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quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Poesia de Vanguarda em Língua Portuguesa: Portugal e Brasil



















POESIA DE VANGUARDA EM LÍNGUA PORTUGUESA: Portugal e Brasil

A poesia portuguesa contemporânea, mesmo entre maioria dos jovens poetas, é sobretudo uma poesia de retaguarda. O termo vanguarda deve ser justamente reservado para boa parte da poesia brasileira, e nem sequer é preciso recuar ou avançar muito. Ela tem estado lá há muito tempo e tem-se feito acompanhar dos tempos, paralelizando-se a eles, às evoluções, aproveitando a cultura rica e diversificada, de lugar para lugar, inserindo este último elemento cirúrgica e subtilmente na criação artística.

Parece-me que nos falta, em geral, correr riscos em Portugal. Mas ainda há quem os corra. Poetas como Fernando Aguiar ou Luís Serguilha são mais valorizados lá fora, o primeiro com o nicho do audiovisual e algum concretismo, o segundo com o seu carrossel poético, do que propriamente no seu país; os mais novos e de muito valor, a meio caminho do que digo (Alice Macedo Campos, André Domingues, Pedro Ludgero, Carlos Vinagre, etc) têm o seu lugar na clandestinidade de pequenas edições ou em revistas do género, ainda assim fazendo as delícias de verdadeiros apreciadores que "catrapiscam" estas criações e as estimam como relíquias.

O mais estranho é usar-se o termo «vanguarda» com frequência sem se fazer a mínima ideia do que se diz, a não ser, claro, se se estiver a usar o termo em sentido militar. Para Haroldo de Campos, “Na poesia de vanguarda, o poeta, além de exercitar aquela função poética por definição voltada para a estrutura mesma da mensagem, é ainda motivado a poetar pelo próprio acto de poetar, isto é, mais do que por uma função referencial ou outra, ele é complementarmente movido por uma função metalinguística: escreve poemas críticos, poemas sobre o próprio poema ou sobre o ofício do poeta.”

No Brasil há, desde logo, o incontornável Manoel de Barros, com a sua «vanguarda primitiva», a vanguarda do uso anormal das palavras simples, dos contextos mudados, da alteração subtil do peso das coisas, a coisificação do homem, a humanização das coisas, realidades alegóricas que realizam aquilo que é essencial ao leitor: sentir.

Nicolas Behr é bastante interessante e encontro nessa poesia aquilo que procuro: a surpresa do verso seguinte, novas fórmulas para o acto poético, a integração de uma realidade noutra, como se ambas se fundissem e dessem origem a uma só. Iogurte com Farinha, datado de 1977, é um livro que respeita o que digo.

Outros exemplos haveria, tais como Paulo Leminski, Camargo Meyer (menos conhecido entre nós), etc.

Na novíssima poesia do Brasil há um conjunto de autores muito interessantes, todos eles muito individualistas (no mais correcto sentido do termo), todos experimentando os eus que a poesia permite e sua elasticidade, e usando das diversas formas ou formulações. Veja-se Juliana Krapp, Ricardo Domeneck, Fabiano Calixto, Dirceu Villa, Claudio Daniel, Carlito Azevedo, Walter Gam (também artista plástico), Marília Garcia, Angélica Freitas, Francieli Spohr, entre tantos outros.

Voltando a Portugal, há o case study de Herberto Helder, talvez o mais radical poeta destes todos que citei, apreciado ou respeitado em todo o país, vanguardista por excelência, assumindo-se como certo (ou próximo disso) o conceito de Haroldo de Campos.  
Há um certo «complexo de Herberto Helder». Há aqueles que gostam do poeta, os que não gostam, os que não gostam mas sabem que deveriam gostar, os que não gostam mas sabem que lhes faria bem gostar; há o caso do grupo surrealista de Lisboa, que não tem, no entanto, em meu entender, servido de base para as criações poéticas do presente. 

Acredito que precisamos de uma explosão. Talvez o meio digital o favoreça, o antecipe. Este meio tem a vantagem de conservar a criação, ainda que, nalguns casos, toscamente. Ainda assim contribui para democratizar o futuro, e um dia, quem sabe, refazer a história. É que há casos pontuais de excelência por esta blogosfera fora, despercebidos à maioria dos leitores de hoje.

Sylvia Beirute

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Era uma vez um pintor que tinha um aquário, e dentro do aquário, um peixe encarnado. Herberto Helder


























Era uma vez um pintor que tinha um aquário e, dentro do aquário, um peixe encarnado. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor encarnada, quando a certa altura começou a tornar-se negro a partir-digamos-de dentro. Era um ó negro por detrás da sua cor vermelha e que, insidioso, se desenvolvia por fora, alastrando-se e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário, o pintor assistia surpreendido à chegada do novo peixe.

O problema do artista era este: obrigado a interromper o quadro que pintava e onde estava a aparecer o vermelho do seu peixe, não sabia agora o que fazer da cor preta que o peixe lhe ensinava. Assim, os elementos do problema constituíam-se na própria observação dos factos e punham-se por uma ordem a saber:

1º- peixe, cor vermelha, pintor, em que a cor vermelha era o nexo estabelecido entre o peixe e o quadro, através do pintor;

2º- peixe, cor preta, pintor, em que a cor preta formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.

Ao meditar acerca das razões porque o peixe mudara de cor precisamente na hora em que o pintor assentava na sua fidelidade, ele pensou que, lá dentro do aquário, o peixe, realizando o seu número de prestidigitação, pretendia fazer notar que existe apenas uma lei que abrange tanto o mundo das coisas como o da imaginação. essa lei seria a metamorfose. Compreendida a nova espécie de fidelidade, o artista pintou na sua tela um peixe amarelo.

Herberto Helder

domingo, 1 de agosto de 2010

Ricardo Domeneck por Érico Nogueira


























Conheci Ricardo Domeneck em 1998. Ambos éramos calouros da Faculdade de Filosofia da USP, e quem falou dele pra mim, e de mim pra ele, foi o nosso querido amigo comum, o matemático Bruno Learth, também calouro de filosofia, àquela altura. Foi algo como "ele também escreve poesia" a nossa carta de apresentação. E ficamos amigos.
Acompanhei muito de perto a confecção do seu volume de estréia, Carta aos anfíbios (2005), cuja dedicatória me envaidace ainda mais, se é que isso é possível. Acompanhei as suas coitas d'amor, angústias religiosas, o seu entusiasmo por Unamuno e por Kieslóvski. E já então Ricardo me parecia a própria encarnação do último conselho de Pound aos jovens poetas: "curiosity".
Mantivemos uma intensa correspondência, por alguns anos -- carta de papel mesmo, leitor, essa coisa hoje tão demodê --, na qual discutíamos os poemas e a poética um do outro. Foi uma lição de civilidade, de respeito à diferença. Foi uma imersão no conversable world de David Hume, ao som de Goethe no trompete, tocando Weltliteratur, aquela famosa.
Seguiram-se àquele os volumes a cadela sem Logos (2007) e Sons: Arranjo: Garganta (2009), ambos pela super-hype Cosaic&Naify. Ricardo é pop, sem dúvida; o que incomoda a pose acadêmica da nossa estúpida crítica oficial.
Bem, tudo isso vocês já sabiam, tá aí na rede pra quem quiser ler, e é bobagem repetir. Repito-o, porém, pra falar da mais recente poesia de Ricardo, a qual, sem renunciar às suas obsessões, e aproveitando a técnica precedente, dá um salto imprevisto, toca uma nova toada. Leiamos algo em primeira mão:

Eu

Concentro-me demais
no chão. Minha carteira
de identidade de bolso,
o mais próximo da mão
com que escrevo,
meu registro
geral que nada
mais é que instância
de discurso. O amor, matéria
de hidráulica.
Incha-se
a memória,
se estuma o inverno
como se fosse pupa.
No inverno
quando e onde
é você
o que o
vapor circunda.
Mas meu hipotálamo,
ou o que quer que
em mim balbucia
o que pensa,
é inútil entre as 12
e as 18 horas.
Notívago e diuturno,
sinto-me como a ojeriza
que a atmosfera
dedica ao vácuo
ou o dicionário
ao que está à ponta
da língua,
enquanto cinco dedos
à esquerda
contabilizam à direita
minha herança.
Minha língua entre dentes
não se quer pantera
entre grades. Digo "aqui"
e ponho os pés
no chão; "eu",
e a cabeça entre as mãos;
"hoje", enchendo até doer
de ar
os pulmões. Certeza, não
de meio-dia ou meia-noite,
mas endereço de avião
em voo,
latitude e longitude
como se o meridiano
fosse uma bolha,
de pus ou de sabão.
Prefiro descarrilhar a saber,
já na estação, a caixa postal
do destino, este latifúndio.
Se a dor não
é o dente, restam-me
as respostas
a perguntas há muito
esquecidas, e apenas
a vontade de seguir
as pegadas em trilha
oposta,
como se alguém acoplasse
aos calcanhares os dedos.
Maciez de pedra
perdida em meio
ao algodão, existo
com rochas, digerindo
com antas
e a adorar com anjos,
e faço do meu nome
o mundo, meio
do ente em ato
da matéria, isto
ou aquilo.


O poema é uma declaração de poética. É o poeta aceitando o particular, quebrando com essa coisa de pessoa versus persona, assumindo a responsabilidade pelo que diz. É um novo Catulo, ou outro Calímaco, poetas sempre 'pessoais', que o ouvido atento escuta claramente em "a vontade de seguir/ as pegadas em trilha/ oposta". E a imagem da pedra no meio do algodão, dos anjos e das antas, variando os registros, do sublime ao grotesco, é quase uma lição de poética alexandrina. Já que falamos de Catulo, olhem só --


Poema

Enfim aurora-me na cachola,
doce Jonas de whales, baleias,
por que os deuses desaprovam
o incesto, esse advertisement
ou entertainment em família,
tal reciclagem ad aeternitatem
ou sexo homogêneo à margem
(e sua homenagem à soi-même)
como o cúmulo da economia.
Leis de veto a fellatio in toilets
e virilha em público, ilegíveis,
como Coca-Cola, cocaína & Co.
ou outros substantivos ilegais
para nossa literatura ou lírica.
Teu Ricardo sabe que o peixe
morre pela fome, boca em pênis
de moçoilos é o anzol de sempre
e eis que pé no rabo eu vos nego.
Pedicabo ego vos et irrumabo.
Seguirei sendo nota de pontapé
no apêndice de vossos cérebros
ou até que me canse, escravo
paciente e devoto, das horas-
-extras de chicote e chacota
sobre vossas gretas garbosas.


-- poema esse em que a vertigem de extratos e estratos lingüísticos vem orquestrada por aquele delicioso tom fanfarrão, de enfant terrible, que só Catulo sabe ensinar.
A poesia, meus caros, é sempre também um inconformismo. É uma espécie de alergia ao pó -- viva, articulada, urgente. Qualidades gritantes de Ricardo Domeneck. 

