definição contundente sobre Kandinsky. Este tornou a arte mais sensível, espiritualizou a pintura abrindo portas a serem freqüentadas e invenções a serem reinventadas. Invenções estas já deram frutos. De forma leve, poética, porei em diálogo influenciante e influenciado. Kandinsky e Jorge de Lima dialogam. 



























O quadro é composto por linhas de construção baseadas nos elementos geometricos. Essas linhas estão dispostas a formar planos que divergem de um ponto localizado na porção superior do quadro. A concentração das cores junto ao ponto de partida dos planos se dilui à medida que se desloca para as extremidades do quadro. Esse “ponto de fuga” proposto por essas linhas dá uma noção de profundidade e o deslocamento das cores por essas linhas gera movimento (um ritmo cadenciado pelas formas) criando espaço. Com fluidez taciturna das formas penetrando no negro do quadro, Kandinsky sinestesicamente cria a mesma sensação de fluidez que a música gerava. Como no resto da obra “Pequenos Mundos”, Kandinsky “tentou ilustrar uma espécie de basso continuo da pintura, uma gramática dos elementos formais, tal como os havia concebido como base de uma nova interpretação da pintura na Bauhaus” (Koehler, Karen; Kandinsky’s “Kleine Welten” and Utopian City Plans).

A Invenção de Orfeu e Seus Pequenos Mundos

A criação e consolidação da identidade abstrata de Kandinsky foram tão marcantes que influenciaram e influenciarão a vida e obra de muitos outros artistas. No Brasil induziu (e interveio de forma subjetiva) a poesia da terceira geração modernista, mais especificamente Jorge de Lima e Murilo Mendes, onde estes trabalharam o sentido sinestésico da poesia, por meios cromáticos e melódicos. Expressaram o subconsciente através do fluxo livre de consciência, da escrita automática, das imagens fortes espontâneas, da enumeração caótica e principalmente pelas técnicas de montagem e colagem. No livro “Invenção de Orfeu”, Jorge de Lima se apropria de estéticas “Kandinskyanas” e desenvolve uma poesia hermética e ponderada, livre do excesso de elementos. Tzvetan Todorov reconhece no poema hermético uma “desqualificação do referente e destruição do sentido”. Esta poesia quase sempre manipulando significados encobertos, enfatiza e eleva os “estratos sonoros, rítmicos e morfológicos do signo lingüístico.” (Leal, Claudio Murilo; Invenção de Orfeu, pg. 9).

A mão de Orfeu enorme destra
Abateu-se no peito, funda ausência,
Tão suave inexistente mão;
Foi delação das coisas,
Inibida mão, ecos martelando-a,
Ecos que são cruéis e inexoráveis
Como as sublevações que retornaram
E retornaram quando o deus construía;
E agora há éguas nulas nos silêncios,
As éguas da fecundação final
Planturosas e cheias de pistilos
Viscosos como suas lesmas,
Vermelhos com seus relinchos que martelam
A mão êxul de Orfeu, os retinidos ecos
Temperados de cor, eram dele, de Orfeu
Deus sonoro e terrível, hoje vago, vago
Tão vago como sua vaga destra;
Nem mais diuturna nem com os androceus
Dos dedos musicais, amanha cinco
Apenas dedos reais humanos, cinco
Apenas, cinco sinos sem seus íris;
Funda submersão desse deus,
Agora com seu deão de cerimônias
Inventando-lhe a mão ao seio dos infernos,
Contando-lhe até cinco apenas dedos
Fiéis à delação desse deão que aponta
A aparência de Orfeu.

____________________________________________________________

Bibliografia

• ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. 2nda ed. São Paulo: Editora Schwarcz LTDA. 2008
• Klee, Paul. On modern Art. Penguin Faber. 1966
• Wassily Kandinsky. Point and Line to Plane. Dover Publications, Nova York.
• Wassily Kandinsky, M. T. Sadler (Tradutor). Concerning the Spiritual in Art. Dover Publications, Nova York.
• Moszynska, Anna. Abstract art (World of Art). Thames & Hudson; edição reimpressa (January 17, 1990)
• Koehler, Karen. Kandinsky’s “Kleine Welten” and Utopian City Plans – Journal of the Society of Architectural Historians, Vol. 57, No. 4 (Dec., 1998), pp. 432-447
• Farias, José Niraldo. O surrealismo na poesia de Jorge de lima. Editora Puc-RS.
(marcos saad)

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Poesia, Freud e Psicanálise (Juan José Saer)



























Freud ou a glorificação do poeta 
por Juan José Saer

Com muita frequência ao longo da sua obra, quase em cada página, Freud, cujo gosto literário nem sempre parece ser dos melhores e que confessa, não menos frequentemente, nem sempre de modo sincero, a sua ignorância na matéria, rende, ao seu modo (embora devamos distinguir claramente Jensen de Dostoiévski), uma homenagem indiscutível e apaixonada à poesia, que não deve ser entendida no sentido restrito do verso, mas sim da criação literária em seu conjunto. Esse elogio constante da literatura é formulado por duas razões muito precisas, uma retórica e outra instrumental. A razão retórica é comum a muitos textos de ciências humanas do século XIX, pois, achando-se em via de formação, essas ciências adoptavam como antecedente intuitivo de sua actividade as grandes obras literárias e filosóficas do passado. O elogio do poeta e do artista também pode ser considerado como um tópico retórico do discurso científico, cuja finalidade é mostrar, por contraste, os limites da ciência e a complexidade do universo cuja intuição só é acessível à arte. Desse modo, a glorificação do poeta pode ser considerada uma idealização de especialista.

Razão instrumental

Mas Freud venera a poesia também por uma razão instrumental: porque, assim como a psicose, a poesia, com seu poder de concentração significante, mostra de um modo mais claro, mais denso, certos processos da psique que são universais, mas que passam despercebidos no contexto da normalidade e até da neurose. Assim, Sófocles, Shakespeare e Dostoiévski têm um interesse comum para o analista: mostrar, cada um à sua maneira, um substrato universal da personalidade, o complexo de Édipo, que, por ser inconsciente e por estar submetido a uma série de processos psíquicos que o disfarçam - repressão, sublimação, transferência etc.-, seria irreconhecível na maioria dos seres humanos. A veneração de Freud tem, ainda, outras razões de tipo instrumental: porque a literatura, para ele, seria o reino do afecto por excelência. "Como psicanalista, devo interessar-me mais pelos processos afectivos que pelos intelectuais", declara em "Sobre a Psicologia do Escolar". A literatura, segundo Freud, ao trabalhar na dimensão dos afectos e das emoções, não fez mais do que se adiantar à psicanálise: toda a imaginária conceptual da ciência nascente está implícita na obra dos grandes poetas. Esses elogios instrumentais, a meu ver, levantam uma objecção: nem toda a literatura pode ser definida como a expressão de arquétipos psicológicos universais, e a expressão desses arquétipos não é condição suficiente de seu valor. As "Devoções" de Donne não apresentam nenhum arquétipo dessa espécie, enquanto a "Gradiva" de Jensen não possui o menor interesse do ponto de vista estritamente literário. Talvez o elogio que Freud faz da poesia esconda uma petição de princípio: como, nos primeiros anos da psicanálise, as únicas provas de que ele dispunha para validar sua teoria dos instintos eram aquelas fornecidas pela práxis analítica, pretendia encontrar essas provas (ou de facto encontrava-as) na poesia. Mas Freud nunca apresenta a poesia como prova de teorias que considera já bem comprovadas.

