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sexta-feira, 4 de novembro de 2011

RIMBAUD NA CIDADE - POEMA - SYLVIA BEIRUTE

























RIMBAUD NA CIDADE

{ao Pedro Ribeiro, pela afinidade}

podemos encontrar um homem numa cidade
que se desenrola como uma conversa.
um homem que
toma uma decisão no meu affair, mas não interessa.
bem, a boa poesia sempre tornou os meus olhos
mais brilhantes {e isso interessa},
o meu entusiasmo levemente esquecido
como todas as coisas que se integram.
a minha lei sempre começou por se titular 
imediatamente por baixo dos meus pés.
bem, os meus pés parecem agora voar
no seu próprio raciocínio e intelecto, cobertos 
por algo inacabado, algo
que faz andar e, sobretudo, correr.
e há algo de mágico nestas três da manhã
de um dia tal em que traduzo e falo com rimbaud 
e invejo os amarelos de van gogh
{e isto também interessa}.
e umas mãos parecem superar o carácter
de uma permanência deslizante que contraria 
o seu primeiro e último instinto.
o meu affair é uma água súbita e sofrida
na memória cor de neve.
o meu amor é um balão e voa como o tempo
mais belo e significante.

Sylvia Beirute
inédito
.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

terça-feira, 25 de outubro de 2011

ORAÇÃO DE GRATIDÃO - POEMA - SYLVIA BEIRUTE

























ORAÇÃO DE GRATIDÃO

há toda uma gratidão em aceitar o universo.
todas as pequenas coisas formam uma grande coisa.
há um parentesco desconhecido entre todo o conhecido.
o meu mundo tem ligação directa aos deuses.
há uma força da natureza que age na raiz das constelações.
há um erro que me pensa a fim de me construir.
há uma maneira de aproximar e que me dá todas as matérias.
e todas as matérias são feitas de paz, luz e bons espíritos.
há um compromisso e uma responsabilidade de mim para mim.
o meu dia é a minha caneta, o meu papel.
e no final do dia o universo requer um pensamento
que absorve palavras absolutamente inteligentes
e que o resumem na noite brilhante.
esse pensamento é a devolução do dia em forma
de energia para o sonho seguinte, o dia seguinte, 
um novo passo, um novo começo.
há uma renovação constante em mim
na maneira de me dar e de me devolver.

Sylvia Beirute
inédito de 22 de Março de 2001
.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

MEIA-NOITE EM PARIS, DE WOODY ALLEN



Há acasos e coincidências muito interessantes. Tenho notado que muita gente tem entrado neste blogue à procura de algo sobre Gertrude Stein, facto que me intrigava. Porque raio todos se tinham lembrado agora da Gertrude Stein, quando nem é assim tão conhecida na lusofonia? Durante dias pensei nesse facto. Até que vi o filme Meia-Noite em Paris, de Woody Allen, em que aparece esta poetisa americana que tanto admiro e de quem falei um pouco aqui no Uma Casa em Beirute. Não posso estar cem por cento certa de ser esta a correlação, mas parece-me bem provável. Pelo menos, não vejo outra. Se alguém vir, que diga. Mas adiante. Aproveito para aconselhar o filme. Tenho a certeza que os amantes da literatura vão gostar especialmente dele. Na cena podemos um ver um Ernest Hemingway, com uma esplêndida interpretação, Fitzgerald, entre outros escritores e artistas que usaram Paris como inspiração na sua arte, tendo vivido nesta cidade.

Outra coisa muito interessante, e que os curiosos da Lei da Atracção talvez pudessem explicar, é o facto de há uns bons anos eu ter escrito um poema com o título Meia-noite em Paris, sem tirar nem pôr. Pedi a alguém muito especial que o encontrasse e, depois de algum esforço, deu-se um Voilà! Com todas as falhas e incongruências de uma idade mais tenra, aqui vai:

MEIA-NOITE EM PARIS

meia-noite em paris.
a minha meia-noite em paris pretende alcançar
as asas do meu silêncio.
não reclama qualquer ferida alheia, não
ostenta o seu coração giratório.
há um pássaro que reconhece um 
momento menos sóbrio
e pousa, há uns olhos que permanecem
intactos e não olham.
é meia-noite em paris, ainda que a cidade
seja outra. e esta cidade é, de facto, outra.
o amor acende as luzes do medo.
as janelas do tempo recebem a ventania
que as sombras já não seguram.
há uma tristeza descoordenada nas imagens
dos espelhos que paris augura.
meia-noite em paris. a verdade 
é directamente arrancada do coração
e com ele.

