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quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Um poema de Sylvia Beirute - Sala de Ressurreição






















SALA DE RESSURREIÇÃO

                                 {ao luís serguilha}

quarta-feira e o coração como caução
de um amor longe e baixo.
transeunte no respirar, os melhores
dias de desambiguação grave e lugares móveis
são no azul comprimido e exausto
desse interior interino de estradas, extensões, e cheiros.
quarta-feira e um morredor emprenhado
com o existencialismo de sartre
e uma estação de culto que se inverte
na indigência da força sorvendo as lá-
grimas para as nuvens e o frio para o sol.
quarta-feira e quero ser outra pessoa
nesta sala de ressurreição,
e enquanto o quero, para depois
o querer muito, ocorre-me que, para
sonhar depressa e em abundância de palavras
e actos a meio caminho de gestos,
é tão-somente indispensável
saber qual a margem de erro.

Sylvia Beirute
inédito

Um poema de Sylvia Beirute - Idioma



























IDIOMA

pedem-me que desperdice, que deixe estar,
que me desnomeie com um defeito do sono,
e que desse início desafie uma erudição
com um incêndio no idioma de dentro.
depois oferecem-me uma porta, uma porta
que quando bate sobrepõe
um silêncio de limão sobre a coxa, que
hetero-consome e auto-escurece. dizem-me:
desperdiça, sylvia, deixa {r}estar, põe
cada pé em cada prato da balança do
inacontecido saudável, prediletiza a partir
desse ponto até à humidez do teu ego de exposição.
por fim, deixam-me uma janela que ensina
o modo como os sujeitos procuram os predicados
que inutilizam, e
mostra explicando
a independência da incompletude
daqueles que crescem como flores.

Sylvia Beirute
inédito

Um poema de Sylvia Beirute - Ensaio Breve




















ENSAIO BREVE

que me regresse,
que depois do castigo
me seja perdoada a esperança.

Sylvia Beirute
inédito

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Um poema de Sylvia Beirute - Uma Casa em Beirute




UMA CASA EM BEIRUTE

"A sociedade só vive de ilusões. Toda sociedade é uma espécie de sonho colectivo. Essas ilusões tornam-se perigosas quando começam a parar de iludir." 

Paul Valéry


choramos como chuva maior, todas
as cores adormecem no objecto exterior, 
todos os ecos são lugares de som.
todo o objecto é exterior. toda a chuva é exterior.
todo o exterior é interior.
todas as casas da cidade são efervescentes,
no mesmo nível exteriores e interiores,
porque nada por dentro de nada
e tudo sobre nada.
e continuamos: choramos como chuva maior,
rasgamos cronologias, recortamos ralos de cérebro,
ouvidos de sonhos negros.
o caminho para a hora zero produziu
um desenho veloz e espião, lugar onde as cores
adormecem no avesso desflorado do nosso pátio
humano, nirvana de três patas,
onde os braços derretem e depois dissolvem
com o som, a cabeça, a arma, o fogo, a bíblia,
e eternizam como efémero ilógico.

Sylvia Beirute
inédito

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Um poema de Sylvia Beirute - Poemoterapia



















POEMOTERAPIA

este poema não é este poema.
este poema é sobre os efeitos secundários
deste poema.
assim, saberás guardar um segredo
se souberes guardar um silêncio,
andarás pela matriz
como se fosse a inteireza
do epílogo.
um outro sujeito poético
evocaria o arranjo
e a sombra.
a mim só me permito alertar
para o lustro do arranjo
e o uso da sombra,

e mandar todos os neuropoemas
para poemoterapia.

Sylvia Beirute
inédito

fotografia de miguel murta

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Um poema de Sylvia Beirute - Subir ao Cimo das Árvores

























SUBIR AO CIMO DAS ÁRVORES

as palavras são o escrutínio da alma.
divido a respiração pelos átomos, o medo
pela ansiedade é igual a um.
o escarlate do coração divido pelas vezes
que a vida se refaz sem ilação, pelas
consoantes líquidas ao frio maior.
as árvores são plantadas
em cada divisão do silêncio
e costumamos subi-las de noite.

então, todo o tempo sai do corpo sem espaço.
e temos a certeza que a divisão do tempo pelo espaço
é o movimento de uma ideia que não sara. {e a propósito,
no cimo da árvores
toda a proporção sai do cruzamento
entre transformação e resistência.}

e amanhecemos. o nosso amanhecer toca
no medo melhor, cardeal, suspeito, mariposa, que foge.