Poesia e psicose

Segundo a sua obscura homenagem, portanto, poesia e psicose seriam impossibilidades. O próprio Freud manifesta, nos seus textos, o seu duplo desinteresse pela psicose e por tudo o que na arte não é conteúdo. Ambas existem apenas como exemplos. Incontrolável e excepcional como a psicose, a poesia, grosseira e paradoxalmente, apresenta a generalidade em sua estranheza. Se levarmos em conta que, na retórica do discurso científico, a poesia é o oposto da especialidade, entenderemos melhor que o elogio oblíquo não faz mais do que insistir na velha imagem da poesia como uma força irracional que se manifesta através do poeta num processo do qual o poeta é pouco responsável e consciente. A origem divina, comum à poesia e à psicose, lhes atribui um status excepcional, mas ao mesmo tempo isenta as duas de um exame rigoroso. No entanto Freud - e com ele a psicanálise inteira - rende, por outro caminho, uma homenagem mais profunda e mais verdadeira à poesia e particularmente à narração. Essa homenagem reside no reconhecimento explícito de que a análise é uma actividade essencialmente verbal e que a palavra é o único instrumento terapêutico de que ela dispõe. A psicanálise não investiga os fenómenos psíquicos, e sim o discurso que, para ela, os representa. Os jogos de palavras, a transmissão oral dos sonhos, o diálogo analítico, a associação livre são o material específico do trabalho analítico, depois de ter sido o da poesia durante séculos. Considerando os factos desse ponto de vista, a poesia não forneceu conteúdos para a psicanálise examinar, e sim o seu repertório metodológico; não o objecto, e sim o instrumento da análise. A psicanálise e a poesia, portanto, têm como característica comum o facto de só na linguagem, e por meio dela, poderem conseguir os resultados a que se propõem.


Narração e alucinação

Mas a psicanálise também rende uma homenagem específica à narração. Objetivo capital da sessão analítica, a narração aparece como o resultado dramático da interacção de um conjunto de forças psíquicas que constituem a porção oculta do sistema referencial em jogo, fazendo dele a matéria de um desenho confuso, indefinidamente tecido e desmanchado. O narrador não opera, nunca operou, de outro modo no seu trabalho. Para Freud, o sistema referencial em jogo - nem existente nem inexistente, nem verdadeiro nem falso a priori, mas apenas em jogo - é, no caso das alucinações, o fragmento de verdade histórica que as fundamenta e as torna verosímeis para o doente. Tecidas com a mesma matéria histórica, narração e alucinação, cada uma de seu jeito, elaboram essa matéria num sistema que a transcende. Essa matéria histórica não é mais do que o fragmento ubíquo, incerto, que fervilha como o elemento comum de um conjunto de narrações que se complementam, que se opõem e sobrepõem, se distorcem ou se corrigem mutuamente. A história da narração ocidental não é menos dramática que a história clínica em que analista e paciente constroem e descartam repetidas vezes, por meio da palavra, uma realidade possível. Essas construções são humildes: modestas proposições sobre um magma obscuro, movediço, fugidio. O resultado é sempre incerto e, não raro, inexistente. Às vezes, a construção inteira tem de ser demolida para ser reerguida; às vezes, só em parte. Sugerindo, modificando, avançando e recuando, a narração e o diálogo analítico elaboram, com procedimentos semelhantes, uma estrutura frágil de verosimilhança relativa, de validade temporária, no fundo da qual corre, como se fosse o do sangue, o rio da memória. Em "Análise Terminável e Interminável", Freud discute a possibilidade de finalizar uma análise. Em alguns casos, segundo ele, esse término é possível. Embora admita que a normalidade não passa de uma ficção ideal, é evidente que Freud considera que, mediante a elaboração dos instintos, a psicanálise pode restituir um certo equilíbrio ao sujeito.


Particularidade redutora

Assim, do modo como aparece em muitos textos de Freud, a construção narrativa da psicanálise, em contraste com a narração em geral, apresenta uma particularidade redutora: a de pretender que existe um conflito preciso, uma intriga significante que deve ser resolvida, o que equivale a dizer que, em certas circunstâncias, existe análise terminável.

Essa particularidade poderia transformar a narração analítica num simples caso da forma narrativa. Dito de outro modo, num género. Para a narração analítica, assim como para o romance policial, pode haver desenlace.
O mesmo não acontece com a outra: enquanto a análise pretende deixar, de sua construção, um conteúdo, a narração deixa apenas o procedimento, a própria construção. A narração não é terminável; fica sempre inacabada. Valéry já dizia: um poema nunca se termina, apenas se abandona.


O argentino Juan José Saer é escritor e ensaísta.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Algumas maneiras de olhar para a metáfora


























1. Entre comparação e metáfora

O que é uma metáfora? É uma operação de linguagem que, a partir dos dados semânticos fornecidos por um contexto discursivo, propõe uma perturbação do sentido habitual associado a uma palavra. Esta definição não é plena, nem o pretende ser. A polissemia, ou melhor dizendo, a vagueza subjacente à linguagem, permitiria a sua aplicação às figuras da metonímia ou da sinédoque. A palavra-chave da nossa definição será, contudo, a palavra “perturbação”, pois há uma dimensão de absurdo conceptual no enunciado metafórico que tanto a metonímia como a sinédoque tendem a mitigar.

Por exemplo, na primeira estância do poema de Wallace Stevens que conclui este ensaio, o sujeito lírico, depois de equiparar o vento a um coxo que se move por entre a folhagem, afirma que esse mesmo vento repete palavras sem sentido. Bastam estes dois versos para compreendermos a principal diferença entre duas figuras de retórica que tendemos a confundir com uma certa leviandade: a comparação e a metáfora.
A comparação pressupõe um raciocínio lógico que desvenda a relação de analogia entre dois seres: no exemplo em análise, como o vento se vê obrigado a abrandar para vencer a resistência da folhagem das árvores, ele é comparado à dificuldade de locomoção que normalmente afecta um coxo.

Ora, a partir deste contexto (e do sentimento de vagueza, ou de imprecisão, a que aludem as três primeiras estâncias), o leitor conseguirá identificar as possibilidades de metáfora que o enunciado fornece no verso seguinte. Ou o foco da metáfora (para usar a linguagem de Max Black) é o termo “palavras”, e esse termo tem de ser lido de modo figurado, pois o vento não fala, e aqui as palavras evocam a sonoridade que ele provoca no seu contacto com a folhagem das árvores (são palavras sem sentido porque, por um lado, não são verdadeiramente palavras, mas também por serem vocábulos da autoria de um vento coxo). Ou então o foco é a própria palavra “vento”, que se torna indício de alguém que fala recorrendo a metáforas (é o tema, bastante teórico, do poema), eventualmente uma imagem do poeta coxeando por entre a polissemia pouco precisa do exercício da linguagem (note-se que “leaf”, em inglês, tanto significa “folha de planta” como “folha de livro”).

