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quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Um texto de Jorge de Sena



























POESIA E FILOSOFIA

Para o poeta conscientemente responsável, nenhuma atitude filosófica pode possuir mais importância que a pelo pragmatismo vital medida, isto é, o valor social e humano da sua eficácia, o seu poder de sugestão poética.
Sendo precisamente de adequação o progresso do pensamento, que se opera por um segregar de contrários sempre mais complexos para a razão suficiente e mais simples para a síntese dialéctica, o poeta extrai, dessas qualidades de adequação intrínseca, mais perfeitamente que o filósofo, esclarecimento e enriquecimento significadizantes de quanto observa, estuda e medita. E como o seu aprender a realidade, mesmo se falso, é directo, compreende-se que extraia melhor, pois a dialéctica lhe é constantemente atenta aos aspectos e à mecânica da vida, enquanto que a do filósofo, ou não será filósofo, tem de ser atenta ao próprio reproduzir-se dos conceitos.

Jorge de Sena
In Poesia e Filosofia (revista)
1947

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

O primeiro amor, de Miguel Esteves Cardoso


















O PRIMEIRO AMOR

É fácil saber se um amor é o primeiro amor ou não. Se admite que possa ser o primeiro, é porque não é, o primeiro amor só pode parecer o último amor. É o único amor, o máximo amor, o irrepetível e incrível e antes morrer que ter outro amor. Não há outro amor. O primeiro amor ocupa o amor todo.

Nunca se percebe bem por que razão começa. Mas começa. E acaba sempre mal só porque acaba. Todos os dias parece estar mesmo a começar porque as coisas vão bem, e o coração anda alto. E todos os dias parece que vai acabar porque as coisas vão mal e o coração anda em baixo.

O primeiro amor dá demasiadas alegrias, mais do que a alma foi concebida para suportar. É por isso que a alegria dói - porque parece que vai acabar de repente. E o primeiro amor dói sempre demais, sempre muito mais do que aguenta e encaixa o peito humano, porque a todo o momento se sente que acabou de acabar de repente. O primeiro amor não deixa de parte um único bocadinho de nós. Nenhuma inteligência ou atenção se consegue guardar para observá-lo. Fica tudo ocupado. O primeiro amor ocupa tudo. É inobservável. É difícil sequer reflectir sobre ele. O primeiro amor leva tudo e não deixa nada.

Diz-se que não há amor como o primeiro e é verdade. Há amores maiores, amores melhores, amores mais bem pensados e apaixonadamente vividos. Há amores mais duradouros. Quase todos. Mas não há amor como o primeiro. É o único que estraga o coração e que o deixa estragado.
É como uma criança que põe os dedos dentro de uma tomada eléctrica. É esse o choque, a surpresa «Meu Deus! Como pode ser!» do primeiro amor. Os outros amores poderão ser mais úteis, até mais bonitos, mas são como ligar electrodomésticos à corrente. Este amor mói-nos o juízo como a Moulinex mói café. Aquele amor deixa-nos cozidos por dentro e com suores frios por fora, tal e qual num micro-ondas. Mas o «Zing!» inicial, o tremor perigoso que se nos enfia por baixo das unhas e dá quatro mil voltas ao corpo, naquele micro-segundo de electricidade que nos calhou, só acontece no primeiro amor.

O primeiro beijo é sempre uma confusão. Está tudo a andar à volta e não se consegue parar. A outra pessoa assalta-nos e deixa-nos tontos, isto apesar de ser tão tímida e inepta como nós. E os nomes dos nossos primeiros amores? Os nomes doem. Parecem minúsculos milagres. Cada vez que se pronunciam, rebenta um pequeno terramoto no equador. E as mãos? Quando a mão entra na mão de quem se ama e se sente aquele exagero de volts e de pele, a única resposta sensata é o assassínio, o exílio, o suicídio. Nada fica de fora. O mundo é uma conspiração cinzenta de amores em segunda mão. Nada é puro fora daquelas mãos. O tesouro está a arder, as pessoas estão a morrer, os olhos cheios de luz estão a cegar, mas o primeiro amor é também, e sem dúvida, o primeiro amor do mundo.

