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segunda-feira, 31 de outubro de 2011

JOÃO RUI DE SOUSA - POEMA - O RELÓGIO DA AMIZADE




















O RELÓGIO DA AMIZADE

Em cada relógio há sempre um amigo
que nos acorda, que suavemente nos percorre
os interstícios da alma, que nos assombra
com sinais discretíssimos de fraterna luz
ou que nos deixa, mesmo em minuto frágil,
um arco triunfal com tâmaras de afecto.
Nesse relógio há um lírio comestível
ou uma plena árvore com seus braços
de deslumbre, ou a mais ínfima erva
que por ele sobrevive à estrondosa queda
do granizo, à dissolução (inevitável) de casas
e areias, e mesmo ao advento da loucura.
É sempre tal relógio um rio profundo
onde a cor dum sol cheio, tantas vezes
reposto, tantas vezes presente em acenar
de címbalos e de búzios, pode acordar
em tons de uma aridez sombria, pode
deixar-nos tristes, sós e desolados,
numa gruta de horror frente ao deserto
- num recanto de sono e desalento.
Nesse amigo de sempre, um tal relógio
- com seus ponteiros de murta ou de veludo,
que saltam como lebres sobre as horas
ou são nichos de abrigo e cestos de avelãs –
é puro movimento e azul que estremece
o fio de cada dia, o voo do coração.
Mesmo em zonas de fogo e exaltação,
nesses lugares de praia mais sensíveis
(como o esplendor do corpo em combustão,
como o fremir da vaga e do desejo),
existe tal relógio, ó engrenagem mágica,
ó tiquetaque nítido, tão cúmplice.

João Rui de Sousa
em Revista Cultura Entre Culturas n.º4 
(Outubro de 2011)
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sábado, 29 de outubro de 2011

JORNAL RELEVO (BRASIL)

Quando se lembram de mim participo  em revistas e jornais literários, maioritariamente em Portugal e no Brasil. Esqueço-me muitas vezes de dar aqui o seu feedback. Há pouco um leitor brasileiro recordou-me desta participação e vi que, além do jornal em papel, o Relevo também está disponível em formato digital. Aqui fica.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

LER O JORNAL MATA

Temo seriamente pelos bancos portugueses e em geral por quem vive no país dos brandos costumes. E há algo de tão errado com este sistema capitalista...
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terça-feira, 25 de outubro de 2011

ORAÇÃO DE GRATIDÃO - POEMA - SYLVIA BEIRUTE

























ORAÇÃO DE GRATIDÃO

há toda uma gratidão em aceitar o universo.
todas as pequenas coisas formam uma grande coisa.
há um parentesco desconhecido entre todo o conhecido.
o meu mundo tem ligação directa aos deuses.
há uma força da natureza que age na raiz das constelações.
há um erro que me pensa a fim de me construir.
há uma maneira de aproximar e que me dá todas as matérias.
e todas as matérias são feitas de paz, luz e bons espíritos.
há um compromisso e uma responsabilidade de mim para mim.
o meu dia é a minha caneta, o meu papel.
e no final do dia o universo requer um pensamento
que absorve palavras absolutamente inteligentes
e que o resumem na noite brilhante.
esse pensamento é a devolução do dia em forma
de energia para o sonho seguinte, o dia seguinte, 
um novo passo, um novo começo.
há uma renovação constante em mim
na maneira de me dar e de me devolver.

Sylvia Beirute
inédito de 22 de Março de 2001
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segunda-feira, 24 de outubro de 2011

DECLARAÇÃO

e como é bom respirar.
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sábado, 22 de outubro de 2011

D. H. LAWRENCE - POEMA- A INDECÊNCIA PODE SER SAUDÁVEL

























A INDECÊNCIA PODE SER SAUDÁVEL

A indecência pode ser normal, saudável;
na verdade, um pouco de indecência é necessário
em toda vida para a manter normal, saudável.

E um pouco de putaria pode ser normal, saudável.
Na verdade, um pouco de putaria é necessário em toda vida
para a manter normal, saudável.

Mesmo a sodomia pode ser normal, saudável,
desde que haja troca de sentimento verdadeiro.

Mas se alguma delas for para o cérebro, aí se torna perniciosa: 
a indecência no cérebro se torna obscena, viciosa, a putaria 
no cérebro se torna sifilítica
e a sodomia no cérebro se torna uma missão,
tudo, vício, missão, insanamente mórbido.

Do mesmo modo, a castidade na hora própria é normal e bonita. 
Mas a castidade no cérebro é vício, perversão.
E a rígida supressão de toda e qualquer indecência, putaria 
e relações assim leva directo à furiosa insanidade.
E a quinta geração de puritanos, se não for obscenamente 
depravada, é idiota. Por isso, você tem de escolher.

