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sexta-feira, 22 de outubro de 2010

PREFIXOS E EXTRAPOESIA



















EXTRAPOESIA
 
Hoje ao ver a palavra "extraconjugal", detive-me no prefixo "extra". Na realidade recorro muito aos prefixos, especialmente na minha poesia, porque por vezes são a única maneira que encontro de expressar realidades mistas e combinatórias. Creio que o uso destes prefixos, alguns para designarem contrários, negações, ou algo a meio caminho, vêm abonar a favor do lado sucinto da criação poética, com consequências óbvias ao nível do ritmo e leitura. A propósito, no outro dia vi alguém falar em Neopoesia, o que remete para a poesia com tendências contemporâneas, alguma, como se sabe, com aspectos ligados à prosa, fruto de algum lado narrativo e não só. Creio que um dia, alguém com mais coragem introduzirá o termo Extrapoesia, para designar aquilo que timidamente hoje se chama (por poucos, é certo) de neopoesia. Quando isso acontecer, e depois de algum estudo e recolha de aspectos marcantes deste instituto, traçar-se-á uma linha longitudinal separando realidades, menorizando-se a importância da forma, exactamente como eu entendo que deve ser. Falar-se em extrapoesia, no sentido de se assinalar o que está fora da poesia, não ofenderá, a meu ver, e talvez numa etapa mais longínqua, os extrapoetas. Precisamente porque estamos num campo muito alargado de acção e creio que quem entra numa realidade de excepção tem um margem de manobra muito grande, liberdade que só homenageia uma arte. No fundo, esta extrapoesia tem a forma do poema, mas aspectos nucleares de outras realidades, não obstante alguns pontos de contacto com a poesia de útero mais clássico.

Sylvia Beirute
 

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

ANTÓNIO RAMOS ROSA: POEMAS, POESIA, ANÁLISE DA OBRA

























sb: série poetas

ANTÓNIO RAMOS ROSA

A poesia de António Ramos Rosa (Faro, 17 de Outubro de 1924) é exercida dentro das condicionantes que o poeta conscientemente dispõe no seu poema. Pode ser uma palavra, um vocábulo como estaca de uma espécie de tenda transparente, pode ser uma frase que lhe fixa o tema no primeiro verso, ou simplesmente uma combinação de climas, dando ao corpo poético uma uniformidade focal que se alimenta de si mesma. Ramos Rosa tem uma já longa história na poesia portuguesa (e do mundo), pelo que a sua obra foi (felizmente) mudando ao longo do tempo, como que se instalando em instintos diversos, em diferentes lembranças e convenções sociais. Este último aspecto é importante: Ramos Rosa e a sua poesia foram imediatamente transversais ao tempo e a todas as mutações (evoluções ou regressões) nele sofridas. Há, pois, um núcleo de aspectos que se mantiveram mais ou menos presentes em toda a sua obra e que merecem reflexão. É assim quanto à abordagem (recorrente) do vazio e do silêncio. O discurso ramos-rosiano é, neste ponto, dotado de uma linguagem simples, localizado em paisagens em que o tempo abranda e pára, como se o hoje pudesse durar uma eternidade; como se o poema, ele mesmo, olhasse incessantemente para uma das suas portas, sabendo que nada nem ninguém poderá ultrapassá-la. (Escuto na palavra a festa do silêncio. / Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se. / As coisas vacilam tão próximas de si mesmas. / Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas. / É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma. - do poema A Festa do Silêncio). É neste sentido uma poesia que se fecha nos problemas insolúveis que apresenta, na sobrecarga moral do «eu poético», no espírito das suas considerações lúcidas.
No poeta há um confronto muito vivo entre este silêncio e a Palavra (que poderá aparecer em diversas formulações: sílaba, verso, frase, etc), pese embora estas duas realidades se confundam e apareçam, por esse confronto, algumas vezes misturadas. E é assim porque esta palavra é uma palavra silenciada, é palavra enquanto sujeito e enquanto actor de um papel que deveria ser conferido ao homem por detrás do poeta e que, enquanto recurso estilístico, se substitui a ele, com toda a pujança e efeitos poéticos que daí advêm.
Outra das contraposições latentes é a felicidade e o seu contrário (cabendo também aqui várias formulações). A felicidade, porque é para Ramos Rosa "um ofício", apresenta-se ora como um sonho, ora como um dever. Há nesta poesia como que um espelho falso de um futuro próximo cuja moldura é a consciência, cambiando o seu interior à medida que o poema escorre sobre si mesmo. E escorre sobre si mesmo porque se auto-sobrepõe, valendo-se das suas pausas, dos seus intervalos, das suas existências isoladas, para que as palavras, enquanto produto final, se "elegantizem" nos seus significados e adaptações profundas, e homogeneizem o sono, leve ou pesado, activo ou passivo, que o poema traduz. 
O amor, enquanto temática, é tratado como uma dúvida, reforçado que é o papel do tempo e a sua urgência. Há uma espécie de ansiedade e fraqueza que sobe aos contornos mais longínquos do poema. Ainda assim, e ao contrário de muitos poetas que, no seu tempo, fizeram carreira com uma poesia exlusivamente de emoções, Ramos Rosa faz uso de um «cérebro poético», controlador e filtro dessas emoções, expressando os porquês na frieza de um discurso por vezes cortante, dando ao poema o equilíbrio necessário que o faz autêntico.
A sua obra poética é extensa, tendo-se estreado com o livro «O Grito Claro», primeira obra da colecção de poesia «A Palavra» dirigida pelo poeta algarvio e seu amigo de longa data Casimiro de Brito. Nos últimos anos a escrita do autor tornou-se mais centrada na linguagem, facto de que é paradigma o livro "Génese" (Roma Editora). António Ramos Rosa, poeta maior, com a dimensão global que a sua obra atingiu, tem favorecido e contribuído, no panorama nacional, para a afirmação e visibilidade da poesia do Algarve.