O primeiro amor é aquele que não se limita a esgotar a disposição sentimental para os amores seguintes: quer esgotá-la. Depois dele, ou depois dela, os olhos e os braços e os lábios deixam de ter qualquer utilidade ou interesse. As outras pessoas - por muito bonitas e fascinantes que sejam - metem-nos nojo. Só no primeiro amor. 

Não há amor como o primeiro. Mais tarde, quando se deixa de crescer, há o equivalente adulto ao primeiro amor - é o primeiro casamento; mas não é igual. O primeiro amor é uma chapada, um sacudir das raízes adormecidas dos cabelos, uma voragem que nos come as entranhas e não nos explica. Electrifica-nos a capacidade de poder amar. Ardem-nos as órbitas dos olhos, do impensável calor de poder-mos ser amados. Atiramo-nos ao nosso primeiro amor sem pensar onde vamos cair ou de onde saltamos. Saltamos e caímos. Enchemos o peito de ar, seguramos as narinas com os dedos a fazer de mola de roupa, juramos fazer três ou quatro mortais de costas, e estatelamo-nos na água ou no chão, como patos disparados de um obus, com penas a esvoaçar por toda a parte.

Há amores melhores, mas são amores cansados, amores que já levaram na cabeça, amores que sabem dizer «Alto-e-pára-o-baile», amores que já dão o desconto, amores que já têm medo de se magoarem, amores democráticos, que se discutem e debatem. E todos os amores dão maior prazer que o primeiro. O primeiro amor está para além das categorias normais da dor e do prazer. Não faz sentido sequer. Não tem nada a ver com a vida. Pertence a um mundo que só tem duas cores - o preto-preto feito de todos os tons pretos do planeta e o branco-branco feito de todas as cores do arco-íris, todas a correr umas para as outras.

Podem ficar com a ternura dos 40 e com a loucura dos 30 e com a frescura dos 20 - não outro amor como o doentio, fechado-no-quarto, o amor do armário, com uma nesga de porta que dá para o Paraíso, o amor delirante de ter sempre a boca cheia de coração e não conseguir dizer outra coisa com coisa, nem falar, nem pedir para sair, nem sequer confessar: «Adeus Mariana - desta vez é que me vou mesmo suicidar.» Podem ficar (e que remédio têm) com o savoir-faire e os fait-divers e o «quero com vista pró mar se ainda houver». Não há paz de alma, nem soalheira pachorra de cafunés com champagne, que valha a guerra do primeiro amor, a única em que toda a gente morre e ninguém fica para contar como foi.

Não há regras para gerir o primeiro amor. Se fosse possível ser gerido, ser previsto, ser agendado, ser cuidado, não seria primeiro. A única regra é: Não pensar, não resistir, não duvidar. Como acontece em todas as tragédias, o primeiro amor sofre-se principalmente por não continuar. Anos mais tarde, ainda se sonha retomá-lo, reconquistá-lo, acrescentar um último capítulo mais feliz ou mais arrumado. Mas não pode ser. O primeiro amor é o único milagre da nossa vida - e não há milagres em segunda mão. É tão separado do resto como se fosse uma primeira vida. Depois do primeiro amor, morre-se. Quando se renasce há uma ressaca. É um misto de «Livra! Ainda bem que já acabou!» e de «Mas o que é isto? Para onde é que foi?».

Os outros amores são maiores, são mais verdadeiros, respeitam mais as personalidades, são mais construtivos - são tudo aquilo que se quiser. Mas formam um conjunto entre eles. O segundo e o terceiro e o quarto, por muito diferentes, são mais parecidos. São amores que se conhecem uns aos outros, bebem copos juntos, telefonam-se, combinam ir à Baixa comprar cortinados. O primeiro amor não forma conjunto nenhum. Nem sequer entre os dois amantes - os primeiros, primeiríssimos amantes. Acabam tão separados os dois como o primeiro amor acaba separado dos demais. O amor foi a única coisa que os prendeu e o amor, como toda a gente sabe, não chega para quase nada. É preciso respeito e bláblá, compreensão mútua e muito bláblá, e até uma certa amizade bláblá. Para se fazer uma vida a dois que seja recompensadora e sobretudo bláblá, o amor não chega. Não se vive só dele. Não se come. Não se deixa mobilar. Bláblá e enfim.

