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sexta-feira, 4 de março de 2011

MANOEL DE BARROS: POEMAS, POESIA, ANÁLISE CRÍTICA, BIOGRAFIA, BIBLIOGRAFIA














sb: série poetas


MANOEL DE BARROS
   
                      "Na Natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma."
                                                                                    Antoine-Laurent de Lavoisier


                              "Sabemos nós que poesia mexe com palavras e não com   
                                paisagens. Por isso não sou poeta pantaneiro, nem ecológico.   
                                Meu trabalho é verbal. Eu tenho o desejo, portanto, de mudar   
                                a feição da natureza, pelo encantamento verbal."
                                                                                                    Manoel de Barros


            Manoel Wenceslau Leite de Barros (Cuiabá, Brasil, 19 de Dezembro de 1916) é o que se poderia chamar de alma humana inevitável, clarividente no corpo fisicamente espiritual como se tudo tivesse visto antes de vir ao mundo. E que visão feliz é esta? O poeta do Pantanal escuda-se na simples dicotomia entre coisificação do homem e humanização da coisa, fixando no seu solo tais premissas, permitindo-se alterar a substância natural e a partir daí reconstruir, dar vida (no caso das coisas, muitas delas objectos próximos da inutilidade, ou desutilidade como ele próprio diria), retirar vida ou colocá-la lado a lado com as restantes coisas (no caso do homem). Por isso, está claro que é uma poesia directamente literal (do ponto de vista linguístico), sendo que porém a literalidade é uma literalidade diferida, resolvidos os pressupostos iniciais. Nos poemas há como que um reequilíbrio do mundo, do peso das coisas, da importância das pessoas umas face às outras; há uma comunicabilidade entre todos os elementos do mundo, a que não é alheio, talvez, o facto de Manoel de Barros ter nascido à beira do Rio Cuiabá, ter vivido em Campo Grande, onde foi fazendeiro e criador de gado. Esse contacto com a natureza fê-lo buscar incessantemente a génese, os pontos mínimos, os inícios de sociedade, os primeiros olhares em direcção à realidade, passando a ter, na sua poesia, o Pantanal como pano de fundo.

            Em Poemas Concebidos sem Pecado (livro ilustrado por Jorapimo) há uma busca pela essencialidade (“sob o canto do bate-num-quara nasceu Cebeludinho / bem diferente de Iracema / desandando pouquíssima poesia / e que desculpa a insuficiência do canto / mas explica a sua vida / que juro ser o essencial”), pela inocência de uma infância de traquinice, alegria e êxtase (são usuais as exclamações), e um certo deambulismo, contemplação e qualificação (“pela rua deserta atravessa um bêbado comprido / e oscilante / como bambu / assobiando”).
            Em Compêndio para Uso dos Pássaros (também o nome da Poesia Reunida do autor, em Portugal, editado pelas extintas Edições Quasi) há um aprimoramento da metáfora, que é aberta e narrativa, um esforço maior de retirar as coisas do contexto natural e introduzi-las num outro, bem mais visceral (ex: “Jacaré comeu minha boca do lado de fora”; “ainda estavam verdes as estrelas / quando eles vinham / com seus cantos rorejados de lábios. / Os passarinhos se molhavam de / vermelho na manhã / e subiam por detrás de casa para me / espiarem no vidro”).
           
            Na obra Gramática Expositiva do Chão, o autor adopta uma discursividade quase política tal a importância e o tratamento que dá às situações que retrata e poetifica. De modo a aumentar a intensidade do discurso, faz enumerações de objectos, alguns deles de uso pessoal, fazendo paralelismos entre realidades díspares, num discurso em que a harmonia final é eivada de compaixão, de esquecimentos parciais e de janelas abertas para um mundo retido no seu tempo e espaço.

            Manoel de Barros acredita na superfície das coisas simples, na sua razão autónoma, aprofundando-lhes a estética, desdobrando-lhes a alma. Uma das características da sua obra é precisamente, e quanto a mim, este jogar com o superficial, sendo profundo; este jogar com os desnivelamentos dos elementos, mantendo-se verdadeiro e natural. O autor enquadra-se naquilo que ele chama de «vanguarda primitiva», virtude e dom pela fascinação e obsessão pelo primitivo, pelo elementar e selvagem. Mas há ainda um recriar deste natural. É um natural, eu diria, «infranatural», pois apropria-se dos elementos naturais e quase que lhes subverte a sua ordem mais irrepreensível.
            Por outro lado, esta busca pelo primitivo não quer dizer que ele sempre busque o puro, a purificação, o ausentar-se dos problemas mundanos. É sim, como se tem vindo a dizer, a criação de um novo mundo moldado por uma certa reprodução de um passado, uma busca por um certo alheamento, um olhar diferente, muitas vezes remetido para a infância, vislumbrando-se nas entrelinhas o enorme contraste com o mundo dos nossos dias, de que Manoel de Barros também faz parte.
            Assim, num dos poemas do livro Matéria de Poesia, ele faz o elogio à poesia, mas não, a meu ver, enquanto género literário. É mais do que isso. É a poesia enquanto vida, enquanto modo de vida (“todas as coisas cujos valores podem ser / disputados no cuspe à distância / servem para poesia”), enquanto (des)importância das coisas e busca pelo seu peso certo (“tudo aquilo que a nossa / civilização rejeita, pisa e mija em cima, serve para poesia”). Na obra vê-se um discurso dialogante. Os diálogos, principalmente na segunda parte do livro, dão-lhe vivacidade e dinamismo, a par com a pontuação expressiva (pontos de interrogação, exclamação e reticências).