Poemas seleccionados:


ESTAR SÓ É ESTAR NO ÍNTIMO DO MUNDO
.
Por vezes   cada objecto   se ilumina
do que no passar é pausa íntima
entre sons minuciosos que inclinam
a atenção para uma cavidade mínima
E estar assim tão breve e tão profundo
como no silêncio de uma planta
é estar no fundo do tempo ou no seu ápice
ou na alvura de um sono que nos dá
a cintilante substância do sítio
O mundo inteiro assim cabe num limbo
e é como um eco límpido e uma folha de sombra
que no vagar ondeia entre minúsculas luzes
E é astro imediato de um lúcido sono
fluvial e um núbil eclipse
em que estar só é estar no íntimo do mundo

António Ramos Rosa
em "Poemas Inéditos" 
.
*
.
A FESTA DO SILÊNCIO

Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa: a simples respiração.
Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.

Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.

António Ramos Rosa, 

em "Volante Verde"
.
*
.
PARA UM AMIGO TENHO SEMPRE
Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.

António Ramos Rosa, 
em "Viagem Através de uma Nebulosa"

.
*

NÃO POSSO ADIAR O AMOR
.
Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

António Ramos Rosa, 
em "Viagem Através de uma Nebulosa"
.
*
.
A PALAVRA
.
Eleva-se entre a espuma, verde e cristalina
e a alegria aviva-se em redonda ressonância.
O seu olhar é um sonho porque é um sopro indivisível
que reconhece e inventa a pluralidade delicada.
Ao longe e ao perto o horizonte treme entre os seus cílios.

Ela encanta-se. Adere, coincide com o ser mesmo
da coisa nomeada. O rosto da terra se renova.
Ela aflui em círculos desagregando, construindo.
Um ouvido desperta no ouvido, uma língua na língua.
Sobre si enrola o anel nupcial do universo.

O gérmen amadurece no seu corpo nascente.
Nas palavras que diz pulsa o desejo do mundo.
Move-se aqui e agora entre contornos vivos.
Ignora, esquece, sabe, vive ao nível do universo.
Na sua simplicidade terrestre há um ardor soberano.