Mas é por ser insustentável e irrepetível que o primeiro amor não se esquece. Parece impossível porque foi. Não deu nada do que se quis. Não levou a parte nenhuma. O primeiro amor deveria ser o primeiro e esquecer-se, mas toda a gente sabe, durante o primeiro amor ou depois, que é sempre o último.

Afinal nem é por ser primeiro, nem é por ser amor. A força do primeiro amor vem de queimar - do incêndio incontrolável - todas aquelas ilusões e esperanças, saudades pequenas e sentimentos, que nascem em nós com uma força exagerada e excessiva. Como se queima um campo para crescer plantas nele. Se fôssemos para todos os outros amores com o coração semelhantemente alucinado e confuso, nunca mais seríamos felizes. É essa a tristeza do primeiro amor. Prepara-nos para sermos felizes, limando arestas, queimando energias, esgotando inusitadas pulsões, tornando-nos mais «inteligentes».

É por isso que o primeiro amor fica com a metade mais selvagem e inocente de nós. Seguimos caminho, para outros amores, mais suaves e civilizados, menos exigentes e mais compreensivos. Será por isso que o primeiro amor nunca é o único? Que lindo seria se fosse mesmo. Só para que não houvesse outro.

Miguel Esteves Cardoso em Os Meus Problemas (Assírio & Alvim)

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Até Breve

O "Uma Casa em Beirute" vai de férias por tempo indeterminado. Talvez regresse no início do próximo mês. Agradeço aos leitores o estímulo, o carinho com que me receberam, os presentes que me enviaram, os convites, etc. Talvez seja tempo de sonhar tudo outra vez, nascer de novo, escrever poemas sem palavras, ou simplesmente andar na rua e sorrir.

S.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Um poema de Sylvia Beirute - Pastéis de Belém






















PASTÉIS DE BELÉM

{ao josé ferreira e à ana luísa amaral}

do que me não deseja
eu guardo os alheamentos e são os alheamentos que melhor infligem
intimidade.
mas comecemos por algo fácil. com um sopro
façamos uma nuvem de canela,  e nos segundos que ela dura
introduzamos um poema com a indicação "rota de furacões".
depois, não escrevamos esse poema propositadamente
e deixemo-lo existir sem palavras e, por isso, náuseas.
talvez ocorra a mesma coisa que hoje sinto: uma ausência
de atmosfera
que caminha em direcção a um centro
que caminha em direcção a outro centro
que caminha em direcção a outro
e a outro
e a outro, etc.

Sylvia Beirute
inédito

sábado, 16 de janeiro de 2010

Um poema de Sylvia Beirute - Transubstanciação

























TRANSUBSTANCIAÇÃO

porque todo o tempo recupera ainda de outra eternidade,
todo o amor contrafeito se veda com quase tudo por dizer
e todas as instituições da estima
se invertem num certo sangue frio correndo em linha recta
e as omnipresenças em desejos inmútuos
invadem penínsulas de sede
e imensam lagos e solidões.

mas talvez haja erogenia na substituição do meu corpo
pelo teu, e será
essa a única forma de nos tocarmos.

Sylvia Beirute
inédito

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

A variação de género no cinema: épico, dramático, lírico. (excerto)



















CINEMA E GÉNERO

(…) O cinema é considerado épico. Não se pode dizer que não o seja, já que é notável a presença de um narrador e de uma história sendo contada por ele. No entanto, isso só diz respeito ao cinema narrativo. Um cinema não-narrativo pode assumir formas muito distintas, (…) até mesmo porque essa tarefa provavelmente não pode ser realizada, com as armas de que dispomos até o momento. 

O que nos interessa, agora, é uma possibilidade de um cinema puramente lírico e outro puramente dramático. Um filme que não tivesse história, nem personagens, mas apenas imagens e sons, e cujas angulações de câmara, cortes, etc., não indicassem presença de um narrador, mas de uma espécie de eu-lírico, alguém que fala através daquelas imagens, que expõe suas emoções, seus pensamentos de forma poética, um filme assim, seria, não temos dúvidas, um filme puramente lírico. 

