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sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Migrações - um poema de Sylvia Beirute
















MIGRAÇÕES 

de entre todas as coisas,
uma certeza
é a única coisa que,
espiritual e fisicamente,
não volta.

Sylvia Beirute

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Um poema de Sylvia Beirute - O imprevisível é remisturável



















  



O IMPREVISÍVEL É REMISTURÁVEL

{o imprevisível é remisturável.
as horas contradizem os minutos.
chorar muito sobre um rio seco,
esperar o espírito dos peixes.
acordar poeticamente um dia
porque a memória se esqueceu
que o esquecimento seria lançado
numa poesia completa e definitiva.
e escrever mais um poema que
esconde tristezas junto de falhas.
e actualiza desactualizando.
inventada escrevo de novo.
escrever é esculpir sem pedra.
e depois procurar uma pedra,
pesar a pedra, e depois o poema.
e ainda pesá-los juntos e verificar
se o peso bate, contradiz ou a pedra voa.
pesar com os olhos e a leitura.
porque o imprevisível é saturável.
remisturável. talvez acorde um dia
adormecida em muito amor,
talvez não seja realmente eu
mas um prazer minúsculo que me derroga,
talvez me resgatem apenas de uma lágrima.}

Sylvia Beirute
inédito

sábado, 10 de outubro de 2009

A importância da Leitura


























Passamos a vida a dizer que os miúdos devem ler. Criam-se planos nacionais de leitura e renovam-se estratégias de conquista para os livros. Até se fazem congressos internacionais para pensar nisso, como o de promoção da leitura que hoje começa em Lisboa. Porque ler é preciso, dizem os especialistas. Para quê?

Ler o quê? Tudo. Anúncios, legendas, jornais e até receitas de culinária, mas principalmente literatura. E para quê? Para ampliar as capacidades do cérebro, aprender a pensar, a ver com o olhar dos outros e a recriar emoções ou sentimentos. A leitura torna o mundo mais inteligível e as pessoas mais inteligentes. Além disso, está vinculada directamente à educação e à cultura e também ao desenvolvimento social e económico sustentado de qualquer país. Quem o diz são os especialistas em promoção da leitura que hoje e amanhã se reúnem em congresso internacional na Gulbenkian, em Lisboa. O tema é Formar Leitores para Ler o Mundo e o objectivo também.

As perguntas devem ser feitas pela ordem inversa - Ler o quê? Ler para quê? -, começa por dizer Peter Hunt, professor da Universidade de Cardiff (Reino Unido), especialista em Literatura para a Infância e o primeiro orador no congresso. "Ler para quê? Ler o quê?", é então a forma a partir da qual organiza as respostas que envia ao P2 por email. Porque primeiro, argumenta, é preciso definir que tipo de leitores se quer formar.

"Se quisermos formar 'leitores funcionais', pessoas que conseguem ler o suficiente para ter uma vida normal, como saberem ler anúncios ou um aviso para que não caiam num buraco mais adiante, então pouco importa o que lêem. Para isso, servem os jogos de computador, os jornais, as bandas desenhadas ou a televisão. Se quisermos formar leitores que consigam compreender uma linguagem complexa, para que a sua vida seja também mais complexa e interessante, então, provavelmente, estes leitores precisarão de ler ficção, romances - livros", explica o autor de Children's Literature: Critical Concepts in Literary and Cultural Studies.

A escolha de Peter Hunt para a abertura dos trabalhos foi justificada por António Prole, coordenador da Casa da Leitura, organizadora do congresso, pela comunicação abrangente que irá apresentar. "Irá reflectir sobre o que se passou nos últimos 30 anos na literatura infantil. O que é que mudou? Qual é a diferença entre os livros de hoje e os de então? Será que perderam qualidade? As componentes gráficas e ilustrativas são diferentes? O álbum será uma influência dos meios visuais que está a contaminar a escrita para as crianças? No fundo, pôr o livro em questão."

Um estudo do Reino Unido relativo a 2008, que será apresentado por Hunt, conclui que, "nos últimos 30 anos, ocorreu uma mudança radical na natureza dos textos escritos para crianças (e no conceito de infância implícito), especialmente em termos de estilo, ritmo e complexidade de referências e estruturas intertextuais e intratextuais".

Ampliar o cérebro

Da Universidade Autónoma de Barcelona chegam ao P2 as respostas de Teresa Colomer, doutorada em Ciências da Educação. "A leitura é uma operação que amplia as capacidades do nosso cérebro. Permite-nos recriar experiências perceptivas, diferentes perspectivas intelectuais e emotivas e dar sentido às situações. Permite-nos dominar as possibilidades da linguagem e essa é a matéria-prima do nosso pensamento. O mundo torna-se mais inteligível (e por conseguinte torna-nos mais inteligentes). É uma forma de desfrutar melhor o nosso tempo de vida."