António Ramos Rosa

em "Volante Verde"
.
*

Não podemos ter a certeza da nomeação
Entre o acto ou a coisa e a palavra há uma cesura intransponível
Vivemos paralelamente entre dois mundos como estranhos
e só a invenção pode constituir a fábula
de uma unidade que será sempre incerta ou futura ou improvável
Ou talvez possamos fazer um pacto com o inexprimível
e aceitar o insondável como um solo absoluto
e embalar-nos no silêncio ou no berço da nossa morte
Se uma adolescente expõe o seio diante de um espelho
e se deslumbra apaixonadamente e levemente beija a sua imagem
nenhuma palavra poderá dizer o frémito desse instante absoluto
mas é esse o desejo da palavra que procura um lábio
para sentir que ele é o mundo que desponta e o estremecimento do contacto
consigo própria no apaixonado círculo do seu movimento voluptuoso
Ela navega na solidão de imagem em imagem
para encontrar o outro para beijar nele a sua própria boca
e no seu sexo fecundar a ave subterrânea
das suas anelantes entranhas fustigadas pelo tufão do desejo

António Ramos Rosa
em "Génese (seguido de Constelações)
"

*

Quando uma mulher se despe numa clareira rodeada de arbustos
e sobre uma toalha se estende ao sol o seu desejo é ambíguo
porque não quer ser vista e ao mesmo tempo a sua pele estremece
sob um olhar ausente ou de alguém escondido entre a folhagem
Também a palavra se expõe e oculta no seu fulgor de lâmpada
alimentada pelo fogo obscuro que aspira à nudez solar
Ela inclina-se sobre a água para ver a sua imagem
com o olhar não dela mas de um outro que a move
para ser a presença pura no olhar de ninguém
e poderá ser um dia o de algum leitor que se deslumbra com a sua abstracta nudez
Sem esta duplicidade e sem este puro recato através do silêncio
ela não possuiria o frémito ideal da sua exposição
e seria opaca ou demasiado transparente sem os meandros cintilantes
que a tornam fugidia como um fio de mercúrio
e a sua nudez teria a consistência inerte
de uma pedra sem fogo e sem sal sem o focinho do desejo
Por isso o poema é uma mulher que se enrola na sua nudez
até ser tão redonda como redondo é o ser
com a sua língua bífida entre os lábios do seu sexo

António Ramos Rosa
em "Génese (seguido de Constelações)
"

*

O que não é ainda o que está para ser o que já está a ser
e que não sendo excede sempre em íntima dissonância
que perpetua o mundo para além de nós
e em nós abre uma fenda mas também um espaço neutro
em que a palavra poderá encontrar a rosa do possível
sobre o impossível solo que a nega e que a suscita
O que o ser mais deseja é a integridade de um sentido
que envolva o não sentido que o transponha numa lenta coluna
de existência reunindo a sede e a móvel nascente
que não existe senão no movimento dos passos sobre o deserto
para que a página se ilumine e a boca respire o azul do dia
Mas o poema é sobretudo o movimento do sono adolescente
em que o mundo não é mais que maresia cintilante
e o ritmo das esferas o rolar de uma bola de esterco que um escaravelho empurra

António Ramos Rosa
em "Génese (seguido de Constelações)"



*

Há palavras que esperam que o branco as desnude
para se tornarem transparentes e vazias
A delicadeza da lâmpada é uma oferenda do olvido
a folha flexível é uma luva vegetal para a mão que oscila

Como o abdómen de uma adolescente
a página suscita a fértil fragilidade
de uma caligrafia que se apaga sobre os sulcos da neve
Aí aparece a graciosa metade
em que cintila o pólen da límpida abolição

Escrevo para ser contemporâneo das nuvens
para pertencer à pobre e nua pátria inerte
coberta pelo violento alfabeto dos cláxons
Escrevo para que se levantem os pássaros de areia
e ao pulverizarem-se espalhem a poeira do seu desaparecimento
  
