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segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Até Breve

O "Uma Casa em Beirute" vai de férias por tempo indeterminado. Talvez regresse no início do próximo mês. Agradeço aos leitores o estímulo, o carinho com que me receberam, os presentes que me enviaram, os convites, etc. Talvez seja tempo de sonhar tudo outra vez, nascer de novo, escrever poemas sem palavras, ou simplesmente andar na rua e sorrir.

S.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Um poema de Sylvia Beirute - Pastéis de Belém






















PASTÉIS DE BELÉM

{ao josé ferreira e à ana luísa amaral}

do que me não deseja
eu guardo os alheamentos e são os alheamentos que melhor infligem
intimidade.
mas comecemos por algo fácil. com um sopro
façamos uma nuvem de canela,  e nos segundos que ela dura
introduzamos um poema com a indicação "rota de furacões".
depois, não escrevamos esse poema propositadamente
e deixemo-lo existir sem palavras e, por isso, náuseas.
talvez ocorra a mesma coisa que hoje sinto: uma ausência
de atmosfera
que caminha em direcção a um centro
que caminha em direcção a outro centro
que caminha em direcção a outro
e a outro
e a outro, etc.

Sylvia Beirute
inédito

sábado, 16 de janeiro de 2010

Um poema de Sylvia Beirute - Transubstanciação

























TRANSUBSTANCIAÇÃO

porque todo o tempo recupera ainda de outra eternidade,
todo o amor contrafeito se veda com quase tudo por dizer
e todas as instituições da estima
se invertem num certo sangue frio correndo em linha recta
e as omnipresenças em desejos inmútuos
invadem penínsulas de sede
e imensam lagos e solidões.

mas talvez haja erogenia na substituição do meu corpo
pelo teu, e será
essa a única forma de nos tocarmos.

Sylvia Beirute
inédito

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

A variação de género no cinema: épico, dramático, lírico. (excerto)



















CINEMA E GÉNERO

(…) O cinema é considerado épico. Não se pode dizer que não o seja, já que é notável a presença de um narrador e de uma história sendo contada por ele. No entanto, isso só diz respeito ao cinema narrativo. Um cinema não-narrativo pode assumir formas muito distintas, (…) até mesmo porque essa tarefa provavelmente não pode ser realizada, com as armas de que dispomos até o momento. 

O que nos interessa, agora, é uma possibilidade de um cinema puramente lírico e outro puramente dramático. Um filme que não tivesse história, nem personagens, mas apenas imagens e sons, e cujas angulações de câmara, cortes, etc., não indicassem presença de um narrador, mas de uma espécie de eu-lírico, alguém que fala através daquelas imagens, que expõe suas emoções, seus pensamentos de forma poética, um filme assim, seria, não temos dúvidas, um filme puramente lírico. 

Há filmes assim, e podemos citar aqui talvez o mais famoso deles (um longa-metragem moderno, inclusive, para que não se diga que esse tipo de cinema só é possível nas vanguardas e seus curtas): Koyaanisqatsi, de Gofrey Regio, de 1982. Esse filme não tem personagens, não tem narrador, nem narrativa, obviamente, mas a edição, as imagens, sua junção com o som, tudo isso se mostra cinema, não é um amontoado caótico de imagens aleatórias, é um poema visual, um poema lírico. A existência de um filme lírico nos permite imaginar um filme puramente dramático. Pessoas apressadas podem pensar que a filmagem de uma peça seria exemplo disso, mas não é. A filmagem de uma peça é apenas isso, uma peça filmada, não é cinema. O cinema necessita de edição, de montagem, essa, pode-se dizer, seguindo Eisenstein, é a essência do cinema. 

No entanto, aqui se encontra um problema: se a presença de personagens e de uma trama é essencial para o drama, como uma história filmada com esses elementos pode ser drama mas não cinema, ou seja, como pode um filme ser percebido como cinema mesmo não tendo um narrador? Não sabemos se é possível, não conhecemos um exemplo disso, mas podemos imaginar. Talvez um filme que possuísse apenas um ângulo, um ângulo neutro, como um plano geral, um filme que fosse fundamentado no diálogo, como um drama, mas que também tivesse montagem, talvez esse fosse um filme puramente dramático. Se pegarmos uma peça, digamos, Hamlet, e filmarmos todas as cenas, cada uma com seu cenário próprio, até mesmo com cenas em locais abertos (como a cena inicial de Hamlet, na frente do palácio), umas diurnas, outras nocturnas, e se filmarmos tudo isso sem usar mudança de ângulo ou movimento de câmara, e editarmos as cenas, montando um filme, se fizermos tudo isso, não seria cinema, e não seria cinema puramente dramático? 