            Dá-se no poeta como que uma reciclagem dos materiais poéticos. E isto também se explica com o facto de ele tudo tratar como Coisa, até aquilo que de mais humano há. Tudo é aproveitável, porque transformável, fundível (quase que a máxima de Lavoisier se aqui aplica). Há linguagens que se atravessam e deixam o seu uso normal em ordem a experimentarem um outro. Ainda no mesmo livro, ilustrando isso, diz o poeta: “a cidade mancava de uma rua até certo ponto; depois os cupins a comiam”. Este entrecruzar de linguagens, normalmente dentro do contraste interno da mesma dicotomia homem/coisa, sendo dinâmico, ora com imagens, ora com metáforas (por vezes próximas da alegoria), serve para encurtar as distâncias entre tudo, apresentando, em minha opinião, uma consciência de vida em sociedade, na coesão de um grupo. E que sentido tudo isto faz vivendo o autor num país que tem atravessado toda espécie de problemas, a que ninguém é (ou pode ser) alheio.


            Escrever é perpetuar um momento, verdadeiro ou não. Não escrever e sentir é respeitar a natureza (de passagem) do seu exército de músculos e civilizações de saudade. Diferente de gostar de escrever é apreciar sentir a língua invisível nas palavras quando surgem e se alojam num texto. Tudo isto se representaria num círculo que começaria em branco, apenas com o contorno a negro. O ponto central também estaria a negro e seria a fortaleza a que damos o nome de «sentir». Quando o acto começa, e as palavras surgem, o círculo começaria a colorir-se, de fora para dentro, com uma cor forte (podia ser vermelho). Com essa cor galopante dar-se-ia, ou não, a erosão da areia branca desse branco por colorir. A partir daí veríamos de que modo a fortaleza, o nosso ponto que indica o sentir, reagiria. Se se manteria inalterado esperando que o mar vermelho lhe tocasse, se sofreria com o efeito de arrastamento que o branco restante arrastado pela cor sofreria, se procuraria um outro círculo. Se o objectivo do acto fosse verdadeiro, a naturalidade do vermelho chegaria ao ponto negro, cobrindo todo o branco, o branco que representa o vazio. O ponto negro manter-se-ia inalterado naquele momento, deixando-se banhar a penumbra do bem-estar. Dentro desta minha imagem teórica, a poesia de Manoel de Barros surge como esta penumbra do bem-estar: o ponto negro no meio do círculo, com vermelho à volta. Há no autor, em função desta naturalidade, um escrever não escrevendo. Barros não faz da realidade e da escrita (com ficção ou sem ficção) realidades estanques. Ambas fazem parte do viver.

Poemas seleccionados de Manoel de Barros:
.
.
INFANTIL
.
O menino ia no mato
E a onça comeu ele.
Depois o caminhão passou por dentro do corpo do menino
E ele foi contar para a mãe.
A mãe disse: Mas se a onça comeu você, como é que
o caminhão passou por dentro do seu corpo?
É que o caminhão só passou renteando meu corpo
E eu desviei depressa.
Olha, mãe, eu só queria inventar uma poesia.
Eu não preciso de fazer razão.

Manoel de Barros
em Tratado geral das grandezas do ínfimo
.
UM SONGO
.
Aquele homem falava com as árvores e com as águas
ao jeito que namorasse.
Todos os dias
ele arrumava as tardes para os lírios dormirem.
Usava um velho regador para molhar todas as
manhãs os rios e as árvores da beira.
Dizia que era abençoado pelas rãs e pelos
pássaros.
A gente acreditava por alto.
Assistira certa vez um caracol vegetar-se
na pedra
mas não levou susto.
Porque estudara antes sobre os fósseis linguísticos
e nesses estudos encontrou muitas vezes caracóis
vegetados em pedras.
Era muito encontrável isso naquele tempo.
Até pedra criava rabo!
A natureza era inocente.

P.S:
Escrever em Absurdez faz causa para poesia
Eu falo e escrevo Absurdez.
Me sinto emancipado.

Manoel de Barros
Inédito



PARREEDE!

Quando eu estudava no colégio, interno,
Eu fazia pecado solitário.
Um padre me pegou fazendo.
- Corrumbá, no parrrede!
Meu castigo era ficar em pé defronte a uma parede e
decorar 50 linhas de um livro.
O padre me deu pra decorar o Sermão da Sexagésima
de Vieira.
- Decorrrar 50 linhas, o padre repetiu.
O que eu lera por antes naquele colégio eram romances
de aventura, mal traduzidos e que me davam tédio.
Ao ler e decorar 50 linhas da Sexagésima fiquei
embevecido.
E li o Sermão inteiro.
Meu Deus, agora eu precisava fazer mais pecado solitário!
E fiz de montão.
- Corumbá, no parrrede!
Era a glória.
Eu ia fascinado pra parede.
Desta vez o padre me deu o Sermão do Mandato.
Decorei e li o livro alcandorado.
Aprendi a gostar do equilíbrio sonoro das frases.
Gostar quase até do cheiro das letras.
Fiquei fraco de tanto cometer pecado solitário.
Ficar no parrrede era uma glória.
Tomei um vidro de fortificante e fiquei bom.
A esse tempo também eu aprendi a escutar o silêncio
das paredes.