António Ramos Rosa
em "Génese (seguido de Constelações)"


*

Obra inclui:

1958 - O Grito Claro
1960 - Viagem Através duma Nebulosa
1961 - Voz Inicial
1961 - Sobre o Rosto da Terra
1963 - Ocupação do Espaço
1964 - Terrear
1966 - Estou Vivo e Escrevo Sol
1969 - A Construção do Corpo
1970 - Nos Seus Olhos de Silêncio
1972 - A Pedra Nua
1974 - Não Posso Adiar o Coração (vol.I, da Obra Poética)
1975 - Animal Olhar (vol.II, da Obra Poética)
1975 - Respirar a Sombra (vol.III, da Obra Poética)
1975 - Ciclo do Cavalo
1977 - Boca Incompleta
1977 - A Imagem
1978 - As Marcas no Deserto
1978 - A Nuvem Sobre a Página
1979 - Figurações
1979 - Círculo Aberto
1980 - O Incêndio dos Aspectos
1980 - Declives
1980 - Le Domaine Enchanté
1980 - Figura: Fragmentos
1980 - As Marcas do Deserto
1981 - O Centro na Distância
1982 - O Incerto Exacto
1983 - Quando o Inexorável
1983 - Gravitações
1984 - Dinâmica Subtil
1985 - Ficção
1985 - Mediadoras
1986 - Volante Verde
1986 - Vinte Poemas para Albano Martins
1986 - Clareiras
1987 - No Calcanhar do Vento
1988 - O Livro da Ignorância
1988 - O Deus Nu(lo)
1989 - Três Lições Materiais
1989 - Acordes
1989 - Duas Águas, Um Rio (com Casimiro de Brito)
1990 - O Não e o Sim
1990 - Facilidade do Ar
1990 - Estrias
1991 - A Rosa Esquerda
1991 - Oásis Branco
1992 - Pólen- Silêncio
1992 - As Armas Imprecisas
1992 - Clamores
1992 - Dezassete Poemas
1993 - Lâmpadas Com Alguns Insectos
1994 - O Teu Rosto
1994 - O Navio da Matéria
1995 - Três
1996 - Delta
1996 - Figuras Solares
1997 - À Mesa do Vento
1997- Versões/Inversões
1998- A Imobilidade Fulminante
1998- Facilidad del aire
2000- Pátria Soberana e Nova Ficção
2001- As Palavras
2001- Vagabundagem na Poesia de António Ramos Rosa seguido de uma Antologia. (Casimiro de Brito)
2001- O Aprendiz Secreto
2005 - Génese (seguido de Constelações)
.
Artigo de Sylvia Beirute
.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

RICARDO DOMENECK: POEMAS, POESIA, BIOGRAFIA, VÍDEO


















sb: série poetas

RICARDO DOMENECK

Ricardo Domeneck é um poeta brasileiro (Bebedouro, 1977), residente em Berlim, Alemanha, cidade que apelida de Berlimbo. A ousadia da sua poesia está muito ligada a aspectos visualísticos, a que não é alheio o facto de o poeta também realizar pequenos filmes, neles explorando as mudanças essenciais do silêncio, as suas feições e contradições. Os poemas, de leitura rápida, e com um sentido de ritmo assinalável, são um olhar sobre (e sob) um quotidiano em fuga, um quotidiano de impessoalidades, revelações parciais, máscaras de alheamento feroz. Há nesta poesia um sentido de deslumbramento, como se a visualização do movimento urbano, com os seus personagens, pudesse alterar a clarividência com que se toma o ser biografado, puxando-o para uma realidade diversa. A meu ver, os seus sujeitos poéticos começam sempre com uma massa de carne e alma, tomando forma à medida que o poema se desenrola, até pela deambulação constante de quem canta no interior de sua voz. Esta deambulação é, contudo, equilibrada e temperada por um sentido de reflexão que brilha no fundo de cada emoção electrificada. Domeneck gosta de lugares longínquos, alguns pouco acessíveis, lugares que na sua escrita lhe transportam a visão e lhe alteram as suas modalidades. Estes lugares levam-no ao restante cosmopolitismo da sua obra poética, expresso em estrangeirismos, ou referências de outra ordem. Todo este material de poesia apresenta-se como muito bem integrado no corpus do poema, criando uma naturalidade invejável e que não é fácil, com estes ingredientes, e em abstracto, de ser bem conseguida. Talvez porque se socorra do acaso, do insólito das conversões de espírito, das transformações do instinto, fazendo-se deste «eu poético» um performer, personagem que vive dentro da sua verdade e de onde não pode nem quer sair. Ricardo Domeneck, para além de poeta, realizador de filmes, é DJ e artista visual. Edita, com Angélica Freitas, Fabiano Calixto, e Marília Garcia a revista literária Modo de Usar & Co. Escreve no blogue Rocirda Domencock.