(poemas de Ricardo Domeneck)


sexta-feira, 30 de julho de 2010

Revista Aliás II/2010

E viva o jogo !

Aliás II/2010



Sim, nós perdemos a Copa de Mundo, perdemos Saramago e temos colhido uma série de más notícias todos os dias aqui no Brasil.

O desaparecimento de uma jovem e seu suposto assassinato por um ídolo do futebol tornou-se mais do que noticia de página policial para transformar-se no mais puro entretenimento... Horas e horas de "noticiário" sobre os protagonistas... Enfim, até final de julho, quando este editorial foi escrito, bastava ligar a TV para ser invadido por uma realidade sem Saramago e sem prêmio da vitória. Assim entramos nesta edição II/2010.

Justamente por isso que não podemos deixar a peteca cair. Devemos, sobretudo, criar novas alternativas de entretenimento, de cultura. E é por isso que trazemos esta nova edição com força redobrada, com o tal segundo fôlego dos esportistas.

"E viva o jogo!" foi a sugestão de pauta. A ideia não era falar da Copa, mas também da Copa. Optamos por levantar a ideia do jogo, da incerteza que ele envolve, das apostas que se faz, do inesperado... Principalmente porque isso tem tudo a ver com a arte.

O conto de Mariel Reis, traz o futebol, com ele o time América [por sinal time do escritor Marques Rebelo], e uma indigesta realidade de nossa história, a Ditadura. A partir do que foi uma época de jogadas nada esportistas, ele constrói um cenário carregado de lirismo. É este fôlego, que não deve ser perdido e que parece ser uma alternativa para a partida contra toda angústia. E não pense o leitor que a referência à sugestão de pauta esteja apenas no título ou ambientação de seu conto...

E, já que falamos de América e já nos remetemos a Marques Rebelo, sigamos com o "Onofre",que vem encher de realidade a seção dedicada ao escritor e acadêmico. Uma realidade que pode estar acontecendo agora mesmo na nossa esquina. Esta é a capacidade extrema de Marques Rebelo, que temos a honra de abrigar entre os nossos e sob a curadoria de José Maria Dias da Cruz.

Temos o ensaio cheio de "insights" do escritor e pianista Marcelo Moraes Caetano, co-editor e revisor da revista e que acaba de lançar mais um livro: "Caminhos do Texto" (Editora Ferreira, 2010). Nesta edição de Aliás, mais do que discutir questões ontológicas, que envolvem dois grandes ícones da cultura ocidental, seu texto abre uma brecha de luz ao perceber o que passa despercebido. Mistura as peças no tabuleiro, faz-nos botar a cuca para trabalhar e encontrar a melhor saída. As celebridades, os jogadores envolvidos? Hamlet e Édipo.

Outra estudiosa e colunista da revista, Eugenia Gay-Brussino traz um texto para lá de essencial a nós artistas. Qual a especificidade do objeto obra de arte para o hitoriador? A arte "se deixa" analisar? Questões essenciais com as quais se debatem artistas e críticos são analisadas pela pesquisadora que usa como referência principal neste texto as concepções de Giulio Carlo Argan.
Na coluna de Bianca Tupinambá as ilustrações trazem o espírito do dia-a-dia das ruas do Rio de Janeiro, durante a Copa do Mundo, quando ainda pensávamos qual seria o melhor adversário para nós, Argentina ou Alemanha... Não pegamos nenhum dos dois, tomamos uma laranjada, não para refrescar, mas em cheio na nuca, a fruta. As ilustrações não cantam vitória, nem trazem desânimo. Trazem a aposta.

A crônica de Paula Cajaty, que foi finalizada antes da saída do Brasil da Copa do Mundo, lembra que o importante é o movimento que se faz durante a partida, mais do que a busca do resultado. É quando saboreamos a vida. Para falar disso ela domina a bola no pé e divide conosco suas reflexões sobre a produção do seu último livro: sexo, tempo e poesia (7 Letras, 2010).

A vida é sim muito mais do que o alvo ou a seta. A vida é movimento, a vida são "Transparências", como bem anuncia o título de um quadro recente do artista plástico José Maria Dias da Cruz e que apresentamos na coluna "Artes visuais". Transparências que nos fazem ver realidades através de outras. E por isso mesmo possibilitam alternativas de novas jogadas, novos passes, impasses e resultados quase sempre sob a égide das "Incertezas".

Incertezas que são, antes de tudo, possibilidades. Numa alternativa de mundo não-determinista, de mundos, antes de tudo, viáveis. Também é o que ressalta o texto da coluna do mesmo José Maria Dias da Cruz, em que aborda a questão da cor e antecipa novos estudos presentes eu seu mais recente livro, "O Cromatismo Cezanneano" (Edição do autor/2010). Fala sobre o cromatismo clássico e os impasses que este encontra. Oferece uma leitura a partir da relação de Cezanne com as cores e explica mais uma vez a ideia de cinza sempiterno, que lhe é bem cara e vem sido desenvolvida há bastante tempo por José Maria Dias da Cruz.

Outras realidades, outras linguagens, Susanna Bussato anuncia em sua contribuição à coluna Poemas: "Sob a luz /como se/ sumisse/ como se/ a luz/ submissa sentisse.// E este silêncio...// (Como se dissesse tudo e nada fosse...)" do poema cujo título é o último verso desta citação, e que está em parênteses, como um pensamento que hesitamos em levar ao outro e ainda assim chega ao mundo por nós e em nós, como se nada fosse...

Ainda em "Poemas", o poeta Ricardo Alfaya com: "Gol de placa entre lençóis". Ele que sempre foi um poeta das linhas secas, da poesia visual, vem flertando com o lirismo, denotando uma sensível mudança em sua poética.

Mariel Reis, nosso contista, está presente também exercitando a forma da poesia com o mesmo talento de seus já consagrados contos. Luis Serguilha, de quem só tínhamos publicado ensaios até agora, comparece com seu jogo sensorial de palavras.

João Felinto, traz a tradição da poesia popular com invenção. Sylvia Beirute, jovem poeta portuguesa, juntamente a Serguilha segue representando uma escritura de vanguarda no que isso tem de quebra de estrutura clássica da forma. Paula Cajaty, também colunista de Aliás, traz versos de seu recente livro: "sexo, tempo e poesia" (7 Letras, 2010), onde apresenta maturidade poética contribuindo com poemas de apuradas sensibilidades e delicadezas aliadas ao domínio da técnica.

Se tocamos no assunto do artesanato da poesia, sigamos com a de Leandro Jardim, com exercícios de metapoesia explícita. Parte de livro "Os poemas que não gostamos de nossos poetas preferidos" a ser lançado pelo selo Orpheu em 2010.

Paula Cajaty, também colunista de Aliás, traz versos de seu recente livro: "sexo, tempo e poesia" (7 Letras, 2010), onde apresenta maturidade poética contribuindo com poemas de apuradas sensiblilidade e delicadezas aliadas ao domínio da técnica.

Se tocamos no assunto do artesanato da poesia, sigamos com a de Leandro Jardim, com exercícios de metapoesia explícita. Parte de livro "Os poemas que não gostamos de nossos poetas preferidos" a ser lançado pelo selo Orpheu em 2010.

Em "Ensaios" temos novamente o poeta e ensaísta português Luis Serguilha, que apresenta o trabalho de Gabriela Marcondes. Luis Serguilha cria em cima da obra do outro artista. Mais que isso, recria, assimila, transmigra (para utilizar um termo que o autor utiliza), e neste ato parece buscar comunicar ao leitor o afeto que o acometeu, mais do que falar da obra em si. Parece interessar ao ensaísta o que efetivamente a obra produziu nele, fruidor. Numa busca incansável através das palavras provoca sensações, afetos através de "brinquedos verbais" (como bem nomeou Suzana vargas, ao referir-se à obra do autor em uma palestra).

Se jogo de futebol é algo típico do brasileiro hexacampeão, Cazuza também é. Afinal é quem grita ainda: "Brasil, mostra tua cara, quero ver quem paga pra gente ficar assim" versos que se tornaram quase um "hino nacional paralelo". O músico, ícone dos anos oitenta é homenageado por nossa cronista musical Daniela Aragão. Depoimento sem falso "tietismo", de quem não tinha Cazuza como um de seus preferidos e por isso mesmo de quem sobre o tema emite um olhar mais arguto.

Sobre outras linguagens, Marcelo Scanzani, que é nosso cinéfilo, traz, numa análise despretensiosa e bem humorada, uma leitura dos filme "O sabor da melancia" e "Vive lamour," ambos de Tsai Ming-Liang. Importante notar a inusitada citação ao cantor de música brega, Barros Alencar.

O poeta Márcio Catunda, nosso colunista e que acaba de lançar sua "Emoção Atlântica" (Oficina Editores, 2010) traz o poema "Jogo perigoso". Usa e abusa da sonoridade da palavra, produzindo um som que mesmo poderia ser o das peças de xadrex num tabuleiro, do pé do jogador raspando no gramado, de uma velejador puxando a corda de seu barco, ou simplesmente o som áspero e agudo da angústia que antecede a tomada de decisão... Sim emoções trazem sons...

Por falar em outras linguagens, Marcelo Scanzani, que é nosso cinéfilo, traz para nós, numa análise despretensiosa e bem humorada, uma leitura dos filme "O sabor da melancia" e "Vive lamour, ambos de Tsai Ming-Liang.

Na minha coluna apresento o livro "Ponto Cego" (Mandarim/Siciliano,1999) de Lya Luft, que à época de seu lançamento não foi muito divulgado na mídia. Convido para um cafezinho em "Crônicas" e passo a bola para vocês!


Elaine Pauvolid

Aliás, goze!

terça-feira, 20 de julho de 2010

Súbito - José Manuel Teixeira da Silva


























SÚBITO

Súbito, nem se sabe porquê, irrompem algumas pré-histórias.
Na primeira é uma história que invento, precisamente uma história, a primeira história. Recomeço-a eternamente. Escrevo e torno a escrever a sequência inicial, a única que existirá. Um homem parte, a noite vem antes do tempo, cai mais de repente, descrevem-se minuciosamente os mecanismos da tempestade, o momento de suspensão, o bater interior do espaço parado. Grandes nuvens correm nos seus olhos. Está preso ao passado que lhe escorre com a chuva, mas sente o apelo da viagem, um coração que insiste. Surge o comboio fulgurante, trovões e relâmpagos, é a hora. No fim da linha, um dia, chegará à cidade que abandonou, o ar tão fácil de respirar.


in A Minha Palavra Favorita, Centro Atlântico, 2007

domingo, 11 de julho de 2010

Ricardo Basbaum

A dificuldade em estabelecer de maneira adequada a qualidade de relação que se está buscando aqui reside, sem dúvida, na exigência em articular os termos Pensamento e Arte enquanto matérias em movimento, com a potencialidade de um acontecimento – implicações derivadas do engajamento no processo de uma experiência. Como arrancar algo de produtivo – seja texto, seja trabalho de arte – a partir do mergulho na experiência mesma, com seu turbilhão de envolvimento na imediaticidade do que está a ocorrer? E mais, como garantir a legitimidade destes produtos, enquanto algo que autonomize-se, desenvolva uma consistência própria, para além do sujeito da experiência?

