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terça-feira, 30 de agosto de 2011

UM DIA TRISTE - POEMA - SYLVIA BEIRUTE

























UM DIA TRISTE

eu sei o que é
o que é senti-lo
a que sabe
que cor apresenta nos dias tristes
sei quantas vezes aparece
sei que recolhe a neblina
e olha para mim como se eu fosse alguém
que desse aulas de coração
nas impressões de encantamento
no esquecimento profundo
eu sei que a sua boca é um caderno
invisível
que a sua pós-adolescência
é geograficamente
descomprometida com qualquer
outra coisa outra razão
eu sei que imagina o trânsito e
de certa forma o reproduz
e simula em mim
eu sei as suas maneiras 
de estrutura e organismo natural
avançando para o corpo subliminar
simultâneo de outro mais inteiro
eu sei as suas raparigas e os seus rapazes
retratando o mundo suburbano
com a palavra crise e a palavra desimportância
e eu sei o que é
o que é senti-lo
a que sabe
que cor apresenta nos dias tristes.

Sylvia Beirute
inédito
.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

POEMAS DE "UMA PRÁTICA PARA DESCONSERTO"



O José Mário Silva, no Bibliotecário de Babel, publica quatro poemas do meu livro Uma Prática para Desconserto (4águas, 2011). Agradeço a gentileza.
.

sábado, 27 de agosto de 2011

NUNO JÚDICE - DOIS POEMAS




A PROVA DO HUMANO

Quem terá notado o gesto subtil do velho quando,
ao enrolar o tabaco, limpou o indicador cheio de cuspo
no tampo da mesa? Ali, há exactamente dois dias,
sentara-me eu a escrever reflexões religiosas e um canto
filosófico; depois, cansado do trabalho mental,
desenhei a lápis duas ou três figuras na madeira gasta.
Agora, os restos de café e a saliva dos velhos transformam
esses desenhos banais em peças
de uma autêntica mitologia.
O fumo do tabaco envolve-os como se fosse uma névoa antiga
e as palavras trocadas, a meia voz,
pelos ocasionais frequentadores daquele canto
lembram-me esconjuros, maldições, ou apenas
a invocação de algum espírito transitório.
Assim, não posso passar sem ir, uma ou duas vezes por dia,
àquele sítio: observar um culto que, inconscientemente,
iniciei; e também ouvir o velho Baco
cujas histórias me dão sede e sono.
Mas que fazer nesta cidade de província,
no inverno, à parte ouvir os velhos
ou inventar histórias, enquanto se bebe café
e aguardente?

Nuno Júdice
em Crítica doméstica dos paralelepípedos, 1973

*

SUL

Tudo, ali, é simples e complexo: a luz,
a solidão, o olhar que se comove com o cair
da noite e com o nascer do dia; e, até,
os risos de mulheres que se ouvem desde longe,
trazidos pelo ar cuja transparência se sente
na própria respiração. No entanto, debruço-me
da varanda e dou por que algo se oculta,
para além dos muros e dos quintais, e chama
por mim sem que eu possa responder. Então,
volto para dentro: preparo o café; e
enquanto a água ferve o mistério desaparece,
inútil e excessivo, no início da tarde.

Nuno Júdice
em As regras da perspectiva, 1990
.

CASIMIRO DE BRITO - DOIS POEMAS



DO POEMA

O problema não é
meter o mundo no poema; alimentá-lo
de luz, planetas, vegetação. Nem
tão-pouco
enriquecê-lo, ornamentá-lo
com palavras delicadas, abertas
ao amor e à morte, ao sol, ao vício,
aos corpos nus dos amantes -

o problema é torná-lo habitável, indispensável
a quem seja mais pobre, a quem esteja
mais só
do que as palavras
acompanhadas
no poema.

Casimiro de Brito
em Telegramas, 1959

*

A PAZ

Se eu te pedisse a paz, o que me darias
pequeno insecto da memória de quem sou
ninho e alimento? Se eu te pedisse a paz,
a pedra do silêncio cobrindo-me de pó,
a voz limpa dos frutos, o que me darias
respiração pausada de outro corpo
sob o meu corpo?
Perdoa-me ser tão só, e falar-te ainda
do meu exílio. Perdoa-me se não te peço
a paz. Apenas pergunto: o que me darias
em troca se ta pedisse? O sol? A sabedoria?
Um cavalo de olhos verdes? Um campo de batalha
para nele gravar o teu nome junto ao meu?
Ou apenas uma faca de fogo, intranquila,
no centro do coração?
Nada te peço, nada. Visito, simplesmente,
o teu corpo de cinza. Falo de mim,
entrego-te o meu destino. E a morte vivo
só de perguntar-te: o que me darias
se te pedisse a paz
e soubesses de como a quero construída
com as matérias vivas da liberdade?

Casimiro de Brito
em Jardins de Guerra, 1966
.

ALLEN GINSGERG - UM MINUTO DE SILÊNCIO



Publiquei neste blogue os poemas O Uivo e Improviso em Pequim, ambos de Allen Ginsberg.
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666 Seguidores?