Sylvia Beirute
inédito
.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

SONDA ESPIRITUAL - POEMA - SYLVIA BEIRUTE



















SONDA ESPIRITUAL

às vezes as coisas não correm bem. há meia hora atrás tentava escrever algo. 
sem sucesso. agora escrevo por cima. bem, não propriamente por cima, uma vez 
que estamos no mundo do digital, o que nos dá a liberdade de empurrar texto. e é isso que faço. em baixo tenho um texto primitivo em verso. fala numa sonda espiritual, algo mais vivo que um espírito. tem palavras como nicho, arma, orgulho e bala. usa o verbo disparar. diz que disparar é uma forma de partilha. dito assim alguém ficará a pensar no que se perdeu. escrito assim eu valorizo o meu fracasso.

Sylvia Beirute
inédito
.

domingo, 9 de outubro de 2011

AMAR EM PEQUIM - POEMA - SYLVIA BEIRUTE

























AMAR EM PEQUIM

seguir as regras do improviso. 
evitar as metáforas. 
o abc imaginário. 
amar em pequim.
e a sucessão de factos.
a sucessão de factos 
faz-me respirar as estranhezas
nos olhos. 
um vazio separa um reconhecimento.
o amor tem aqui a sua pequena reserva. 
a última palavra.
e é abstracto.
e existe em protesto. 
é amar em pequim
com os meus finais tão óbvios.
e uma pequena alteração 
é frequentada por uma
grande alteração.
e o que existe? o que sucedeu ao morador
na minha criatividade?
como sobrevive um amor não criativo?
a tempestade de areia 
também segue as regras
do seu improviso.
a cómoda situação do resto do mundo 
é assinalada
pela cor azul eclecticamente misturada
como o romance entre dois números.
não é possível.
como é possível?
há um pouco de morte aqui
ou então um pouco de felicidade, 
felicidade
em quantidade tão diminuta
que só torna ainda mais presente 
o seu inverso.
pequim é um vírus. 
o seu autodesconhecimento
é a minha arte. 
o meu desprezo pela 
utilidade prévia de todas as coisas.
e sigo as regras do seu improviso. 
evito as metáforas.
o abc imaginário. 
sei amar em pequim.
conheço qualquer lugar.

Sylvia Beirute
inédito
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sexta-feira, 7 de outubro de 2011

SEMICORPO AUSENTE- POEMA - SYLVIA BEIRUTE



















SEMICORPO AUSENTE

perguntaram
perguntaram pela minha ausência à minha ausência
e ela respondeu sem modéstias à parte mas com 
uma dificuldade redutiva que de tão grande 
se tornou inalcançável e por isso soberba e arrogante
sim sim estar ausente pode significar arrogância
e eu nem estava cá
por isso quem perguntou 
por mim nem deu de caras com o meu semicorpo de adeus
e máquinas de medição
teve de se contentar com a minha ausência 
sentada numa cadeira vazia
repetindo-se continuamente
falando sozinha
multiplicando todos os movimentos da ilusão.

Sylvia Beirute
inédito
.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

RESOLUÇÃO - POEMA - SYLVIA BEIRUTE

















RESOLUÇÃO

{ao Pedro Barros, com verdadeira admiração}

agora escreve um poema bonito.
e daqui a pouco
olha para uma coisa desagradável.
agora constrói uma janela no poema
com vista para uma coisa compreensível.
vale a pena olhar.
o tempo aqui é instrutivo,
os olhos parecem formar um outro limite, um
limite mais elegante, sem pausas
e que se autotranspõe.
agora a sua profundidade afunda-se em ti.
os teus olhos alcançam a segurança
de um videopoema, as imagens
contêm as ilusões do mundo 
e ainda se propõem à sua adolescência.
agora é tudo muito confuso,
a resolução das coisas nunca foi tão nítida.