Paul Ricoeur, pensador de referência neste assunto, é muito claro ao afirmar que, na comparação, não há nenhuma transgressão semântica: o vento parece um coxo mas não é um coxo. Ora, a metáfora reclama, para si, uma incongruência ontológica, já que o poema afirma implicitamente que o vento é um ser capaz de linguagem verbal. Neste ver como da metáfora, há uma tensão entre um desvio lógico (o sem-sentido do vento falante) e uma redução desse desvio (Stevens não está a inventar uma quimera, mas a caracterizar o tipo de linguagem, gasosa e próxima do absurdo, que aparentemente resulta do recurso à metáfora na prática da poesia). Ricoeur não favorece a redução do desvio ao próprio desvio (nomenclatura de Jean Cohen), mas mantém-nos em igualdade de circunstâncias na sua concepção tensional de verdade metafórica: o poema não é verdadeiro nem falso, mas a expressão da virtualidade, de um mundo hipotético.

A semelhança semântica entre os elementos em confronto na palavra que funciona como foco metafórico (segundo a nomenclatura de I. A. Richards, entre o vehicle – o “vento”, e o tenor – o “poeta”) é essencialmente subjectiva. Ou seja, resulta de um acto intencional de gestão do sentido do texto e não propriamente da descoberta de uma analogia objectiva entre os referentes designados pelo vehicle e pelo tenor. Como diria Maria Filomena Molder, é o sentimento pouco racionalizável de afinidade que cria a semelhança que, para o leitor, vai tomar o aspecto de uma analogia evidente. Que raio de semelhança existe, de facto, entre o vento e um poeta? E, no entanto, dado o contexto criado pelo texto, não tem essa semelhança forjada uma eloquência impressionante?

Do ponto de vista conceptual, tudo isto nos parece inatacável. Especialmente porque vai de encontro ao nosso sentimento de desconfiança perante a possibilidade teórica de uma literalidade pura. Ricoeur opõe-se à ideia de um sentido próprio para as palavras (estas terão, no máximo, um sentido usual), e defende que, sem a sua articulação polissémica, a linguagem verbal seria monstruosa, requerendo uma quantidade inesgotável de vocabulário.
Temos, no entanto, a sensação de que, na prática, esta diferença entre metáfora e comparação não é decisiva. Sempre que se pede a alguém para criar uma metáfora, é frequente ouvir a pessoa produzir uma comparação, sem que se aperceba sequer do pouco rigor do seu gesto (e estamos a falar de pessoas que conhecem a diferença de definição das duas figuras). Estaria o próprio Stevens consciente de ter apenas forjado uma comparação no verso onde aproxima o vento de um coxo?

É claro que, para um filósofo, o índice de racionalidade ontológica presente na dinâmica de sentido de um texto será um factor de extrema relevância. Mas a linguagem, seja no descuido do seu uso comum, seja na pré-anarquia da sua metamorfose literária, não funciona segundo parâmetros tão matematizáveis. E se a partícula “como” com que normalmente se constroem as comparações fosse ela mesma o resultado de um enunciado metafórico (“como” seria o vehicle e “é” o tenor)? Ou seja, não poderei eu rescrever o verso de Stevens da seguinte maneira: “O vento é um coxo movendo-se por entre as folhas”? E continuar: “Como se repetisse palavras sem sentido.”? De um ponto de vista estrito da lógica, há uma brutal diferença. Do ponto de vista expressivo ou afectivo, também certamente. Mas será que o sentido do texto se altera radicalmente? Pensamos que não.

Queremos, assim, sugerir que a comparação nos parece mais próxima da metáfora in praesentia do que esta da metáfora in absentia. Na metáfora in praesentia, o tenor e o vehicle estão ambos presentes no enunciado textual (note-se que, por uma questão de coerência teórica, não somos favorável ao uso da paráfrase para revelar a palavra ou expressão supostamente substituída no foco metafórico; o fenómeno de leitura de uma metáfora é algo bem mais complexo e próximo da ambiguidade; estamos apenas a seguir um esquema de abstracção o mais simples possível por uma questão de comodidade expositiva). Por exemplo, se no poema de Stevens considerarmos que as estâncias finais exprimem um conjunto de metáforas daquilo que seria o “motivo para a metáfora”, podemos caracterizá-las como sendo in praesentia (tenor e vehicle estão ambos expressos no texto). O mesmo não acontece no enunciado analisado nos parágrafos anteriores. Como a palavra “poeta” não está explícita no enunciado, falamos de uma metáfora in absentia.

É claro que, se formos rigorosamente fiel ao pensamento de Paul Ricoeur, como somos, esta distinção tem uma relevância bastante diminuta. No fundo, o sentido metafórico existe sempre simultaneamente em presença (no jogo entre todas as palavras que fornecem o contexto do enunciado global) e em ausência (na medida em que exige um discurso de leitura que não se confunde com o texto lido). No entanto, pareceu-nos importante sublinhar esta vocação que a figura tem para convocar aquilo que está ausente do corpo do texto (mas não do seu espírito). Quão importante não será a metáfora na leitura daquelas obras que trabalham os grandes temas da ausência, desde a solidão até ao êxtase místico? Repare-se que nada disto se relaciona com a metafísica de herança platónica: não estamos a defender que as palavras visíveis devem aceder, por via da metáfora, à Verdade invisível. Simplesmente reconhecemos a importância da ausência enquanto assunto e enquanto estratégia de comunicação formal, e parece-nos que a metáfora tem um papel determinante a jogar nesse universo.

2. O critério do silêncio

Como diz Éric Bordas, é muito suspeito que um instrumento de trabalho discursivo como a metáfora inspire detractores tão acirrados (Georges Sand) quanto defensores hiperbólicos (André Breton). A verdade é que ela é omnipresente, desde a liberdade do calão até ao rigorismo do discurso filosófico, seja em perspectiva diacrónica ou sincrónica. Albert Camus teve de se sujeitar a um trabalho penoso (de Sísifo…) para a abolir de grande parte do texto de “L’étranger”. E se Kostandinos Kavafis costuma ser apresentado como o exemplo de um grande poeta que não precisava de recorrer a metáforas, basta dizer que o escritor de Alexandria foi um praticante exímio da alegoria, que, se não se confunde propriamente com o tropo em análise, é uma figura que existe na sua directa continuidade.

Presumimos que a desconfiança deriva em parte da presunção de que a eficácia da metáfora se resume ao decorativismo retórico. E, de facto, o uso que dela se faz revela-se a maior parte das vezes francamente incómodo. Todavia, antes de enunciarmos o nosso próprio critério de validação do uso da figura, devemos distinguir o teor que esse uso adquire na escrita poético-literária daquele que o pensamento filosófico lhe atribui.

