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segunda-feira, 1 de novembro de 2010

ANTONIO CÍCERO: POEMAS, POESIA, ANÁLISE CRÍTICA, BIOGRAFIA




















sb: série poetas


ANTONIO CÍCERO

Escrever boa poesia sobre a contemporaneidade é necessariamente um risco, ainda que poucos o percebam, embrenhados que estão num simplismo gratuito ou, no extremo oposto, nos confins de uma linguagem sem correspondência. Ainda há pouco, numa conversa sobre poesia que mantinha com Ricardo Domeneck, ele mostrava-me uma citação de The ABC of Reading, de Ezra Pound, em que este se referia ao equilíbrio que deve existir na poesia, o difícil equilíbrio da poesia, dentro do qual  "o poema deveria entusiasmar o leigo e deliciar o especialista". Toda esta introdução inicial serve para falar do poeta brasileiro Antonio Cícero (Rio de Janeiro, 1945), ele que congrega nos seus poemas os equilíbrios entre consciência e inconsciência, compreensão e conformação, contemplação e crítica. Fá-lo numa linguagem ecléctica, com denominadores comuns de actualidade e casualidade; uma linguagem que lhe busca o sublime sem esforço, a análise, pela imagem, que a palavra suporta ao receber o que se afasta, aproximando-o da voz pragmática mas proteccionista do sujeito. Esta poesia formula a plenitude da sua liberdade, a liberdade dos olhos, reais ou virtuais, que parecem sobreviver à sobrevivência dos outros sentidos, sobrevivência que é um misto de opacidade e transparência, requinte e destronização. Por isso, trata-se de uma poética com um pendor reflexivo muito assinalável, sempre procurando as instâncias intermédias da visualização de lugares, de matérias, de temas do íntimo. Algumas composições são de índole confessional, assemelhando-se ao conteúdo de epístolas. Há como que um diálogo entre dois sujeitos poéticos em épocas e condições sociais distintas. É como se um procurasse o outro e lhe desse imagens de um outro tempo, de uma realidade com predisposições diferentes. Como tal, encontra-se em Antonio Cícero diferentes estados de consciência, por vezes um lado ingénuo que confere aos poemas autenticidade e ao mesmo tempo uma autonomia e independência para se oferecerem, de corpo (forma) e alma (conteúdo), à poesia, à poesia que muda, que nunca tem certezas de nada, que busca a beleza, ainda que esta  se apresente como  exageradamente verdadeira, violenta e cega.

Poemas Seleccionados:


A CIDADE E OS LIVROS

para D.Vanna Piraccini

O Rio parecia inesgotável
àquele adolescente que era eu.
Sozinho entrar no ônibus Castelo,
saltar no fim da linha, andar sem medo
no centro da cidade proibida,
em meio à multidão que nem notava
que eu não lhe pertencia - e de repente,
anônimo entre anônimos, notar
eufórico que sim, que pertencia
a ela, e ela a mim - , entrar em becos,
travessas, avenidas, galerias,
cinemas, livrarias: Leonardo
da Vinci Larga Rex Central Colombo
Marrecas Íris Meio-Dia Cosmos
Alfândega Cruzeiro Carioca
Marrocos Passos Civilização
Cavé Saara São José Rosário
Passeio Público Ouvidor Padrão
Vitória Lavradio Cinelândia:
lugares que antes eu nem conhecia
abriam-se em esquinas infinitas
de ruas doravante prolongáveis.

Antonio Cícero 

*

O PAÍS DAS MARAVILHAS

Não se entra no país das maravilhas,
pois ele fica do lado de fora,
não do lado de dentro. Se há saídas
que dão nele, estão certamente à orla
iridescente do meu pensamento,
jamais no centro vago do meu eu.
E se me entrego às imagens do espelho
ou da água, tendo no fundo o céu,
não pensem que me apaixonei por mim.
Não: bom é ver-se no espaço diáfano
do mundo, coisa entre coisas que há
no lume do espelho, fora de si:
peixe entre peixes, pássaro entre pássaros,
um dia passo inteiro para lá.