Sylvia Beirute
inédito

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Um poema de Sylvia Beirute - A Definição do Silêncio




















A DEFINIÇÃO DO SILÊNCIO

porque o tempo é de corpo, {de passagem},
porque a boca é de nomes próprios, do verbo viver-morrer
dobrado sobre si mesmo como duas cores
que se misturam e imitam,
porque a tua borboleta percorre um pequeno país
que bate as asas no sentido oposto,
porque vens sem corpo, por entre os satélites, em
direcção ao amor conclusivo,
porque o lugar que há em ti não tem onde ficar:
o silêncio é a recompensa da tua permanência.

mas quem decifra o silêncio, querido herberto,
não é quem permanece.

Sylvia Beirute
inédito

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Uma leve emoção

Uma leve emoção quando alguém que admiramos há muito tem um gesto destes, totalmente inesperado. Que posso dizer? Um Santo Natal e um grande ano, Ademar Santos.

Um poema de Sylvia Beirute - Açúcar-Matéria




























AÇÚCAR-MATÉRIA

já ter acontecido:
à falta de um vício, ser-me proposto um exemplo
de não exemplo,
o projecto de ser uma mulher de açúcar,
e reverberar a personagem no meu rosto.
e nos anti-corpos da pré-exibição
ver um piazzolla, um piazzolla também de açúcar
e uma composição instantânea, o tango
de uma escalada em condição de cristal.

sim, já ter acontecido, já ter acontecido muitas vezes:
sermos feitos de açúcar, porque
assim que a dança começa, piazzolla,
sempre os corpos desabam.

Sylvia Beirute
inédito

Um poema de Sylvia Beirute - Predominância

























PREDOMINÂNCIA

predomina {o corpo} do texto no conjunto monofásico,
o corpo mais móvel que o pensamento
com diques,
do que a insónia precária que desvanece
na sentença antecipada
do sonho.

os satélites do silêncio
desaparecem
na contagem regressiva do raciocínio,
no infinito coberto, apurativo da idade.
e enquanto uma borboleta
estimula a sua cor na febre alta
o meu coração decide comer os adjectivos.

Sylvia Beirute
inédito

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Um poema de Sylvia Beirute - Noctambulário





















NOCTAMBULÁRIO 

                           {ao José Leon Machado, em jeito de agradecimento}


se o teu corpo quiser sair
de si, hás-de te enviar, aonde quer que
existas, para a tua superior intimidade; acenderás
uma fogueira, violarás os enigmas
do teu mundo na sua subconsciência carnal,
e escutarás o trânsito de débeis canções
placidamente indiferentes
aos ecos que o seu curso toma
depois do ouvido.
hás-de encontrar
os pássaros amarelos da manhã, as
tripas de deuses mortos,
as lágrimas que não contribuem para o dilúvio,
passearás pelas ruas
dos intestinos das causas da memória que tudo
resume e esquece,
e sentirás o exorcismo de todo o tempo.

depois, um surto de luz devolverá
o sentido lato original,
e o corpo regressará com todos
os seus elementos,
por outra ordem,
e terás lançado o isco ao destino.

Sylvia Beirute
inédito

o título deste poema deve-se ao blogue homónimo.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Um poema de Sylvia Beirute - Poema simples sobre o silêncio























POEMA SIMPLES SOBRE O SILÊNCIO

{do silêncio}. do sinal de fogo.
citar-te, escrever-te, transcrever-te, conjugar-te, oralizar-te
na orla do teu tronco demasiado extenso
para a curva do vento órfão de vontades.
{do silêncio}. grotesco. do sinal de fogo. literatura.
comer-te. beber-te com rigor moral, como consta
do guião de contra-indicações. infra.
{do silêncio}. ler-te. do sinal de fogo. contar-te
uma história verídica num outro contexto.
incomensurável. definitivamente provisório. belo.
{do silêncio}. quadriculado, vândalo. do sinal de fogo.
do ruído preceptivo. do processo de esverdeamento
do corpo com saudade. da cápsula de tempo.
{do silêncio}. um acto. do homem que se debruça
sobre cada órbita. um gesto. do mundo digestivo. instintivo.
somos um acto mas não um gesto. mera raiz da voz oca.
e numa linha recta aberta refundimos como quem
se ouve a si mesmo. do silêncio. do sinal de fogo.

Sylvia Beirute
inédito

tradução espanhola por Abel Asvir {aqui}, a quem agradeço a gentileza. 

sábado, 12 de dezembro de 2009

Um poema de Sylvia Beirute - Cateto




























CATETO

{ser subtil
é
a mais
precisa
e bela forma de
auto-submissão.}

Sylvia Beirute
inédito

 firenze, centro storico, 3 de dezembro de 2009