Cuidado que agora tenho, pela contabilidade blogger, 666 seguidores.
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quinta-feira, 25 de agosto de 2011

ANA DE AMSTERDAM - I-PHONE

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
I-PHONE

Conheço um casal feliz. Digo-o, a sério que o digo mesmo, sem ponta de sarcasmo. Nunca discutem. Vivem em perfeita harmonia, sem preocupações ou arrelias. Têm uma vivenda em caxias, profissões de sucesso, uma empregada interna, que se chama Bela e é muito competente, faz lasagna de beringela e pinhões, saladas de melancia e hortelã, têm dois filhos, um cão e dois gatos persas, a Amélia e o Zorba. Viajam todos os anos. Tratam-se um ao outro por amor. Amor, diz ela e a voz fica macia, como um novelo de lã. Amor, diz ele e vê-se que há ali um misto de doçura e lascívia, um desejo carnívoro de a tomar, corpo todo, quando a vivenda repousa. Fizeram anos há pouco tempo. Ele ofereceu-lhe um i-phone. Ela, exactamente passado um mês, na festa de aniversário que lhe preparou, também lhe ofereceu um i-phone. É tão bom quando um casal se conhece assim, do avesso.

Ana Cássia Rebelo
lido no blogue Ana de Amsterdam

MANOEL DE BARROS - DOCUMENTÁRIO - SÓ DEZ POR CENTO É MENTIRA



O poeta Gavine Rubro publica o documentário Só Dez Por Cento É Mentira sobre Manoel de Barros, poeta do Pantanal.

O mesmo poeta publicou no seu blogue uma pequena entrevista que dei há tempos a uma revista, ainda antes de lançar o meu livro, Uma Prática Para Desconserto. Se alguém tiver paciência...
.

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TOM WAITS - BAD AS ME



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quarta-feira, 24 de agosto de 2011

NATASCHA KAMPUSCH - POEMA - SYLVIA BEIRUTE

























NATASCHA KAMPUSCH

vento de novembro.
no bunker um ano espreita as raízes de todos os outros.
o tempo passa murmurando todo o passado
incrustado na montanha.
a cabeça começa a faltar ao corpo
e todos os membros encontram as suas ilhas
em direcção à obediência.

no bunker as sombras começam a inexistir,
declarando interesses que fogem;
a vida neva com palavras
que contradizem tudo a que pertenço, per-
guntas que arrasto como armários, silêncios
encontrando acomodação superior.

no bunker eu penso fugir e as cores quebram.
todas as portas e frinchas
descobrem o rosto do mesmo agressor.

vento de novembro.

Sylvia Beirute
inédito
.

BRASIL: EUNICE BOREAL - POEMAS



















A poesia fugiu do papel

Saltou aos olhos em câmeras e bits
Criou formas com sprays e mármores
A poesia trocou a métrica
Pela coreografia
E ganhou as teclas rompendo os jornais
A poesia agora só canta em teatro
É a maestrina titular
Que de olhos atentos
Rege outras formas.

A poesia que já reinventou o poema
Agora só reinventa a vida.

*

Tecnilofágico

não há hi-tech
que tecnifique
o suspiro do haikai
por isso não faço poemas
imprimo almas nos dedos


*


Hiperlink

Eu sou tudo aquilo que acesso
Em mil possibilidades é você que encontro
Palavra chave ou palavra força
E em toda a folha que se reafirma
Talvez haja um ser que nasça
Em todo espiral que se anuncia

Ou talvez seja ela
Fonte do mundo
Que inventa o ser
Que se vira no mundo

Ela:
Toda a palavra, em meio a tudo.

Eunice Boreal


Eunice Boreal nasceu em 1984. É poeta e exerce o ofício de artista multimídia. Estuda idiomas, cursa Música Erudita na EMAN, o Bacharelado de Filosofia, e publica regularmente no blog: http://eunasce.blogspot.com/
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terça-feira, 23 de agosto de 2011

LUCIANO GARCEZ - POEMA - TIJUCA














TIJUCA

um parque feio cercado de um gradeado disforme
na praça Saens Peña.

pisar onde se pisou leve antes
não é dor
é desespero parido por cada poro - implosão prenhe
não é dor
é uma alucinação decodificada X e Y e Z e que cataloga-se
no infinito de nossas já sabidas imperfeições
vícios por tudo
e ainda assim, sem arredar o pé de ser alucinação...

onde, caro mio ben, dove, dove, dove?
http://www.youtube.com/watch?v=u8xjFUViTzo

dove sei
amato bene?
ir embora é uma lua que vai murchando para dentro de si
até que a cicatriz diz cínica e sorri:
(mas nós nem percebemos o riso)
- "fui Lua..."

Tijuca das feiras de artesanato de bairro
chove em sua praça gasta
e a chuva à mim não toca sequer
há gotas de suor mais convincente babando pelo olhar
frio suarento amniótico salivar.

lamento dizer-lhe, chuva obstinada
o desespero me fez membro honorífico do grito líquido e úmido de sua tinta
- goteja-me lá no fundo da boca de lobo
tua indiferença de carbono
de carne
de antes
de nada.

Luciano Garcez
(lido no blogue De Chaleira)

PS: abrir o link contido no meio do poema, que contém uma ária de Handel que é a própria essência do poema - e de minha vida.
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MUAMAR KADAFI E A "DEMOCRACIA"

É antidemocrático um Parlamento ter poderes para fazer as leis.

Muamar Kadafi