Há filmes assim, e podemos citar aqui talvez o mais famoso deles (um longa-metragem moderno, inclusive, para que não se diga que esse tipo de cinema só é possível nas vanguardas e seus curtas): Koyaanisqatsi, de Gofrey Regio, de 1982. Esse filme não tem personagens, não tem narrador, nem narrativa, obviamente, mas a edição, as imagens, sua junção com o som, tudo isso se mostra cinema, não é um amontoado caótico de imagens aleatórias, é um poema visual, um poema lírico. A existência de um filme lírico nos permite imaginar um filme puramente dramático. Pessoas apressadas podem pensar que a filmagem de uma peça seria exemplo disso, mas não é. A filmagem de uma peça é apenas isso, uma peça filmada, não é cinema. O cinema necessita de edição, de montagem, essa, pode-se dizer, seguindo Eisenstein, é a essência do cinema. 

No entanto, aqui se encontra um problema: se a presença de personagens e de uma trama é essencial para o drama, como uma história filmada com esses elementos pode ser drama mas não cinema, ou seja, como pode um filme ser percebido como cinema mesmo não tendo um narrador? Não sabemos se é possível, não conhecemos um exemplo disso, mas podemos imaginar. Talvez um filme que possuísse apenas um ângulo, um ângulo neutro, como um plano geral, um filme que fosse fundamentado no diálogo, como um drama, mas que também tivesse montagem, talvez esse fosse um filme puramente dramático. Se pegarmos uma peça, digamos, Hamlet, e filmarmos todas as cenas, cada uma com seu cenário próprio, até mesmo com cenas em locais abertos (como a cena inicial de Hamlet, na frente do palácio), umas diurnas, outras nocturnas, e se filmarmos tudo isso sem usar mudança de ângulo ou movimento de câmara, e editarmos as cenas, montando um filme, se fizermos tudo isso, não seria cinema, e não seria cinema puramente dramático? 

A montagem e as mudanças de cenário típicas do cinema conferem ao filme o status de obra cinematográfica, enquanto a trama, as personagens, e, principalmente, a importância dada aos diálogos e à acção dramática, conferem à obra o status de drama.  (...)

Tendo feito essas propostas de cinema puramente dramático, e de cinema puramente lírico, respeitando a opinião de que o cinema é épico, podemos agora pensar no cinema narrativo como um género misto, talvez sempre ao mesmo tempo épico, dramático e lírico. O lirismo no cinema narrativo, no entanto, não pode ser um lirismo puro, daí convém chamarmos, tratando-se de cinema, não “género lírico”, mas “género poético”, algo oposto a um “género prosaico”, ou “género narrativo”, ou “épico”, enquanto o drama pode permanecer com o mesmo nome. Sendo o cinema narrativo essencialmente épico, podemos imaginar que uma inclinação maior ao poético ou ao dramático não tornará um filme puramente poético ou puramente dramático, na verdade o que podemos ter é um épico dramático, um épico poético, ou um épico prosaico, de acordo com o aspecto principal da obra, de acordo com o elemento diferenciador de cada género.

Anacã Rupert Agra
em Os géneros no cinema: o épico, o dramático e o lírico

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Um poema de Sylvia Beirute - Certezza


























CERTEZZA

não confio em mim. não confio em ti.
não confio em nós.
o mais apropriado é não fazermos verbos
em quartos de silêncio, em corpos de
natureza ruidosa de actos,
na extensão rasteira das nuvens,
em ruínas de poemas,
verbos que tratam algumas palavras
por substantivos, substantivos
que estimulam e reprimem verbos
que fazem rachaduras nos lábios
iluminando proibições na fala.
não confio em mim. não confio em ti.
não confio em nós.

Sylvia Beirute
inédito

(firenze, 3 de dezembro de 2009)

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Um poema de Sylvia Beirute - Lendo Manoel de Barros


























LENDO MANOEL DE BARROS

             {ao ademar santos, com amizade}


um certo encardido nas reminiscências
entre poemas,
permissão da sua infinitude
absoluta.
nos poemas, reminiscendos ou não,
no seu movimento se situa
o denominador comum dos seus placebos:
todos se deslocam
em busca de alimento.