Nunca antecipar as fases de desenvolvimento da criança é uma das regras a seguir quando se orientam as suas leituras: "Devem ler as obras que conseguem compreender em função do seu nível de desenvolvimento e de domínio das convenções literárias. Os miúdos não dominam os saltos temporais e perder-se-iam em obras que se constroem alterando a linha cronológica." Acredita que os contos tradicionais são a melhor base literária, mas que a leitura de livros medíocres também traz vantagens, como a de "consolidar a capacidade leitora sem exigir muito esforço", diz a autora de Siete Llaves para Valorar las Historias Infantiles.

77 milhões de não leitores

Para Galeno Amorim, escritor e jornalista brasileiro, "é fundamental ler, não importa o suporte. Ler (ou ouvir ou tactear!) livros, revistas, jornais, histórias aos quadradinhos, tudo. Mas, sobretudo, ler literatura, nos seus mais diferentes géneros". Foi o primeiro coordenador do Plano Nacional do Livro e da Leitura no Brasil e fala na existência, em paralelo, de "95 milhões de leitores de livros e de 77 milhões de não leitores".

Virtudes da leitura: "Ler para ampliar o próprio universo, para se apropriar do conhecimento universal. Para desenvolver a inteligência, mas, principalmente, para olhar com o olhar do outro e, assim, se tornar mais tolerante, mais humano. Nos países pobres ou em desenvolvimento, ler é fundamental como meio de promover a cidadania."

António Prole, assessor da Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas, diferencia-se dos teóricos cujo objectivo essencial é formar leitores literários. "Eu, como português, quero formar leitores competentes. Sabendo que, quando tiver uma grande massa de leitores competentes, terei (não na proporção directa) uma maior capacidade de ter leitores literários."

A redescoberta do prazer da leitura foi uma das respostas enviadas por Sandra Beckett, professora da Universidade de Brock, Canadá, que estuda a ficção de cruzamento, em que adultos e crianças partilham o mesmo tipo de leituras, caso dos livros do Harry Potter. "A ficção de cruzamento ganhou visibilidade nos media. Mais adultos estão neste momento a ler literatura para a infância, porque alguns dos melhores escritores são desta área. Redescobrem assim o prazer de uma boa história, como nos casos das imaginadas por J.K. Rowling, Philip Pullman e outros." 

Rita Pimenta
no Ípsilon

domingo, 4 de outubro de 2009

Luiz Pacheco Versus Mário Cesariny

CESARINY OU DO PICTO-ABJECCIONISMO


IN: PACHECO VERSUS CESARINY
FOLHETIM DE FEIÇÃO EPISTOLOGRÁFICA
LUIZ PACHECO
Editorial Estampa, Lisboa, 1974

Intensamente livre um homem tomou esta madrugada o comboio para o Porto. Na bagagem, uma caixa com algumas telas, tinturas, borradas, poemas-abjectos. Não é um pintor de arte. É melhor um poeta. Um viajante sem fronteiras. Um caso sério. Quando Mário Cesariny de Vasconcelos expôs há um ano, na galeria do «Diário de Notícias», pela primeira vez, o resultado das suas digressôes por uma seara alheia, o feito suscitou comentários que exprimiam a apreensão de certos amigos seus ao verem-no desviar-se duma linha de que a sua poesia fora, até ali, penhor fiel. A reincidência, desta vez no Porto, obrigará a uma nova atitude: não já por ora o reconhecimento de facto (consumatum est), mas ainda e só aquela pergunta inquieta que também tem a sua versão em clássico: Mas, ubi est victoria tua?

Pode ser que no Porto, cidade entre todas tolerante, tenha por acaso aceitação o falacioso alibi: é a pintura dum poeta, o mesmo que leva Jean Cocteau a enjeitar de arabescos frigoríficos de boas marcas, como permite a Cesariny fabricar tlnturas para nortenho ver.

No primeiro caso (Cocteau), a Academia Francesa encarregou-se de nos dar a verdadeira explicação do fenómeno; em Cesariny, honra lhe seja, não é o pecado do conformismo que se prevê nos tempos mais próximos. Mas uma ausência, uma estranheza que fica em nós e se pode definir assim: "aturdido pela antevisão do abismo, aterrorizado perante a prova de desintegração mental a que terá que sujeitar-se para realizar o individualismo absoluto, o lírico faz um regresso desvairado ao seu individualismo convencional. No entanto ele nunca mais se libertará da nostalgia dum universo que chegou a pressentir" (1).