Antonio Cícero

*

SAIR

Largar o cobertor, a cama, o
medo, o terço, o quarto, largar
toda simbologia e religião; largar o
espírito, largar a alma, abrir a
porta principal e sair. Esta é
a única vida e contém inimaginável
beleza e dor. Já o sol,
as cores da terra e o
ar azul — o céu do dia —
mergulharam até a próxima aurora; a
noite está radiante e Deus não
existe nem faz falta. Tudo é
gratuito: as luzes cinéticas das avenidas,
o vulto ao vento das palmeiras
e a ânsia insaciável do jasmim;
e, sobre todas as coisas, o
eterno silêncio dos espaços infinitos que
nada dizem, nada querem dizer e
nada jamais precisaram ou precisarão esclarecer.

Antonio Cícero 
.
*
.
MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA

Fica em Boa Viagem. Disco voador
ele não é, pois não pousou na pedra
mas se ergue sobre ela; nem alça vôo:
à orla de cidades e florestas
suspende-se no ar feito pergunta
e o que tem dentro mergulha e se banha
no mundo em volta e o mundo em volta o inunda:
é o museu fora de si, de atalaia
à curva do abismo, à altura das musas,
sobre o mar, sobre a pedra sobre o mar,
e sobre o espelho d'água em que se apura
sobre essa pedra um mar a flutuar,
um céu na terra, quase nada, um aire,
a flor de concreto do Niemeyer.
.
Antonio Cícero
.
*
.
BALANÇO

A infância não foi uma manhã de sol:
demorou vários séculos; e era pífia,
em geral, a companhia. Foi melhor,
em parte, a adolescência, pela delícia
do pressentimento da felicidade
na malícia, na molícia, na poesia,
no orgasmo; e pelos livros e amizades.
Um dia, apaixonado, encarei a minha
morte: e eis que ela não sustentou o olhar
e se esvaiu. Desde então é a morte alheia
que me abate. Tarde aprendi a gozar
a juventude, e já me ronda a suspeita
de que jamais serei plenamente adulto:
antes de sê-lo, serei velho. Que ao menos
os deuses façam felizes e maduros
Marcelo e um ou dois dos meus futuros versos.
.
Antonio Cícero
.
Antonio Cícero nasceu no Rio de Janeiro, em 1945 e é formado em Filosofia pelo University College da Universidade de Londres. Poeta e ensaísta, é autor, entre outras coisas, dos livros de poemas Guardar (Record, 1996 - Prêmio Nesdé) e A cidade e os livros (Record, 1996), assim como do ensaio filosófico O mundo desde o fim (Francisco Alves, 1995) e do livro de ensaios sobre poesia e arte Finalidades sem fim (Companhia das Letras, 2005). Junto com o poeta Waly Salomão, editou o livro de ensaios O relativismo enquanto visão do mundo (Francisco Alves, 1994) e organizou a Nova antologia poética de Vinícius de Moraes (Companhia das Letras, 2003). Letrista de canção popular, tem como parceiros e intérpretes Marina Lima, Adriana Calcanhotto, João Bosco e Caetano Veloso, entre outros.
-
Artigo de Sylvia Beirute
.
.
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segunda-feira, 25 de outubro de 2010