A metáfora é um aliado profundo da intuição heurística. Mas, como diz Paul Ricoeur, a estrutura da figura baseia-se numa tensão entre o mesmo e o diferente (entre o ser e o não ser) que pode servir de ponto de partida ao trabalho conceptual mas não se confunde com ele. Pois o trabalho da racionalidade filosófica caracteriza-se pelo desejo da sistematização, de reintegração de todo o saber sob o signo do mesmo. Na medida em que a metáfora nos desfamiliariza com o mundo, nos faz repensá-lo, ela pode funcionar como um trampolim para um conhecimento de ambição universalista, mas não é ainda esse conhecimento (que requer a vertebralidade da lógica).

Já na criação poético-literária, a metáfora é um instrumento central de trabalho, visto que este se define mais pela libertação de virtualidades (pela imaginação que tudo revoluciona, tudo desarruma, tudo interroga) do que por um estreitamento de plenitude intelectiva. Se, no poema de Wallace Stevens, podemos adivinhar uma certa nostalgia da realidade (do aço do meio-dia original, seja lá o que isso for), o autor sabe que, mesmo uma poesia do pensamento como a sua, só pode colocar questões, sabe que nada num poema pode ser bem expresso (nem quer nem tem de ser), o que o obriga a paradoxalmente definir essa realidade livre de insinuações obscuras através de um conjunto de… metáforas (“O ABC do ser, /A têmpera rosada, o martelar / Do vermelho e do azul”, etc.). Stevens é dotado de ambiguidade e humor suficientes para saber que o universal que se conquista pela linguagem verbal, se não assumir uma certa humildade contingente, está a um passo de descambar em simplismo autocrático (no ensaio “Diferença entre cratilismo e evidência”, descrevemos a nossa própria concepção de poesia).

Perguntamos agora: será possível a existência de uma espécie de grau zero de retórica? Na sequência lógica do que temos vindo a expor, isso não nos parece plausível. Não entrando na discussão sobre a natureza mais ou menos verbal do pensamento (que não pertence ao âmbito deste estudo), defendemos que o único grau zero de retórica admissível é aquele que existe no pensamento que se encontra por exprimir (no silêncio humano, portanto). É a própria definição do 0 que a isso obriga. A partir do momento em que um pensamento é actualizado num discurso verbal, ele carrega em si a fatalidade da conotação (e correlativa táctica retórica).

Por exemplo, o estilo persuasivo do ensaio de ciência exibe a sua pretensão de verdade verificável. Ora, sabemos que nem todas as propostas científicas acabam por ser verificadas com sucesso (já para nem aludirmos à hipótese aventurosa de nada poder ser provado de uma vez por todas), o que faz com que esses ensaios não sejam sempre verdadeiros. No entanto, a retórica normativa de que se socorrem indirectamente oculta essa possibilidade de erro. A escolha entre a fórmula “Pede-se ao excelentíssimo condutor o favor de não interromper a sua marcha neste local” e a versão “É proibido estacionar aqui”, não é uma escolha entre retórica ou não retórica. As conquistas ao silêncio fazem-se para possibilitar a comunicação, e qualquer gesto de superação do zero linguístico implica invariavelmente uma tomada de posição retórica.

Se, por militância política, acharmos que devemos afirmar num texto que uma “pedra” é uma pedra e não outra coisa qualquer, como um proletário é um proletário e não uma outra coisa, o que estamos a fazer é a impor, ao texto, uma dinâmica conotativa, que pode ser definida da seguinte maneira: a nossa missão enquanto escritor é a de lutar contra todas as formas de alienação. A pedra adquire, então, dois sentidos: ela é, por um lado, um corpo duro e compacto que forma as rochas (é o seu sentido literal), mas passa a ser também, ainda que breves instantes, o símbolo de um materialismo ideológico (sentido metafórico ao qual não serão alheias a dureza e a compacidade do objecto real a que a palavra se refere). A própria tensão entre “ser” e “não ser” de que se reclamam os arautos do olimpismo literal é o cerne da teoria de Ricoeur sobre a metáfora.

Nenhum texto (e, por extensão, nenhum filme, nenhuma performance, nenhum quadro) consegue atingir a univocidade comummente associada ao dicionário. Aliás, o dicionário é um texto erguido a partir de um conjunto de ambições conotativas muito concretas: a da sua validade científica, do seu rigor, do seu carácter exaustivo, da pertinência face à sua época… O acto de exercer linguagens (e especialmente quando esse exercício está ao serviço de uma prática artística) tem uma vocação fatalmente polissémica. É impossível dizer uma coisa apenas, porque não é possível falar sem conotação e sem retórica.

O critério de validação do uso da metáfora na linguagem poética poderia então ser expresso da seguinte forma: a metáfora torna-se necessária ao discurso quando, sem a sua presença, esse discurso ainda mantém um coeficiente de silêncio que impede a comunicação de ser completa e eficaz. Note-se que este critério desvaloriza a distinção entre sentido próprio e sentido figurado. Pois, independentemente da menor ou maior literalidade que tenha sido investida nas palavras de um texto, a metáfora surgirá como um elemento inevitável para que a integralidade do discurso seja transmitida.

Ricoeur fala do acréscimo de informação semântica útil trazido pela metáfora (que impede que possa haver uma substituição do vehicle pelo tenor sem que a informação trazida por aquele seja perdida). Eu salientaria um aspecto específico dessa competência que é a exímia capacidade da metáfora para caracterizar. Repare o leitor na diferença de força expressiva entre a formulação: “O vento move-se mais vagaroso quando passa por entre as folhas” e esta outra: “O vento é um coxo movendo-se por entre as folhas”. Como a segunda hipótese é muito mais violenta (pois é fundada num absurdo), a sua expressividade atinge outro grau de força. Não há adjectivo literal que seja capaz de criar o mesmo tipo de emoção a um leitor. Repare-se que não podemos prescindir, de modo algum, da imagem do coxo. Nem substituí-la por outra parecida. Pois é precisamente todo o âmbito de sentido e afecto associado a essa figura humana que provoca a impetuosidade e a singularidade da caracterização.

Por isso, para nós faz mais sentido que um autor fundamente o seu desprezo pela metáfora manifestando a vontade de se aproximar de um estilo racionalizante, ou sereno, do que acusando esta figura de constituir um desvio à violência do real. Pois aquilo que cria violência num texto não é o seu conteúdo imediato (como, no cinema, um filme não é violento por ter muito sangue espalhado pelo cenário), mas toda a encenação que o escritor constrói em torno desse conteúdo. Luís Miguel Nava não é visceral por usar a palavra “víscera”, mas pela maneira como essa palavra é integrada no sistema de cada poema.

Assim sendo, a metáfora in absentia, se for bem utilizada, consegue triunfar sobre o silêncio ao tornar eloquente uma ideia que se mantém em silêncio. Poder-se-á exigir mais da poesia?

3. A encenação do número DOIS

Se pedirmos a uma criança para definir uma palavra, por exemplo, a palavra “olhos”, o mais certo é que ela sustente que os olhos são partes do corpo que servem para “olhar”. Ora, se o seu receptor não souber o sentido do verbo “olhar”, que é apenas uma mínima variação gramatical da palavra em análise, não poderá compreender a mensagem da criança. Aprender a definir, portanto, é aprender a superar a tautologia sem atingir o mínimo de contradição. Dito de outro modo: só podemos falar de uma “coisa” através de outra(s) “coisa(s)”.