*

Há três razões para detestar as tinturas de Mário Cesariny. Vamos, por ordem ascendente:

1ª) São aspectos inferiores da chamada blague ou bluff surrealista. Tudo o que no surrealismo é provocação ou ofensa directa degenera em conforme gracinha logo que perde de vista os verdadeiros ojectivos dessa denúncia. Espantar o burguês - que ociosa manobra, que infantilidade tocante!

Quando a consagrada fórmula surrealista, saída autêntica para a revolta e para o desespero: descer à rua e disparar à toa sobre a multidão se inverte (se diverte) em jogos arrojados de cores, belos achados e contrastes e tudo o mais fica esquecido por negligência, por fraqueza ou por abjecção; quando o poeta acha piada em especular com o snobismo compreensivo das pessoas de teres e haveres, num complexo que terá suas manhas do cortesão palaciano, do vendilhão e do arauto de novas estéticas, temos para nós que não há provocação - mas namoro; que não há ofensa - mas salamaleque; que não há denúncia - mas indisfarçada necessidade. E daí que, também, a «blague» perca toda a graça (caímos no Reino da Maior Tristeza) e o «bluff» seja apenas válido para os que aceitaram o jogo e o pagaram.

2ª) Pagaram. Outra não menor ingenuidade é esta de o Poeta querer ver reconhecido e estimado, como valor mercantil, o que faz na sua condição de poeta. E por quem?! Precisamente por uma sociedade que alternadamente o teme, ou o repele, ou o despreza. E que não costuma perdoar aos que excedem as suas regras (cito dois casos extremos em campos opostos: Pound e Pasternak).

O triunfo social do Poeta - e não é desconhecido para ninguém que, um tanto mais um pouco menos, isso sempre se verificou, - não pode estar dentro das suas preocupações imediatas. Homem, é legítimo que ele sinta as necessidades do comum cidadão; artista, é inevitável que se queira aplaudido e acarinhado. Para um surrealista, porém, o problema complica-se. Ora era a propósito dum surrealista (Cesariny) que estávamos falando. E que ele sabe, como todos nós, que a sociedade apenas compra aquilo que lhe convém. Ou que deixou de a assustar.

3ª e última razão) A mais grave.

Uma pessoa não se pode distrair, repetia António Maria Lisboa quando adquiriu a certeza de que já não lhe restava muito tempo para as tarefas menores. Ao leitor de Pena Capital não podem restar dúvidas que os picto-poemas de Cesariny só com muita leviandade se podem considerar uma criação superior, ou sequer paralela à sua lírica.

Não se queira exigir dum Artista esta ou aquela directriz, esta obra e não outra; mas também será impertinência exigir aos mesmos que o acompanharam nos seus momentos melhores que se calem (porquê? para quê?) quando, em sua consciência, o sintam mudado.

E que lamentem, mesmo em público, mesmo com todas as consequências, vê-Io tomar um caminho extravagante ("quem chegará primeiro? ele? o caminho?"). Pelo que...

...os picto-poemas de Mário Cesariny não são abjeccionistas porque ele quer. São a abjecção, porque nós os consideramos assim.

_____________

(1) Natália Correia, «Poesia de Arte e Realismo Poético», pág. 11

Luiz Pacheco
Fonte: Revista TriploV

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Um poema de Sylvia Beirute - Semente

SEMENTE

respirar é semear no ar, respirar é semear no ar }
respirar {respira} é semear no ar.
respirar é excisão de um momento, semear no ar.
respirar é semear no ar, respirar é
semear no ar } respirar
{respira}
é semear no ar. respirar é excisão de um momento,
semear no ar. respirar } é semear no ar,
inspirar é semear no ar, expirar é colher, colher no ar }
há um eco que é um rasto, um monopólio de um olhar recto,
todos eles respiram, semeiam,
os ápices aparentes, desilusões sonoras:
respirar é semear no ar.

Sylvia Beirute

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Descomeço - um poema de Sylvia Beirute
















DESCOMEÇO

o começo }
é o desenrolar do fim,
alguém deve dizê-lo em voz alta.

a distância } existe para recusar
abismos.

Sylvia Beirute
inédito

sábado, 19 de setembro de 2009

Salmo 32 - um poema de Sylvia Beirute
















SALMO 32

na perspectiva do poema
o poeta não é mais
do que uma barriga de aluguer.