GERTRUDE STEIN - POEMAS, POESIA, ANÁLISE CRÍTICA, OBRAS




















sb: série poetas


A poesia de Gertrude Stein (3 de Fevereiro de 1874, Pittsburgh, Estados Unidos da América- 27 de Julho de 1946, Paris) é de orientação personalista, tentacular à mitificação das coisas simples, e com um lado argumentativo e filosófico que a faz estar muito à frente do seu tempo. E nem se diga que é apenas pelo conteúdo destes poemas. Gertrude Stein foi também uma criadora de objectos formais, experimentalista no avanço prático das razões dos seus poemas. Um dos aspectos essenciais que lhe moldam o estilo é o uso recorrente de repetições. O texto poético ganha um ritmo muito peculiar, força a menos paragens, e a respiração é suave. (Se eu lhe contasse ele gostaria. Ele gostaria se eu lhe contasse. / Ele gostaria se Napoleão se Napoleão gostasse gostaria ele gostaria. / Se Napoleão se eu lhe contasse se eu lhe contasse se Napoleão. / Gostaria se eu lhe contasse se eu lhe contasse se Napoleão./ Gostaria se Napoleão se Napoleão se eu lhe contasse. / Se eu lhe contasse se Napoleão se Napoleão se eu lhe contasse. / Se eu lhe contasse ele gostaria ele gostaria se eu lhe contasse. / Já. / Não já. / E já./ Já. - em "Se eu lhe contasse: um retrato acabado de Picasso", tradução de Augusto de Campos). Há nesta poesia, cuja forma é indissociável do seu conteúdo, e se confunde com ele, a busca pelo lado indirecto das coisas, aquele que, curiosamente, é muitas vezes o mais presente na vida humana. A vida é, pois, feita de indecisões, de realidades dentro de realidades, de dúvidas que aparecem com toda a resistência e mundividência. O corpus dos poemas de Stein respeita essa beleza natural das coisas, essa insurreição das palavras que a devem reproduzir e alargar o espírito. Por outro lado, esta poesia aparece como espaço de automeditação, campo de existência de uma cosmovisão expressa na errância das imagens, na retórica das pausas, nas contradições que dão segurança a uma autenticidade. Aí há uma decomposição dos elementos, que após tal facto adquirem uma autonomia complexa, ou melhor, um complexo de pequenos fragmentos, todos eles ascendendo ao todo temático, à expressão das suas consequências. Importa notar que não há em Gertrude Stein uma raiz lírica, ao contrário de muitos dos seus contemporâneos, havendo, pelo contrário, um espírito de vanguarda que ainda se mantém. Os poemas são híbridos, alguns próximos daquilo que eu chamo de "extrapoesia", procurando aspectos da dramaturgia, senão do ensaio. Stein era uma grande intelectual do princípio do século XX e talvez esse hibridismo da sua obra poética se deva ao contacto com personalidades das mais diversas áreas e tendências  (Pablo Picasso, Matisse, Georges Braque, Derain, Juan Gris, Apollinaire, Francis Picabia, Ezra Pound,  Ernest Hemingway e James Joyce, etc). A leitura desta poesia faz lembrar, em muitos aspectos, o surrealismo, embora na sua construção os processos sejam distintos. Stein procura, como se poderá ver na poesia abaixo seleccionada, os significados dentro dos significados, a decomposição dos sentidos e ideias, fazendo-o com expedientes mentais, sempre controlados por si.

Selecção de poemas:

STANZA II

I think very well of Susan but I do not know her name
I think very well of Ellen but which is not the same
I think very well of Paul I tell him not to do so
I think very well of Francis Charles but do I do so
I think very well of Thomas but I do not not do so
I think very well of not very well of William
I think very well of any very well of him
I think very well of him.
It is remarkable how quickly they learn
But if they learn and it is very remarkable how quickly they learn
It makes not only but by and by
And they can not only be not here
But not there
Which after all makes no difference
After all this does not make any does not make any difference
I add added it to it.
I could rather be rather be here.



STANZA II

Penso muito bem de Susan mas não sei o seu nome
Penso muito bem de Ellen mas não é o mesmo
Penso muito bem de Paul digo-lhe que não o faça
Penso muito bem de Francis Charles mas faço-o
Penso muito bem de Thomas mas não não o faço
Penso muito bem de não muito bem de William
Penso muito bem de qualquer muito bem dele
Penso muito bem dele.
É notável que rápido aprendem
Mas se aprendem e é muito notável a rapidez com que o fazem
Suponho não somente senão por e por
E podem não somente estar não aqui
senão não aí
O que afinal não faz diferença
O que afinal não faz nenhuma não faz nenhuma diferença
Adiciono o adicionado a isso.
Bem podia de preferência estar de preferência estar aqui.

Gertrude Stein
Tradução de Pedro Calouste
.
*
.
STANZA XXXVIII

Which I wish to say is this
There is no beginning to an end
But there is a beginning and an end
To beginning.
Why yes of course.
Any one can learn that north of course
Is not only north but north as north
Why were they worried.
What I wish to say is this.
Yes of course.