D. H. Lawrence
Tradução de José Paulo Paes
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sexta-feira, 21 de outubro de 2011

WOOK.PT


Mais para os amigos do Brasil que queiram comprar o meu livro: ele está no wook.pt, livraria da Porto Editora, e com desconto.
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quarta-feira, 19 de outubro de 2011

MEIA-NOITE EM PARIS, DE WOODY ALLEN



Há acasos e coincidências muito interessantes. Tenho notado que muita gente tem entrado neste blogue à procura de algo sobre Gertrude Stein, facto que me intrigava. Porque raio todos se tinham lembrado agora da Gertrude Stein, quando nem é assim tão conhecida na lusofonia? Durante dias pensei nesse facto. Até que vi o filme Meia-Noite em Paris, de Woody Allen, em que aparece esta poetisa americana que tanto admiro e de quem falei um pouco aqui no Uma Casa em Beirute. Não posso estar cem por cento certa de ser esta a correlação, mas parece-me bem provável. Pelo menos, não vejo outra. Se alguém vir, que diga. Mas adiante. Aproveito para aconselhar o filme. Tenho a certeza que os amantes da literatura vão gostar especialmente dele. Na cena podemos um ver um Ernest Hemingway, com uma esplêndida interpretação, Fitzgerald, entre outros escritores e artistas que usaram Paris como inspiração na sua arte, tendo vivido nesta cidade.

Outra coisa muito interessante, e que os curiosos da Lei da Atracção talvez pudessem explicar, é o facto de há uns bons anos eu ter escrito um poema com o título Meia-noite em Paris, sem tirar nem pôr. Pedi a alguém muito especial que o encontrasse e, depois de algum esforço, deu-se um Voilà! Com todas as falhas e incongruências de uma idade mais tenra, aqui vai:

MEIA-NOITE EM PARIS

meia-noite em paris.
a minha meia-noite em paris pretende alcançar
as asas do meu silêncio.
não reclama qualquer ferida alheia, não
ostenta o seu coração giratório.
há um pássaro que reconhece um 
momento menos sóbrio
e pousa, há uns olhos que permanecem
intactos e não olham.
é meia-noite em paris, ainda que a cidade
seja outra. e esta cidade é, de facto, outra.
o amor acende as luzes do medo.
as janelas do tempo recebem a ventania
que as sombras já não seguram.
há uma tristeza descoordenada nas imagens
dos espelhos que paris augura.
meia-noite em paris. a verdade 
é directamente arrancada do coração
e com ele.

Sylvia Beirute
inédito
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ENCONTROS IMEDIATOS COM A MATEMÁTICA na «POETRIA»



"Encontros imediatos com a Matemática" / Workshop para crianças dos 6 aos 10 anos


A Matemática não deve ser "uma pedra no caminho". Pode ser, antes, um rio ameno e navegável, uma brisa suave entre neurónios curiosos, uma floresta encantada de segredos a desvendar. Pode até ser Poesia...


«Uma música para dançar» é um conto matemático. Utiliza uma linguagem poética que permite, partindo do sonho e do exercício da fantasia, a reflexão e a produção criativa sobre conceitos matemáticos – após serem discutidos com o rigor que esta disciplina requer.


Animadoras: Eugénia Soares Lopes e Susana Correia

Faixa etária: dos 6 aos 10 anos (podem ser acompanhados por pai/mãe ou avô/avó)


Data: 22. Outubro. 2011, das 16 às 18h.

Local: Espaço Anémona - Trav. de Cedofeita, 62 - Porto

Preço: € 15,00
Informações: 968707303

POETRIA

www.livrariapoetria.com
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terça-feira, 18 de outubro de 2011

ANTIRUBRIOGRAFIA - POEMA - GAVINE RUBRO

























ANTIRUBRIOGRAFIA

sou tão biografável como uma ervilha violeta.
uma espécie de legume do qual existem mais de seiscentos conjuntos verdes.
de mim o que há a dizer é que sirvo para tanto como um garfo
que sou tão grande como um circulo
e que existo nas gotas de chuva.

sou tão biografável como uma peúga
porque sou uma peça de roupa com pele que vai para lavar todos os dias
que estriça e minga
e mesmo assim prefiro andar descalço: já há aqui algo meu, descaí-me

andar descalço pelo alcatrão sujo das noites
ver nas pestanas a industrialização do assentimento
e dentro dos meus ouvidos vive um elefante-bebé.

tão biografável quanto uma folha
estática elástica e plástica para o chão,
tão biografável quanto um coral
e um fósforo aceso até ao preto da madeira.

potável como o vermelho
estátua como um comboio
independente como um peixe
isto nada e tudo isto:
tão etéreo e vivo
como um poema.

Gavine Rubro
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segunda-feira, 17 de outubro de 2011

SONDA ESPIRITUAL - POEMA - SYLVIA BEIRUTE



















SONDA ESPIRITUAL

às vezes as coisas não correm bem. há meia hora atrás tentava escrever algo. 
sem sucesso. agora escrevo por cima. bem, não propriamente por cima, uma vez 
que estamos no mundo do digital, o que nos dá a liberdade de empurrar texto. e é isso que faço. em baixo tenho um texto primitivo em verso. fala numa sonda espiritual, algo mais vivo que um espírito. tem palavras como nicho, arma, orgulho e bala. usa o verbo disparar. diz que disparar é uma forma de partilha. dito assim alguém ficará a pensar no que se perdeu. escrito assim eu valorizo o meu fracasso.

Sylvia Beirute
inédito
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terça-feira, 11 de outubro de 2011

O POEMA ENQUANTO PARTE NÃO INTEGRAL

é como se o poema em parte não fosse meu, entendes? é como se parte dele fosse meu e a outra parte fosse dele mesmo, do poema enquanto matéria, enquanto unidade independente. é como se houvesse uma luta entre essas duas metades. e o leitor não sabe. o leitor apenas diz que os meus poemas são frios quando se quer referir a esta especial distância que aqui confesso. os poemas unificam fraquezas, lados de nós que não dominamos. e é apenas isso. nada mais.

Sylvia Beirute 
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