A montagem e as mudanças de cenário típicas do cinema conferem ao filme o status de obra cinematográfica, enquanto a trama, as personagens, e, principalmente, a importância dada aos diálogos e à acção dramática, conferem à obra o status de drama.  (...)

Tendo feito essas propostas de cinema puramente dramático, e de cinema puramente lírico, respeitando a opinião de que o cinema é épico, podemos agora pensar no cinema narrativo como um género misto, talvez sempre ao mesmo tempo épico, dramático e lírico. O lirismo no cinema narrativo, no entanto, não pode ser um lirismo puro, daí convém chamarmos, tratando-se de cinema, não “género lírico”, mas “género poético”, algo oposto a um “género prosaico”, ou “género narrativo”, ou “épico”, enquanto o drama pode permanecer com o mesmo nome. Sendo o cinema narrativo essencialmente épico, podemos imaginar que uma inclinação maior ao poético ou ao dramático não tornará um filme puramente poético ou puramente dramático, na verdade o que podemos ter é um épico dramático, um épico poético, ou um épico prosaico, de acordo com o aspecto principal da obra, de acordo com o elemento diferenciador de cada género.

Anacã Rupert Agra
em Os géneros no cinema: o épico, o dramático e o lírico

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Um poema de Sylvia Beirute - Certezza


























CERTEZZA

não confio em mim. não confio em ti.
não confio em nós.
o mais apropriado é não fazermos verbos
em quartos de silêncio, em corpos de
natureza ruidosa de actos,
na extensão rasteira das nuvens,
em ruínas de poemas,
verbos que tratam algumas palavras
por substantivos, substantivos
que estimulam e reprimem verbos
que fazem rachaduras nos lábios
iluminando proibições na fala.
não confio em mim. não confio em ti.
não confio em nós.

Sylvia Beirute
inédito

(firenze, 3 de dezembro de 2009)

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Um poema de Sylvia Beirute - Lendo Manoel de Barros


























LENDO MANOEL DE BARROS

             {ao ademar santos, com amizade}


um certo encardido nas reminiscências
entre poemas,
permissão da sua infinitude
absoluta.
nos poemas, reminiscendos ou não,
no seu movimento se situa
o denominador comum dos seus placebos:
todos se deslocam
em busca de alimento.

Sylvia Beirute
inédito

domingo, 10 de janeiro de 2010

Um poema de Sylvia Beirute - Umbigo




























UMBIGO

eram coisas pouco óbvias : usos pessoais complementares,
fernandos pessoas que ligavam
com a continuação de lugares
que desejavam ser e não chegavam ao fim
porque sem a aptidão dos inícios.
nunca lhes serei visível : a fábula dos deuses tem raízes.
nunca os verei : na fábula de mim tenho derrotas desiguais.
no dilúvio de ar e armistício passaram-se meses e verbos
intransitivos e intransitáveis, e,
quando alguém chegava com a clareza vegetal
de uma palavra pura a fim de nomear horizontes
e desfazer poemas,
eu despenhava o caroço da alma
com um estigma de desejo que me sabia :
{encantar a sabedoria do mundo
no lugar móbil do umbigo.}

Sylvia Beirute
inédito

Um poema de Sylvia Beirute - Alma Mater




























Alma Mater

a arte relevante
não tem como efeito
o de tornar o artista imortal,
mas sim
o de lhe dilatar
a ideia de morte.

Sylvia Beirute

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Brevíssima história dos estudos sobre géneros - lírico, épico (narrativa), dramático


























Brevíssima história dos estudos sobre géneros

Os estudos sobre género existem há muitos anos. Talvez a referência mais antiga seja de Platão, que pensou em dois modos de reprodução de um objecto ou pessoa: retratando por palavras; ou mimetizando, imitando directamente. Daí surgem os dois primeiros géneros, a poesia dramática (mimética) e a poesia épica, ou narrativa (descrição das acções humanas). 