STANZA XXXVIII

O que desejo dizer é isto
Não há princípio de um fim
Mas há um princípio e um fim
Para um princípio.
Porquê sim claro.
Qualquer um pode aprender esse norte claro
Não é somente norte mas norte como norte
Por que estavam eles preocupados.
O que quero desejo dizer é isto.
Sim claro.
 
Gertrude Stein
Tradução de Pedro Calouste

.
*
.
IF I TOLD HIM: A COMPLETED PORTRAIT OF PICASSO

If I told him would he like it. Would he like it if I told him.
Would he like it would Napoleon would Napoleon would would he like it.
If Napoleon if I told him if I told him if Napoleon. Would he like it if I told him if I told him if Napoleon. Would he like it if Napoleon if Napoleon if I told him. If I told him if Napoleon if Napoleon if I told him. If I told him would he like it would he like it if I told him.
Now.
Not now.
And now.
Now.
Exactly as as kings.
Feeling full for it.
Exactitude as kings.
So to beseech you as full as for it.
Exactly or as kings.
Shutters shut and open so do queens. Shutters shut and shutters and so
shutters shut and shutters and so and so shutters and so shutters shut and so shutters shut and shutters and so. And so shutters shut and so and also. And also and so and so and also.
Exact resemblance. To exact resemblance the exact resemblance as exact
as a resemblance, exactly as resembling, exactly resembling, exactly in
resemblance exactly a resemblance, exactly and resemblance. For this is so.
Because.
Now actively repeat at all, now actively repeat at all, now actively repeat at all.
Have hold and hear, actively repeat at all.
I judge judge.
As a resemblance to him.
Who comes first. Napoleon the first.
Who comes too coming coming too, who goes there, as they go they share, who shares all, all is as all as as yet or as yet.
Now to date now to date. Now and now and date and the date.
Who came first. Napoleon at first. Who came first Napoleon the first.
Who came first, Napoleon first.
Presently.
Exactly do they do.
First exactly.
Exactly do they do too.
First exactly.
And first exactly.
Exactly do they do.
And first exactly and exactly.
And do they do.
At first exactly and first exactly and do they do.
The first exactly.
And do they do.
The first exactly.
At first exactly.
First as exactly.
As first as exactly.
Presently
As presently.
As as presently.
He he he he and he and he and and he and he and he and and as and as he
and as he and he. He is and as he is, and as he is and he is, he is and as he and he and as he is and he and he and and he and he.
Can curls rob can curls quote, quotable.
As presently.
As exactitude.
As trains
Has trains.
Has trains.
As trains.
As trains.
Presently.
Proportions.
Presently.
As proportions as presently.
Father and farther.
Was the king or room.
Farther and whether.
Was there was there was there what was there was there what was there
was there there was there.
Whether and in there.
As even say so.
One.
I land.
Two.
I land.
Three.
The land.
Three
The land.
Three
The land.
Two
I land.
Two
I land.
One
I land.
Two
I land.
As a so.
They cannot.
A note.
They cannot.
A float.
They cannot.
They dote.
They cannot.
They as denote.
Miracles play.
Play fairly.
Play fairly well.
A well.
As well.
As or as presently.
Let me recite what history teaches. History teaches.