Sylvia Beirute
inédito
.

sábado, 1 de outubro de 2011

CONOSCENZA - POEMA - SYLVIA BEIRUTE


















CONOSCENZA

{o teu reconhecimento é a tua dependência},
não o deixes passar da fase da costura.
surge. insurge. inespera.
adquire expressões através do
eco difuso dos vegetais, coloca-te
nas ranhuras da madeira.
há uma vida imprópria algures.
pode não ser como aquela que espera
na plumagem de uma memória
por antecipação, mas protege o silêncio
e não deixa coagular o sangue.
{o teu reconhecimento é a tua dependência},
e quanto mais o memorizares
mais afastado estarás
dos lados obtusos de quem te deseja habitar
e da semântica temporal
das pessoas que te pedirão um
poema bonito,
e nada pior do que escrever
um poema bonito.

Sylvia Beirute
em Uma Prática para Desconserto
4Águas, 2011
.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

POEMA QUE COMEÇOU COMO SENDO DE SYLVIA PLATH - SYLVIA BEIRUTE


























POEMA QUE COMEÇOU COMO SENDO DE SYLVIA PLATH

este poema começou por ser de sylvia plath.
e pouco depois deixou de o ser.
não, já não era sylvia plath.
senti-o mais como um ferlinghetti, ou então
um hölderlin.
sim, até podia ser um hölderlin.
mas não tinha a certeza absoluta.
tentei espreitar para saber se podia ser
de manoel de barros, mas não vi qualquer
humanização bizarra.
perguntei ao meu editor, fernando esteves
pinto, se seria seu. e a resposta foi negativa.
liguei para ricardo domeneck, em berlim
e de viagem para lisboa para o festival epipiderme.
ele ouviu-o no meu português de tímido sotaque
e citou dois ou três nomes estrangeiros
que não consegui decorar.
mas pouco depois senti o poema como meu,
como se todo o sentimento tivesse descongelado.
como a minha contemporaneidade.
{é, talvez eu seja o último ponto
da minha própria contemporaneidade.}
e todas as minhas palavras pareceram de novo minhas
como se nunca tivessem deixado de o ser.

Sylvia Beirute
inédito
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quinta-feira, 15 de setembro de 2011

UM CORPO ENCONTRA A SUA PROFUNDIDADE FORA DELE - POEMA - SYLVIA BEIRUTE


















UM CORPO ENCONTRA A SUA PROFUNDIDADE FORA DELE

um corpo encontra a sua profundidade fora dele
como a palavra isolada ilude a linguagem.

mas é na palavra transitiva que nos amamos
no que passa e contradiz
no lugar onde o erro ainda subverte
a sua prova mais ténue.

respiro as nossas impossibilidades
como se o corpo fosse a libertação
de todas as coisas.

Sylvia Beirute
inédito
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quarta-feira, 14 de setembro de 2011

MAIS UM POR AÍ

Fotografia à Beira-Mar, do meu livro, no blogue O Mar Parece Azeite.
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.
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terça-feira, 13 de setembro de 2011

ESPÍRITO - POEMA- SYLVIA BEIRUTE




















ESPÍRITO

e no final de tudo: o que prevalece.
é esta a questão.
quer dizer, o que subsiste e o que quebra
no confronto interno.
é que todas as coisas detêm, em certo momento,
uma voz imprópria.
qualquer coisa própria não é apreendida assim
pelos prenúncios dos actos.
e no final de tudo: o que prevalece.
questiona-me a minha adolescência regressada,
pergunta-me o coração partido
subindo os degraus da memória.

o que prevalece, digo.
e quanto mais o digo, mais resisto à apreensão do frio,
ao instante que perscruta o esquecimento
mais profundo.

Sylvia Beirute
inédito
.

domingo, 11 de setembro de 2011

11 DE SETEMBRO - POEMA


















11 DE SETEMBRO

nada a nada.
as quedas geram ausências diferentes.
uma coisa uma não coisa.
um poema um quase poema. isso.
sentido de homenagem, o respeito
de não voltar a fazer o objecto homenageável.
a especialidade rebenta em todos os órgãos.
a porta fecha com o mundo dentro dos
calcanhares que logo impedem a luz negra
de entrar por baixo.
os amanhãs dos hojes. exclamações submersas.
e um poema um quase poema e quem me dera
que fosse como uma vida
impossibilitada de ser um céu ou um paraíso
perdido, mas que deve ser quase isso.
manter-se nisso.
e nada a nada. uma coisa uma não coisa.
um poema um quase poema.
uma vida uma vida.