Ricardo Basbaum
em Além da Pureza Visual – p. 52

segunda-feira, 5 de julho de 2010

O outro lado de José Saramago


























O OUTRO LADO

Como serão as coisas quando não estamos a olhar para elas? Esta pergunta, que cada dia me vem parecendo menos disparatada, fi-la eu muitas vezes em criança, mas só a fazia a mim próprio, não a pais nem professores porque adivinhava que eles sorririam da minha ingenuidade (ou da minha estupidez, segundo alguma opinião mais radical) e me dariam a única resposta que nunca me poderia convencer: “As coisas, quando não olhamos para elas, são iguais ao que parecem quando não estamos a olhar”. Sempre achei que as coisas, quando estavam sozinhas, eram outras coisas. Mais tarde, quando já havia entrado naquele período da adolescência que se caracteriza pela desdenhosa presunção com que julga a infância donde proveio, acreditei ter a resposta definitiva à inquietação metafísica que atormentara os meus tenros anos: pensei que se regulasse uma máquina fotográfica de modo a que ela disparasse automaticamente numa habitação em que não houvesse quaisquer presenças humanas, conseguiria apanhar as coisas desprevenidas, e desta maneira ficar a conhecer o aspecto real que têm. Esqueci-me de que as coisas são mais espertas do que parecem e não se deixam enganar com essa facilidade: elas sabem muito bem que no interior de cada máquina fotográfica há um olho humano escondido… Além disso, ainda que o aparelho, por astúcia, tivesse podido captar a imagem frontal de uma coisa, sempre o outro lado dela ficaria fora do alcance do sistema óptico, mecânico, químico ou digital do registo fotográfico. Aquele lado oculto para onde, no derradeiro instante, ironicamente, a coisa fotografada teria feito passar a sua face secreta, essa irmã gémea da escuridão. Quando numa habitação imersa em total obscuridade acendemos uma luz, a escuridão desaparece. Então não é raro perguntar-nos: “Para onde foi ela?” E a resposta só pode ser uma: “Não foi para nenhum lugar, a escuridão é simplesmente o outro lado da luz, a sua face secreta”. Foi pena que não mo tivessem dito antes, quando eu era criança. Hoje saberia tudo sobre a escuridão e a luz, sobre a luz e a escuridão.

José Saramago
em O Caderno de Saramago (blogue)

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Poesia e Experiência


























O POETA E A POESIA EXPERIMENTAL

Esta ambiguidade, indefinibilidade e polivalência do real são testemunhadas, no plano da representação estética, pela experimentação e o encontro sucessivo, determinados por desajustamentos e ajustamentos entre a imaginação e a realidade.
Trata-se de uma regra tradicional que a tradição esquece, quando perde o dinamismo sobre que assenta. Porque a tradição é um movimento. Em princípio, não existe nenhum trabalho criativo que não seja experimental, nesse sentido em que ele supõe vigilância sobre o desgaste dos meios que utiliza e que procura constantemente recarregar de capacidade de exercício. A linguagem encontra-se sempre ameaçada pelos períodos de inadequação e invalidez. É algo que, no seu uso, se gasta e refaz, se perde e ajusta, se organiza, desorganiza e reorganiza – se experimenta. Como diria um poeta, essa é a própria lição das coisas.

Entretanto, será oportuno acentuar que os organizadores de Poesia Experimental não se vinculam, nessa qualidade, a qualquer especiosa ou unívoca noção de experimentalismo. Disse-se já da sua confiança na multiplicidade dos exemplos. Uma concepção unilateral de aventura anularia o princípio básico de busca individual e livre, já que liberdade é, tanto no sentido estético como moral, o primeiro dos signos – o da eficácia.

In Poesia Experimental
Hatherly, Castro, 1981

domingo, 20 de junho de 2010

Livro do Desassossego, de Bernardo Soares


















243.

Quem quisesse fazer um catálogo de monstros, não teria mais que fotografar em palavras aquelas coisas que a noite traz às almas sonolentas que não conseguem dormir. Essas coisas têm toda a incoerência do sonho sem a desculpa incógnita de se estar dormindo. Pairam como morcegos sobre a passividade da alma, ou vampiros que suguem o sangue da submissão.

São larvas do declive e do desperdício, sombras que enchem o vale, vestígios que ficam do destino. Umas vezes são vermes, nauseantes à própria alma que os afaga e cria; outras vezes são espectros, e rondam sinistramente coisa nenhuma; outras vezes, ainda, emergem cobras dos recôncavos absurdos das emoções perdidas.

Lastro do falso, não servem senão para que não sirvamos. São dúvidas do abismo, deitadas na alma, arrastando dobras sonolentas e frias. Duram fumos, passam rastros, e não há mais que o haverem sido na substância estéril de ter tido consciência deles. Um ou outro é como uma peça íntima de fogo-de-artifício: faísca-se um tempo entre sonhos, e o resto é a inconsciência da consciência com que o vimos.

Nastro desatado, a alma não existe em si mesma. As grandes paisagens são para amanhã, e nós já vivemos. Falhou a conversa interrompida. Quem diria que a vida havia de ser assim?
Perco-me se me encontro, duvido se acho, não tenho se obtive. Como se passeasse, durmo, mas estou desperto. Como se dormisse, acordo, e não me pertenço. A vida, afinal, é, em si mesma, uma grande insónia, e há um estremunhamento lúcido em tudo quanto pensamos e fazemos.

Seria feliz se pudesse dormir. Esta opinião é neste momento, porque não durmo. A noite é um peso imenso por detrás do afogar-me como o cobertor mudo do que sonho. Tenho uma indigestão na alma.

Sempre, depois de depois, virá o dia, mas será tarde, como sempre. Tudo dorme e é feliz, menos eu. Descanso um pouco, sem que ouse que durma. E grandes cabeças de monstros sem ser emergem confusas do fundo de quem sou. São dragões do Oriente do abismo, com línguas encarnadas de fora da lógica, com olhos que fitam sem vida a minha vida morta que os não fita.

A tampa, por amor de Deus, a tampa! Concluam-me a insconciência e vida! Felizmente, pela janela fria, de portas desdobradas para trás, um fio triste de luz pálida começa a tirar a sombra do horizonte. Felizmente, o que vai raiar é o dia. Sossego, quase, do cansaço do desassossego. Um galo canta, absurdo, em plena cidade. O dia lívido começa no meu vago sono. Alguma vez dormirei. Um ruído de rodas faz carroça. Minhas pálpebras dormem, mas não eu. Tudo, enfim, é o Destino.

Fernando Pessoa 
em O Livro do Desassossego, de Bernardo Soares

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Lógica Feminina


























A MINHA MULHER

Era uma mulher alta, bem feita de corpo, de belo e altivo perfil. Um nariz direito, um queixo pontiagudo e as pálpebras semicerradas davam à sua fisionomia e ao seu olhar uma expressão de arrogância desdenhosa e de orgulho. Vestia-se com muito esmero e no seu todo exterior só lhe ia mal um excessivo nervosismo e, às vezes, uma certa rudeza nos modos. Eu conhecia bem a sua maneira de ser e dava-lhe o devido apreço, mas o seu mundo intelectual e moral, o seu espírito, as suas concepções, o seu temperamento instável, os olhos odientos, o orgulho, os livros que lia e que por vezes me deixavam espantado, e o seu ar freirático, como na véspera ainda, tudo isso me era desconhecido e incompreensível.

Quando durante as nossas altercações, tentativa definir o seu tipo humano, a minha psicologia quedava-se em fórmulas comuns, tais como: «estouvada, cabeça no ar, péssimo carácter, lógica feminina», e isto me bastava. Mas agora, que a via chorar, sentia o ardente desejo de descobrir o fundo daquela alma e de olhar lá para dentro a ver o que encerrava.


Anton Tchekov
in A Minha Mulher 

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Jorge de Sena e a Linguagem


























Em 1943, (em Correspondência – carta a Guilherme de Castilho) Jorge de Sena manifestava a consciência de que a relação entre as diversas artes não cabe nos limites de uma lógica da identidade passível de sustentar um sistema de correspondências: «a poesia tem andado subordinada a considerações de ordem plástica – quando, afinal, a obra plástica é tirada do nada por adição de matéria e a obra poética é tirada da matéria por adição de um nada excessivo que não é escolha mas aceitação».

Mais tarde (em Antigos e Modernos), já transcorrida a experiência de Metamorfoses, o problema seria encarado numa perspectiva linguística e semiológica. Intensificava-se a consciência da diferença irredutível entre os espaços significantes do verbal e do não-verbal:

«No que à expressão literária se refere, e ainda que se aceite que todas as artes, à sua maneira, “comunicam”, a dependência estrita e unívoca em relação ao meio formal é mais absoluta que para qualquer das outras, porque, se as estruturas linguísticas se terão modificado por invenção da escrita, e se as possibilidades da imprensa por certo influíram no “estilo” de usar-se esteticamente a linguagem, o valor oral e escrito do signo linguístico não deixou de permanecer o que essencialmente era: a forma de comunicar uma informação ou uma experiência, mediante combinações convencionalmente representativas da realidade. A “escrita” das outras artes não é o seu mesmo meio. Esta essencial diferença, se bem que não autorize uma noção de progresso das artes, patenteia que este, num sentido elementar, ou mesmo complexo, não pode existir na criação literária: o que pode existir é a exploração de possibilidades combinatórias que a linguagem sempre possuiu.»

Luís Adriano Carlos
Em Fenomenologia do Discurso Poético
Ensaio sobre Jorge de Sena

quinta-feira, 6 de maio de 2010

A Energia na Poesia de Herberto Helder


























A ENERGIA

A «energia», enquanto vocábulo presente na obra de Herberto Helder, tem uma assiduidade relativamente reduzida. Porém, a sua capacidade de representação ultrapassa os limites do vocábulo e concretiza-se violentamente na osmose entre todas as palavras do verso, no transbordar dos sentidos de palavra para palavra, na relação semântica absolutamente imprevista, na própria hifenização e translineação do verso, na combinação entre versos longos e brevíssimos (por vezes compostos por uma ou duas sílabas de uma palavra). Para além dessa relação aparentemente forçada dos vocábulos, a sua selecção num espaço primário - na medida em que normalmente se encontram os referentes associados a relações com o corpo e com a terra - reforça a imagem de pura energia, de violência, de um contacto bruto com as coisas, de modo a conviver com esse excesso de vida que ainda não foi diluído no sentido culturalmente correcto que procura sempre homogeneizar e não distinguir.