Manoel de Barros
em Memórias Inventadas, 
As infâncias de Manoel de Barros
.
.
APRENDIMENTOS

O filósofo Kierkegaard me ensinou que cultura é
o caminho que o homem percorre para se conhecer.
Sócrates fez o seu caminho de cultura e ao fim
falou que só sabia que não sabia de nada. Não tinha
as certezas científicas. Mas que aprendera coisas
di-menor com a natureza. Aprendeu que as folhas
das árvores servem para nos ensinar a cair sem
alardes. Disse que fosse ele caracol vegetado
sobre pedras, ele iria gostar. Iria certamente
aprender o idioma que as rãs falam com as águas
e ia conversar com as rãs. E gostasse mais de
ensinar que a exuberância maior está nos insetos
do que nas paisagens. Seu rosto tinha um lado de
ave. Por isso ele podia conhecer todos os pássaros
do mundo pelo coração de seus cantos. Estudara
nos livros demais. Porém aprendia melhor no ver,
no ouvir, no pegar, no provar e no cheirar. Chegou
por vezes de alcançar o sotaque das origens.
Se admirava de como um grilo sozinho, um só pequeno
grilo, podia desmontar os silêncios de uma noite!
Eu vivi antigamente com Sócrates, Platão, Aristóteles –
esse pessoal. Eles falavam nas aulas: Quem se
aproxima das origens se renova. Píndaro falava pra
mim que usava todos os fósseis linguísticos que
achava para renovar sua poesia. Os mestres pregavam
que o fascínio poético vem das raízes da fala.
Sócrates falava que as expressões mais eróticas
são donzelas. E que a Beleza se explica melhor
por não haver razão nenhuma nela. O que mais eu sei
sobre Sócrates é que ele viveu uma ascese de mosca.


Manoel de Barros
em Memórias Inventadas, 
As infâncias de Manoel de Barros
.
.
ÁRVORE

Um passarinho pediu a meu irmão para ser a sua árvore.
Meu irmão aceitou de ser a árvore daquele passarinho.
No estágio de ser essa árvore, meu irmão aprendeu de
sol, de céu, e de lua mais do que na escola.
No estágio de ser árvore meu irmão aprendeu para santo
mais do que os padres lhes ensinavam no internato.
Aprendeu com a natureza o perfume de Deus.
Seu olho no estágio de ser árvore aprendeu melhor
o azul.
E descobriu que uma casca vazia de cigarra esquecida
no tronco das árvores só presta para poesia.
No estágio de ser árvore meu irmão descobriu que as
árvores são vaidosas.
Que justamente aquela árvore na qual meu irmão se
transformara, envaidecia-se quando era nomeada para
o entardecer dos pássaros.
E tinha ciúmes da brancura que os lírios deixavam nos
brejos. Meu irmão agradeceu a Deus aquela
permanência em árvore porque fez amizade com muitas
borboletas.

Manoel de Barros
em Ensaios Fotográficos


RETRATO QUASE APAGADO EM QUE SE PODE VER PERFEITAMENTE NADA

1.

Gravata de urubu não tem cor.
Fincando na sombra um prego ermo, ele nasce.
Luar em cima de casa exorta cachorro.
Em perna de mosca salobra as águas se cristalizam.
Besouros não ocupam asas para andar sobre fezes.
Poeta é um ente que lambe as palavras e depois se alucina.
No osso da fala dos loucos têm lírios.

3.

Tem 4 teorias de árvore que eu conheço.
Primeira: que arbusto de monturo agüenta mais formiga.
Segunda: que uma planta de borra produz frutos ardentes.
Terceira: nas plantas que vingam por rachaduras lavra um poder mais lúbrico de antros.
Quarta: que há nas árvores avulsas uma assimilação maior de horizontes.

7.

Uma chuva é íntima
Se o homem a vê de uma parede umedecida de moscas;
Se aparecem besouros nas folhagens;
Se as lagartixas se fixam nos espelhos;
Se as cigarras se perdem de amor pelas árvores;
E o escuro se umedeça em nosso corpo.

9.

Em passar sua vagínula sobre as pobres coisas do chão, a
lesma deixa risquinhos líquidos...
A lesma influi muito em meu desejo de gosmar sobre as
palavras
Neste coito com letras!
Na áspera secura de uma pedra a lesma esfrega-se
Na avidez de deserto que é a vida de uma pedra a lesma
escorre. . .
Ela fode a pedra.
Ela precisa desse deserto para viver.

11.

