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quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Um poema de Sylvia Beirute - Subir ao Cimo das Árvores

























SUBIR AO CIMO DAS ÁRVORES

as palavras são o escrutínio da alma.
divido a respiração pelos átomos, o medo
pela ansiedade é igual a um.
o escarlate do coração divido pelas vezes
que a vida se refaz sem ilação, pelas
consoantes líquidas ao frio maior.
as árvores são plantadas
em cada divisão do silêncio
e costumamos subi-las de noite.

então, todo o tempo sai do corpo sem espaço.
e temos a certeza que a divisão do tempo pelo espaço
é o movimento de uma ideia que não sara. {e a propósito,
no cimo da árvores
toda a proporção sai do cruzamento
entre transformação e resistência.}

e amanhecemos. o nosso amanhecer toca
no medo melhor, cardeal, suspeito, mariposa, que foge.

Sylvia Beirute
inédito

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Um poema de Sylvia Beirute - A Definição do Silêncio




















A DEFINIÇÃO DO SILÊNCIO

porque o tempo é de corpo, {de passagem},
porque a boca é de nomes próprios, do verbo viver-morrer
dobrado sobre si mesmo como duas cores
que se misturam e imitam,
porque a tua borboleta percorre um pequeno país
que bate as asas no sentido oposto,
porque vens sem corpo, por entre os satélites, em
direcção ao amor conclusivo,
porque o lugar que há em ti não tem onde ficar:
o silêncio é a recompensa da tua permanência.

mas quem decifra o silêncio, querido herberto,
não é quem permanece.

Sylvia Beirute
inédito

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Uma leve emoção

Uma leve emoção quando alguém que admiramos há muito tem um gesto destes, totalmente inesperado. Que posso dizer? Um Santo Natal e um grande ano, Ademar Santos.

Um poema de Sylvia Beirute - Açúcar-Matéria




























AÇÚCAR-MATÉRIA

já ter acontecido:
à falta de um vício, ser-me proposto um exemplo
de não exemplo,
o projecto de ser uma mulher de açúcar,
e reverberar a personagem no meu rosto.
e nos anti-corpos da pré-exibição
ver um piazzolla, um piazzolla também de açúcar
e uma composição instantânea, o tango
de uma escalada em condição de cristal.

sim, já ter acontecido, já ter acontecido muitas vezes:
sermos feitos de açúcar, porque
assim que a dança começa, piazzolla,
sempre os corpos desabam.

Sylvia Beirute
inédito

Um poema de Sylvia Beirute - Predominância

























PREDOMINÂNCIA

predomina {o corpo} do texto no conjunto monofásico,
o corpo mais móvel que o pensamento
com diques,
do que a insónia precária que desvanece
na sentença antecipada
do sonho.

os satélites do silêncio
desaparecem
na contagem regressiva do raciocínio,
no infinito coberto, apurativo da idade.
e enquanto uma borboleta
estimula a sua cor na febre alta
o meu coração decide comer os adjectivos.

Sylvia Beirute
inédito

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Um poema de Sylvia Beirute - Noctambulário





















NOCTAMBULÁRIO 

                           {ao José Leon Machado, em jeito de agradecimento}


se o teu corpo quiser sair
de si, hás-de te enviar, aonde quer que
existas, para a tua superior intimidade; acenderás
uma fogueira, violarás os enigmas
do teu mundo na sua subconsciência carnal,
e escutarás o trânsito de débeis canções
placidamente indiferentes
aos ecos que o seu curso toma
depois do ouvido.
hás-de encontrar
os pássaros amarelos da manhã, as
tripas de deuses mortos,
as lágrimas que não contribuem para o dilúvio,
passearás pelas ruas
dos intestinos das causas da memória que tudo
resume e esquece,
e sentirás o exorcismo de todo o tempo.

depois, um surto de luz devolverá
o sentido lato original,
e o corpo regressará com todos
os seus elementos,
por outra ordem,
e terás lançado o isco ao destino.

Sylvia Beirute
inédito

o título deste poema deve-se ao blogue homónimo.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Um poema de Sylvia Beirute - Poema simples sobre o silêncio























POEMA SIMPLES SOBRE O SILÊNCIO

{do silêncio}. do sinal de fogo.
citar-te, escrever-te, transcrever-te, conjugar-te, oralizar-te
na orla do teu tronco demasiado extenso
para a curva do vento órfão de vontades.
{do silêncio}. grotesco. do sinal de fogo. literatura.
comer-te. beber-te com rigor moral, como consta
do guião de contra-indicações. infra.
{do silêncio}. ler-te. do sinal de fogo. contar-te
uma história verídica num outro contexto.
incomensurável. definitivamente provisório. belo.
{do silêncio}. quadriculado, vândalo. do sinal de fogo.
do ruído preceptivo. do processo de esverdeamento
do corpo com saudade. da cápsula de tempo.
{do silêncio}. um acto. do homem que se debruça
sobre cada órbita. um gesto. do mundo digestivo. instintivo.
somos um acto mas não um gesto. mera raiz da voz oca.
e numa linha recta aberta refundimos como quem
se ouve a si mesmo. do silêncio. do sinal de fogo.