João Amadeu Carvalho da Silva
em A Poesia de Herberto Helder -
Do Contexto ao Texto: uma palavra
sagrada na noite do mundo
Fundação Calouste Gulbenkian

domingo, 25 de abril de 2010

As Crónicas Eventuais, por Nicolau Saião


























1. AMÉRICA DE LUZES E SOMBRAS

Para nós, amantes da Literatura Policial, a América tem sido o país das mil-e-uma-noites: nela brotaram flores de mistério e de maravilhoso, de mágoa e de tragédia através dos dias e dos anos, plantadas por escritores e visionários como Edgar Alan Poe, H. P. Lovecraft, Dashiel Hammett, August Derleth, Raymond Chandler, Charles Williams, William Faulkner, Melville Davison Post e tantos outros.

A América atravessámo-la nós com os vagabundos de Frank Gruber, com os “road runners” de W. R. Burnett. Contemplámos as vertentes do Ohio e os arranha-céus de Nova Iorque e Chicago até às montanhas do Colorado e aos desertos do Arizona e do Novo Máxico com Bill Ballinger, Hammond Hines, Burt Spicer e Jim Thompson. Excursionámos pelas vilórias e pelas pequenas cidades do Midlle West com Ellery Queen e Ray Bradbury, perdêmo-nos nas alfurjas dos portos e nos “fumoirs” de Chinatown e da Bowery com Craig Rice, Thomas Burke e um certo chinês filósofo de bigode a quem chamavam Charlie Chan e que estava ali de passagem vindo da sua ensolarada Honolulu.

Numa certa noite de neve, sob a lua da Carolina do Norte, ouvimos tiros na estrada deserta por onde minutos antes haviam passado Bruce Robinson e Jonatham Latimer, que nos esclareceram o enredo.

Amámos e padecemos em quartos e em caves, de mãos atadas atrás das costas pelos “gangsters” de serviço. E fomos salvos “in extremis”, com o fato rasgado e o nariz deitado abaixo, por um tal Mickey Spillane e pelo seu amigo dilecto Mike Hammer. A iluminação brotou-nos da mente num momento de sagacidade perpetrada por um fulano que atendia pelo nome de Philip Marlowe. E foi homem a homem que derrotámos o mafioso crápula pseudo político que nos envinagrava o quotidiano, devido aos sábios ensinamentos dum tipo chamado Continental Op, em escaramuça devastadora numa viela do Bronx.

De manhãzinha, com o nosso elegante fato cinzento de discreta risca azulada, entrámos num palacete onde um ancião atormentado pela nostalgia nos pediu auxílio para encontrar o genro e fomos catrapiscados por uma “mulher fatal” que nos lançou na senda da aventura. De outra vez, acompanhando um sofisticado cavalheiro conhecedor de arte assíria e etrusca que nos disse chamar-se Philo Vance, tivemos a dita de nos introduzirmos nos ricos salões de Nova Inglaterra e de Manhattan e, em troca, de juntura com um tal Humphrey Bogart, levámo-lo até aos confins do Colorado, até à High Sierra, e aprendêmos a beber uns valentes “bourbons” sem ficarmos caídos de caixão à cova.

Com um jurista desembaraçado que nos disse apelidar-se Perry Mason, jornadeámos pelas artérias de Los Angeles e pelos desertos da Califórnia em busca de assassinos nefandos.

Ouvimos muitas vezes o bramir dos ventos, sentimos na pele o negrume das noites e a chicotada da chuva inclemente, enquanto – dissimulados a uma esquina, com a gola da clássica gabardina levantada – esperávamos a chegada dum companheiro empregado na mesma agência que se chamava Caution, Lemmy Caution e que era pai dum tal James Bond.

Tudo isto sentímos nessa América onde havia e há problemas e conflitos não resolvidos, mas onde também sempre houve esperança e alegria devido a umas coisinhas simples, mas espantosamente importantes, que dão pelo nome de liberdade de palavra, de reunião, de pensamento e da sua divulgação não obrigada a mote, como sucede hoje em muitos sítios supostamente civilizados.

E, agora que se tornou moda ou característica pôr-se sistematicamente em equação essa América (toda a América?!) como símbolo do mal e da desgraça - principalmente para se sentir melhor a nostalgia dum Leste implodido e de novos bárbaros a quem se santifica como mártires - lembremo-nos de todos os mosaicos intemporais que ela criou através de membros humildes ou repletos de cultura viva que, hoje por hoje e amanhã por amanhã, se calhar só serão epigrafados e em altas vozes se, de novo, tiverem de dar a vida para continuarmos a disfrutar de um pouco de futuro possível.



2. IRENE, JOLMAR & COMPANHIA

Têm-se tornado quase gente do meu lidar estes e outros que, decerto pelos melhores motivos, procuram nobremente beneficiar-me das mais diversas maneiras…

Neste tempo de movimentos caracoleantes na “silly season” de fogos que nos perturbam ou empolgam e de outras amenidades semelhantes, os nomes que cito – e que chegam até mim interactivamente pela Net em e-mails não solicitados – divertem-me e até me confortam, pois sou pessoa muito agradecida a este acervo de gente que, não me conhecendo, busca contudo fazer de mim um homem de quotidiano feliz e, presumo, de mais agradável perfil social.

Este Jolmar, que é certamente um médico prodigioso, mediante sucessivas mensagens alerta-me para o facto de que posso aumentar a tonelagem de certo órgão de que disponho para diferentes utilizações anatómico-fisiológicas, qual delas a mais agradável ou aliviante. E isto sem me ter observado in loco, o que diz bem da sua competência profissional, maior no entanto que o seu grau de previsão e conhecimento. Propõe-se também fornecer-me, por um preço muito em conta, pequenos utensílios muito úteis em épocas de superpovoamento. De passagem, caso não esteja interessado nesse funcional produto, negociará comigo, em moldes extremamente vantajosos, fotos de mui gratificante recorte confeccionadas nos entrepostos adequados do multirracial Brasil.

Irene - por seu turno - que deve ser uma jovem sincera e ternurenta a atender ao que reza na sua espevitada publicidade - propõe-se ajudar-me a passar noites produtivas dum certo ponto de vista em Copacabana e, se necessário, em Belo Horizonte – e sem sequer precisar de sair do quarto e sem ter de estar a jogar primeiro à bisca ou ao dominó.

Não é isto dum desvelo perfeitamente comovedor?

E que dizer dos potenciais fornecedores de automóveis topo de gama ao preço da uva mijona, dos agentes de fenomenais casinos onde tudo é possível, dos especialistas honrados que me tratarão da contabilidade ou da potencial calvície com toda a competência e mansuetude? E que até me vão ensinar, se eu quiser, judo-savate ou karaté com maviosas aplicações?

E das experts de antigos países de Leste (a atender aos nomes característicos) que poderão fazer de mim um felicíssimo cavalheiro por toda a santa vida, caso eu aceda em dar-lhes o sim num qualquer cartório notarial? E o excelente gentleman que me propõe a aquisição de alguns portentos de raça cavalar? E o vendedor de vinhos de boa casta? E o das pulseiras e colares? E aquela que… Mas basta de publicidade gratuita, por ora!

Obrigado Irene, obrigado Jolmar! Obrigado a todos quantos se preocupam assim com a minha estabilidade terrena, com o meu equilíbrio psicológico e com o bem-estar do meu agregado biológico!

Há só um pequeno senão. Que lhes estraga desde logo o(s) interessante(s) negócio(s).

É que, por questões de cepticismo incontrolável, sou um péssimo utilizador de gestos samaritanos de tão poderoso quilate.

E, ainda por cima, o que é bem pior – que raiva e que desgosto! - o meu erário pessoal é mais ou menos tão pouco portentoso como o do nosso bíblico velho amigo Job…



3. BREVE RELANCE SOBRE A MÚSICA

A música, imagem da alma, como referiu com propriedade Frederich Herzfeld, tem sido uma segura acompanhante do Homem embora só tardiamente o tivesse sido da sociedade. Com efeito, se nos lembrarmos que a primeira escola de música – ainda estabelecida em termos muito artesanais – foi criada em mil e nove por Saint-Gall e que o primeiro público musical (ou seja, reunido com o fito de ouvir a música por si mesma) só começou a existir no ano de 1725, com a criação por Philidor dos chamados “concertos espirituais”, começaremos a perceber que, como uma âncora profundamente fixada no mar societário, a música enquanto fenómeno ou, para dizer doutra maneira, a música enquanto entidade criadora de acontecimentos partilhados por milhares ou por milhões é um dado relativamente recente, tanto mais que os meios técnicos de difusão só neste século se tornaram uma presença quase absoluta.

Nos dias de hoje, em que vivemos rodeados de sons e de timbres organizados de forma lógica (e relembro que foi somente no séc. XVIII, com Mozart, que o timbre começou a ser utilizado de modo significativo e criativo) é-nos difícil entender quanto a música estava afastada das grandes massas populares como fruição habitual e quotidiana. Como refere apropriadamente Konrad Riemann, para o geral da população havia, nos dias de semana, as frases musicais ritmadas ao jeito de pequenas canções que sublinhavam o trabalho feito ou a fazer; no domingo era a canção entoada quando havia festas mas, acima de tudo, a presença do canto religioso, frequentemente expresso mediante a monódia gregoriana.

Antes disso – e a memória mais afastada vai só até 40 mil anos, documentados no fresco de Ariège, na gruta dos Três Irmãos em França – a música seria um sublinhar de fastos mágicos ou ritos religiosos, pois era coisa de deuses e de alguns homens que se haviam subtraído ao seu presumido controle.

A música era apanágio do mago, do sacerdote ou do monarca, fracção espiritual que proporcionava um contacto directo com as divindades e os seus áulicos.

Aline DakaContudo, no nosso tempo a música espalhou-se pelo imaginário, dando azo a muitas figurações sociais, políticas e psicológicas. Goebbels, por exemplo, com a sua fina intuição de patifório esclarecido, conhecia bem o peso que tem, ante os basbaques, o desfilar dum cortejo precedido duma poderosa charanga e fez disso um uso infernalmente manipulador. Também os nossos meios de comunicação de massas manejam bem esta matéria: repare-se na forma psicologicamente bem estudada com que nos bombardeiam os ouvidos, repetindo até à saciedade temas de sucesso (as mais das vezes de pouca qualidade) entoados por vedetas primárias que eles próprios criam. Aliás, o consabido ambiente musical dito ligeiro dispensa-me de maiores comentários.

Seja a música – como alguns pretendem – uma variante da linguagem ou, como outros defendem, a abstracção da linguagem levada às últimas consequências, a verdade é que constitui um dado incontornável do nosso tempo. É, em suma, um dos componentes do grande imaginário actual para além de ser, nos casos mais exemplares – como por exemplo em Bach, Mozart ou Schubert – talvez um sinal com que a “música das esferas” chega até nós para nos dar testemunho profundo do rosto secreto da eternidade.