Que a palavra parede não seja símbolo
de obstáculos à liberdade
nem de desejos reprimidos
nem de proibições na infância,
etc. (essas coisas que acham os
reveladores de arcanos mentais)
Não.
Parede que me seduz é de tijolo, adobe
preposto ao abdomen de uma casa.
Eu tenho um gosto rasteiro de
ir por reentrâncias
baixar em rachaduras de paredes
por frinchas, por gretas - com lascívia de hera.
Sobre o tijolo ser um lábio cego.
Tal um verme que iluminasse.

12.

Seu França não presta pra nada -
Só pra tocar violão.
De beber água no chapéu as formigas já sabem quem ele é.
Não presta pra nada.
Mesmo que dizer:
- Povo que gosta de resto de sopa é mosca.
Disse que precisa de não ser ninguém toda vida.
De ser o nada desenvolvido.
E disse que o artista tem origem nesse ato suicida.

13.

Lugar em que há decadência.
Em que as casas começam a morrer e são habitadas por
morcegos.
Em que os capins lhes entram, aos homens, casas portas
a dentro.
Em que os capins lhes subam pernas acima, seres a
dentro.
Luares encontrarão só pedras mendigos cachorros.
Terrenos sitiados pelo abandono, apropriados à indigência.
Onde os homens terão a força da indigência.
E as ruínas darão frutos

Manoel de Barros
em O Guardador de Águas
.
.

Obra inclui:
  • 1937 — Poemas concebidos sem pecado
  • 1942 — Face imóvel
  • 1956 — Poesias
  • 1960 — Compêndio para uso dos pássaros
  • 1966 — Gramática expositiva do chão
  • 1974 — Matéria de poesia
  • 1980 — Arranjos para assobio
  • 1985 — Livro de pré-coisas
  • 1989 — O guardador das águas
  • 1990 — Gramática expositiva do chão: Poesia quase toda
  • 1993 — Concerto a céu aberto para solos de aves
  • 1993 — O livro das ignorãças
  • 1996 — Livro sobre nada
  • 1996 — Das Buch der Unwissenheiten - Edição da revista alemã Akzente
  • 1998 — Retrato do artista quando coisa
  • 2000 — Ensaios fotográficos
  • 2000 — Exercícios de ser criança
  • 2000 — Encantador de palavras - Edição portuguesa
  • 2001 — O fazedor de amanhecer
  • 2001 — Tratado geral das grandezas do ínfimo
  • 2001 — Águas
  • 2003 — Para encontrar o azul eu uso pássaros
  • 2003 — Cantigas para um passarinho à toa
  • 2003 — Les paroles sans limite - Edição francesa
  • 2003 — Todo lo que no invento es falso - Antologia na Espanha
  • 2004 — Poemas Rupestres
  • 2005 — Riba del dessemblat. Antologia poètica — Edição catalã (2005, Lleonard Muntaner, Editor)
  • 2005 — Memórias inventadas I
  • 2006 — Memórias inventadas II
  • 2007 — Memórias inventadas III
  • 2010 — Menino do Mato
  • 2010 — Poesias Completas
Artigo de Sylvia Beirute
.
.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

PEDRO OOM E O SURREALISMO NA POESIA PORTUGUESA DO SÉCULO XX




















sb: série poetas

artigo publicado na revista brasileira Modo de Usar & Co.
.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

EUGÉNIO DE ANDRADE: POEMAS, POESIA, ANÁLISE CRÍTICA, BIOGRAFIA, OBRA POÉTICA



















sb: série poetas

EUGÉNIO DE ANDRADE

A obra poética de Eugénio de Andrade é lida a partir de uma participação intensiva do sujeito que a expressa, do esgotamento progressivo dos gestos, da racional incompreensão da disciplina do mundo. É uma poesia emocional nos seus elementos mais catalisadores, sendo que Andrade cria por vezes as condições para que haja uma instalação da ausência, da saudade, do lamento e desassossego, guiando por aí o seu fôlego, a sua interferência mais heterodoxa e intervenção mais inquietante. Ao contrário de poetas como Herberto Helder, Leonard Cohen ou Ferreira Gullar, não existe no poeta um desnível entre metáforas e imagens, no sentido de distanciamento entre estas. Pelo contrário, fazendo uso de um ritmo crescente e quase silencioso, os poemas de Eugénio de Andrade são uma construção com materiais que são base segura para outros, e assim sucessivamente. Mas isso não quer dizer previsibilidade. É sim um natural cantar de emoções que descendem umas das outras e que  se organizam no espaço rítmico do corpo do poema, na integração do mesmo nas mãos intuitivas da verbalização. Daí haver nesta poesia muito de contemplativo, de significado dos olhos circulantes, ora pelo exterior das (in)cumplicidades, ora pelo interior dorido de uma estética de circunstância autenticamente vivida.
Por outra banda, há no poeta Eugénio de Andrade uma interessante dicotomia entre palavra e silêncio, sendo que aquela se apresenta, face ao todo do corpo poético, como uma peculiar forma de silêncio. No poema "Sobre a palavra" isso é bem visível quando se lê "Entre a folha branca e o gume do olhar / a boca envelhece / Sobre a palavra / a noite aproxima-se da chama / Assim se morre dizias tu / Assim se morre dizia o vento acariciando-te a cintura / Na porosa fronteira do silêncio / a mão ilumina a terra inacabada / Interminavelmente". Neste poema, como em muitos outros, a palavra é como que um recorte do silêncio eterno, a cauda de um arquipélago que se afasta no mar parado de uma vida.  Como eu digo no meu poema "Arte Anfíbia", escrever poesia é a arte de não dividir palavras com o seu leitor. E nunca o teria escrito se não fosse com poetas como Eugénio de Andrade no pensamento; poetas que efectivamente dispõem as suas palavras nos textos, as deixam no seu legado, sem contudo as dividirem com quem lê; dividirem no sentido de perda de individualidade, de as mesmas se colocarem plenamente alcançáveis  no íntimo de terceiros, de o poema pertencer ao leitor. E assim, parece-me, é bem mais desafiante para quem aprecia a arte dos versos. 