Poemas seleccionados e um vídeo:

DEDICATÓRIA DOS JOELHOS (Fragmento)

falar hoje exige
elidir a própria
voz as transações
inventivas entre
interno e externo
demandam
que a base venha
à tona e a
superfície seja
da profundidade da
história ímpeto
denotando o
centrífugo
o corpo público
que exibo como
palco fruto
da ansiedade
do remetente
o interno ao longo
da epiderme
como emily
dickinson terminando
uma carta de minúcias
com "forgive
me the personality"

Ricardo Domeneck
em a cadela sem Logos 
São Paulo, Cosac Naify, 2007

*

"POEMA COMEÇANDO `QUANDO´" (fragmento)
Oitava faixa – 0:50

Prefiro no fundo,
a superfícies,
apêndices.
Consumir antes
da próxima
geração.
Adorno e engenho
substituídos pelo
fluxo do floema,
isto é, afinal
de contas,
uma emergência.
Mudança no
tempo imprevista.
O eterno seduz
tanto quanto
sempre
mas espera-se
adultos agora.
“O que
significa
isto?”
Leia a frase
toda.
Percorremos este
espaço de tempo
minuto a minuto
para vir do pavor
da idade do serrote
como infração do eterno
em Murilo Mendes
a esta aceitação
e deslizar no contingente
de Lyn Hejinian
em “persevering saws
swimming into boards”,
contentes, contentes.

Ricardo Domeneck
em a cadela sem Logos
São Paulo, Cosac Naify, 2007

*

EU DIGO SIM ATÉ DIZER NÃO

as circunvoluções
...........e caprichos
......da atenção:
erguer a cabeça
e perder o sono

...............sopro
................... vento
...........em que
....................uma primeira esfera
...........de ar impele
....................outra ao movimento

...........ou em alto-mar
temendo menos a ausência
..................... de resgate na superfície
que a povoação alheia
...............e por isso informe, abaixo
n’água, invisível, mas parte
integrante das estruturas
do dia real

......só a lucidez abre caminho
......................para o imaginário

......................... mas a carne insiste
................no contínuo

onde as pedras são comestíveis
...................e exige-se a fome;
...........durante a transfiguração
...............em que anjos e bandejas
...........circulam seu jardim
..............................é fácil salmodiar
providências e entregas; mas
................é com o linho enfaixando toda a
................pele e a pedra
...........separando esta caverna
da saúde do ar
..................que se espera um Lázaro!
..................... Lázaro! e um segundo
................antes da asfixia
crer ainda
...........que seja este o meu
..................nome, seja ESTE o MEU
............... nome

...............se cada folha parece
........... percutir o sol hoje
e não se debruça do estame
................................... para o vazio

...................o mundo
...................... é tão simpático

...........da montanha que fala resta
...........a mímica, da presença
o ventríloquo, de sua boca
o mapa que reconduz à porta

..................mão em mão com passos lentos

......mas foi Isaque a carregar a lenha
................nas costas, tomar o fogo e o cutelo
...........na mão; e caminhou junto de seu pai

