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sexta-feira, 28 de maio de 2010

Um poema de John Dunne: A Múmia - Ou Alquimia do Amor


























A MÚMIA – OU ALQUIMIA DO AMOR

Quem, mais fundo do que eu, escavou a mina do amor,
Dirá onde reside a sua cêntrica felicidade.
Eu tenho amado, e possuído, e contado,
Mas devesse eu amar, possuir, contar até ser velho
Que nunca encontraria esse mistério oculto.
Oh, é tudo impostura:
Tal como nenhum alquimista conseguiu ainda o Elixir,
Mas glorifica o seu poste prenhe,
Se por acaso daí lhe advém
Qualquer coisa odorífera ou medicinal.
Assim os amantes sonham um rico e longo deleite,
Obtendo apenas uma invernosa noite de verão.

Nossa confiança, sobriedade, honra, e nosso dia
Deveremos nós pagar por esta vã nuvem de ilusão?
Acaba nisto o amor – que o meu criado
Possa ser tão feliz como eu, se conseguir
Suportar o breve desdém de uma farsa nupcial?
Aquele infeliz amante que jura
Não serem os corpos a desposar-se, mas as mentes,
- E tão angélica que a dela parece! –
Juraria com igual certeza que ouve as esferas
Nas rudes e desafinadas cadências desse dia.
Não esperem inteligência nas mulheres. No seu melhor
Possuem doçura e esperteza, não são mais que Múmias.

John Dunne
Em Poemas Eróticos
Assírio e Alvim
Trad. de Helena Barbas

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Lógica Feminina


























A MINHA MULHER

Era uma mulher alta, bem feita de corpo, de belo e altivo perfil. Um nariz direito, um queixo pontiagudo e as pálpebras semicerradas davam à sua fisionomia e ao seu olhar uma expressão de arrogância desdenhosa e de orgulho. Vestia-se com muito esmero e no seu todo exterior só lhe ia mal um excessivo nervosismo e, às vezes, uma certa rudeza nos modos. Eu conhecia bem a sua maneira de ser e dava-lhe o devido apreço, mas o seu mundo intelectual e moral, o seu espírito, as suas concepções, o seu temperamento instável, os olhos odientos, o orgulho, os livros que lia e que por vezes me deixavam espantado, e o seu ar freirático, como na véspera ainda, tudo isso me era desconhecido e incompreensível.

Quando durante as nossas altercações, tentativa definir o seu tipo humano, a minha psicologia quedava-se em fórmulas comuns, tais como: «estouvada, cabeça no ar, péssimo carácter, lógica feminina», e isto me bastava. Mas agora, que a via chorar, sentia o ardente desejo de descobrir o fundo daquela alma e de olhar lá para dentro a ver o que encerrava.


Anton Tchekov
in A Minha Mulher 

segunda-feira, 24 de maio de 2010

O meu amigo Ademar Santos

É com muita tristeza que aqui anuncio o falecimento, este fim-de-semana, do meu amigo e escritor Ademar Santos. O Ademar era uma pessoa encantadora, um poeta brilhante, e autor de um dos blogues mais lidos em Portugal, o Abnoxio

Da literatura, tirando as pessoas que me estão próximas, era aquela com quem mais tinha contacto, era ele que me lia a sua poesia, me pedia humildemente opiniões, e eu fazia-o reciprocamente, submetendo os meus poemas ao seu exigente crivo. 

O ano passado envergonhou-me com a declaração de que o meu blogue de poesia era o seu favorito (o que não se faz a uma menina indefesa, na altura disse-lhe), também ia escrevendo uns "improvisos para sylvia beirute" (como este)...e, em privado, mimava-me com pérolas como esta:




 






















Muito me pediu um livro o Ademar e esse desejo, posso dizê-lo, está hoje mais próximo de concretização. Dedicá-lo-ei.

Descansa em paz, querido amigo.

Sylvia Beirute

Claudio Daniel e o Festival Tordesilhas

Interessante esta resenha de Claudio Daniel no rescaldo do Festival Tordesilhas. Infelizmente, por motivos de saúde, não pude dar o meu contributo ao encontro (estava prevista a minha participação no recital de poesia).