Poemas seleccionados:


ADEUS

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.
.
Eugénio de Andrade
em Poesia e Prosa
.
*

POEMA À MÃE

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe.
Tudo porque já não sou
o menino adormecido
no fundo dos teus olhos.
Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.
Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.
Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.
Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.
Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!
Olha - queres ouvir-me? -
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;
ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;
ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...
Mas - tu sabes - a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.
Boa noite. Eu vou com as aves.
.
Eugénio de Andrade

em Os Amantes Sem Dinheiro

*
.
NÃO CANTO PORQUE SONHO
Não canto porque sonho.
Canto porque és real.
Canto o teu olhar maduro,
O teu sorriso puro,
A tua graça animal.
Canto porque sou homem.
Se não cantasse seria
somente um bicho sadio
embriagado na alegria
da tua vinha sem vinha.
Canto porque o amor apetece.
Porque o feno amadurece
nos teus braços deslumbrados.
Porque o meu corpo estremece
Por vê-los nus e suados.

Eugénio de Andrade
em As Mãos e os Frutos
.
*
 .
AS PALAVRAS INTERDITAS
.
Os navios existem, e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te... E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.

Eugénio de Andrade
em Poesia e Prosa
.
*
.
O SILÊNCIO 

Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,

e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,

quando azuis irrompem
os teus olhos

e procuram
nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas.
.
Eugénio de Andrade
em Obscuro Domínio
.
*
.
O AMOR
.
Estou a amar-te como o frio
corta os lábios.

A arrancar a raiz
ao mais diminuto dos rios.

A inundar-te de facas,
de saliva esperma lume.

Estou a rodear de agulhas
a boca mais vulnerável

A marcar sobre os teus flancos
o itinerário da espuma

Assim é o amor: mortal e navegável.
.
Eugénio de Andrade
in Obscuro Domínio
.
*
.
URGENTEMENTE
.
É urgente o amor
É urgente um barco no mar

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos, muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.
.
Eugénio de Andrade
em Até Amanhã
.
*
.
CORAÇÃO HABITADO

Aqui estão as mãos.
São os mais belos sinais da terra.
Os anjos nascem aqui:
frescos, matinais, quase de orvalho,
de coração alegre e povoado.

Ponho nelas a minha boca,
respiro o sangue, o seu rumor branco,
aqueço-as por dentro, abandonadas
nas minhas, as pequenas mãos do mundo.

Alguns pensam que são as mãos de deus
— eu sei que são as mãos de um homem,
trémulas barcaças onde a água,
a tristeza e as quatro estações
penetram, indiferentemente.

Não lhes toquem: são amor e bondade.
Mais ainda: cheiram a madressilva.
São o primeiro homem, a primeira mulher.
E amanhece.
.
Eugénio de Andrade
em Até Amanhã
.
*
.
DESDE A AURORA
.
Como um sol de polpa escura
para levar à boca,
eis as mãos:
procuram-te desde o chão,

entre os veios do sono
e da memória procuram-te:
à vertigem do ar
abrem as portas:

vai entrar o vento ou o violento
aroma de uma candeia,
e subitamente a ferida
recomeça a sangrar:

é tempo de colher: a noite
iluminou-se bago a bago: vais surgir
para beber de um trago
como um grito contra o muro.

Sou eu, desde a aurora,
eu — a terra — que te procuro.
.
Eugénio de Andrade
em Obscuro Domínio
.
*
LABIRINTO OU ALGUNS LUGARES DO AMOR
.
O outono
por assim dizer
                   pois era verão
forrado de agulhas

a cal
rumorosa
do sol dos cardos

sem outras mãos que lentas barcas
vai-se aproximando a água

a nudez do vidro
a luz
a prumo dos mastros

os prados matinais
os pés
verdes quase

o brilho
das magnólias
apertado nos dentes

uma espécie de tumulto
as unhas
tão fatigadas dos dedos

o bosque abre-se beijo a beijo
                                        e é branco
.
Eugénio de Andrade
em Véspera da Água
.
*
.
AS PALAVRAS
.
São como cristal, as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras, orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes, leves.
Tecidas são de luz e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta?
Quem as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?
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Eugénio de Andrade
em Poesia e Prosa
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Biobibliografia (Fonte: Fundação Eugénio de Andrade)