4. OUVE, ISABEL!

Estava eu no norte do país e queria sair da Cidade em direcção ao Porto sem me enganar na estrada. Como gosto de olhar para as coisas, claro que me enganei. Fui dar, sem má consciência, a Serzedelo.

Fica prá direita, prá esquerda? Sei lá, mas foi ali que eu deslindei um mistério. Ao passar por uma rua apertada que precedia um largo divisei numa parede uma inscrição a tinta que me chamou a atenção e me informou utilmente. Dizia: “Amo-te, Isabel!”.
Era então ali que a Isabel morava! Que mora. A Isabel nortenha dos negros olhos pestanudosque todos conhecemos.
E eu parece-me que sei, Isabel, quem te interpelou assim publicamente. Ou eu muito me engano ou foi aquele rapaz um pouco calado - sim, o que tem um pé ligeiramente de lado e o nariz algo torcido - que uma vez ao passar por ti junto a um café se desviou logo para tu entrares. Por um momento o vosso olhar cruzou-se e tu durante dois dias ficaste a meditar, que o moço apesar do pé e do nariz tem olhos sensíveis, bons braços de trabalhador (é empregado num armazém de pneus) e uma expressão prometedora.
E eu digo-te, Isabel: agarra-o com as duas mãos. Assalta um casino, um comboio correio. Ou vende as arrecadas que os parentes te deram. Paga a operação ao moço, que ele merece. E até pode ser que gostes do pé de lado. E do nariz torcido. E diz-lhe que leste a mensagem. Um tipo capaz de arriscar assim a reputação publicamente não pode deixar de ser um sujeito de carácter. E gostar de ti deveras.
Dá-te pressa. Põe sebo nas canelas - que tens bem harmoniosas e roliças.

Aproveita, que coisas destas não aparecem duas vezes numa eternidade!



5. NA MANHÃ CLARA E QUENTE

Não é soturna mas misteriosa. Um antigo lagar. Todos os dias a vejo, aquela casa casarão agora abandonada. Só frequentada, agora, por pombos. Segundo andar e sótão a toda a largura do edifício. E janelas, janelas de arcada, janelas em ogiva, janelas largas em sacada por onde se faziam subir as saquiladas de azeitona nos tempos da minha infância e adolescência. Todos os dias a vejo – que fica mesmo em frente do Museu aonde estacionava profissionalmente e onde todos os dias passo. Que todos os dias recordo.

Todos os dias? Todas as horas, que da janela do meu gabinete o via e hoje catrapisco na memória sem ser sequer preciso virar os olhos dentro da cabeça.

Casarão à maneira do Lovecraft, que se ele o pisgasse logo o meteria em estória de espantações. Agora, deserto de presenças humanas, já com algumas vidraças partidas, é a guarida dos pombos, dos pombos que como dantes lhe andam sempre em volta (são dum columbófilo encartado, desses que fazem largadas de Oviedo, Sevilha, Vila Nova de Poiares, o mundo…) sem ousarem entrar. Netos - bisnetos, quero eu dizer - dos que por aqui esvoaçavam quando eu era tão-só um puto.

Lançavam-se papagaios: feitos de papel de seda – azul, vermelha, amarela, duravam pouco mais que um dia mas prolongavam-se pelo tempo. E passavam as mulheres da queijaria, a soldadesca e os pedreiros, gente de cara seca e braços encordoados e alguns ficavam a olhar por um momento antes de irem abancar na taberna do sr. Abreu, taberna assim a modos que fina onde os manejadores do maço e das pachadas de cimento entravam com unção de quem entra já não digo num templo mas pelo menos numa sacristia. Os odores das iscas cozinhadas à maneira, o belo carapau de escabeche que nunca mais senti como presença de sedutoras iguarias, o moço de lábio leporino que levava as travessas carregadas de copos e de terrinas substanciais… E o senhor primeiro-sargento Cabanas (o que mais tarde me ensinou a esgrimir) que depois do toque à ordem ia buscar o jantar p’ra ele e sua senhora, acompanhado pelo impedido pacholas, soldadinho raso das bandas de Montargil que lhe transportava os comeres.

E o fiscal de isqueiros, funcionário da repartição de Finanças a quem se atribuíam também suspeitosos outros mesteres e que afinal, depois da bernarda abrilina, se revelou velho militante do partidão e distribuidor, pela calada da noite, de corajosas papeladas subversivas. E a dona Virgínia, cordial vizinha e esposa do senhor Casaca, que fazia brinquedos de madeira – camionetas coloridas, rocas e piões a granel e palhaços que davam cambalhotas suspensos numa barra de arame grosso. E os altares de S. João donde escorria e onde cantava a água numa ribeirinha de cenário, e a menina Maria que foi mestra de gaiatos toda a vida, e o polícia senhor Laranjo que era da terra da minha mãe e por isso eu não temia porque me dava ervilhanas e, já quase na reforma, um dia teve de me ir deter com um colega também das minhas relações, por mando do governador civil porque eu agia demais no velho Clube de Futebol do Alentejo e estava dado como perigoso oposicionista.

Os pombos. Dizia eu – os pombos. Parentes dos que todas as manhãs me acordam, pois vivem no rebordo da marquise por cima da janela do meu quarto, abandonados que foram por um cidadão columbófilo com demasiado apego a Baco e que por isso, flechado na figadeira, lá foi ter com o comandante dos olimpos romanos antes de tempo.

Pombos, pombinhos? Dum suave arrulhar para quem é um dorminhoco convicto. E lá no velho lagar, que eu bem a vi quando uma vez não me contive e espreitei pelo arrombado duma porta, há uma poeira muito fina no ar de outrora iluminada brevemente por raios de sol que lhe cruzam a penumbra mais consistente e onde o silencio para quase todas as horas se condensa e vai perdendo no tempo vivo.



6. COMO UM TAMBOR AO LONGE

Bate e palpita e não é um mar nem um tropel de pernas e braços que sobre um relvado arfa e se descompõe. Nem a revoada de palmas numa sala comicieira de gândulos esfaimados por prebendas, por coisas de muito mandar. Bate: quente, arfante, solitário, nítido como uma voz que reboa na manhã em que ainda se sente o sussurro da madrugada. Bate como um punho numa porta cerrada e depois aberta para o afago, o grito, o absoluto permanecer. Não é um bater de espingarda que se dispara, de aparelho (um piano, um frigorífico, uma mala enorme) que tomba num chão e faz um estardalhaço infernal. Nem um tum tum tum de maquineta enlouquecida.

No calor e no frio das terras e dos tempos, no afastado de salas e de quartos onde os mistérios se interpenetram como corpos de amantes, como corpos de amantes que ao mistério se dão, como um balão que rebenta mas de mansinho, na noite de muito possuir e na manhã de magia, ele efectua o seu ruído difuso, único, solar.

É um pássaro, um super-homem, uma nave que ultrapassa a barreira do som com um estampido?

Ou é soco violento numa mesa, muitos socos violentos sobre uma mesa, um rosto, uma situação?

Não é nem ronronar de máquina de navio, nem grasnar rouco de motor de avião, nem estrépito de cavalos no empedrado de uma calçada antiga.

Com efeito, esse toque toque toque, esse pulsar incógnito mas reconhecível, humilde mas fragoroso no interior do seu silêncio, reboante nas horas de que não há nem notícias nem mapas, esse pequeno ruído como o de um tambor ao longe é apenas, tão-só, simplesmente - o de um humano e apaixonado coração.



7. AS FRAUDES LITERÁRIAS [a]

Neste caso teatro de sombras, de silhuetas difusas, de hipóteses… De coisas muito reais deliberadamente colocadas sob o signo da aparente brincadeira que afinal tem a ver com os equívocos da literatura e das ainda mais equívocas circunstâncias circenses que por vezes lhe andam em torno.
Mas eu explico-me já.
De há uns tempos a esta parte, principalmente depois de haver sido “caçada” uma conhecida e talentosa plagiadora, tem sido razoavelmente falada no milieu nacional a questão das fraudes literárias. Das quais duas - se lhes podemos chamar fraudes - ficaram famosas no século que há 8 anos se finou. Refiro-me, como os de melhor memória terão já percebido, aos affaires de “A caça espiritual” (Rimbaud) e de “Gros Calin” – O lambe-botas, (Romain Gary/Emile Ajar).

Já vamos dar-lhes uma rápida olhadela. Mas importará, em jeito de leve rol, referir que as chamadas fraudes se dividem em vários grupos, a saber: o plágio puro e simples (que tem sido o mais praticado muros adentro); o livro escrito com questionável qualidade mas valorizado por um “nome” de prestígio já a fazer tijolo; o livro de qualidade que todavia o autor nunca escreveu; o livro de qualidade, de facto escrito por um autor de renome mas atribuído a um desconhecido e que antes de ser premiadíssimo vários editores espertalhaços não agarraram com as quatro mãos. Ainda, numa estância subsidiária, o livro que simplesmente não existe (apenas composto por maravilhosos fragmentos bem artilhados) e o livro convincente mas criado de cabo a rabo com o único intuito de mostrar os limites do que se conhece sobre uma personalidade histórica ( e há alguns bastante célebres: sobre Napoleão, Rasputine, Erskine Caldwell…).
Falemos no caso do falso Rimbaud.
Certo dia, os eruditos académicos Maurice Saillet e Pascal Pia (que já havia editado falsos Baudelaires, Pierre Louys e Apollinaires…) disseram ao mundo que o arquifamoso e perdido “A caça espiritual” estava nas suas mãos. Começara a grande tourada…

Imediatamente desmascarado como falso por André Breton, que se baseara apenas no conhecimento interior da obra rimbaldiana, a titarada arrastou pelos bas-fonds da ignorância, da jactância, da sobranceria académica e da tolice literata muitos dos “trutas” das letras francesas mais armados em arco. Afinal, a deliciosa brincadeira fora pensada e executada por dois actores/estudantes que tinham resolvido dar uma lição aos emproados.
Curiosamente, diz-nos um comentador do caso que apesar das evidentes provas dadas de caducidade mental e societária, os génios da crítica em causa continuaram a dispor de respeitabilidade, ainda que a sua credibilidade tivesse ficado muito abalada nos meios menos atoleimados.
Ou seja: o que por vezes parece contar (e por cá há maviosos exemplos) não é de facto nem o talento nem a seriedade estudiosa mas a classe de poder onde os pássaros bisnaus se incrustam.