........... todo sacrifício é aparente e inútil,

.....................nenhuma
...............árvore camufla
........... suas frutas:
................expôe-nas
...........ao pássaro, ao
....................chão, ao suco
...........na garganta, à recusa
.................do estômago

...........por
...................tanto

...........percorro os andaimes
.....................de equilíbrio precário
..................... :
...........ferro oxidável
................... saudoso
...........de água

...........e a alegria de quem, na
obrigação de abater um novilho,
...................espera que seu corpo, de repente
........... forte, sobreviva ao sacrifício,

como uma garganta
enrijece-se rápida
para resistir à faca

Ricardo Domeneck 
em Carta aos anfíbios,
Rio de Janeiro, 2005
Bem-te-vi

*


OS MATERIAIS, A LIÇÃO: CINCO VARIAÇÕES 

I.

pés úmidos em terra seca:
montar um cavalo morto
enregela-nos o movimento.

(beijo ao caminho, à poeira)

o fértil
revolve os olhos
e mal contém-se
em coice:

pata impressa
em ervas.

II.

conglomerado sem esforço,
o corpo reunido vinga-se
do ar, dispersão contínua.

(e despenca-me em chuva)

o úmido
opõe ao vento
o núcleo
do seu aposento:

o corpo persevera
no extenso.

III.

escalar-se em chamas,
deitar no próprio corpo
como na última cama.

(prefiro o consumo do outro)

nosso palpável
peito unido
lambe o milagre
da carne única:

a trindade
opera-se grávida.


IV.

fala e água: ao chocarem-se
em continentes de carência,
o conteúdo dita a forma.

(o líquido modela o copo)

o sangue
procura deter-se
num trecho de pele
um instante:

toque do anátema,
farol, ex-amante.

V.

consciência purgada na falta
que ama: enfim, só se é cauto
em sins de olhos fechados.

(fé do absurdo no obstáculo)

o cavaleiro
executa
no escuro
o movimento.

sem aposta de páscoa:
um cavalo, um moinho, um vento.

Ricardo Domeneck 
em Carta aos anfíbios, 
Rio de Janeiro, 2005
Bem-te-vi
*

A PELE MEDROSA CICATRIZA-SE: E RECOMEÇA

1.

esta perturbação inicial, garfo
que não encaixa na boca
e a comida cai, num prato
assustado; o copo
d’água vai de encontro
ao dente. A garganta
estende as palmas
de vontade.

2.

O algodão úmido
na testa eriça-me
o quebranto; o soluço
acelera o ritmo.

Visto o casaco alheio
e me perco no cheiro,
um instante,
um instante.

O flagrante
do dono
perturba-me
o sono.


3.

Timidez
de pés

em casa
estranha,

que ao
ensaio

da distribuição nova
do peso descobrem

a levitação.

4.

O chão é um convite
recorrente, constante; algo em nós espera
o reencontro. Até que o vento.

Ricardo Domeneck 
em Carta aos anfíbios, 
Rio de Janeiro, 2005
Bem-te-vi
*

OLARIA

Eu chamo de
saudade do sopro,
querença de brisa
sobre a água,
como a terra, disforme,
esses materiais
nas mãos do vivo
único, e único

o filho vence em dias
o que tememos a cada
rua, avião e cama;

é o fôlego do século,
o fôlego
do século,
e convém aceitá-lo,
dizem
(e arfam)
a máscara rápida
à boca,

e pedras remanescentes
das peneiras ferem
as mãos do oleiro

onde remodelados
às vezes
despertamos

e quando o vaso nas mãos
sangra

– abrimos os olhos –

e quando a pedra nas mãos
singra

– abrimos os olhos –

(certas dores não é lícito
fingir) e no forno
aguarda-nos
a paciência do que, sólido,
mantém características
de seu passado líquido,

mas não o indivisível.