Tanto o discurso religioso como o discurso científico são unânimes na defesa especulativa de que o universo, no seu princípio, era composto por uma espécie de substância única, uma sopa primordial (os nomes para essa sopa variam, mas não deixam de ser equivalentes). E todas as narrativas genesíacas parecem obedecer à mesma intuição: por exemplo, a teoria da evolução parte da hipótese de uma origem comum a toda a variedade da vida que se encontra no planeta. A nossa suposta necessidade de absoluto poderá não ser mais que a sublimação da memória física dessa ordem (ou será desse caos?) inicial.

Como relatou Ovídio no seu mais célebre livro, a partir do UM no qual tudo coincide, é preciso engendrar um processo contínuo de metamorfose que o fragmente e dê origem à diversidade dos seres. O UM precisa de ser fendido em DOIS (procedimento que as células conhecem demasiado bem), e a partir daí a História pode começar.
Toda a nossa experiência, biológica, emocional, política, religiosa, cultural, etc., se resume a uma espécie de luta entre a tentação de regresso ao UM (morrendo, institucionalizando o par afectivo no casamento, fundando cidades, cedendo ao monoteísmo e aos símbolos congregantes), e a necessidade de reprodução plural (gerando filhos, sociabilizando, reclamando a liberdade, a heresia ou a excentricidade). Claro que o plural contém, na sua definição, todos os números a partir do número DOIS (o que está de acordo com as inquietações de Paul Ricoeur). Mas este é a manifestação mais exemplar e produtiva do entendimento do múltiplo.

Assim sendo, todas as “coisas” que existem estão profunda e originariamente relacionadas com as outras “coisas” que também existem no mundo. Se juntarmos esta evidência àquela que referimos atrás sobre a impossibilidade de falarmos de uma “coisa” sem ser através de outra “coisa” (só nos podemos referir ao objecto “pele” por via da palavra “pele”, que é uma coisa distinta desse objecto), conseguimos perceber a naturalidade com que a metáfora surgiu na linguagem humana (e a impossibilidade da sua abolição). Goethe afirmava, aliás, que “se seguirmos demasiado a analogia, tudo coincide de maneira idêntica”, mas “se a evitarmos, tudo se dissipa no infinito”.

O acto de conhecer é definível em termos de duas operações espaciais distintas: um objecto é distanciado do seu observador por um questionamento (por exemplo: o que explica a “chuva”?), e nesse longe intermediário, ele aproxima-se de outro(s) objecto(s) que propõe(m) uma resposta ao questionamento (o ciclo da água, a temperatura atmosférica, etc.).

É exactamente este o funcionamento da metáfora. Se o vento repete palavras, ele torna-se estranho à nossa experiência quotidiana e à lógica com que razoavelmente a apreendemos. Ele distancia-se de nós. No entanto, o vento aproxima-se dos conceitos de poeta e de coxo, e assim engendra uma possibilidade sofisticada de sentido. Sentido esse que resulta da destreza que a leitura tem para superar a contradição aparente do enunciado, e criar uma quase-sinonímia por breves instantes. É a encenação do número DOIS.

Claro que todo o texto pode ser (metaforicamente) compreendido em termos de operações matemáticas. E há outras formas de encenar especificamente o número DOIS na criatividade verbal (desde os neologismos por hifenização ao cadavre exquis). Mas a metáfora comporta uma idiossincrasia: é que os seus dois (ou mais) elementos mantêm, entre si, uma relação de desigualdade, funcionam com teores distintos. Na palavra (ou expressão) única que serve de foco metafórico, são amalgamados o corpo do vehicle (por exemplo: “sóis”) e o espectro do(s) tenor(s) (continuando o exemplo: “olhos”). É o mesmo e o diferente, o ser e o não ser, esporadicamente reunidos numa mise en métaphore.

A metáfora é um sintagma contraído num paradigma, o que faz com que nela o DOIS não apareça explicitado em extensão (1+1) mas seja dado por um número único. Note-se, porém, que esse número não tem nada a ver com a realidade matemática dos números: pois se eu escrever 2, os elementos que o compõem são imediatamente percebidos como estando numa situação de igualdade entre si, o que não acontece na figura de retórica que temos vindo a analisar. E apesar de a metáfora também presumir uma dinâmica exponencial, a verdade é que ela não se confunde com a potência matemática. No caso da potência, o número de base é sempre multiplicado por si mesmo, e na metáfora, o vehicle é multiplicado por um OUTRO, ou mesmo por um conjunto de OUTROS.

Esta forma de entender a figura permite que nos tornemos menos pudicos quanto à dimensão de prazer que, no fundo, talvez tenha sido a verdadeira razão que lhe deu notoriedade (o início do texto de Stevens alude a esse gosto). É que a metáfora encena, como poucos instrumentos da acção humana, o prazer do acasalamento, da cópula. Ao contrário do que geralmente se pensa, não há nenhuma relação entre o uso deste tropo e uma menor fruição física da sensualidade imanente a um texto. A metáfora é um investimento de sensualidade.

O poema “O convite à viagem” de Charles Baudelaire, precisamente um poema sobre a volúpia do par, pode ser lido nos termos que acabámos de definir: desde as constantes ameaças de regresso ao UM original (o incesto genesíaco do primeiro verso, a língua natal) até à plenitude do UM utópico (lá, a mulher tornada país para ambos, o que indicia uma certa passividade do erotismo do autor), passamos por uma enumeração esplendorosa de figurações do número DOIS (o duo de sóis, a pele-mobília, o perfume-flores-ambar, os desejos infinitos) reunidas sob o signo inquieto da viagem, ou seja, do movimento na distância.

4. A questão do tempo

Aristóteles foi o primeiro pensador a referir-se à metáfora, e definiu-a como sendo o transporte, a uma coisa, de um nome que designa outra. Claro que há definições posteriores de muito maior exactidão e completude. No entanto, o filósofo grego manifestou, na sua teorização, uma intuição brilhante, a saber: a ideia de que a metáfora se define em termos de movimento.
Philip Wheelwright terá tentado analisar os dois instantes que constituem esse movimento (uma epífora, ou transferência e extensão de sentido através da analogia, seguida de uma diáfora, a criação de um novo significado por justaposição e síntese), mas isso parece-nos muito menos relevante do que o facto de que esse movimento é aberrante. É uma metamorfose ovidiana ao nível da linguagem (obviamente, o objecto a que a metáfora se refere não se altera em termos da sua realidade, mas apenas a um nível virtual).
Gilles Deleuze, no seu longo estudo sobre a sétima arte, mostra como a encenação de movimento aberrante no cinema de vanguarda foi um catalisador da maturação daquilo que ele chamou imagem-tempo. Tudo o que se move, tudo o que muda, move-se e muda no tempo. Ora, a metáfora, enquanto devir exuberante, é também uma manifestação da temporalidade.

