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domingo, 6 de novembro de 2011

DIANTE DO MUNDO - POEMA - SYLVIA BEIRUTE
























DIANTE DO MUNDO

diante do mundo,
ele exclui a fuga possível, a numeração
das palavras
como soma da simplicidade. é impossível 
recordar
quando se ouve outra música.
(a distância é uma garrafa que tenho
na barriga).
diante do mundo, ele procura o silêncio
dentro da legibilidade.
e os dias são os mesmos,
excepto a sua removabilidade,
excepto a susceptibilidade de podermos tirar
uma coisa e depois outra e outra
e outra.
daqui a pouco, diante do mundo,
direi o indizível
com as palavras que ele me tirou
(e que aparecem na minha garrafa)
e será ainda e sempre
diante do mundo, na nudez que o observa
igualmente.

Sylvia Beirute
inédito
.

GISELA RAMOS ROSA - POEMA - QUANDO NASCI VOLTEI A REAPRENDER A TRADUZIR O MUNDO

























Merece muita atenção a poesia de Gisela Ramos Rosa, sobrinha do poeta António Ramos Rosa, grande vulto da poesia portuguesa e do mundo.

QUANDO NASCI VOLTEI A REAPRENDER A TRADUZIR O MUNDO

Quando nasci voltei a reaprender a traduzir o mundo maior em que nascia e aquele
primeiro mundo pele de minha mãe,

Era a luz voltando a entrar em relevo pelos olhos sem que
a memória anterior se tivesse extinguido

tradução e agenciamento, fluência e água amadurecendo a observação
reintegrei os gestos as formas e abri um aqueduto livre no coração
onde guardei em segredo imagens originais

compreendi que na folha em branco os espelhos se podem confundir
com a rigidez do olhar onde as pedras se fixam,
assentei o verbo na tradução das manhãs anteriores
da primeira pele descobrindo as camadas do Livro
com o brilho inquieto do real sobre as mãos

Gisela Ramos Rosa
inédito lido no blogue A Linguagem dos Rostos
.

sábado, 5 de novembro de 2011

RÚSSIA - GUENNÁDI AÏGUI - POEMA - MAIS UMA VEZ NA NEVE

























MAIS UMA VEZ NA NEVE

e então trauteias uma canção e eu me afasto
lentamente na neve (é como no passado: o corpo
que se evapora na penumbra,
em qualquer lugar cada vez mais distante);
uma tábua de madeira partida está lá fora,
lá entre o que sobrou
de uma cabana abandonada (cantando, sussurrando,
e chorando há muito tempo - e ao que parece
isso para a felicidade é bastante) e mais ao longe
a floresta
como
nos meus sonhos
abre-se - e começas a cantar
(embora fosse já indesejável,
uma vez que tudo acabaria)
tu prossegues cantando
(amadurecemos como uma eternidade profunda
que resplandece já sem nós)
tu continuas
cada vez mais surdamente
a cantar

Guennádi Aïgui
Versão livre de Pedro Calouste
a partir do francês


ELBERT HUBBARD

Foi sempre um mistério para mim o facto de as pessoas gastarem tanto tempo enganando-se deliberadamente a si mesmas, fabricando desculpas de modo a encobrirem as suas fraquezas. Caso fosse usado de uma outra forma, esse tempo serviria para curar essas fraquezas e aí já não seriam necessárias essas desculpas.

Elbert Hubbard

LUGARES-COMUNS

























LUGARES-COMUNS

O problema das coisas simples é que se tornam, mais tarde, lugares-comuns. No outro dia lia uma entrevista dada por Pedro Pinto (conhecido jornalista português e que está a ter uma carreira extraordinária na CNN - agora em Londres) em que este dizia que temos todos de dar as mãos, trabalhar mais e, sobretudo, trabalhar em conjunto. Claro que todos nós já ouvimos isto dezenas de vezes. E tantas vezes que é o tipo de discurso que quase entra por um ouvido e sai pelo outro. Mas são as coisas simples, as coisas de base (estes lugares-comuns) que fazem cada vez mais sentido, especialmente numa época de crise. Creio que falta, de facto, que muita gente com responsabilidades se sente à mesa e diga: "o tema da nossa reunião é: como é que podemos produzir mais? Como é que podemos criar riqueza?". E o problema (e a inércia irrita ainda mais) quando vemos comissões parlamentares de inquérito como aquela que trouxe o ex-secretário de estado Paulo Campos ao Parlamento para discutir algo que não aquece nem arrefece aos portugueses. Será que aqueles parlamentares que lá estiveram a debitar perguntar e em acções de pseudo-indignação (veja-se o caso do Bloco de Esquerda que até abandonou a sessão, e o Partido Comunista que próximo disso ficou) não tinham mais nada com que ocupar o tempo? Onde é que está o apoio à indústria? Que programas existem? Onde estão os apoios, especialmente a nível fiscal, que façam com que as nossas empresas consigam sobreviver? O que se está a fazer para manter ou aumentar os números do nosso turismo?
Há que voltar aos bons lugares-comuns. Encetarmos uma nova forma de fazer política em Portugal. Darmos as mãos em prol de mais e melhores oportunidades para os nossos agricultores, os nossos empresários, os nossos cérebros (e não estimular a sua fuga, como a semana passada um secretário de estado do actual governo fez). Não vejo isso na política actual. Talvez a arte e os artistas tenham uma palavra a dizer neste estado de coisas. Vou pensar no assunto.