SE EU CONTASSE: UM RETRATO ACABADO DE PICASSO

Se eu lhe contasse ele gostaria. Ele gostaria se eu lhe contasse.
Ele gostaria se Napoleão se Napoleão gostasse gostaria ele gostaria.
Se Napoleão se eu lhe contasse se eu lhe contasse se Napoleão. Gostaria se eu lhe contasse se eu lhe contasse se Napoleão. Gostaria se Napoleão se Napoleão se eu lhe contasse. Se eu lhe contasse se Napoleão se Napoleão se eu lhe contasse. Se eu lhe contasse ele gostaria ele gostaria se eu lhe contasse.
Já.
Não já.
E já.
Já.
Exactamente como como reis.
Tão totalmente tanto.
Exactidão como reis.
Para te suplicar tanto quanto.
Exactamente ou como reis.
Fechaduras fecham e abrem e assim rainhas. Fechaduras fecham e fechaduras e assim fechaduras fecham e fechaduras e assim e assim fechaduras e assim fechaduras fecham e assim fechaduras fecham e fechaduras e assim. E assim fechaduras fecham e assim e assado.
Exacta semelhança e exacta semelhança e exacta semelhança como exacta como uma semelhança, exactamente como assemelhar-se, exactamente assemelhar-se, exactamente em semelhança exactamente uma semelhança, exactamente a semelhança. Pois é assim a acção. Porque.
Repita prontamente afinal, repita prontamente afinal, repita prontamente afinal.
Pulse forte e ouça, repita prontamente afinal.
Juízo o juiz.
Como uma semelhança a ele.
Quem vem primeiro. Napoleão primeiro.
Quem vem também vindo vindo também, quem vem lá, quem vier virá, quem toma lá dá cá, cá e como lá tal qual tal ou tal qual.
Agora para dar data para dar data. Agora e agora e data e a data.
Quem veio primeiro Napoleão de primeiro. Quem veio primeiro. Napoleão primeiro. Quem veio primeiro, Napoleão primeiro.
Presentemente.
Exactamente eles vão bem.
Primeiro exactamente.
Exactamente eles vão bem também.
Primeiro exactamente.
E primeiro exactamente.
Exactamente eles vão bem.
E primeiro exactamente e exactamente.
E eles vão bem.
E primeiro exactamente e primeiro exactamente e eles vão bem.
O primeiro exactamente.
E eles vão bem.
O primeiro exactamente.
De primeiro exactamente.
Primeiro como exactamente.
De primeiro como exactamente.
Presentemente.
Como presentemente.
Como como presentemente.
Se se se se e se e se e e se e se e se e e como e como se e como se e se. Se é e como se é, e como se é e se é, se é e como se e se e como se é e se e se e e se e se.
Cachos roubam anéis cachos fiam, fiéis.
Como presentemente.
Como exactidão.
Como comboios.
Tomo comboios.
Tomo comboios.
Como comboios.
Como comboios.
Presentemente.
Proporções.
Presentemente.
Como proporções como presentemente.
Pais e pois.
Era rei ou quarto.
Pois e vez.
Uma vez uma vez uma vez era uma vez o que era uma vez uma vez uma vez era uma vez vez uma vez.
Vez e em vez.
E assim se fez.
Um.
Eu aterro.
Dois.
Aterro.
Três.
A terra.
Três.
A terra.
Três.
A terra.
Dois.
Aterro.
Um.
Eu aterro.
Dois.
Eu te erro.
Como um tão.
Eles não vão.
Uma nota.
Eles não notam.
Uma bota.
Eles não anotam.
Eles dotam.
Eles não dão.
Eles como denotam.
Milagres dão-se.
Dão-se bem.
Dão-se muito bem.
Um bem.
Tão bem.
Como ou como presentemente.
Vou recitar o que a história ensina. A história ensina.
.
Gertrude Stein
tradução de Augusto de Campos
adaptado por Pedro Calouste

*

Obra Inclui:
.
Ligações Úteis:
Revista Sibila - Gertrude Stein: Um Fracasso Moderno
Revista Modo de Usar & Co, por Augusto de Campos
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Artigo de Sylvia Beirute
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segunda-feira, 18 de outubro de 2010