Foi isso que o poema de Wallace Stevens nos ensinou. Não aceitamos que ele constitua uma condenação sumária do uso da metáfora, como pode parecer numa primeira leitura. O livro no qual ele está inserido chama-se “Transporte para o verão” (note-se a coincidência de nomenclatura com a definição aristotélica) e termina com um dos mais célebres textos do poeta, cujo título é revelador: “Notas para uma ficção suprema”. O que Stevens parece defender é a necessidade que a metaforização tem de não se esquivar ao motivo de intuição que a constituiu (todas as metáforas são motivadas, ou seja, resultam da criação subjectiva de uma analogia semântica), sob pena de ela perder o contacto com aquilo a que se refere na realidade (ou como diria Paul Ricoeur com mais justeza, com a referência metafórica).

Stevens fala de devir, das “euforias das mudanças”, e o seu texto descreve a dinâmica metafórica em termos de temporalidade: as meias-tintas insinuantes em que a expressividade do tropo se pode perder são o tempo outonal e o tempo primaveril (estações do ano), e esse meio-dia de aço onde o ser se encontra por inteiro parece constituir, ele mesmo, uma metáfora do verão para o qual o autor nos pretende transportar. O poema encena, isso sim, o combate entre um mundo lunar e um mundo solar, e integra-se no projecto ambicioso que o autor manteve de dizer a realidade através da imaginação (pois outra coisa não pode a poesia senão ficcionar), sem ter de cair no simplismo de Deus, que será talvez a maior de todas as metáforas mas também aquela que aparentemente mais se aliena do motivo que a engendrou. Ao indagar, portanto, a incógnita do motivo (ou da origem) de toda a nossa vida (o X que é igualmente o ABC), Stevens confessa o seu desejo, conflitual e nunca resolvido, de evidenciar o UM que está invariavelmente latente na manifestação do DOIS. Por isso a sua poesia é sempre tão difícil de ler e tão fascinante de aprofundar.

A expressividade metafórica é uma forma privilegiada de materializar o devir, a metamorfose. E por isso talvez não sejamos excessivo se declararmos que só a metáfora viva, enquanto inovação semântica, dá total provimento à definição da figura que temos vindo a ensaiar. Pois na metáfora convencional (por exemplo, “o tempo é um rio”), o devir discursivo encontra-se anulado (quem fala não acrescenta nada ao pensamento).

Claro que isto não é assim tão linear. Jorge Luís Borges dizia preferir as metáforas eternas às tentativas de inovação a que os autores de vanguarda se dedicavam. Baseado na investigação de vários analistas, Zoltán Kövecses elenca um conjunto de procedimentos que permitem perfurar o cadáver do cliché e nele reactivar a vida e o tempo: a introdução de um novo elemento conceptual no domínio do vehicle (é o caso da famosa inovação de Robert Frost, ao repartir a “estrada da vida” em duas), a elaboração de maneira pouco usual de um elemento desse domínio (basta eu dizer “o tempo é o rio Douro”), o questionamento da adequação da metáfora ao seu motivo, e a combinação de vários clichés (segundo o autor, o processo mais fértil e poderoso). De qualquer maneira, a metáfora morta só readquire pertinência poética quando o leitor nela surpreende um aspecto de novidade. Quando nela surpreende o tempo.
Ora, ao contrário da alegoria, cujo sentido não literal se impõe progressivamente ao longo de uma estrutura para-narrativa (forçando todas as palavras que a compõem a assumirem uma dinâmica figurada), a metáfora apresenta a sua metamorfose diacrónica sob a forma de uma sincronia absurda. O vento que repete palavras sem sentido é mudado, pela leitura sensível ao contexto, num poeta. No entanto, essa mudança não é narrada pelo poema, a sua duração não é explicitada diante dos nossos olhos. Pelo contrário, ela encontra-se contraída numa palavra única, o devir ocupando exactamente o mesmo espaço textual do ser. Sem o esforço de uma leitura que vá para além da superfície, não conseguimos distinguir o actual do virtual (que são ambos possíveis, mas não ao mesmo tempo). O que é um paradoxo.

Todavia, é um paradoxo que sugere o tipo de experiência mais intensiva do que extensiva que a poesia fornece do tempo. É claro que um poema também exige uma leitura cronológica (e no início da sua história, este género literário estava mesmo miscigenado com a arte de narrar). Mas enquanto, no romance, cada frase parece exigir a sua continuação na frase seguinte para que o sentido se vá compondo de ocorrência em ocorrência, a imagem poética tem o poder de concentrar sobre si a atenção, ao mesmo tempo afectiva e interpretativa, do leitor.

Recorrendo de novo ao pensamento de Deleuze, diríamos então que a metáfora, ao fazer, do devir, um ser, consegue levar o vivo à criação. Significa isto que a verdade que dela resulta é uma verdade mais criada do que descoberta (e se a noção de verdade entra sempre em crise quando há uma mutação na noção de tempo, então Deleuze fornece um argumento a favor do conceito de verdade metafórica, defendido por Paul Ricoeur). Alertando o nosso leitor para a relativa imprecisão da seguinte analogia, quer-nos mesmo parecer que a metáfora se aproxima do conceito deleuziano de imagem-sonho, o tipo de imagem cinematográfica que, projectando as situações sensoriomotoras até ao infinito, revela o movimento de metamorfose incessante do mundo.

Literalmente, o vento é o vento e não é um poeta. Metaforicamente, o vento não é o vento e é um poeta. Ou seja, a mortalidade necessária ao devir (é preciso deixar de ser para ser outra coisa, é preciso que tu mesmo nunca sejas bem tu mesmo), deixa aqui de ter uma relação de disjunção perante a vida, para a ela se reunir em modo copulativo. A questão já não é “ser ou não ser”, mas “ser e não ser” simultaneamente (o que, como mencionámos anteriormente, configura a encenação específica que a figura faz do número DOIS). Roubando Deleuze pela última e mais descarada vez, assumamos, portanto, que, ao contrário do que acontece na comparação, a metáfora fornece uma imagem directa do Tempo.

Afastemo-nos, contudo, e por breves instantes, do entendimento de tempo como sendo uma dimensão incomensurável perante as outras dimensões. Pois, se considerarmos que a extensão cronológica é análoga à extensão espacial, podemos conceber que os objectos, estendidos no tempo, têm partes temporais. Ou seja, um objecto num determinado momento (por exemplo, “Wallace Stevens em 1947”) não pode ser considerado o objecto total, em toda a sua extensão, mas apenas uma parte temporal desse mesmo objecto. Assim como uma mesa tem partes que se estendem no espaço (por exemplo, quatro pernas colocadas em sítios diferentes), também um objecto pode ter tantas partes quantos os tempos em que lhe foi dado existir.

Esta visão do mundo em quatro dimensões lança uma luz diferente sobre a metáfora, que contesta mesmo aquilo que anteriormente nós dissemos sobre a vocação privilegiada do tropo para encenar a ausência. Pois a relação estabelecida entre o vehicle e o(s) tenor(s) deixa de ser concebida como uma metamorfose temporária, um movimento aberrante que, no espírito, transforma um objecto noutro objecto, e pode ser concebida como a relação entre as partes temporais distintas de um mesmo objecto (o vento e o poeta são o mesmo objecto, mas em tempos diferentes). A cada tempo, a sua palavra (aliás, não seria disparatado considerarmos que, no próprio domínio do literal, todas as palavras são partes temporais dos objectos que pretendem denotar).