A cidade [Porto] deve ter sido sensível a tal escolha, pois fê-lo cidadão honorário, concedendo-lhe por duas vezes a sua medalha de ouro. Eugénio de Andrade nasceu em Povoa de Atalaia (Fundão), a 19 de Janeiro de 1923. A família que lhe coube em sorte vai de camponeses abastados a mestres de obras, que, nos primeiros anos do século, nada tinham de parecido com os actuais - portanto gente que trabalhava a terra e a pedra. Mas será a mãe, com quem emigra aos sete anos, primeiro para Castelo Branco e um ano depois para Lisboa, a figura tutelar e poética da sua vida, como todo o leitor da sua poesia sabe. (A mãe, o falar materno, "o quente de uma vida infantil muito perto da natureza mais elementar", virão a desempenhar um papel central na sua poesia). Em Lisboa vai viver e estudar, com um interregno de 43 a 46 em Coimbra, até finais dos anos 50. Em 1947, ingressa nos quadros dos Serviços Médico-Sociais, do Ministério da Saúde, onde desempenhará durante 35 anos a mesma função - a de inspector administrativo - por sempre se ter recusado a fazer concursos de promoção. A sua transferência para o Porto, por razões de serviço, deu-se em Dezembro de 1950. Apesar do seu prestígio (Eugénio de Andrade é dos nossos raros escritores com repercussão internacional, com os seus 55 títulos traduzidos, e cuja obra, entre nós, tem conhecido sucessivas reedições), viveu sempre extremamente distanciado do que se chama vida social, literária  ou mundana, avesso à comunicação social, arredado de encontros, colóquios, congressos, etc., e as suas raras aparições em público devem-se a «essa debilidade  do coração, que é a amizade», devendo encarar do mesmo modo o facto de ser membro da Academia Mallarmé, de Paris. Cabe aqui referir que nunca concorreu aos prémios que lhe foram atribuídos, quer em Portugal ou na França, quer no Brasil ou na Jugoslávia, como nunca ninguém o viu usar qualquer insígnia das condecorações com que foi agraciado. A obra de Eugénio de Andrade, escrita ao longo dos últimos 50 anos, tem início em 1942 com Adolescente, livro hoje renegado, tal como  Pureza, de 45, dos quais fez mais tarde uma breve selecção que designou por Primeiros Poemas (77), é constituída, principalmente pelos seguintes títulos de poesia: As Mãos e os Frutos (48), Os Amantes sem Dinheiro (50), As Palavras Interditas (51), Ate Amanhã (56), Coração do Dia (58), Mar de Setembro (61), Ostinato  Rigore (64), Obscuro Domínio (72), Véspera de Água (73), Escrita da terra (74), Limiar doa Pássaros (76), Memória Doutro Rio (78), Matéria Solar (80), O Outro Nome da Terra (88), Rente ao Dizer (92), Oficio da Paciência (94), O Sal da Língua (95), Pequeno Formato (97), Os Lugares do Lume (98), Os Sulcos da Sede (2001); de prosa: Os Afluentes do Silêncio (68), Rosto Precário (79), À Sombra da Memória (93); para crianças: História da Égua Branca (77), Aquela Nuvem e Outras (86). Traduziu principalmente Safo, Garcia Lorca e Cartas Portuguesas, tendo ainda organizado algumas antologias, quase todas sobre a terra Portuguesa, caracterizadas pela ausência de preconceitos e sectarismos literários, das quais se destacam: Daqui Houve Nome Portugal, Memórias de Alegria, Canção do Mais Alto Rio, Poesia  - Terra da Minha Mãe, os últimos com  a colaboração do fotógrafo Dario Gonçalves, A Cidade de  Garrett, com desenhos de Fernando Lanhas, e Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa. Traduzido em cerca de 20 línguas, a poesia de Eugénio de Andrade tem sido estudada e comentada por, entre outros, Vitorino Nemésio, João Gaspar Simões, Óscar Lopes, António José Saraiva, Eduardo Lourenço, Jorge de Sena, Eduardo  Prado Coelho, Arnaldo Saraiva,  Joaquim Manuel Magalhães, Fernando Pinto do Amaral, Luís Miguel Nava, Angel Crespo, Carlos V. Cattaneo, e suscitado o interesse de vários músicos, entre os quais Fernando Lopes-Graça, Jorge Peixinho, Filipe Pires, Clotilde Rosa, Mário Laginhas e Paulo Maria Rodrigues. Viveu no Porto - de que foi cidadão honorário e onde foi criada uma Fundação com o seu nome - até a sua morte a 13 de Junho de 2005.

PRÉMIOS, MEDALHAS,
CONDECORAÇÕES, ACADEMIAS

PRÉMIOS

PEN Clube (1984) Associação Internacional de Críticos Literários (1986); Dom Dinis (1988); Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores (1989); Jean Malrieu (França, 1989); APCA (Brasil, 1991); Prémio Europeu de Poesia da Comunidade de Vachatz (República da Jugoslávia, 1996); Prémio Celso Emílio Ferreira (2000); Prémio Estremadura (2000); Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores (2000); Prémio Camões (2001); Prémio Poesia do PenClub (2002). Prémio da Revista "Poesia e Homem" de Cantão (China) - 2004.