Sylvia Beirute
inédito

domingo, 10 de janeiro de 2010

Um poema de Sylvia Beirute - Umbigo




























UMBIGO

eram coisas pouco óbvias : usos pessoais complementares,
fernandos pessoas que ligavam
com a continuação de lugares
que desejavam ser e não chegavam ao fim
porque sem a aptidão dos inícios.
nunca lhes serei visível : a fábula dos deuses tem raízes.
nunca os verei : na fábula de mim tenho derrotas desiguais.
no dilúvio de ar e armistício passaram-se meses e verbos
intransitivos e intransitáveis, e,
quando alguém chegava com a clareza vegetal
de uma palavra pura a fim de nomear horizontes
e desfazer poemas,
eu despenhava o caroço da alma
com um estigma de desejo que me sabia :
{encantar a sabedoria do mundo
no lugar móbil do umbigo.}

Sylvia Beirute
inédito

Um poema de Sylvia Beirute - Alma Mater




























Alma Mater

a arte relevante
não tem como efeito
o de tornar o artista imortal,
mas sim
o de lhe dilatar
a ideia de morte.

Sylvia Beirute

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Brevíssima história dos estudos sobre géneros - lírico, épico (narrativa), dramático


























Brevíssima história dos estudos sobre géneros

Os estudos sobre género existem há muitos anos. Talvez a referência mais antiga seja de Platão, que pensou em dois modos de reprodução de um objecto ou pessoa: retratando por palavras; ou mimetizando, imitando directamente. Daí surgem os dois primeiros géneros, a poesia dramática (mimética) e a poesia épica, ou narrativa (descrição das acções humanas). 

A precariedade dessa divisão dual fez surgir outro género, o misto (narrativa e diálogos), e outros foram surgindo de acordo com vários métodos de divisão, como métrica ou uso de música. Aristóteles aproveitou a divisão platónica para fazer a sua. 

Primeiramente ele divide as obras poéticas de acordo com o tipo de imitação: segundo os meios (sons, imagens, palavras); segundo o objecto imitado (homens superiores a nós, homens inferiores a nós, homens iguais a nós); segundo o modo (narrativa - um narrador assume a personalidade de outros; drama - as personagens agem diretamente; mista - ora o narrador assume a personalidade de outros, ora as personagens agem diretamente, através de diálogos). 

Durante os séculos seguintes, a preocupação com a divisão em géneros só aumentou. Vários estudos foram realizados e muitos géneros diferentes desses foram teorizados, e as divisões usaram sempre métodos e características distintas, como o género lírico, que significou, durante séculos, poesia cantada com a lira. 

No entanto, no romantismo, o lírico ganhou força, e a divisão antes dupla tornou-se tripla, em Hegel: lírico, épico, dramático. Muitas foram as tentativas de acabar com estudos de géneros e com divisões como essa, porém, a tríade proposta por Hegel continua valendo até hoje (pelo menos no que se refere a géneros literários), o que nos deixa esses três géneros para estudar e examinar: o lírico, o épico (narrativa), e o dramático.


Anacã Rupert Agra
em Os Géneros no Cinema:
o épico, o dramático e o lírico.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Um poema de Sylvia Beirute - Bohérase




























BOHÉRASE

os ninguéns deste lugar imitam o mundo
porque sobrevivem às suas personagens.

Sylvia Beirute
inédito

sábado, 2 de janeiro de 2010

Um poema de Sylvia Beirute - O Movimento das Células






















O MOVIMENTO DAS CÉLULAS

depois fechamos os olhos. descobrimos que
a substância do verso não forma uma linha,
que o seu conjunto se assemelha
à representação de quiasmas. e então
falamos de células e da sua divisão marítima,
ouvimos, ali ao lado, alguém dizer, com a
autoridade de um LOBO:
{primeiro procuramos a solução,
depois sonhamos o problema}.
o certo é que vamos demasiado longe,
demasiado longe para a mesma certeza,
até que nos tornamos amovíveis.
de noite, cansados e sem a responsabilidade
moral de escrever um poema, e
sem mais precisarmos
de distorcer instantes na cidade subtil,
pensamos no silêncio.
{criar muita poesia é criar muito silêncio}, dizes.

Sylvia Beirute
inédito

firenze, 3 de dezembro de 2009