Ricardo Domeneck 
em Carta aos anfíbios, 
Rio de Janeiro, 2005
Bem-te-vi

*

O PÃO PARTIDO

Houvesse um telefonema,
haveria uma voz; eu
emagreço, que prazer
ajustar-se melhor
aos ossos. Levitar
até o teto; basta mover-se
na direção certa
para viver de inverno
em inverno. Meu corpo
seu estrado, o colchão
a falta, em concha
peito e costas
aconchegam-se
em útero: e a falta
redobrada.
O cordão umbilical uma
ausência explícita, que
digestão suporta
uma hóstia?
A boca abre-se à
expectativa,
saliva
produzida nas glândulas
da anunciação.
Pão partido, corpo prurido
every single time.
Mas separam-nos
o jejum e as
orações de minha mãe,
a possibilidade
de um oceano
e seu condiloma
imaginado.
É 1654 e cavalos
(oito) tentam separar
as duas metades de
uma esfera unidas
pelo vácuo; em apenas
dois por cento das caças
um urso polar
tem sucesso mas
seu pêlo é branco! e oco
para conduzir melhor o sol;
brilhar e desaparecer:
camuflagem perfeita e o único
predador a fome.
A hóstia sempre
um prelúdio,
não uma rememoração.

Ricardo Domeneck 
em Carta aos anfíbios, 
Rio de Janeiro, 2005
Bem-te-vi

*

SEPARATISMO

Seu olho fisga-me dentre
os outros repuxa a pele
e reabre o corte faz-me
acreditar num anzol
dedicado
à minha boca enquanto a
expectativa infecciona
sob minha língua repetindo é hoje
é hoje e eu não
queria voltar a existir
como se à entrada
de uma estação de
metrô tocando xilofone
para os transeuntes à espera
da moeda a certa a desejada você
cantarola Crush
with eyeliner ele
caminha até o som Too drunk
to fuck soa
no quarto poemas não
o impressionam inútil
citar aquela poetisa
polonesa de que você gosta
tanto discorrer sobre a palavra yes
nos poemas
de e.e. cummings narrar
a morte estúpida
de Ingeborg Bachmann aduzir
como ele adoraria Yehuda
Amichai ou chiar améns não ele
folheia panfletos
anarquistas mimeografados
textos de escritores
judeus cheios de sarcasmo e ri
sozinho na cama você
se olha no espelho e sabe
de antemão que não
adianta tentar
um moicano você nasceu
para usar
óculos sua visão perfeita
20/20 sempre
foi na verdade um insulto mas como
é bom ouvi-lo sobre a infância
na Berlim dividida os pais
anarquistas o erro
a reunificação (der Anschluss
como ele diz) as dificuldades
de ser possuído por pai
alemão e mãe
judia passar o sábado
todo assistindo-
o vê-lo observar o sábado pedir pelo
que é kosher sim querido começa
em alguns dias a Chanukka
quando em um cerco inimigo
ao templo o óleo
suficiente para apenas um dia queimou
durante oito a perseverança do óleo me
cai bem

Ricardo Domeneck 
em Carta aos anfíbios, 
Rio de Janeiro, 2005
Bem-te-vi

*

O ACORDEONISTA DA CATEDRAL DE BRUXELAS

De Bruxelas eu
esperava tudo, talvez
a reprise
do que ali já vivera,
uma noite ao lado
de Jey Crisfar,
chuva e cansaço,
conversas com taxistas
e árabes, mas não
este acordeonista
loiro de 20 anos
diante da Catedral,
sim, a de Bruxelas,
acordeonista loiro e imberbe,
alto e imundo,
a quem doei 2 euros
num excitativo segundo de tacto
entre sua mão e meus dedos fechados
abrindo-se em bojo sobre sua palma,
após fazer com a visão
o rodízio contemplativo e luxurioso,
alternando o foco dos olhos
entre a catedral imberbe e loira
e o acordeonista alto e imundo,
a quem ensaiei, por 20 minutos
que mais pareceram seus 20 anos,
perguntar seu nome, quiçá filmá-lo
com a câmera que deixara
no Berlimbo,
ou imaginá-lo fotografado em série
por Adelaide Ivánova,
Heinz Peter Knes
ou qualquer fotógrafo
íntimo que me cedesse
os direitos autorais
desta imagem loira,
imunda,
para que eu de alguma forma
possuísse
este acordeonista imberbe e alto
em seus 20 anos,
a quem então batizo
em minhas glândulas
e passarei a chamar de Loïc
ou quem sabe Guillaume
pelo resto dos meus dias
após falhar em criar os colhões
de pedir seu nome,
e é assim, sr. Loïc ou Guillaume
aos 20 anos imundo e acordeonista,
que a você eu dedico
diante da alta e imberbe
Catedral de Bruxelas,
estes 2 euros
e uma ereção.