Sylvia Beirute

imagem de josé luís cunha

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Onze Palavras - um poema de Sylvia Beirute
























ONZE PALAVRAS

quisera
crer o amor escondido no porta-malas do cérebro, uma res-
posta que ainda pergunta /diminuem as sombras com as palavras/ e lá uma re-
tribuição para além do recebido:
os sentidos são o correio do corpo.

quisera crer que ligaria, claro, mais tarde, às onze e meia,
às onze e meia em ponto, com onze,
onze palavras mornas e a síntese do não - convergências,
e a antítese do sim - divergências,
frias como um cartão de crédito
entre os dedos de um homem que procura um útero
onde possa derrotar-se.

Sylvia Beirute

inédito

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Um poema de Sylvia Beirute - Sinédoque


















SINÉDOQUE

é sempre a pequena parte que ama /ama um todo.
nesse todo é a sua pequena parte
que ama / ama um todo.
dois todos não se amam mutuamente,
excepto com as suas pequenas partes.
contudo, as pequenas partes
amam sem se amarem,
cada uma ama um todo, sem distinguir
quaisquer pequenas partes.
a parte que ama nunca é
expressamente amada.
amar um todo é amar / nada.

Sylvia Beirute
inédito

foto de álvaro dias

Um poema de Sylvia Beirute - Sophia Loren, Beleza de Ferro


















SOPHIA LOREN, BELEZA DE FERRO

afinal isto é um clássico / eu sou a sophia loren
de vestido branco, alta mas ténue ao espaço.
hoje, sinto-me rude face ao tempo,
o tempo é uma casa de horas
que, com os inquilinos no interior, ainda se constrói.

- e faz barulho / muito barulho,
há pedreiros e carpinteiros dentro da minha beleza de ferro,
pessoas suando - ninguém poderia imaginar.
{e o tempo rápido é o único que homenageia}.

ocorre-me que se não acreditar no meu passado,
o meu futuro não acreditará neste momento.

e decido deixar todos os filmes paralelos à vida,
africa sotto i mari, la ciociara, etc etc.
retiro camadas de infinito do corpo,
o ferro funde-se, e sou humana de novo.

Sylvia Beirute
inédito

Um poema de Sylvia Beirute - Nouvelle Cuisine




 
















NOUVELLE CUISINE

{nada tenho a oferecer-te. /
permanecer hoje intacta
é a unidade de medida
do meu braço cortando a cebola. /
a vida real é darwiniana, sabes,
e é impossível regressar-se
à mesma felicidade.

por outro lado, os alimentos parecem
também eles regressar:
a carne ao javali, o arroz - oryza glaberrima -
aos campos de áfrica,
o molho desfez-se, /e o seu vazio e cheiro
inundaram os músculos
que certificavam a distância.

restou uma cebola / e estas palavras.
por favor, pôe a mesa.}

Sylvia Beirute

inédito

foto de álvaro dias

Um poema de Sylvia Beirute - É só um filtro o amor ou rápidas cancelas


 
















É SÓ UM FILTRO O AMOR OU RÁPIDAS CANCELAS

é só um filtro o amor ou rápidas cancelas
é só a sede ou incapacidade de unir pingos de chuva
é só um rosto ou uma face que derrama rostos
é só um sonho ou resistência à realidade
é só uma relação ou mútua obediência
é só um jantar ou um tempo que coze ao lume
é só uma distância ou chopin ao fundo
é só um azul escuro ou um inverno verde
é só um abraço ou um braço à volta do maple
é só uma ideia ou consciência livre
é só um amigo ou um bicho de estimação
é só o suor ou precipício de um nervo andrógino
é só uma variável ou um tempo inoportuno
é só a morte ou algo que mata para fora
é só um eco ou já não caibo no meu nascimento
é só uma estrada ou o resto de uma vida.

Sylvia Beirute

inédito

Salmo 33 - um poema de Sylvia Beirute


















SALMO 33


morrer, principalmente de amor, é
uma compendiosa tarefa doméstica
Miguel-Manso
{mo/
rrerei com o parentesco em falta,
com um poema de virgílio marinando
na orla das pupilas, no sol estendido na memória. mo/
rrerei com uma pálpebra convulsiva no descansar
vivo de uma distância entrelaçada
sob o incêndio de uma continuação que estica.}
{há sempre um bouvard e um pécuchet
nas nossas vidas, porque há sempre
um flaubert pronto a criá-los / para odiá-los.}
{morrerei no lugar de outros porque
a sua morte rica me enriquece a amnésia
que se recorda do pânico exausto de
uma distribuição aleatória de ossos após o facto.}
{mo/rrerei com a tristeza contente, as repetições
erectas e frias, a beleza tingida pelas notas
do piano.}

Sylvia Beirute
inédito

foto de j. pedro martins