Vejamos: no seu famoso (e magnífico) soneto “Transforma-se o amador na cousa amada”, Camões parte precisamente da ideia de que, por imaginação metafórica, o ser amado possa ser entendido como uma parte temporal do próprio ser amante, o que tiraria relevância à concretização física do afecto. No entanto, o soneto explicita um esquisso da evolução histórica do pensamento humano. Se as primeiras duas quadras aludem ao ideário platónico, os dois tercetos que se seguem já discutem a filosofia de Aristóteles, que é posterior. A noção de tempo é debatida no poema, e é esse debate que permite ao poeta entender que a actividade metafórica pertence ao domínio da linguagem, e que portanto não pode suprir uma ausência no domínio da realidade. O virtual tem de se tornar concreto, porque o tempo da metáfora é um tempo tão visionário quanto intervencionista.

Já no poema “Noche escura”, de S. João da Cruz, o amor em causa tem um teor divino. Ora, se é muito difícil concebermos um tempo que seja independente dos eventos que nele decorrem (o que equivaleria a podermos separar o tempo do devir), tal delírio já não encontra obstáculos se dermos um salto de transcendência e entrarmos no domínio da eternidade. Aí, sim, o tempo pode ser um contentor autónomo, porque já tempo não é, mas algo cuja definição ultrapassa o nosso entendimento. Assim, por via metafórica, S. João da Cruz pode fornecer-nos uma imagem directa da eternidade, o que permite que, no seu poema, o Amante se transforme, efectivamente, no ser Amado: os Homens são partes temporais de Deus.

Não queremos tomar partido por uma qualquer visão do tempo. Apenas pretendemos estabelecer a ligação entre escrita metafórica e expressão da temporalidade, e mostrar como essa ligação permite um melhor entendimento dos textos literários. A metáfora fornece uma imagem directa do Tempo, seja qual for a concepção que dele tenhamos.
O que está ausente e o que está deveras presente (em termos espaciais e cronológicos)? Não é por vezes mais física a presença do que está em espírito do que aquilo que está em corpo? A metáfora complexifica este problema até à máxima ambiguidade que ele pode atingir. A verdade é que a realidade só pode ser perturbada pela afronta temporal que ela protagoniza e prodigaliza.

5. Proposta de leitura coperniciana

No capítulo 58 do romance “Moby Dick”, Herman Melville estabelece uma analogia entre as largas extensões de brit que cobrem o oceano (o brit é uma substância amarelada que as baleias utilizam na sua alimentação) e os campos de cultivo quando estão cheios de trigo maduro e dourado. As baleias percorrendo essas pastagens são então metaforicamente aproximadas às figuras dos ceifeiros prosseguindo nas suas colheitas.

No entanto, o autor exprime, de imediato, a desconfiança perante o seu tropo. Começa por dizer que, vistas do cimo dos mastros, as baleias parecem grandes rochas e nada mais (pois, dada a desmesura do seu tamanho, não é expectável que sejam seres vivos), para logo a seguir defender uma diferença insanável entre a terra e o mar. O mar é uma ameaça constante de terror, é a permanência trans-histórica do dilúvio e, por isso, a constante utilização de elementos terrestres como vehicles das metáforas que o autor vai construindo na sua viagem literária sobre o oceano passa a ser legitimada pela nova (e mais justa) metáfora que conclui o capítulo: na alma do homem, existe uma terra insular paradisíaca (como o Taiti) rodeada por todos os horrores que o abismo pode fornecer.

A criatividade metafórica fornece, ao escritor, um conjunto nada despiciendo de faculdades lúdico-filosóficas. Dá-lhe uma licença provisória para rebaptizar os seres do mundo (por momentos, o poeta chama-se “vento”), faz dele um criador de impossível (o vento fala), especialmente de quimeras cronológicas (o vento e o poeta são partes temporais do mesmo e estranho ser) e, sim, abre-lhe o horizonte do virtuosismo ornamental (não há que ter medo deste último aspecto: falamos de ornamento no sentido, usual na música antiga, de investimento na criatividade do intérprete; a metáfora será mesmo uma espécie de mordente que alterna tenor e vehicle a grande velocidade).

Tão importante quanto esta vocação libertária é, contudo, a necessidade de uma leitura crítica desse tipo de criatividade. Vivemos rodeados de metáforas. Não sabemos até que ponto elas viciam de facto o pensamento (há mais teorias do que provas sobre o assunto), mas temos pelo menos a noção de que toda a metáfora que se cristaliza nos hábitos de linguagem acaba por perder a sua capacidade de encenar o plural. Talvez haja muito mais do que um fundo de verdade na ideia de que “a vida é uma viagem”, mas, a partir do momento em que aceitamos que essa ideia feita ocupe o nosso pensamento, ele perde liberdade evolutiva (a viagem cessa). Ora, funcionando a metáfora como um instrumento do devir, essa perda é um contra-senso que a descaracteriza.

O tempo útil da metáfora é o tempo da efemeridade. Todo o seu potencial se encontra mais intenso e ágil quando a figura surpreende mais do que confirma. Ora, para manter esse carácter heurístico em alerta, quer-nos parecer que o escritor não pode menosprezar a figura, sob pena de com ela se relacionar como um receptor, e não como um artífice. O risco do cliché é iminente sempre que não se trabalha frontalmente a metáfora, de tal modo estamos inconscientemente presos numa rede conceptual baseada no seu modus operandi.
Éric Bordas menciona o poema “La courbe de tes yeux” de Paul Éluard como sendo um texto cujo assunto é a própria metáfora (algo de semelhante acontece em “Allo” de Benjamin Péret).

Os surrealistas assumiram o tropo como matéria privilegiada de trabalho e dele fizeram um campo de batalha experimental, laboratorial. Não será preciso ir tão longe, mas há que pelo menos reconhecer a inevitabilidade do pensamento metafórico de modo a evitar a sua propensão degenerativa para as grandes moralidades convencionais (note-se como Proust pôs em causa a ideia de que “o tempo é um rio cujas águas não voltam a passar”).
Na metáfora, a informação extraída do vehicle é sempre utilizada para caracterizar o tenor. Este último constitui o inevitável e invariável alvo da leitura (no seu poema, Wallace Stevens não está a falar propriamente do vento, mas da actividade do poeta). Ora, quer-nos parecer que, aos processos de revitalização das metáforas mortas mencionados anteriormente, podemos acrescentar aquilo que resolvemos chamar de leitura coperniciana (pedimos a solidariedade bem-humorada do nosso leitor: o nome pretende ser apenas uma homenagem ligeira ao grande astrónomo polaco e não a designação pomposa da próxima moda a ser inoculada em intelectuais imunodeficientes).

