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segunda-feira, 22 de agosto de 2011

NIETZSCHE - O VALOR NATURAL DO EGOÍSMO

O egoísmo vale o que valer fisiologicamente quem o pratica: pode ser muito valioso, e pode carecer de valor e ser desprezível. E lícito submeter a exame todo o indivíduo para se determinar se representa a linha ascendente ou a linha descendente da vida. Quando se conclui a apreciação sobre este ponto possui-se também um cânone para medir o valor que tem o seu egoísmo. Se se encontra na linha ascendente, então o valor do seu egoísmo é efectivamente extraordinário, — e por amor à vida no seu conjunto, que com ele progride, é lícito que seja mesmo levada ao extremo a preocupação por conservar, por criar o seu optimum de condições vitais. O homem isolado, o «indivíduo», tal como o conceberam até hoje o povo e o filósofo, é, com efeito, um erro: nenhuma coisa existe por si, não é um átomo, um «elo da cadeia», não é algo simplesmente herdado do passado, — é sim a inteira e única linhagem do homem até chegar a ele mesmo... Se representa a evolução descendente, a decadência, a degeneração crónica, a doença (— as doenças são já, de um modo geral, sintoma da decadência, não causas desta), então o seu valor é fraco, e manda a mais elementar justiça que ele subtraia o menos possível aos bem constituídos. Ele não é mais do que o parasita destes...
em Crepúsculo dos Ídolos
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terça-feira, 16 de agosto de 2011

O TEMPO EXISTE COMO SE FOSSE UMA DANÇA - POEMA - SYLVIA BEIRUTE


























O TEMPO EXISTE COMO SE FOSSE UMA DANÇA

o tempo existe como se fosse uma dança,
há uma beleza intransigente
ao passar do dia
que se incorpora na morte
em contagem regressiva.
e então
para me iludir dei a volta à desilusão,
para me afastar dei a volta à vontade de parar,
para ser mãe dei a volta à casa das mães.
e nada se me correspondia.
a magnificência eram só palavras que
cresciam todos os dias,
a força comprimia todo o hermético,
as preferências procuravam uma condição melhor.
e tu disseste
seremos felizes como um raio de sol,
lento, iludido, magnífico;
há um rigoroso silêncio a manter,
a entrada é como uma escolha,
a forma é uma ilha que encanta demónios.
e depois um raio de sol pousou
na tua beleza intransigente,
na tua alma esperando o vento,
na dança que dissolvia o corpo no sangue.
e eu fechei os olhos
como um «muito obrigado e até sempre».
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Sylvia Beirute
inédito
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sexta-feira, 12 de agosto de 2011

MACEDÓNIA: ZORAN ANCHEVSKI - POEMA - MEIOVERSOS

























meioVERSOS

alguns meioDeuses em meioCírculos em meioEuropa
ficam por meioDia
meiaHora
na meiaEscuridão
no meioSonho
na meiaPaz

crescem entre
meiosEstados meioLegais

então meioMortos
meioLoucos
ficam-se pela entrega em meiaVoz
por meiasSoluções

para o meioBêbedo
o meioEducado
o meioPresente
mais mais zangado que nunca
eles estão:

meioSelvagens
meioCultos

ah,
meio -
meio -
tudo se divide em metades
meioViscerais.

Zoran Anchevski (1954, Skopje, Macedónia)
versão de Pedro Calouste

Um outro poema em português de Zoran Anchevski pode ser lido aqui com versão inédita de Luís Filipe Parrado.
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JAPÃO - POEMA - SYLVIA BEIRUTE



















JAPÃO

livre
do intervalo com ar de japão
e veludo,
o caos é o primeiro sedutor do alvo.
acordo umbilicalmente
e a dúvida
arde como estranha alquimia.
no primeiro riso
a explicação se deleita,
na primeira língua
a voz repousa como
se voltasse para trás.
estou livre do amor
e as palavras
interceptam apenas
a sua atmosfera.

Sylvia Beirute
inédito
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FOTOGRAFIA E TEXTO

FOTOGRAFIA E TEXTO

A fotografia tem desempenhado um papel importante no conceito deste blogue. É inegável. Uma boa fotografia pode impor uma determinada interpretação para a um texto. Os meus critérios de escolha são por vezes arrojados. A fotografia não representa fielmente a literalidade do texto. Por vezes até é o seu contraponto, a sua oposição, a sua negação. Porque também é assim que vejo a poesia. E é a poesia que verdadeiramente me interessa. A imagem é um acessório importante para provocar um efeito que pretendo. Nada mais. Gosto da poesia que respira em cada palavra. cada palavra como um centro gravitacional autónomo, com o poder de mudar o todo se nela nos detirvemos mais do que cinco segundos.

São interessantes as leituras que me vão chegando do meu livro "Uma Prática para Desconserto" (4Águas, 2011). Os poemas surgem necessariamente desacompanhdos de imagens. O que remete para a interpretação mais básica, mais literal, um pouco mais directa (o termo aqui é insultuosamente infeliz). Essa experiência tem-me feito regressar à génese, ao momento da sua redacção, ao seu sentimento. E que bom que tem sido.

Sylvia Beirute
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terça-feira, 9 de agosto de 2011

ELE VAI CHEGANDO ÀS LIVRARIAS



Vagarosamente (é Verão) ele vai chegando às livrarias. Chega-me a informação de que o meu livro "Uma Prática para Desconserto" (4Águas, 2011) já chegou à livraria Pó dos Livros, em Lisboa.