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Jorge de Sena e a Linguagem


























Em 1943, (em Correspondência – carta a Guilherme de Castilho) Jorge de Sena manifestava a consciência de que a relação entre as diversas artes não cabe nos limites de uma lógica da identidade passível de sustentar um sistema de correspondências: «a poesia tem andado subordinada a considerações de ordem plástica – quando, afinal, a obra plástica é tirada do nada por adição de matéria e a obra poética é tirada da matéria por adição de um nada excessivo que não é escolha mas aceitação».

Mais tarde (em Antigos e Modernos), já transcorrida a experiência de Metamorfoses, o problema seria encarado numa perspectiva linguística e semiológica. Intensificava-se a consciência da diferença irredutível entre os espaços significantes do verbal e do não-verbal:

«No que à expressão literária se refere, e ainda que se aceite que todas as artes, à sua maneira, “comunicam”, a dependência estrita e unívoca em relação ao meio formal é mais absoluta que para qualquer das outras, porque, se as estruturas linguísticas se terão modificado por invenção da escrita, e se as possibilidades da imprensa por certo influíram no “estilo” de usar-se esteticamente a linguagem, o valor oral e escrito do signo linguístico não deixou de permanecer o que essencialmente era: a forma de comunicar uma informação ou uma experiência, mediante combinações convencionalmente representativas da realidade. A “escrita” das outras artes não é o seu mesmo meio. Esta essencial diferença, se bem que não autorize uma noção de progresso das artes, patenteia que este, num sentido elementar, ou mesmo complexo, não pode existir na criação literária: o que pode existir é a exploração de possibilidades combinatórias que a linguagem sempre possuiu.»

Luís Adriano Carlos
Em Fenomenologia do Discurso Poético
Ensaio sobre Jorge de Sena

terça-feira, 18 de maio de 2010

Um poema de Sylvia Beirute - Cluster




























CLUSTER

e na luz inadequada se move o teu corpo como
algo por dizer,
projectante sem confundir o interior da mão
com um rosto que baixou ao subsolo do silêncio.
e imaginarás algo.
e pegarás no teu ponto. na tua vírgula.
gritarás um verso sem que as palavras individuais
o notem, o oiçam a perfurar o seu
próprio verbo.
e arremessando esse ponto, e essa vírgula, ambos
em direcção ao céu introspectivo e especulativo
das cores que lhe concretizam a profundidade, ganharás
tempo; tempo para que o verso se espalhe a partir
do seu gomo infindável,
contamine o eco difuso da mão de vidro, guarde
o bom-senso de um revólver que espera atento
a morte que falta a um corpo.
e não tarda regressarão caindo com a mesma força
que aquela que usaste para cima: o teu ponto magnífico,
a tua vírgula com material e forma de lupa,
como pregos por cima do teu verso com
formato de raio e cuidado, com laringe de flecha e erro,
com lisonjeio sobre o tempo invertebrado.
quando caírem sobre ti, sobre o teu regresso íntimo,
saberás por onde continuar, e sobretudo: onde parar.

Sylvia Beirute
inédito

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Fernando Aguiar e a poesia enquanto Arte

A poesia deveria ser arte. Arte Poética. Só assim concebo um Poema. Mas é-o muito raramente. A poesia, para ser efectivamente Poesia, tem que considerar não apenas a emoção e a metáfora, mas também os aspectos sonoros e estruturais do poema, assim como a sua expressão estética. Considerando que o Poema comunica pelo seu conteúdo, mas também pela sua forma, este aspecto, descurado pela maioria dos poetas, deve ser sempre tomado em atenção para que o poema o seja na sua plenitude. Os poetas concretistas sabiam-no. A maioria dos poetas visuais também o sabe. Infelizmente a grande parte dos poetas verbais descuram quase sempre a sonoridade, a estrutura das palavras, as rimas internas, e apegam-se sobretudo à criação de metáforas que traduzam o seu estado de alma. O que até pode ser muito “poético”, mas não é com certeza muito artístico. E não sendo arte não é, para mim, Poesia. O Poema tem que ser elevado a obra de arte.