A leitura coperniciana é aquela que, perante as metáforas de um determinado texto, toma as suas fontes, e não os seus alvos, como objectos directos. É aquela que pretende saber o que o escritor diz sobre os seres que instrumentaliza como vehicles das suas metáforas, a partir do pressuposto de que essa instrumentalização está dependente de um inconsciente cultural colectivo ao qual o escritor nunca deixa de pertencer.

A ideia surgiu-nos durante a leitura das “Metamorfoses” de Ovídio. Num dos passos do Livro I, o poeta latino narra que a ninfa Dafne se transforma num loureiro após ter resistido a perder a castidade às mãos do deus Apolo, enquanto este se socorre do seguinte comentário: “Já que minha esposa não podes ser, / serás ao menos a minha árvore.” (tradução de Paulo Farmhouse Alberto). Para além de explicitar a noção cultural de que uma mulher, quando deixa de ser virgem, muda de estatuto (social e moral), esta alegoria clássica tem em si latente uma metáfora reveladora: “a esposa é a árvore do marido”. Com tudo o que isso implica de pernicioso: o rebaixamento da posição existencial feminina, a lógica de posse com que o homem se relaciona com a mulher, o afunilamento do destino desta em direcção à actividade reprodutora.

Quando experimentamos, contudo, inverter a orientação útil da metáfora por um artifício de leitura, o sentido do texto passa a ser outro. Pois se eu disser que “a árvore, para o homem, é uma verdadeira esposa”, eu já estou a enaltecer o ente vegetal a partir de um pressuposto implícito de nobreza do feminino. Da humilhação, passamos para a exaltação.
Obviamente, os textos não devem ser lidos deste modo. Como mencionámos anteriormente, este é um processo de questionamento da cristalização metafórica e não um método válido de abordagem hermenêutica. O mais que podemos obter, no que a esta se refere, é um panorama parcial do inconsciente, colectivo e particular, que presidiu à criação de um texto. No entanto, a violência dos resultados a que uma leitura coperniciana sempre chega é um indício de uma provável utilidade que esta possa ter.

Eis alguns exemplos: se Melville, na sua gesta baleeira, sugere que “os homens são antropófagos” (numa acepção espiritual, claro está, e não exclusivamente negativa), a leitura coperniciana lembra-nos de que “os canibais (também) são homens”; se “uma caneta é um avião” que faz João Cabral de Melo Neto viajar intelectualmente para a distância de si mesmo, a verdade é que “um avião é uma caneta” que escreve uma História sobre o céu; se “o tempo é um rio cujas águas não voltam a passar”, não haja dúvidas de que o movimento incessante das águas num leito fluvial é também uma questão de temporalidade, de metafísica; se muitas vezes descrevemos as teorias através de um vocabulário extraído da arquitectura, talvez sejamos ainda mais exactos se assumirmos que todo o edifício é, em si mesmo, a manifestação de uma teoria. E etc.

Uma análise mais sistemática e demorada do processo (vehicles de todo o mundo, uni-vos!), a que nos dedicaremos doravante, poderá eventualmente dar conta das exactas medidas deste tipo de inversão. Podemos, no entanto, salientar, desde já, que a leitura coperniciana tende a subverter parcialmente a dimensão de grandeza que está associada a uma metáfora (quando esta é grandiosa, a inversão aproxima-se da humildade, e vice-versa: basta averiguar os exemplos dos parágrafos anteriores), o que só vem confirmar a nossa desconfiança em relação ao verdadeiro sentido das emoções sublimes.

Não cremos que a leitura coperniciana não passe de um jogo. No fundo, para quem, como nós, entende a metáfora como sendo uma manifestação de puro devir, a leitura coperniciana impõe-se como ponto de chegada do raciocínio. Se o “poeta” se torna “vento” na encenação de Wallace Stevens, o devir não está completo se a minha atenção como Leitor (como observador do mundo) não se virar, violenta e generosamente, para o vento. Se este não se tornar o protagonista, ainda que efémero, desse esforço de leitura.

Através da leitura coperniciana, a encenação do número DOIS torna-se mais pragmática (naquilo que a linguagem pode ter de pragmático), na medida em que perturba a distinção estanque entre as partes materiais e as partes espectrais de uma mise en métaphore. O silêncio a que ela nos faz aceder será talvez mais fundo e mais prenhe do que aquele que um autor está disposto a fornecer (o que confirma a sua proximidade daquelas estratégias, como a psicanálise ou a desconstrução, que nos permitem indagar os diversos tipos de censura que presidem à escrita de um texto). Claro que há o risco do autor ser fatalmente desintegrado pela leitura coperniciana, mas acreditamos que esse questionamento profundo da estabilidade de um sujeito só poderá fazer mais luz sobre o contributo específico de cada escrevente para a dinâmica de uma cultura. Je est un autre.

Talvez a cultura humana não passe de uma poderosa sublimação das estratégias de adaptação, sobrevivência, reprodução e evolução a que a nossa vida pré-consciente se teve (e tem) de submeter. Se lermos o texto metafísico de Stevens em nota coperniciana, o mais provável é que encontremos um poema que meramente discorre sobre as estações do ano (poema que poderia começar assim: “No outono, nada é literal. / Cada árvore é soprada por um poeta / que lhe escreve as folhas com uma agitação sem sentido.”). O que nos poderá isto dizer sobre “o motivo da ficção suprema”? Não terão os índios Bororo da América do Sul sido mais sábios do que nós, ao colocarem no céu, lado a lado com as chuvas e os ventos, as suas divindades imperfeitas? Haverá uma continuidade entre o desejo de estabilização climática, essencial à sobrevivência, e a projecção idealizada de um Além sem devir?
Não defendemos, claro está, que o “virar as metáforas ao contrário” nos possa fornecer a chave exacta e simétrica de um entendimento materialista da cultura (isso seria uma nova forma de superstição), mas estamos certo de que a investigação das contra-motivações mais recorrentes do ímpeto metafórico nos pode tornar mais humildes ao nível das nossas crenças.

E ainda mais convicto estamos de que a leitura coperniciana pode funcionar como um instrumento de acção, uma arma que ao reler o passado consegue reinventar o futuro.
Para não acabarmos como Ovídio, decretando o fim da História com o Império Romano. O exílio intelectual não serve a ninguém.

 O texto:

O motivo para a metáfora

Tu gostas de estar sob as árvores no outono,
Porque tudo está meio morto.
O vento move-se como um coxo por entre as folhas
E repete palavras sem sentido.
De igual modo, tu foste feliz na primavera,
Com as meias cores de quartos-de-coisas,
O céu um pouco mais brilhante, as nuvens a derreterem,
O simples pássaro, a lua obscura –
A lua obscura iluminando um mundo obscuro
De coisas que nunca seriam bem expressas,
Onde tu mesmo nunca foste bem tu mesmo
E não quiseste nem tiveste de ser,
Desejando as euforias das mudanças:
O motivo para a metáfora, esquivando-se
Ao peso do meio-dia original,
O ABC do ser,
A têmpera rosada, o martelar
Do vermelho e do azul, o som cortante –
Aço contra insinuação – o clarão afiado,
O vital, arrogante, fatal, dominante X.

Wallace Stevens
(tradução de Pedro Ludgero)