8. AS FRAUDES LITERÁRIAS [b]

Em 1973 a editora “Gallimard” recebeu um inédito intitulado “Gros câlin” ( O lambe-botas), relato prenhe de sustância, força, pundonor e novidade de escrita. Intimidada, porque o texto era de facto inovador e ia contra a corrente dos romances que a época e as vendas em montra festejavam, a publicação foi recusada.
Dias mais tarde é o “Mercure de France” que recebe o dactiloscrito. A sua responsável, Simone também de apelido Gallimard, pesados os prós e contras dá-o a lume. Olhado a princípio com certa incomodidade pela crítica, a pouco e pouco a obra impõe-se. Começa a sua marcha triunfal e é proposta para o prémio Renaudot. O nome do seu autor, Emile Ajar, por ser desconhecido começa a suspeitar-se que cobre um autor de gabarito: para uns, Raymond Queneau; para outros, Louis Aragon. E outros mais…
Mas um dia, o dia do lançamento de um volume depois célebre, “La vie devant soi”, o mistério descripta-se: o seu autor Emile Ajar era o nome com que Paul Pavlovitch, o sobrinho do já galardoado e consagrado escritor Romain Gary (autor, por exemplo, de “Racines du ciel”, “La promesse de l'aube” de “Lady L”) dera a lume o livro que, logo a seguir, receberia o prémio Goncourt, venderia mais de um milhão de cópias e seria traduzido em 23 línguas…
Paul Pavlovitch torna-se uma coqueluche do “tout Paris”: repórteres seguem-no de Monte Carlo até à Côte d'Azur, é visto nas festas e nos bares de luxo em companhia de belíssimas actrizes e meninas finas do “demi-monde”. Um lindo e saudável forrobodó que não desagradaria, suponho, a se calhar mais de metade dos austeros romancistas lusos…
No princípio de 79 outro livro de Ajar vem à luz: o belíssimo “L'angoisse du roi Salomon”, novo êxito de criar bicho. E é então que em Março outro escrito da autoria de Romain Gary, “Vie e mort d'Emile Ajar” revela o imbróglio: os livros eram produto da sua pena, o sobrinho fôra apenas o actor escolhido para esta partida aos literatos – partida tanto mais gostosa se nos lembrarmos que o Goncourt não se pode atribuir/receber duas vezes…
Ou seja: então como resolver a bambochata? E os gabirús da literatice desesperavam!
Na sequência deste seu último livro, pois logo a seguir, profundamente ferido pela morte de sua mulher e amada, a célebre actriz Jean Seberg, Gary suicidava-se - deixara um bilhetinho irónico colado na testa: “Diverti-me a valer! Até à vista e obrigado…”.
Sem ser só por isto - mas também por isto, por esta manifestação de excelente senso de humor e de alto talento que a passagem dos anos não crestou - sugerimos vivamente, a quem porventura os não conheça, a leitura dos livros de Romain Gary. É um dos que, a par de Marcel Scipion, Jean Husson, Philip Claudel e Jacques Borel (ou seja, dos chamados “descentrados” das letras gaulesas) valem muito a pena ser lidos – com os olhos, com as orelhas, com a ponta da alma.

E com um leve risinho absolutamente colorido…



9. CHARLOT E OS JOGOS DO ESPELHO

Podemos questionar-nos: Charlot seria Chaplin ao espelho? Pergunta talvez ociosa, mas que não deixa de ser pertinente. Quase diria com humor: para ser Charlot, a Chaplin só lhe faltava o bigodinho.

Senão, vejamos: a vida de Chaplin foi exemplar do ponto de vista de um ser humano que forcejava por se enquadrar numa sociedade que sem cessar fazia esforços para o remeter, com o clássico pontapé no traseiro das suas comédias, para lugares inabordáveis.

Recordemos, ao calhar, os episódios Lita Grey, [1] a tentativa de darem o nosso homem como comunista por ter vendido bónus de guerra (Chaplin comunista é de facto demasiado forte), a censura que lhe faziam em Inglaterra por ter abandonado mais ou menos aquele rincão onde oficiavam os comediantes, esses sim verdadeiros comediantes, no género de Lord Chippendale ou Neville Chamberlain…

Por isso é que hoje se nota sem precisarmos de lupa – basta-nos a perspectiva do tempo, esse supremo crítico como lhe chamou André Gide – que o riso de Charlot, mesmo o dos seus primeiros momentos que a alguns distraídos pareceram simples vaudeville, é o que fica a qualquer um depois de uma grande e pura tristeza. Pierre Hourcade, que um dia se forçou a debruçar-se sobre os mecanismos do humor, como personagem grada que era e por isso vagamente cómica (ia quase a dizer gravemente cómica) tinha dessa matéria uma ideia que, com maldade, classificarei de “perspectiva de proprietário”. Mais ou menos na altura em que Chaplin nos dava o seu “Monsieur Verdoux”, referia aquele académico que o verdadeiro humor é sempre amável ou alegre, ou seja dito de outro modo: excelente pitança para pessoas sérias e decentes que gostam de amenizar os seus dias.

Bem melhor andou Wenceslau Fernandez Flores ao referir que “o humorista é um descontente que se ri da Sociedade em vez de a ferir” – o que remete Chaplin para o lugar que é efectivamente o seu: um homem belamente encolerizado com os disparates do mundo, como diria Chesterton, ao qual foi imposto, por inerência de talento (ou, se preferirem, génio) um caminho traçado entre os pardieiros de Londres e, finalmente, as ruas da imensa metrópole americana. E que ele soube transfigurar e tornar perene.

Ainda hoje se ri a bom rir durante a projecção de “Os ociosos”, de “A quimera do ouro”, de “As luzes da cidade”, de “Tempos modernos”. Já não estou tão seguro que o mesmo suceda ao vermos “O grande ditador”, ou “Um rei em Nova Iorque”, ou “Monsieur Verdoux”, ou “A condessa de Hong-Kong”. Por esta razão muito simples: hoje sabemos à nossa custa que as gargalhadas podem gelar na garganta e que, no fundo, o que Chaplin encenava eram não comédias mas tragédias e que o riso só lá estava para sublinhar uma evidência já posta em equação por Lautréamont: “Ride, mas chorai ao mesmo tempo. Se não puderdes chorar pelos olhos, chorai pela boca ou por qualquer outro lado. Sejam lágrimas, seja mijo, seja sangue, tanto faz. Mas advirto que um líquido qualquer é aqui indispensável”.

Dizia Brassai, conversando com Malraux e Picasso, que de cada vez que via nas actualidades Mussolini a discursar, tinha a impressão que por detrás lhe estava sempre alguém a dar pontapés no posterior. Mas Mussolini era um patifório um pouco risível, apesar dos desmandos que praticou na pátria de Leopardi. Quanto a Hitler o caso era diferente: sinistro sem contemplações de picardia toscana, era de facto um canalha de alto coturno, um verdadeiro criminoso e um ente que, com a sua simples aparição, espalhava a inquietação à sua volta como nos conta Trevor Roper citado por Jean-Marie Domenach. Será então de espantar que hoje nos apareça muito mais ridículo e verdadeiramente objecto de maior riso ferino? Porque o que admira – o que assim torna a regra mais sensível e com maior relevo – é como é que um patife daquele calibre que de facto era não mais que um ser perturbado, pôde ser tido como profeta e condutor de povos.

Porque, efectivamente, o riso profundo, verdadeiro, que dói e liberta mesmo à custa de um arranco interior, tem sempre como alvo o fundamental e nunca o acessório. Pois os ditadores, mesmo disfarçados de gente quotidiana, são sempre um pouco como as figuras dos baralhos de cartas: metade do corpo para cima e a outra metade para baixo, como se estivessem cortados a meio por um espelho que os anos articulam apropriadamente.

Chaplin e Charlot funcionavam noutra base, estavam de corpo inteiro nesta história de imagens devolvidas por um vidro encantado. Agiam noutro plano, que é o da realidade criada depois de se ter atravessado o deserto da estupidez e da mediocridade habilmente forjada por um quotidiano que se auto-designa como responsável e respeitável. À sua maneira contundente, para além de tudo o mais, Chaplin demonstrou-nos e continua a demonstrar-nos esta coisa pacífica e intuitiva: que o riso, tal como os raios da manhã, são o mais eficaz elixir contra a monstruosidade codificada e que, contra ele, os ditadores e os bandidos fardados ficam em petição de miséria – até porque acabam por finalmente compreender que o riso é o verdadeiro precursor daquilo que nas fitas vem efectivamente em sequência e que é a finura de uma estaca plantada em pleno coração do fantasma.



NOTA

1. Lita Grey, actriz vulgar mas muito bela, foi casada com Chaplin. Instruída por sua mãe, mulher ávida e cruel, apresentou queixa contra ele com o pretexto de que este quereria praticar no leito conjugal actos eróticos que saíam do habitual – ou seja fellatio, cunnilingus e sodomia – que em certos estados dos EUA são punidos com pesadas penas de prisão. Entre pessoas casadas, repare-se, nomeadamente por qualquer uma das diversas igrejas existentes e sem que haja violência ou constrangimento moral pelo meio!



10. O QUE SERÁ FEITO DE O.W.FISCHER?

Em conversa de cá para lá com um confrade brasileiro, veio à baila Axel Munthe. O autor de “Homens e bichos” e “O livro de San Michele”, essas obras-primas da nossa boa lembrança.

Incitei o meu compadre do outro lado do Atlântico a apanhá-los com velocidade e a lê-los mesmo pela noite dentro (como se fôsse necessário sugerir…). E vem-me à memória o Munthe do cinema, o grande actor O. W. Fischer que com Rossana Schiaffino nos deu um “San Michele” que nos colava à cadeira do “Crisfal” da minha década dos anos 60.

Moderno, espertalhão, interactivo, vou procurar Fischer nas ruas da Net.

E sei que bateu os engaços, como se diz por aqui, em Janeiro de 2004 . Com 88. Bela idade. Na última foto, ainda com a boquilha cigarral entre os lábios.

Tenho de me deixar destas pesquisas. Prefiro ficar mal informado, sem estas sabedorias descoroçoantes.

Senão qualquer dia, distraindo-me e do outro lado do espelho, ainda vou saber que já fui para os anjinhos…



11. SOBRE TRAVANCA REGO, A UM LUSTRO DO SEU FALECIMENTO [a]

Encontrei-me com J.O.Travanca-Rego, pela primeira vez, no decorrer da inauguração duma exposição colectiva de obras de alguns pintores alentejanos – uns vivos, outros já falecidos – que organizei em Portalegre com o apoio do sector cultural dessa época do município desta cidade.

Já de há certo tempo nos carteávamos. Quem nos pôs em contacto foi o José do Carmo Francisco, que aliás me mandara poemas dele para um suplemento elvense que então orientava, o “Miradouro” do defunto Notícias de Elvas.

Assim que lhe li os versos de imediato me dei conta que não estava ali uma voz de vulgar amenidade. O mesmo que senti quando pela vida fora tenho estado a contas com outros autores que muito estimo: ele sabia o que dizia, quando o dizia e como o dizia. Não era (não é) e creio que não será por muitos anos e bons, um autor de lugares simétricos carreados por um talento urbano e suave. Em Travanca-Rego há o espanto, a garra, o meditar de muitos mistérios que na poesia e pela poesia se consubstanciam. E, no entanto, existe paralelamente uma harmonia que nos seus momentos mais altos nos comunica a certeza de que no seu discurso, na sua linguagem, tudo faz o verdadeiro sentido e é dotado de um padrão interior votado à permanência no tempo.