ANTÓNIO RAMOS ROSA: POEMAS, POESIA, ANÁLISE DA OBRA

























sb: série poetas

ANTÓNIO RAMOS ROSA

A poesia de António Ramos Rosa (Faro, 17 de Outubro de 1924) é exercida dentro das condicionantes que o poeta conscientemente dispõe no seu poema. Pode ser uma palavra, um vocábulo como estaca de uma espécie de tenda transparente, pode ser uma frase que lhe fixa o tema no primeiro verso, ou simplesmente uma combinação de climas, dando ao corpo poético uma uniformidade focal que se alimenta de si mesma. Ramos Rosa tem uma já longa história na poesia portuguesa (e do mundo), pelo que a sua obra foi (felizmente) mudando ao longo do tempo, como que se instalando em instintos diversos, em diferentes lembranças e convenções sociais. Este último aspecto é importante: Ramos Rosa e a sua poesia foram imediatamente transversais ao tempo e a todas as mutações (evoluções ou regressões) nele sofridas. Há, pois, um núcleo de aspectos que se mantiveram mais ou menos presentes em toda a sua obra e que merecem reflexão. É assim quanto à abordagem (recorrente) do vazio e do silêncio. O discurso ramos-rosiano é, neste ponto, dotado de uma linguagem simples, localizado em paisagens em que o tempo abranda e pára, como se o hoje pudesse durar uma eternidade; como se o poema, ele mesmo, olhasse incessantemente para uma das suas portas, sabendo que nada nem ninguém poderá ultrapassá-la. (Escuto na palavra a festa do silêncio. / Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se. / As coisas vacilam tão próximas de si mesmas. / Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas. / É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma. - do poema A Festa do Silêncio). É neste sentido uma poesia que se fecha nos problemas insolúveis que apresenta, na sobrecarga moral do «eu poético», no espírito das suas considerações lúcidas.
No poeta há um confronto muito vivo entre este silêncio e a Palavra (que poderá aparecer em diversas formulações: sílaba, verso, frase, etc), pese embora estas duas realidades se confundam e apareçam, por esse confronto, algumas vezes misturadas. E é assim porque esta palavra é uma palavra silenciada, é palavra enquanto sujeito e enquanto actor de um papel que deveria ser conferido ao homem por detrás do poeta e que, enquanto recurso estilístico, se substitui a ele, com toda a pujança e efeitos poéticos que daí advêm.
Outra das contraposições latentes é a felicidade e o seu contrário (cabendo também aqui várias formulações). A felicidade, porque é para Ramos Rosa "um ofício", apresenta-se ora como um sonho, ora como um dever. Há nesta poesia como que um espelho falso de um futuro próximo cuja moldura é a consciência, cambiando o seu interior à medida que o poema escorre sobre si mesmo. E escorre sobre si mesmo porque se auto-sobrepõe, valendo-se das suas pausas, dos seus intervalos, das suas existências isoladas, para que as palavras, enquanto produto final, se "elegantizem" nos seus significados e adaptações profundas, e homogeneizem o sono, leve ou pesado, activo ou passivo, que o poema traduz. 
O amor, enquanto temática, é tratado como uma dúvida, reforçado que é o papel do tempo e a sua urgência. Há uma espécie de ansiedade e fraqueza que sobe aos contornos mais longínquos do poema. Ainda assim, e ao contrário de muitos poetas que, no seu tempo, fizeram carreira com uma poesia exlusivamente de emoções, Ramos Rosa faz uso de um «cérebro poético», controlador e filtro dessas emoções, expressando os porquês na frieza de um discurso por vezes cortante, dando ao poema o equilíbrio necessário que o faz autêntico.
A sua obra poética é extensa, tendo-se estreado com o livro «O Grito Claro», primeira obra da colecção de poesia «A Palavra» dirigida pelo poeta algarvio e seu amigo de longa data Casimiro de Brito. Nos últimos anos a escrita do autor tornou-se mais centrada na linguagem, facto de que é paradigma o livro "Génese" (Roma Editora). António Ramos Rosa, poeta maior, com a dimensão global que a sua obra atingiu, tem favorecido e contribuído, no panorama nacional, para a afirmação e visibilidade da poesia do Algarve.


Poemas seleccionados:


ESTAR SÓ É ESTAR NO ÍNTIMO DO MUNDO
.
Por vezes   cada objecto   se ilumina
do que no passar é pausa íntima
entre sons minuciosos que inclinam
a atenção para uma cavidade mínima
E estar assim tão breve e tão profundo
como no silêncio de uma planta
é estar no fundo do tempo ou no seu ápice
ou na alvura de um sono que nos dá
a cintilante substância do sítio
O mundo inteiro assim cabe num limbo
e é como um eco límpido e uma folha de sombra
que no vagar ondeia entre minúsculas luzes
E é astro imediato de um lúcido sono
fluvial e um núbil eclipse
em que estar só é estar no íntimo do mundo

António Ramos Rosa
em "Poemas Inéditos" 
.
*
.
A FESTA DO SILÊNCIO

Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa: a simples respiração.
Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.

Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.

António Ramos Rosa, 

em "Volante Verde"
.
*
.
PARA UM AMIGO TENHO SEMPRE
Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.

António Ramos Rosa, 
em "Viagem Através de uma Nebulosa"

.
*

NÃO POSSO ADIAR O AMOR
.
Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

António Ramos Rosa, 
em "Viagem Através de uma Nebulosa"
.
*
.
A PALAVRA
.
Eleva-se entre a espuma, verde e cristalina
e a alegria aviva-se em redonda ressonância.
O seu olhar é um sonho porque é um sopro indivisível
que reconhece e inventa a pluralidade delicada.
Ao longe e ao perto o horizonte treme entre os seus cílios.

Ela encanta-se. Adere, coincide com o ser mesmo
da coisa nomeada. O rosto da terra se renova.
Ela aflui em círculos desagregando, construindo.
Um ouvido desperta no ouvido, uma língua na língua.
Sobre si enrola o anel nupcial do universo.

O gérmen amadurece no seu corpo nascente.
Nas palavras que diz pulsa o desejo do mundo.
Move-se aqui e agora entre contornos vivos.
Ignora, esquece, sabe, vive ao nível do universo.
Na sua simplicidade terrestre há um ardor soberano.

António Ramos Rosa

em "Volante Verde"
.
*

Não podemos ter a certeza da nomeação
Entre o acto ou a coisa e a palavra há uma cesura intransponível
Vivemos paralelamente entre dois mundos como estranhos
e só a invenção pode constituir a fábula
de uma unidade que será sempre incerta ou futura ou improvável
Ou talvez possamos fazer um pacto com o inexprimível
e aceitar o insondável como um solo absoluto
e embalar-nos no silêncio ou no berço da nossa morte
Se uma adolescente expõe o seio diante de um espelho
e se deslumbra apaixonadamente e levemente beija a sua imagem
nenhuma palavra poderá dizer o frémito desse instante absoluto
mas é esse o desejo da palavra que procura um lábio
para sentir que ele é o mundo que desponta e o estremecimento do contacto
consigo própria no apaixonado círculo do seu movimento voluptuoso
Ela navega na solidão de imagem em imagem
para encontrar o outro para beijar nele a sua própria boca
e no seu sexo fecundar a ave subterrânea
das suas anelantes entranhas fustigadas pelo tufão do desejo

António Ramos Rosa
em "Génese (seguido de Constelações)
"

*

Quando uma mulher se despe numa clareira rodeada de arbustos
e sobre uma toalha se estende ao sol o seu desejo é ambíguo
porque não quer ser vista e ao mesmo tempo a sua pele estremece
sob um olhar ausente ou de alguém escondido entre a folhagem
Também a palavra se expõe e oculta no seu fulgor de lâmpada
alimentada pelo fogo obscuro que aspira à nudez solar
Ela inclina-se sobre a água para ver a sua imagem
com o olhar não dela mas de um outro que a move
para ser a presença pura no olhar de ninguém
e poderá ser um dia o de algum leitor que se deslumbra com a sua abstracta nudez
Sem esta duplicidade e sem este puro recato através do silêncio
ela não possuiria o frémito ideal da sua exposição
e seria opaca ou demasiado transparente sem os meandros cintilantes
que a tornam fugidia como um fio de mercúrio
e a sua nudez teria a consistência inerte
de uma pedra sem fogo e sem sal sem o focinho do desejo
Por isso o poema é uma mulher que se enrola na sua nudez
até ser tão redonda como redondo é o ser
com a sua língua bífida entre os lábios do seu sexo

António Ramos Rosa
em "Génese (seguido de Constelações)
"