Sylvia Beirute
inédito
.

domingo, 4 de setembro de 2011

MOVIMENTO - POEMA - SYLVIA BEIRUTE














MOVIMENTO


assim.
assim.
assim.

que movimento é este?
que semiologia do próprio?
que não coincidência com o alvo errado?
que alvo seria?
que perfuração da cabeça?
que efeitos?
que tipo de ausência recolhe a arte?
que lacuna deixada em branco?
que reflexão no prazer intravenoso?
que erro de digitação?
que identidade num discurso de água?
que inalação de riscos e fricção da página?
que conceito fundamental da filosofia chinesa?

assim.
assim.
assim.

que movimento é este?
que acto mais se assemelha à liberdade sem o ser?
que resposta tem um caminho azul?
que tipo de certezas produzem as palavras?
que motivo central possui este poema?
que ideograma elaborado à máquina?
que máquina?
que silêncio?
que respeito?
que nuvem absorve o branco de todas as coisas?

Sylvia Beirute
inédito
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quinta-feira, 1 de setembro de 2011

SEM TÍTULO - POEMA - SYLVIA BEIRUTE




















SEM TÍTULO

o bom poeta 
é aquele que não exige respeito 
ao próprio poema.

Sylvia Beirute
inédito
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terça-feira, 30 de agosto de 2011

UM DIA TRISTE - POEMA - SYLVIA BEIRUTE

























UM DIA TRISTE

eu sei o que é
o que é senti-lo
a que sabe
que cor apresenta nos dias tristes
sei quantas vezes aparece
sei que recolhe a neblina
e olha para mim como se eu fosse alguém
que desse aulas de coração
nas impressões de encantamento
no esquecimento profundo
eu sei que a sua boca é um caderno
invisível
que a sua pós-adolescência
é geograficamente
descomprometida com qualquer
outra coisa outra razão
eu sei que imagina o trânsito e
de certa forma o reproduz
e simula em mim
eu sei as suas maneiras 
de estrutura e organismo natural
avançando para o corpo subliminar
simultâneo de outro mais inteiro
eu sei as suas raparigas e os seus rapazes
retratando o mundo suburbano
com a palavra crise e a palavra desimportância
e eu sei o que é
o que é senti-lo
a que sabe
que cor apresenta nos dias tristes.

Sylvia Beirute
inédito
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quarta-feira, 24 de agosto de 2011

NATASCHA KAMPUSCH - POEMA - SYLVIA BEIRUTE

























NATASCHA KAMPUSCH

vento de novembro.
no bunker um ano espreita as raízes de todos os outros.
o tempo passa murmurando todo o passado
incrustado na montanha.
a cabeça começa a faltar ao corpo
e todos os membros encontram as suas ilhas
em direcção à obediência.

no bunker as sombras começam a inexistir,
declarando interesses que fogem;
a vida neva com palavras
que contradizem tudo a que pertenço, per-
guntas que arrasto como armários, silêncios
encontrando acomodação superior.

no bunker eu penso fugir e as cores quebram.
todas as portas e frinchas
descobrem o rosto do mesmo agressor.

vento de novembro.

Sylvia Beirute
inédito
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segunda-feira, 22 de agosto de 2011

PRÁTICA - POEMA - SYLVIA BEIRUTE


















PRÁTICA

amar é o prazer
de derrotar
a liberdade.

inédito
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POEMA PARA MÁRIO CESARINY - SYLVIA BEIRUTE




POEMA PARA MÁRIO CESARINY


era uma coisa e depois disse que era outra.
tinha uma profissão esquisita.
consistia em desvendar a inspiração no interior da frase.
desvendar mas sem partir.
sem quebrar o passo e o ritmo.
e depois ele disse que via as estrelas das coisas,
todo o cinema e brilho secreto no espaço difuso.
um dia falou-me em paradoxos metafóricos
e eu assustei-me como se visse vísceras
no tabuleiro da vida.
e foi então que comecei a escrever.
peguei numa palavra e depois noutra e depois noutra.
as palavras não tinham grande significado para mim.
eram como pedras e possibilidades.
escrevi um poema. dois. três. muitos.
e um dia ele me roubou as grandes frases e deixou
as miudezas; tirou-me o macroscópio
e deu-me o seu microscópio de uma só lente
para que visse as células e demais estruturas minúsculas.
escrevi um poema sobre mim
com o poder de me fazer uma coisa e depois outra
e depois outra.
hoje pergunto-me quem sou
e de cada vez que o faço
um poema nasce. por si só. como que para o mestre
que nunca dorme em mim.

Sylvia Beirute
inédito
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