CONDECORAÇÕES

Grande Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago e Espada (1982); Grã-Cruz da Ordem de Mérito (1988)

MEDALHAS

MEDALHA DE Mérito da Cidade do Porto (1985); Medalha de Oiro do Concelho de Oeiras (1988); Medalha de Honra da cidade do Porto (1989) Medalha da Cidade de Bordéus (1990); Medalha de Oiro de Mérito Municipal da Câmara do  Fundão (1991); Medalha da Universidade de Michel de Montagne, Bordéus (Maio 2001).


ACADEMIAS

Doutor Honoris Causa pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto (Março 2005); Membro da Academia Mallarmé (Paris); Membro Fundador da Academia Internacional “Mihai Eminescu” (Roménia); Membro Titular da Academia Mondiale della Poesia.
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Artigo de Sylvia Beirute

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sábado, 11 de dezembro de 2010

LIU XIAOBO: POEMAS, POESIA, ANÁLISE CRÍTICA DA OBRA, BIOGRAFIA


sb: série poetas

LIU XIAOBO

Tenho algumas reservas quanto aos poetas da liberdade. Nada tenho contra o tema da liberdade, antes pelo contrário, mas muitas vezes a qualidade poética na exploração do tema fica muito aquém. A poesia é por vezes excessivamente directa, sendo mera reprodução de um lamento, de uma atitude. A poesia, segundo os princípios pelos quais a concebo, deve ser mais do que isso. Deve ser a busca por aquilo que esta ínsito, aquilo que os olhos não vêem mas o coração sente, a invenção de uma linguagem que adivinha todas as compreensões do mundo. E isso tanto é um desafio que se espera do poeta, como um outro desafio por parte do leitor exigente, aquele que se permite entrar dentro de um novo imaginário e interpretar a partir daí. Passa-se o mesmo com outras artes, como por exemplo o cinema: há o cinema de conclusões fechadas e aquele  conscientemente mais aberto e de imagens subliminares exigindo de quem vê também uma certa criação. Esta introdução serve o propósito de falar um pouco sobre Liu Xiaobo (chinês tradicional: 劉曉波, chinês simplificado: 刘晓波, pinyin: Liú Xiǎobō; Changchun, China, 28 de Dezembro de 1955), um dos mais brilhantes poetas da liberdade que conheço e que aproveita todos os materiais do poético para fazer eclodir a sua chama sagrada, o seu retrato táctil da realidade que vive no corpo e no espírito. A sua poesia, mais do que remeter para um presente, combate-o na forma como o desarma, como o exibe no coração central de uma infelicidade. Este desarmar do presente incendiário é no fundo a construção lateral de um outro presente feito de gelo, coragem, olhos interiores sobrepostos, ou realidades mitológicas expressas em "versos secretos" e em fantasia lúcida. Liu Xiaobo é um intelectual e activista pelos direitos humanos e reformas na República Popular da China. O fino recorte da sua poesia, eivado de simbolismo e subcaminhos para as mensagens que passa, é indissociável da sua condição de dissidente e de homem por uma causa. Está preso desde 2009, actualmente cumprindo uma pena de onze anos de prisão por "tentativa de subversão do estado" ao emitir a "Carta 08", um documento onde apelava à implementação de reformas no seu país. Estes episódios foram decisivos para a sua eleição como Prémio Nobel da Paz em 2010.

Poemas Seleccionados de Liu Xiaobo:

UMA CARTA É SUFICIENTE

para a Xia

uma carta é suficiente
para me transcender e enfrentar-te
quando falas

e assim que o vento sopra para o passado
a noite utiliza
o seu próprio sangue
para escrever um verso secreto
que me relembra que
cada palavra é a última palavra.

e o gelo no teu corpo
se dissolve num fogo mitológico;
nos olhos de quem executa
a fúria torna-se pedra.

dois pares de caminhos-de-ferro
inesperadamente sobrepostos, os
insectos embatem nas lâmpadas
de luz, um sinal eterno
que persegue a tua sombra. 

Liu Xiaobo
tradução de Pedro Calouste
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ANSEIO POR ESCAPAR

para a minha mulher


abandona os mártires imaginados,
anseio por mentir a teus pés; apesar
de estar atado de morte este é
o meu único dever
quando o espelho transparente
do coração é uma duradoura felicidade.

os teus dedos dos pés não se partirão,
um gato cerca-te por detrás de ti;
eu quero enxotá-lo
assim que vira a cabeça e estende
as garras afiadas para mim;
e bem dentro dos seus olhos azuis
parece haver uma prisão;
e se eu cegamente saísse,
ainda que com o mais pequeno passo,
tornar-me-ia um peixe.

Liu Xiaobo
tradução de Pedro Calouste .
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AURORA

para a Xia


por cima do alto e cândido muro, entre
o som de vegetais sendo cortados,
o limite da aurora, recortado,
dissipado pela paralisia do espírito

qual é a diferença
entre a luz e a escuridão
que parece vir à superfície das aberturas
dos meus olhos; do meu banco de ferrugem
não sei dizer se é o lampejo das correntes
na célula, ou será o deus da natureza
por detrás do muro
a dissidência diária que
faz o sol arrogante
assombrado até não mais

a aurora um vasto vazio
tu num lugar distante
com noites de amor guardadas.