Sylvia Beirute
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COMO IMPLICAR A ÍNDIA NA CRISE EUROPEIA



















É ir a um restaurante indiano e pedir um "papandreou" e ver o que acontece.
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FUNCIONÁRIO PÚBLICO: VÍDEO

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

RIMBAUD NA CIDADE - POEMA - SYLVIA BEIRUTE

























RIMBAUD NA CIDADE

{ao Pedro Ribeiro, pela afinidade}

podemos encontrar um homem numa cidade
que se desenrola como uma conversa.
um homem que
toma uma decisão no meu affair, mas não interessa.
bem, a boa poesia sempre tornou os meus olhos
mais brilhantes {e isso interessa},
o meu entusiasmo levemente esquecido
como todas as coisas que se integram.
a minha lei sempre começou por se titular 
imediatamente por baixo dos meus pés.
bem, os meus pés parecem agora voar
no seu próprio raciocínio e intelecto, cobertos 
por algo inacabado, algo
que faz andar e, sobretudo, correr.
e há algo de mágico nestas três da manhã
de um dia tal em que traduzo e falo com rimbaud 
e invejo os amarelos de van gogh
{e isto também interessa}.
e umas mãos parecem superar o carácter
de uma permanência deslizante que contraria 
o seu primeiro e último instinto.
o meu affair é uma água súbita e sofrida
na memória cor de neve.
o meu amor é um balão e voa como o tempo
mais belo e significante.

Sylvia Beirute
inédito
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segunda-feira, 31 de outubro de 2011

JOÃO RUI DE SOUSA - POEMA - O RELÓGIO DA AMIZADE




















O RELÓGIO DA AMIZADE

Em cada relógio há sempre um amigo
que nos acorda, que suavemente nos percorre
os interstícios da alma, que nos assombra
com sinais discretíssimos de fraterna luz
ou que nos deixa, mesmo em minuto frágil,
um arco triunfal com tâmaras de afecto.
Nesse relógio há um lírio comestível
ou uma plena árvore com seus braços
de deslumbre, ou a mais ínfima erva
que por ele sobrevive à estrondosa queda
do granizo, à dissolução (inevitável) de casas
e areias, e mesmo ao advento da loucura.
É sempre tal relógio um rio profundo
onde a cor dum sol cheio, tantas vezes
reposto, tantas vezes presente em acenar
de címbalos e de búzios, pode acordar
em tons de uma aridez sombria, pode
deixar-nos tristes, sós e desolados,
numa gruta de horror frente ao deserto
- num recanto de sono e desalento.
Nesse amigo de sempre, um tal relógio
- com seus ponteiros de murta ou de veludo,
que saltam como lebres sobre as horas
ou são nichos de abrigo e cestos de avelãs –
é puro movimento e azul que estremece
o fio de cada dia, o voo do coração.
Mesmo em zonas de fogo e exaltação,
nesses lugares de praia mais sensíveis
(como o esplendor do corpo em combustão,
como o fremir da vaga e do desejo),
existe tal relógio, ó engrenagem mágica,
ó tiquetaque nítido, tão cúmplice.

João Rui de Sousa
em Revista Cultura Entre Culturas n.º4 
(Outubro de 2011)
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sábado, 29 de outubro de 2011

JORNAL RELEVO (BRASIL)

Quando se lembram de mim participo  em revistas e jornais literários, maioritariamente em Portugal e no Brasil. Esqueço-me muitas vezes de dar aqui o seu feedback. Há pouco um leitor brasileiro recordou-me desta participação e vi que, além do jornal em papel, o Relevo também está disponível em formato digital. Aqui fica.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

LER O JORNAL MATA

Temo seriamente pelos bancos portugueses e em geral por quem vive no país dos brandos costumes. E há algo de tão errado com este sistema capitalista...
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terça-feira, 25 de outubro de 2011

ORAÇÃO DE GRATIDÃO - POEMA - SYLVIA BEIRUTE

























ORAÇÃO DE GRATIDÃO

há toda uma gratidão em aceitar o universo.
todas as pequenas coisas formam uma grande coisa.
há um parentesco desconhecido entre todo o conhecido.
o meu mundo tem ligação directa aos deuses.
há uma força da natureza que age na raiz das constelações.
há um erro que me pensa a fim de me construir.
há uma maneira de aproximar e que me dá todas as matérias.
e todas as matérias são feitas de paz, luz e bons espíritos.
há um compromisso e uma responsabilidade de mim para mim.
o meu dia é a minha caneta, o meu papel.
e no final do dia o universo requer um pensamento
que absorve palavras absolutamente inteligentes
e que o resumem na noite brilhante.
esse pensamento é a devolução do dia em forma
de energia para o sonho seguinte, o dia seguinte, 
um novo passo, um novo começo.
há uma renovação constante em mim
na maneira de me dar e de me devolver.

Sylvia Beirute
inédito de 22 de Março de 2001
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