Claro que o livro pode ainda ser pedido, com gastos de envio oferecidos, na editora.
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TURQUIA: POEMAS DE NAZIM HIKMET





















VERA ACORDANDO

as cadeiras dormem nos seus próprios pés,
e assim também a mesa,
o tapete que está deitado de costas
fazendo refém o seu desenho.
o espelho dorme,
os grandes olhos das janelas estão bem fechados,
a marquise dorme com as suas pernas
de um lado para o outro, no ar, puro;
no telhado, em frente, dormitam também as chaminés,
bem como as acácias na calçada;
a nuvem dorme
com uma estrela cravada no peito,
a luz dorme aqui dentro
e lá fora
tu acordaste a minha linda rosa.
as cadeiras acordaram
e puseram-se a passear de lá para cá
juntamente com a mesa, com
o tapete que se sentou com uma erecção,
lentamente se despedindo das suas cores maiores,
como um lago ao entardecer.
e despertou o espelho,
as janelas abriram os seus grandes olhos azuis,
acordou a marquise
e pôs as pernas para dentro de novo.
no telhado em frente as chaminés faziam fumo,
as acácias na calçada cantavam alto.
a nuvem acordou e arremessou a estrela cravada no peito
para dentro do nosso compartimento,
a luz acordou aqui dentro e também lá fora
inundando os teus cabelos,
deslizando por entre os teus dedos,
abraçando a tua cintura nua
e estes teus pés
tão deliciosos e brancos.

Nazim Hikmet
tradução de Pedro Calouste

*

NOSTALGIA

passaram cem anos seu eu ver o teu rosto,
prender a tua cintura,
passar o dia nos teus olhos,
questionar a tua sapiência,
e estar próximo do calor do teu ventre.

passaram cem anos que uma mulher me espera
numa bela cidade.

nós, nós estávamos na mesma rama,
nessa mesma rama.
caímos dessa mesma rama e separámo-nos.
e hoje cem anos nos afastam,
cem anos de caminho.

hoje faz sem anos que
por entre a escuridão
eu a procuro.

Nazim Hikmet
tradução de Pedro Calouste


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POEMA - ANTÍTESE - SYLVIA BEIRUTE

























ANTÍTESE

prefiro a voz quando incompleta, quando
parece esvaziar, e não confirma horas.
há nesse esvaziamento muito de acessório de estilo,
muito de virtude transformadora,
muito de casal feliz esperando pacientemente
o amor.
e é necessariamente leve o resultado,
é um passado que se dissolve e se enche
de moradas póstumas, 
de respeitáveis silêncios que em si concentram 
todos os privilégios da solidão,
todas as crianças de força 
que habitam este mundo com citações francesas
aos olhos gordos.
a memória na voz é a coisa mais deliciosa do mundo,
a memória que se parece nivelar 
por aquelas cores
que continuamente se clareiam e contorcem
em direcção a um fim ou a um começo 
que não permanece.
o que sei: o que sei é que a minha voz emoldurada
na poesia perfurante das possibilidades
parece compreender a vida que nunca lhe alcançará 
a superação,  o seu espírito de ser muito mais,
muito mais que a sua forma.

Sylvia Beirute
inédito
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POEMA - MARIA COSTA - QUARENTA E UM ANOS

QUARENTA E UM ANOS

Mais lento o tempo
Um pequeno escritório que abre a janela
sobre a cidade
Lá bem ao fundo o tejo
De quando em vez pela manhã alguma gaivota traz o seu guincho
Uma secretária, uns tantos livros
Mais lento o tempo agora
As mãos criaram silêncio
e sobre o sulco da sua pele já se desenha a água do tempo
Muito mais lento o tempo agora
O mar passou a ter outro encanto no inverno
A música é um lugar ébrio cada vez mais procurado
As leituras são mais saboreadas como quem toma um requintado chá
O amor, o exacto amor chegou agora, profundo e puro
desapegado de tudo que não seja ele mesmo
Coisas poucas que o tempo ensina com enternecimento
Coisas poucas que nos aguardam com um abraço
Coisas poucas que necessito já para viver
Coisas poucas como este simples poema 

Maria Costa
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sexta-feira, 5 de agosto de 2011

O VERDADEIRO POEMA DE AMOR

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

COISAS


Chega-me a informação de que o meu livro já está a caminho de algumas livrarias, tendo  já chegado ao Pátio de Letras, livraria em Faro.
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POEMAS PARTILHADOS EM PORTUGUÊS E ESPANHOL

É o que faz a María Alonso Seisdedos no seu blogue, com traduções muito boas. Aproveito para agradecer o destaque dado ao meu livro "Uma Prática para Desconserto". A poesia sobrevive.
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ROSA ALICE BRANCO - POEMA - SEM LIVRO DE RECLAMAÇÕES


























SEM LIVRO DE RECLAMAÇÕES

No princípio era o verbo
e agora ninguém responde.
O marido, a amante, a família e os amigos,
todos alinhados sobre as campas.
Começam pela oração ou o correspondente laico
e logo passam às súplicas e aos subornos.
Os cemitérios são repartições públicas.
Por isso não há respostas.
Há noites mal dormidas pelas razões erradas.
Esta noite a cama tremeu três vezes. Os teus balbucios
na minha boca. A tua pele húmida. Sou o teu epitáfio?
A família e os demais continuam a acorrer aos balcões
sem os formulários preenchidos.
Os mortos já não pertencem às respostas.
Qualquer adjectivo apodrece como as flores.
Qualquer frase se decompõe sem sujeito.
Sou apenas uma tatuagem na tua campa.
No princípio era o fim.

Rosa Alice Branco
em Gado do Senhor
&Etc, 2011
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