                                                                                              Fernando Aguiar

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Aperitivo literário

aceitei o repto do renato suttana e autorizei a disponibilização de um pequeno livrete electrónico com alguma da minha poesia inédita. para aqueles que me pedem um livro, aqui vai o aperitivo.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Um poema de Adriano Narciso - Poema Ready-made

























POEMA READY-MADE

Aspergi um poema com uma colher de café
com leite
E o poema (sem
qualquer tipo de pretensiosismo) ficou imaculado
um acto tão mecânico como um espirro deu-lhe uma aura.
Um Néon num fundo branco no século XVIII (que novidade, que intransigência
quase como igrejas antes de haver casas)
Tudo no poema eram imagens seculares,
Um poema com café
Matéria em matéria em matéria
Repetição, como uma obra de arte é, repetida
sempre com conotação beatífica.
um poema com acessório é um poemacessório
Um poema com um brinco é nicho. Os nichos ajudam à
Metafísica. Quem lê agradece, quem escreve esquece.

inédito

Apontamentos

acabei de ver o filme "em carne viva", de pedro almodóvar. aconselho.

acabei de ver um poema meu com: um fundo negro, letras a laranja, e uma imagem não escolhida por mim. a combinação destes três factores deu à minha leitura, posso dizer com segurança, um sentido substancialmente diferente do primitivo.

ps: é possível que a influência do filme seja um quarto factor, mas, por enquanto, ainda não estou certa disso. 
 

quinta-feira, 6 de maio de 2010

A Energia na Poesia de Herberto Helder


























A ENERGIA

A «energia», enquanto vocábulo presente na obra de Herberto Helder, tem uma assiduidade relativamente reduzida. Porém, a sua capacidade de representação ultrapassa os limites do vocábulo e concretiza-se violentamente na osmose entre todas as palavras do verso, no transbordar dos sentidos de palavra para palavra, na relação semântica absolutamente imprevista, na própria hifenização e translineação do verso, na combinação entre versos longos e brevíssimos (por vezes compostos por uma ou duas sílabas de uma palavra). Para além dessa relação aparentemente forçada dos vocábulos, a sua selecção num espaço primário - na medida em que normalmente se encontram os referentes associados a relações com o corpo e com a terra - reforça a imagem de pura energia, de violência, de um contacto bruto com as coisas, de modo a conviver com esse excesso de vida que ainda não foi diluído no sentido culturalmente correcto que procura sempre homogeneizar e não distinguir.

João Amadeu Carvalho da Silva
em A Poesia de Herberto Helder -
Do Contexto ao Texto: uma palavra
sagrada na noite do mundo
Fundação Calouste Gulbenkian

terça-feira, 4 de maio de 2010

Um poema de Sylvia Beirute - Cidade-ponto
























CIDADE-PONTO

                {ao tiago gomes, com amizade}

não escrevi um livro em miniatura sob uma lupa falsa.
não pedi qualidade aos clássicos.
não pretendi reparar a eficácia de qualquer sistema humano.
não endossei poemas porque os poemas não são cartas.
não tenho um cativeiro de poetas.
não visitei cidades-poema.
não segui preceitos que se vejam.
não azuleci por pertencer ao céu.
não tive ilusão e coragem para crer na desistência.
não escrevi que o fingimento pode ser um ódio com casca.
não tenho maneiras puramente estéticas.
não tenho processos literários.
não tenho dois corações.
não li masaoka shiki ou matsuo bashō.
não li a crítica para não perder a liberdade e o meu
dom impreparado.
não peguei no tempo e o atirei para dentro do corpo
como células estaminais.
não escrevi sobre a revolução industrial.
não respeitei o meu passado enquanto índice temático.
não estimulei diagnósticos de subtileza grosseira.
não recuperei emoções com a cabeça.
não coloquei questões delicadas no campo da poesia suprema.
não transferi permissões de mim para mim.
não imaginei versos paralelos para prender significados.

Sylvia Beirute
inédito

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Música: Caspian




Caspian é uma banda de post-rock*, natural de Beverly, Massachusettes. Editou os álbuns de estúdio  The Four Trees (2007) e Tertia (2009). O vídeo supra, com a faixa Ghosts of the Garden City, pertence a este último.


* género musical que faz uso de instrumentos geralmente presentes na música rock, mas com melodias e ritmo totalmente diferentes deste género musical e excluindo-se, na maior parte das vezes, o uso da voz