Sylvia Beirute
inédito

tradução espanhola por Abel Asvir {aqui}, a quem agradeço a gentileza. 

sábado, 12 de dezembro de 2009

Um poema de Sylvia Beirute - Cateto




























CATETO

{ser subtil
é
a mais
precisa
e bela forma de
auto-submissão.}

Sylvia Beirute
inédito

 firenze, centro storico, 3 de dezembro de 2009

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Um poema de Sylvia Beirute - Pequeno poema para a Morte






















PEQUENO POEMA PARA A MORTE


                                           que a palavra te redima do erro. que a palavra seja o erro.
                                                                                                                      luís quintais


primeiro: preparar a sombra. rumorejá-la. desflorá-la.
segundo: escolher o objecto. fixá-lo. intuí-lo. medi-lo.
terceiro: retirar o objecto lentamente. analisar a sombra.
quarto: estender o corpo populoso no solo, sobre a sombra.
quinto: imaginar o objecto excluído.
sexto: sentir o corpo adquirir a forma do objecto excluído.
sétimo: sentir a sombra percorrer a distância
entre o corpo e o objecto excluído como se tivesse
havido contemporaneidade entre os dois.
oitavo: analisar a sombra do ponto de vista dos relevos
adquiridos e danos residuais.
nono: excluir a sombra. {o terno é a antítese do eterno}
décimo: fechar o corpo.

Sylvia Beirute
inédito

firenze, centro storico, 3 de dezembro de 2009

Um poema de Sylvia Beirute - Nocturno de pele




























NOCTURNO DE PELE

de muitas coisas não saberei o que constitui a memória,
se aquele mergulho tardio na ferida aberta,
se o susto de acordar sem corpo,
se o revelador de objectos de carne
sobre a pele, na plenitude da auto-devolução.
talvez a lembrança de lhe apagar o rasto
a represente condignamente, ou então
a disjuntiva "ou" num tempo espacial infinitivo.
se fosse pela poesia, o que não recomendo,
destacaria o entendimento emocional de pitágoras
ou quando me perguntaste com um átomo sublime:
{sabias que os narizes dos gatos são frios?}

Sylvia Beirute
inédito

domingo, 6 de dezembro de 2009

Um poema de Sylvia Beirute - Conoscenza




























CONOSCENZA

{o teu reconhecimento é a tua dependência},
não o deixes passar da fase da costura.
surge. insurge. inespera.
adquire expressões através do
eco difuso dos vegetais, coloca-te
nas ranhuras da madeira.
há uma vida imprópria algures.
pode não ser como aquela que espera
na plumagem de uma memória
por antecipação, mas protege o silêncio
e não deixa coagular o sangue.
{o teu reconhecimento é a tua dependência},
e quanto mais o memorizares
mais afastado estarás
dos lados obtusos de quem te deseja habitar
e da semântica temporal
das pessoas que te pedirão um
poema bonito,
e nada pior do que escrever
um poema bonito.


Sylvia Beirute
inédito
  
(firenze, centro storico, 3 de dezembro de 2009)

sábado, 5 de dezembro de 2009

Um poema de Sylvia Beirute - Ispirazione




























ISPIRAZIONE

a inspiração não deve imaginar,
mas exceder silenciosamente,
deixar o mundo acabar, calar-se,
atar os píncaros de correspondência,
deslizar pelas surpresas passivas, pela
intermitente pureza de uma página inicial.
deve, maxime, guiar a cármica sede
que desflora uma cor difusa,
entender que em cada instante nem todas as
palavras estão disponíveis
e a restrição imposta é um {código}.
a inspiração não se deve auto-inspirar, mas antes
criar metástases na segurança dos inícios,
ter a consciência de que o poema
só será esplêndido
se ao poeta a página aparecer altiva. 


Sylvia Beirute
inédito

(firenze, centro storico,  3 de dezembro de 2009)

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Um poema de Sylvia Beirute - Nervo em Forma de Hélice




















De partida para Itália em trabalho (visitarei três cidades em cinco dias) vou deixar o uma casa em beirute em pousio por algum tempo, talvez até sábado ou domingo. 

Tem sido, devo dizer, um enorme prazer partilhar alguma da minha poesia, e tem-me surpreendido a recepção e tudo o que tem surgido como sua consequência.

Ainda no outro dia um leitor manifestava alguma preocupação quanto ao futuro deste blogue. Serei honesta: é claro que ele não durará para sempre. É claro que ele faz parte de um momento. E, como diria Vinicius de Moraes, que não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure.

Até Breve. 


NERVO EM FORMA DE HÉLICE

eu não quero o que já é meu. repito: eu não quero
o que já é meu. repito com uma variante: eu não
quero o que será meu. ainda outra: eu não quero
o que será meu por destino. e outra: eu não
quero o que é meu em virtude das leis da república.
e outra: eu não quero o que é alcançável
com uma simples febre e um rosto que simula
alguma beleza com veneno respirável.
e outra: não quero um prazer falso como
a claridade entre pálpebras.
e outra: não quero o meu nome próprio e apelido.
e outra: não quero esta cidade sem sombra
e inocência rítmica. {quero viver em beirute,
quero viver em beirute, quero viver em beirute}
e outra: não quero uma imagem parada
ainda que os meus olhos sejam imóveis e
tenham visto tudo.
e outra: não quero os meus vinte e cinco anos.

Sylvia Beirute
inédito