“A pena valerá que mais palavras/ suportem a voz nua a (des)dizer-se/ como selámos todos – enigmáticos - / uma dúvida perante o indizível?” diz-nos ele nos versos iniciais de “Comunicação”, o terceiro poema do seu “Sinais: 15 poemas de sideração e saudade”.

Siderado e saudoso do que não sabe definitivamente, me parece ter sido o tónus poético deste autor. Interrogativo e em certos casos crepuscular, em Travanca-Rego há como em muitos outros – mas nele com a acuidade dolorosa que o seu passamento veio confirmar – uma amargura filha dum espanto e duma melancolia abertos à procura, contudo, de novos ritmos e da maneira de dizer mais exacta, mais real e adequada aos diversos momentos daquilo que se sente e por isso se descreve. Descrição, comunicação… No fundo, doação de descobertas, de universos que se encontram no percurso que mal ou bem o poeta efectua quotidianamente a despeito das suas mágoas e das suas alegrias, ou para dizer doutra forma: os poemas que encontram a sua existência nessa escrita que se fornece a todos para que a leiam e assim revelem o mundo - que em todos vive, mas que o poeta encarnou.

Aline DakaDiz ele em “Ilha”, arrolado em “Cinco Incisões”: “Deixa-me contar o tempo/ pelos nós dos dedos. Nesta ilha,/ nem estrelas nem uma árvore!”. Mas o poeta efectua a religação mediante os poemas, as palavras que articula ainda que algo o destroce ou, melhor, tente destroçar-lhe o sentido do que cria. Travanca-Rego, sendo um autor de clara vocação lunar, nocturna e aforística, não se compraz nesse mergulho, não se recreia na convulsão: o que ele tenta é efectivamente encontrar uma medida para que esse caos seja reordenado e se extinga como tal, passando para o lado solar das propostas de vida plenamente erguida: “Grão de trigo,/ feitio de um ventre:/ Um planeta/ te habita?”, pergunta ele na primeira quadra do pequeno texto “Intimidade(s)” de “Extracto sensitivo”. Ou seja: o universo contido num pequeno elemento da vida vegetal, o que está no alto tornando-se igual ao que está em baixo como na Tábua alquímica da tradição e da sageza.

Travanca-Rego soube pesquisar o mistério, assim tentou devassar o segredo da esfinge. Perplexo ante os enigmas cumpriu contudo a sua íntima tarefa, se alguma tem o poeta.

Pôde, portanto, afirmar num trecho do seu “Sentido sexto”: “Onde habitasse o desespero alheio,/ deveria ter construído a minha casa!/ - Onde habitasse um pássaro sem asas/ pedindo uma árvore ou um veleiro ou/ pedindo simplesmente/ a mão do vento que sob o seu corpo/ - a afogar-se de mágoa -,/ transformasse em Espaço/ o seu canto em mágoas prisioneiro!”

E não é este, para um autor, um profundo projecto de vida que completamente nos reivindica de pé perante a morte?



12. SOBRE TRAVANCA REGO, A UM LUSTRO DO SEU FALECIMENTO [b]

Durante os sete dias que antecederam o seu falecimento, Travanca-Rêgo fez-me três telefonemas.

No último contacto que comigo estabeleceu, dois dias antes de partir, pareceu-me deprimido, com algo indefinível a limitar-lhe a comunicabilidade. Vinha perguntar-me se recebera a carta contendo um poema para a antologia sobre Abril, organizada por um confrade a quem servi de intermediário. Mostrava-se um pouco ansioso, como se temesse que os irregulares e frequentemente desrespeitadores correios lusitanos lhe frustrassem o intento.

Quando lhe referi que sim senhor, recebera o envelope, que gostaria de o ver e, para o dispor melhor, me dispunha mesmo a ir buscá-lo a Vila Boim, para em Arronches ou Portalegre degustarmos umas especialidades da região e conversarmos até às tantas, senti que se comovera. Respondeu-me, com um travo ameno na voz, que teria muito gosto nisso, mas andava a sentir-se mal. Eram incómodos no corpo e no espírito. Insisti em que o meu propósito, francamente lho confessava, era contribuir para as suas melhoras. Estava ele disposto a entrar nessa jornada? - tornei eu.

Em vão. Não que não lhe fosse agradável tal passeio mas…não se sentia nada bem.

À guisa de consolo, intuí, informou-me que estava praticamente pronta a estruturação do bloco específico que seria inteiramente preenchido com poemas meus - a dar a lume na Revista de Elvas, de propriedade municipal e que coordenava com Fernando Guerreiro.

Recomendou-me com alguma insistência que procurássemos que o poema saísse, quando saísse, sem quaisquer gralhas. “É um poema complexo…Tem aquelas recorrências… Veja lá isso, está bem?”.

Nos dois anteriores telefonemas preocupara-se com o andamento do “Fanal”, o suplemento de que era colaborador e que saíu durante três anos no “Distrito de Portalegre” e que posteriormente, por constrangimento da administração, foi suprimido. Informou-se também sobre o caso em que tivera parte, um processo contra três difamadores que nos haviam enxovalhado numa folha portalegrense.

Dê-lhe a informação que me pedia, tentando pelo meio alguma ironia fraternal.

A sua morte, comunicada de supetão, foi para mim uma dolorosa surpresa. Lá o fui acompanhar ao cemitério de Vila Boim.

Estava um dia de calor atabafante. O ambiente, para além da tristeza habitual em ocasiões assim, era soturno – um ambiente de pequena vila do Alentejo profundo e sem horizontes.

Durante vários dias aquelas horas que constituíram os funerais do poeta pesaram em mim como algo de irreal e de absolutamente não desentranhável.



13. O PRAZER DE CITAR

Tenho um gosto pronunciado pelos provérbios e as citações.

Os provérbios porque, independentemente da sua justeza, por vezes são pérolas de fantasia verbal; as citações porque correspondem a momentos excepcionais no espírito dos autores das frases, quando a mente, em fase ascendente e profundidade fecunda, traça girândolas que jamais se apagam.

Além disso, ambos são úteis. Os primeiros servem muito bem para nos acautelar o dia-a-dia, tornando-nos mais atentos às eventuais ciladas; os segundos, além de serem uma homenagem reconhecida a quem as pronunciou ou escreveu, dão sempre sinal sonoro que ilumina tudo em torno.

Assim, por exemplo, quando um político astuto e cheio de ronha vem prometer mundos e fundos, tirando o pigarro uma pessoa pode responder-lhe parafraseando Churchill: “ Pois… Como se eu não soubesse que a política é a arte de ajudar o público a não tratar dos assuntos que lhe interessam…”. E, se um malacueco qualquer até nós vem com falinhas mansas para nos interessar num negócio chorudo e de mão-beijada, podemos raciocinar: “Tá bem, deixa…Como se eu não soubesse que não dá o frade do que bem lhe sabe!”. Se alguém se queixa de que, num estabelecimento, comprou um produto bom e barato, desses que a perclara televisão nos mete pelos lúzios adentro e que a breve trecho pifou, pode pensar com equilíbrio: “Fui um saloio… Então não sabia eu que as pechinchas dão em requinchas?”. E, ao saber que num determinado serviço público certos funcionários andaram a lesar o contribuinte mediante actos de pequena ou grande corrupção, abafados pelos superiores factuais, pode comentar com filosofia: “Os javardos, na lama, são donos como el-Rei no Paço…”. E a alguém que se admire de que num areópago os representantes populares passem o tempo a bulhar por dez réis de mel coado, esquecendo os interesses da nação, pode responder-se com sensatez: “Deixe lá… Se se pusessem de acordo é que se calhar era mau. Pois não sabe o meu amigo que quando os barões se abraçam quem leva as pauladas é o servo?”. Espanta-se uma pessoa porque os inquéritos sobre os casos das contas de… e das luvas de… demoram a deslindar-se? É referir-se-lhe, com bonomia: “Tenha lá tento! Então nunca ouviu dizer que a roupa suja deve ser lavada em família?”. E ao fabiano que comente o ar patibular de certas figuras públicas, pode esclarecer-se sensatamente, a exemplo de Oscar Wilde: “Note, meu caro, que cada sujeito tem a cara que merece. Aliás, a partir dos trinta anos cada um é responsável pela cara que tem…”. Vem um tipinho, muito moralista, metido na sua indumentária a dar conselhos à gente, pela televisão e pela rádio, alertando-nos para a nossa falta de contenção na fala e para o nosso amor ao mundo, ao dianho e à carne? É repontar-se-lhe de pronto: “Sim, sim…Bem prega frei Tomás”. Ou, como escreveu um dia Benjamin Péret, “Quando eu tinha 20 anos, os espertalhaços avisavam-me: vais ver quando tiveres 40 anos! Tenho 40 anos - não vi nada…”.

Pela minha parte, digo que embora os ditames e as citações sejam inúteis para ultrapassar certas situações de facto (vejam, por exemplo, se é possível acabar com o abuso de poder de certos donos dos grandes dinheiros com um provérbio jogado à cabeça do argentário) o que não admira pois lá reza o ditado sobre o trinta-e-um de boca, e sabe-se que cantar é bonito mas não enche barriga, serei sempre apreciador de tão concisos conceitos.

Bom, mas calo-me já para não correr o risco de algum leitor mais afoito me dizer fique-se com a sua sabença que eu fico-me com a minha mantença ou, pior ainda, vozes de jerico não chegam ao firmamento.

E não me assistiria, está de ver, o direito de responder com uma parelha de coices, como fazem certas coléricas personagens que, por nosso azar, transitoriamente nos tratam do quotidiano…



14. SCHUBERT, A 180 ANOS DE DISTÂNCIA

Em qualquer pessoa que à música se entregue sem preconceitos sempre ecoará uma melodia de Franz Schubert – o Schubert “pequeno, rude e mal ataviado” que numa manhã de Setembro, ante o gáudio de uma vintena de alunos e cultores do bel-canto, se apresentou no Conservatório de Viena para mostrar o que valia, num desses eventos que usam apelidar-se “exames de Estado” das Academias. [2] Mas igualmente um outro Schubert, o de óculos luzindo nas trevas sociais duma Europa que a breve trecho se veria mergulhada em convulsões que aparentemente nada fazia adivinhar, o rapaz “de coração fagueiro” que amava os campos floridos e os bosques olorosos – esses lugares onde, em potência, palpitava a imaginação a que os altos espíritos sabem ser sensíveis e onde se viaja na direcção certa, sob as madrugadas de feliz boémia criadora. E, também, o Schubert dos tempos do fim, pouco a pouco desfeito pela miséria económica e os farrapos dum sonho que não cabia nos estreitos limites duma sociedade espartilhada por regras desajustadas – esse Franz Schubert que a “indústria cultural”, mesmo que o tente, não conseguirá nunca devorar nem escurecer, o “pobre rapaz de olhar ingénuo” no fim da doença que iria levá-lo, lendo custosamente, mas com todo o prazer de um homem que entendia, as páginas exaltantes de liberdade dum James Fenimore Cooper habitante do lado de lá do Oceano. Esse outro lado onde sabia bem viver e onde as planícies abertas eram percorridas por um grande hausto de ar novo e de aventura.