Ricardo Domeneck
Bruxelas, 8 de outubro de 2010
inédito

*

TEXTO EM QUE O POETA MEDITA SOBRE A FUGA INEXEQUÍVEL DA HISTÓRIA COMO TURISTA EM BUDAPESTE, HUNGRIA

Oblivion não
me assusta,
Claudette Colbert.
Evito praticar o
nado-sincronizado
no formol das evidências
fotográficas de
moi-même & myself.
Se possuísse na geografia
residência fixa em Twin Peaks,
sei que talvez os tupiniquins
elegessem os tons e timbres
de minha sinfonia de ossículos
para martelo, bigorna e estribo:
echolalaica
do silenciável
se a alfândega
rege as adegas
da anomalia.
Meus autobiógrafos
impossibilitados de
narrar meu martírio
em Montmartre,
como não houve
sobreviventes
com meu nome
em Guernica
ou Treblinka.
Em meio à hipoteca
dos meus despejos
não invoco
Hiroshima mon glamour.
Escuta aqui, Titanic:
tão Aristóteles quanto
Heródoto ou aritmético
o erótico,
todo mundo
sabe que o manual
de dança
conspira pelo decreto
dos pés
como obsoletos.
Não venha
mimetizar-me o miasma.
Qualquer Xerxes
a chicotear o mar
sabe que o olvido de Myrna Loy
não é o ouvido de Mina Loy
e Góngora não serve gôndolas
a canais de televisão, jornais
vespertinos em dia
crônico do hodierno
se é
hipótese a manhã.
Tal qual
este planeta
que aceita satélites
ou ser terceiro
em relação
a um sol
localizável mesmo
em seu espiralar
de eixo,
que não
pausa a cada
0:00
ou advoga o
stand by
do meu sono.
Buda não
é Manhattan,
feito aquele Guesa
em vertigem no Stock
Market
ou Lorca
histérico no Harlem.
Narrar o passado
é tal ginástica odisséica,
& ! que ginga, que físico
deste acrobata do empírico.
Eu aceito, sim, da totalidade
o resquício, poderia escrever
sobre Nova Iorque,
Manaus ou Poughkeepsie
mas nunca o pús nos pés
lá, isto aqui é Budapeste,
não as Ilhas Mauritius.
Hoje, ou em 1956, jamais
corresponder-se-ia
como os Poems
by Pierre Reverdy

no bolso de O´Hara,
então aceito a ladainha
da lingueta sem chave
à resistência da História
e a cartografia
inelegível, o mundo.
Sim, Budapest não é New York
& meu miocárdio está no bolso:
pocket book de Miklos Radnóti.

Ricardo Domeneck
inédito

*

Vídeo: Eugen, 2006


Ricardo Domeneck - "Eugen" (2006) from HILDA magazine on Vimeo.


 Obra:
  • Carta aos anfíbios (Rio de Janeiro: Bem-Te-Vi, 2005)
  • When they spoke I / confused cortex / for context (London: Kute Bash Books, 2006)
  • "Ideologia da percepção" in Revista Inimigo Rumor (SP: Cosac Naify & RJ: Sete Letras, 2006)
  • a cadela sem Logos (São Paulo: Cosac Naify, 2007)
  • Corpos e palanques (São Paulo: Dulcineia Catadora, 2009)
  • Sons: Arranjo: Garganta (São Paulo: Cosac Naify, 2009)