A precariedade dessa divisão dual fez surgir outro género, o misto (narrativa e diálogos), e outros foram surgindo de acordo com vários métodos de divisão, como métrica ou uso de música. Aristóteles aproveitou a divisão platónica para fazer a sua. 

Primeiramente ele divide as obras poéticas de acordo com o tipo de imitação: segundo os meios (sons, imagens, palavras); segundo o objecto imitado (homens superiores a nós, homens inferiores a nós, homens iguais a nós); segundo o modo (narrativa - um narrador assume a personalidade de outros; drama - as personagens agem diretamente; mista - ora o narrador assume a personalidade de outros, ora as personagens agem diretamente, através de diálogos). 

Durante os séculos seguintes, a preocupação com a divisão em géneros só aumentou. Vários estudos foram realizados e muitos géneros diferentes desses foram teorizados, e as divisões usaram sempre métodos e características distintas, como o género lírico, que significou, durante séculos, poesia cantada com a lira. 

No entanto, no romantismo, o lírico ganhou força, e a divisão antes dupla tornou-se tripla, em Hegel: lírico, épico, dramático. Muitas foram as tentativas de acabar com estudos de géneros e com divisões como essa, porém, a tríade proposta por Hegel continua valendo até hoje (pelo menos no que se refere a géneros literários), o que nos deixa esses três géneros para estudar e examinar: o lírico, o épico (narrativa), e o dramático.


Anacã Rupert Agra
em Os Géneros no Cinema:
o épico, o dramático e o lírico.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Um poema de Sylvia Beirute - Bohérase




























BOHÉRASE

os ninguéns deste lugar imitam o mundo
porque sobrevivem às suas personagens.

Sylvia Beirute
inédito

sábado, 2 de janeiro de 2010

Um poema de Sylvia Beirute - O Movimento das Células






















O MOVIMENTO DAS CÉLULAS

depois fechamos os olhos. descobrimos que
a substância do verso não forma uma linha,
que o seu conjunto se assemelha
à representação de quiasmas. e então
falamos de células e da sua divisão marítima,
ouvimos, ali ao lado, alguém dizer, com a
autoridade de um LOBO:
{primeiro procuramos a solução,
depois sonhamos o problema}.
o certo é que vamos demasiado longe,
demasiado longe para a mesma certeza,
até que nos tornamos amovíveis.
de noite, cansados e sem a responsabilidade
moral de escrever um poema, e
sem mais precisarmos
de distorcer instantes na cidade subtil,
pensamos no silêncio.
{criar muita poesia é criar muito silêncio}, dizes.

Sylvia Beirute
inédito

firenze, 3 de dezembro de 2009

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Um poema de Sylvia Beirute - O Beijo de Rodin


























O BEIJO DE RODIN

não quero fazer filhos
sobre desejos adicionais
e tardios, desejos sobre a tela tardia da tarde,
desejos sobre o azul infindável
de boas razões indesejáveis.
não quero desejos de desejos,
desejos que retiram desejo a desejos de
tempo raso
e de feitio de autopertença e
leves contradições sem alarme e gafanhotos.

não é em vão que
o beijo de rodin é de pedra.

Sylvia Beirute
inédito

Um poema de Sylvia Beirute - Intuição















INTUIÇÃO

intuição. a arte mutila a intuição.
a leitura é intuitiva e a sua intuição
mutila a mutilação da intuição
que é a arte.
a leitura é a desproporção da criação, des-
programa-a,
desjustifica-a, avalia-a.
e previamente, hoje penso com a intuição
e verificação dos vaga-lumes
da tarde que intui o sol que cai
e assim, indirectamente, coloca
a intumescência das sombras
nos rostos e nas palavras com formato
de insecto
e nas possibilidades profundas da matéria
do rio implícito e anivelado.
daí a ressalva erógena para poder dizer que
apesar de viver dentro de um silêncio intuitivo,
eu lhe despertenço.

Sylvia Beirute
inédito