Aline DakaÉ Alexander Woolcott quem nos conta: “Certo dia de Novembro de 1828, Franz Schubert morria de febre tifóide, em casa dum irmão, nos subúrbios de Viena. Apenas um ano antes, empunhando archotes, um grupo de amigos acompanhara o grande Beethoven à sua sepultura em Wahring e, na volta, fora Schubert de entre eles quem, erguendo o copo, propusera um brinde àquele que iria a seguir. Chegara a sua vez e o inditoso e acanhado rapaz, de corpo cansado e desajeitado, olhos míopes e coração faminto, não daria mais canções ao mundo. Jamais, até então, havia aparecido alguém dotado de tanto talento para a melodia. Foi uma fonte inexaurível de música, e nunca tão fértil como nos últimos anos da sua curta vida. (…) E qual foi a última coisa que Schubert escreveu? Uma carta – uma carta ao seu amigo Schober, com quem no princípio do ano tinha morado na estalagem do “Porco Espinho Azul”, até que se mudou por não poder pagar a metade do aluguer que lhe cabia: 11 de Novembro de 1828 – Caro amigo: Estou doente e há 11 dias que quase não como nem bebo. Estou tão cansado e prostrado que mal me posso mover da cama para a cadeira e vice-versa. Rinna é que cuida de mim. Qualquer alimento que tome, lanço-o logo fora. Nesta situação aflitiva, poderia V. mandar-me alguns livros que me animassem? De Fenimore Cooper já li “O último Mohicano”, “O piloto”, “O espião” e “Os pioneiros”. Se tiver mais algum livro seu, agradecia que o deixasse no Café da Srª Gogner. O meu irmão, que é a consciência em pessoa, mo fará chegar às mãos da melhor forma. Do amigo, Schubert.”

E conclui Woolcott: “Quando pensamos em Franz Schubert, comovido no seu leito de morte ao escutar o ruído de um galho estalando sob o passo de um índio nas florestas à beira do rio Mohawk – que pena não ter, nessa altura, sido ainda escrito “O caçador de veados”! – de certo modo os anos entre 1828 e o presente momento ficam como que riscados do calendário. Não somente a distância entre Cooperstown e Viena se encurta: o espaço de permeio também desaparece. E, de repente, achamo-nos tão perto do jardim de Schubert que podemos ver o vôo dum pardal, e de tal modo próximo da sua cabeceira que chegamos a ouvir o pulsar dum nobre coração”.

A despeito dessa nobreza interior, foi ele sujeito de parcos amores consumados (uma Teresa Grob, uma Karolin von Estherazy pertenceram mais ao plano das vivências do coração forçadas pela miséria do tempo), substituídos por muitas horas empregues a trabalhar nos Cafés de uma Viena dada à alegria e aos folguedos, de conversas com amigos pelos atalhos e caminhos vicinais dos arredores. Schubert, que nunca pertenceu a qualquer ordem iniciática, deu-se contudo com gente diversa, incluindo alguns frater e era sensível à música mais hermética de Mozart como “A flauta mágica”. Mas o seu universo, tão povoado de seres de outro plano mais profundo, reconduzia-se à terra, ao quotidiano citadino ou campestre, transfigurava-se na existência que ele sonhara um dia alcançar mas que a dura realidade societária acerbamente desmentiu. Nessa Viena que pouco depois da sua morte sentiria os abalos dos novos tempos, o destino que lhe coube foi o de incessante tangedor das esferas da Natureza, pois este mourejador musical era um cativante companheiro de pacatos festins e de largos passeios, amando como bom andarilho o sol e o cantar dos pássaros, as merendas e os banhos nas ribeiras campestres [3].

Pode afirmar-se sem margem sensível de erro que só na sua “Viagem de Inverno” palpitam amargamente os fantasmas da nostalgia e do desespero melancólico, a plena certeza da proximidade da morte.



NOTA

2. Principalmente depois do filme “Amadeus” de Milos Forman, Salieri viu colada a si uma lenda absolutamente injusta de mediocridade. Aquilate-se do valor dessa lenda pela sua atitude quando foi presidente do júri que examinou Schubert: ao terminar a prova, ajoelhou-se perante ele e beijou-lhe as mãos. Mais: com Rueziezka, completou-lhe a educação artística e protegeu-o sempre que pôde.

3. Schubert tinha muitos amigos, que devotadamente o acompanhavam nas famosas “schubertíadas”e em excursões pelas estalagens dos arredores que faziam jus à estima que lhe devotavam e à sua maneira de ser aberta e comunicativa. Pois logo a maldade dos bons burgueses de Viena tentou, caluniosamente, ver nisso uma característica de teor sexual em geral mal encarada pelos hipócritas pseudo-moralistas.



15. COISAS DE PANTAGRUEL…

Não percebo nada de cozinha. Emendo: creio que não entendo nada de culinária, o que bastante me pesa. Os prestígios secretos da pimenta, do sal, do cravo-de-cabecinha, as magnificências do colorau e dos cominhos - escapam-me, por meu mal, completamente. Por outro lado, até hoje o único prato que consegui confeccionar sem desdouro de Mestre Cuca foram uns ovos com ervilhas em estilo cometa…que ninguém, saiba-se lá porquê, apeteceu consumir.

Sou pois, como preparador de regalos e de acepipes, aquilo a que propriamente se chama um fracasso e estou em crer que se algum empresário da nova vaga, um desses dinâmicos patrões que se encomendam a Zeus e a Mamon, tivesse a infeliz ideia de me contratar como chefe de restaurante, depressa faria fugir a sete pés todos os comensais que eventualmente me caíssem em frente do guardanapo.

Isso não significa, contudo, que não seja capaz de apreciar a boa mesa!

Já se sabe que para se aquilatar do gosto duns ovinhos mexidos não é indispensável ser-se galinha, assim como para se distinguirem as saborosas características de um chispe não é imprescindível pertencer-se à espécie porcina, posto eu saiba que anda por esse mundo fora muito reco a tentear a mestrança de perito em paladares: o que é sem dúvida legítimo, desde que se mantenham nos limites gustativos da bolota e do maceirão.

Para mim, que tenho pinta de gourmet como dizem os franceses, que nisto de comidas ninguém lhes leva a palma, o frango do campo não é necessariamente inferior à galinhola ou ao pato, o esturjão remolhado não se avantaja à pescada bem fritinha, de rabo na boca ou com todos os matadouros. Cá me lembra por exemplo, com saudades, uma pratada de peixinhos fritos que devorei em Peso da Régua, assim como não me esqueço dos prazeres que em Reguengos de Monsaraz me provocou o maroto dum coelho todo envolto em vinha-de-alhos.

Tenho para mim que há vegetais e vegetais… Todavia, virem-me com a estorieta de que a couve é sempre melhor que a cenoura é balela que eu não engulo.

Bem sei que a couve contém elementos que a tornam recomendável: ele é o ferro, os sais minerais diversos, a vitamina H ou Z, o diabo; mas para mim as cenouras, desde que tratadas com discernimento e suavidade, não se lhes ficam atrás. Além do mais consta que fazem bem à vista. E, havendo nestes tempos tanto omnívoro meio-cegueta, verifica-se assim que não são elas um legume para deitar no lixo ou no esquecimento.

Confesso que tenho um fraco pela batata. Isso parece-me lógico: a batata é o pão dos pobres e eu sou de origem humilde. Radico pois tal preferência num hábito hereditário que me deve ter deixado marcas nas papilas e nos refêgos interiores do estômago. Mas alto! Que não são todas as batatas que me agradam: bem preparadas as quero, sem grelos nem pontos negros. Se cozidas, que se desfaçam na boca; se fritas, que estalem sob os dentes; se assadas, que transportem ao palato o fino olôr místico da salsa e do cebolão.

O que menos me agrada numa batata é que seja envinagrada, farinhenta, torpe como nascida das pedras ou com sabores menos filhos da terra úbere que do super-mercado às três pancadas. Rasca como certos homens públicos…

Quanto a aves, tenho conhecido muitos passarinhos fritos que mais se parecem com pássaros bisnaus. Mas se a avezinha, qualquer que ela seja, estiver cozinhada com mão de mestra, eis que quase se sente esvoaçar no ventre - tão leve e saborosa se achou ao rés do fogo.

Nunca devemos esquecer-nos que uma iguaria, para o ser, não deve ter o lume por demasiado violento ou excessivo: é que os pitéus, tal como os homens, parece não se darem bem com o que é rude em extremo. E é bem natural que a carcaça de um peru se queixe, tal como noutras circunstâncias um qualquer cidadão faria.

Nunca gostei de santolas. Aliás, o marisco em geral deixa-me frio: tem muita casca e pouca carne, é caro e anda para trás como o caranguejo. E eu tenho para mim que às arrecuas não se vê bem o caminho: às vezes até se cai de cabeça ou de joelhos, sem mesmo se ter tempo para antes do trambolhão se pronunciar um deus me acuda protector. Por isso o único marisco que aprecio é a ostra - pois por vezes tem lá por dentro a maravilha de uma pérola.

Quanto a licores só gosto dos generosos. Os espirituosos quase sempre não têm espírito nenhum, até se parecem com um eventual crítico literário au pair ou algum ronceiro comentador televisivo. E se pelos vinhos se entrevê a alma dum povo, então desejo com ganas que o nosso se vá parecendo mais com um porto que com um uísque, mais com um colares que com um vodka, mais com um madeira que com um conhaque. E que não tenha o álcool muito fraco, pois que é dele que lhe advém a generosidade e a altivez.

Das frutas prefiro a cereja, o pêssego, a laranja. Não gosto nada da pêra e quanto à banana já lá vai o tempo em que muita gente a tinha quase de graça, de exportação africana. Agora, coitadinhos, ficaram votados às bananas de outros, à ameixa e às pevides de melão…

Não falarei nas sobremesas, que nisso não tenho preferências de assinalar. Sou ao contrário dos romanos, que quase invadiam um país só para lhe raparem os bolos e os doces ancestrais. Aliás, as sobremesas são petisco pouco sólido e que ainda por cima vem no fim do repasto, quando os apetites já estão fartos e os convivas repletos.

E a nós, apreciadores esclarecidos, o que nos caracteriza é o que a todos os humanos convém: não se encherem muito as panças, não se ceder ao empanturramento, pois que de indigestões e de fartanços estão as covas cheias e as sociedades saturadas.

E na cozinha, como em tudo, é necessário manter o bom-senso.

Não vá daqui amanhã querer-se comer e só nos restar uma côdea ao cantinho da gaveta…

Nicolau Saião
in Jornal de Poesia