Liu Xiaobo
tradução de Pedro Calouste .

UM PEQUENO RATO NA PRISÃO

para a pequena Xia

um pequeno rato passa através das barras de ferro,
anda para trás e para a frente no parapeito da janela,
os muros sem casca vigiam-no,
os mosquitos cheios de sangue vigiam-no,
ele até desenha a lua do seu céu,
a sombra de prata que desencoraja a beleza
como se esta voasse

um homem muito nobre o rato esta noite,
não come nem bebe nem range os dentes quando olha
fixamente com olhos cintilantes e dissimulados
passeando ao luar.

Liu Xiaobo
tradução de Pedro Calouste
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NÃO TENHO INIMIGOS: A MINHA ÚLTIMA DECLARAÇÃO
(EXCERTO)

cumpro a minha sentença numa prisão tangível, enquanto tu esperas na prisão intangível do coração. o teu amor é a luz do sol que salta os altos muros  e penetra as barras de ferro da janela da minha prisão, golpeando cada milímetro da minha pele, aquecendo todas as células do meu corpo, permitindo-me sempre manter a paz, a franqueza, o brilho no coração, e encher de significado cada minuto do meu tempo. o meu amor por ti, por outro lado, é tão cheio de remorsos e lamentos que me fez cambalear perante o seu peso. eu sou uma pedra insensata no deserto, chicoteada pelo vento violento e chuva torrencial tão fria que ninguém se atreve a tocar-me. mas o meu amor é sólido e afiado, capaz de perfurar qualquer obstáculo. e mesmo que eu fosse esmagado e me tornasse pó, eu ainda usaria as minhas cinzas para te abraçar.
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Liu Xiaobo
tradução de Pedro Calouste 
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EXPERIMENTANDO A MORTE

Tinha imaginado estar ali, à luz do sol
com o cortejo dos mártires
um só osso esguio sustentando
uma convicção verdadeira
Todavia, o divino vazio não vai
revestir a ouro os sacrificados
Uma matilha de lobos bem nutridos
saciados de cadáveres
festeja no ar quente e jubiloso do meio-dia
Lugar distante
esse lugar sem sol
onde exilei a minha vida
para fugir à era de Cristo
Não consigo fitar a ofuscante visão na cruz
De um fio de fumo a um pequeno monte de cinzas
bebi até ao fim a bebida dos mártires, sinto a primavera
prestes a romper no rendilhado brilho de inúmeras flores
Noite dentro, estrada deserta
pedalo de regresso a casa
Paro num quiosque de tabaco
Um carro segue-me, atropela a bicicleta
Um par de brutamontes agarra-me
Algemado, olhos vendados, boca amordaçada
atirado para uma carrinha celular rumo a nenhures
Um piscar de olhos, trémulo instante
abre um clarão de lucidez: Ainda estou vivo
nas notícias da Televisão Central
o meu nome mudado para "mão negra detido"
ainda que esses anónimos ossos brancos dos mortos
se mantenham de pé no esquecimento
Ergo alto a mentira auto-inventada
Digo a todos como experimentei a morte
para que "mão negra" se torne a honrosa medalha de um herói
Sabendo embora que a morte
é um impenetrável mistério
estando vivo, não a posso experimentar
e uma vez morto
não posso repetir a experiência
pairo ainda assim dentro da morte
um pairar em afogamento
Noites sem conta atrás de janelas gradeadas
e as campas sob as estrelas
revelaram os meus pesadelos
À parte uma mentira
Não possuo nada

Liu Xiaobo
Tradução de Alberto Gomes


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Obra inclui:
  • Critique on Choice - Dialogue with Le Zehou[79]. Shanghai's People Publisher. 1987. 
  • Aesthetics and Human Freedom[80]. Bejiing Normal University Publishing. 1988. 
  • Myths on Metaphysics[81]. Shanghai's People publishing. 1989. 
  • Naked to meet God[82]. Times Literature and Art Publisher. 1989. 
  • Monologue:Survivors of Doomsday[83]. Taiwan Times Publishing. 1993. 
  • Contemporary Politics and Intellectuals of China[84]. Taiwan Tangshan Publishing. 1990. 
  • Selected Poems of Liu Xiabo and Liu Xia[85]. Hong Kong Xiafeier International Publishing Ltd. 2000. 
  • Under pen name Lao Xia and co-authored with Wang Shuo (2000). A Belle Gave me Knockout Drug[86]. Changjiang Literature and Arts Publishing. 
  • To the Nation that Lies to His Conscience[87]. Jieyou Publishing. 2002. 
  • The Future of Free China in our life[88]. Labor Reform Foundation. 2005. 
  • A Single Blade and Toxic Sword: Critique on Comtempory Chinese Nationalism[89]. Boda Publishing. 2006. 
  • Sinking of Big Country: Memorandum to China[90]. Yunchen Culture. 10 2009.
(Fonte: wikipedia)
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Artigo de Sylvia Beirute
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