*

O que não é ainda o que está para ser o que já está a ser
e que não sendo excede sempre em íntima dissonância
que perpetua o mundo para além de nós
e em nós abre uma fenda mas também um espaço neutro
em que a palavra poderá encontrar a rosa do possível
sobre o impossível solo que a nega e que a suscita
O que o ser mais deseja é a integridade de um sentido
que envolva o não sentido que o transponha numa lenta coluna
de existência reunindo a sede e a móvel nascente
que não existe senão no movimento dos passos sobre o deserto
para que a página se ilumine e a boca respire o azul do dia
Mas o poema é sobretudo o movimento do sono adolescente
em que o mundo não é mais que maresia cintilante
e o ritmo das esferas o rolar de uma bola de esterco que um escaravelho empurra

António Ramos Rosa
em "Génese (seguido de Constelações)"



*

Há palavras que esperam que o branco as desnude
para se tornarem transparentes e vazias
A delicadeza da lâmpada é uma oferenda do olvido
a folha flexível é uma luva vegetal para a mão que oscila

Como o abdómen de uma adolescente
a página suscita a fértil fragilidade
de uma caligrafia que se apaga sobre os sulcos da neve
Aí aparece a graciosa metade
em que cintila o pólen da límpida abolição

Escrevo para ser contemporâneo das nuvens
para pertencer à pobre e nua pátria inerte
coberta pelo violento alfabeto dos cláxons
Escrevo para que se levantem os pássaros de areia
e ao pulverizarem-se espalhem a poeira do seu desaparecimento
  
António Ramos Rosa
em "Génese (seguido de Constelações)"


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Obra inclui:

1958 - O Grito Claro
1960 - Viagem Através duma Nebulosa
1961 - Voz Inicial
1961 - Sobre o Rosto da Terra
1963 - Ocupação do Espaço
1964 - Terrear
1966 - Estou Vivo e Escrevo Sol
1969 - A Construção do Corpo
1970 - Nos Seus Olhos de Silêncio
1972 - A Pedra Nua
1974 - Não Posso Adiar o Coração (vol.I, da Obra Poética)
1975 - Animal Olhar (vol.II, da Obra Poética)
1975 - Respirar a Sombra (vol.III, da Obra Poética)
1975 - Ciclo do Cavalo
1977 - Boca Incompleta
1977 - A Imagem
1978 - As Marcas no Deserto
1978 - A Nuvem Sobre a Página
1979 - Figurações
1979 - Círculo Aberto
1980 - O Incêndio dos Aspectos
1980 - Declives
1980 - Le Domaine Enchanté
1980 - Figura: Fragmentos
1980 - As Marcas do Deserto
1981 - O Centro na Distância
1982 - O Incerto Exacto
1983 - Quando o Inexorável
1983 - Gravitações
1984 - Dinâmica Subtil
1985 - Ficção
1985 - Mediadoras
1986 - Volante Verde
1986 - Vinte Poemas para Albano Martins
1986 - Clareiras
1987 - No Calcanhar do Vento
1988 - O Livro da Ignorância
1988 - O Deus Nu(lo)
1989 - Três Lições Materiais
1989 - Acordes
1989 - Duas Águas, Um Rio (com Casimiro de Brito)
1990 - O Não e o Sim
1990 - Facilidade do Ar
1990 - Estrias
1991 - A Rosa Esquerda
1991 - Oásis Branco
1992 - Pólen- Silêncio
1992 - As Armas Imprecisas
1992 - Clamores
1992 - Dezassete Poemas
1993 - Lâmpadas Com Alguns Insectos
1994 - O Teu Rosto
1994 - O Navio da Matéria
1995 - Três
1996 - Delta
1996 - Figuras Solares
1997 - À Mesa do Vento
1997- Versões/Inversões
1998- A Imobilidade Fulminante
1998- Facilidad del aire
2000- Pátria Soberana e Nova Ficção
2001- As Palavras
2001- Vagabundagem na Poesia de António Ramos Rosa seguido de uma Antologia. (Casimiro de Brito)
2001- O Aprendiz Secreto
2005 - Génese (seguido de Constelações)
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Artigo de Sylvia Beirute
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