Subscribe

RSS Feed (xml)

Powered By

Skin Design:
Free Blogger Skins

Powered by Blogger

sexta-feira, 2 de março de 2012

O AMOR EM VISITA - POEMA - HERBERTO HELDER

O AMOR EM VISITA

Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.

Cantar? Longamente cantar,
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas,
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes
ele - imagem inacessível e casta de um certo pensamento
de alegria e de impudor.

Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.
Ah! em cada mulher existe uma morte silenciosa;
e enquanto o dorso imagina, sob nossos dedos,
os bordões da melodia,
a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
- Ó cabra no vento e na urze, mulher nua sob
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
mulher de pés no branco, transportadora
da morte e da alegria.

Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei.

E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,
cantarei seu sorriso ardendo,
suas mamas de pura substância,
a curva quente dos cabelos.
Beberei sua boca, para depois cantar a morte
e a alegria da morte.

Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro
pescoço de planta,
onde uma chama comece a florir o espírito.
À tona da sua face se moverão as águas,
dentro da sua face estará a pedra da noite.
- Então cantarei a exaltante alegria da morte.

Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.

- Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
- Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura.

Entontece meu hálito com a sombra,
tua boca penetra a minha voz como a espada
se perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra - invento para ti a música, a loucura
e o mar.

Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso,
a inspiração.
E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa.
Vou para ti com a beleza oculta,
o corpo iluminado pelas luzes longas.
Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos
transfiguram-se, tuas mãos descobrem
a sombra da minha face. Agarro tua cabeça
áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou
aquilo que se espera para as coisas, para o tempo -
eu sou a beleza.
Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem
teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada beleza.

Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua noite e loucura,
não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ti
principiam o mar e o mundo.

Minha memória perde em sua espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas cresceram como religião
sobre a vida - e eu nisso demorei
meu frágil instante. Porém
teu silêncio de fogo e leite repõe
a força maternal, e tudo circula entre teu sopro
e teu amor. As coisas nascem de ti
como as luas nascem dos campos fecundos,
os instantes começam da tua oferenda
como as guitarras tiram seu início da música nocturna.

Mais inocente que as árvores, mais vasta
que a pedra e a morte,
a carne cresce em seu espírito cego e abstracto,
tinge a aurora pobre,
insiste de violência a imobilidade aquática.
E os astros quebram-se em luz sobre
as casas, a cidade arrebata-se,
os bichos erguem seus olhos dementes,
arde a madeira - para que tudo cante
pelo teu poder fechado.
Com minha face cheia de teu espanto e beleza,
eu sei quanto és o íntimo pudor
e a água inicial de outros sentidos.

Começa o tempo onde a mulher começa,
é sua carne que do minuto obscuro e morto
se devolve à luz.
Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras
com uma imagem.
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito
de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade
uma ideia de pedra e de brancura.
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,
que te alimentas de desejos puros.
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,
a sombra canta baixo.

Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,
onde a beleza que transportas como um peso árduo
se quebra em glória junto ao meu flanco
martirizado e vivo.
- Para consagração da noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida com a tua.

Oh teoria de instintos, dom de inocência,
taça para beber junto à perturbada intimidade
em que me acolhes.

Começa o tempo na insuportável ternura
com que te adivinho, o tempo onde
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida
ingénua e cara, o que pressente o coração
engasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espírito,
boa será nossa carne presa e morosa.
- Começa o tempo onde se une a vida
à nossa vida breve.

Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna
salina, imagem fechada em sua força e pungência.
E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado
em torno das violas, a morte que não beijo,
a erva incendiada que se derrama na íntima noite
- o que se perde de ti, minha voz o renova
num estilo de prata viva.

Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como sol
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.
- E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das nuvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.

Se te apreendessem minhas mãos, forma do vento
na cevada pura, de ti viriam cheias
minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses
em minha espuma,
que frescura indecisa ficaria no meu sorriso?
- No entanto és tu que te moverás na matéria
da minha boca, e serás uma árvore
dormindo e acordando onde existe o meu sangue.

Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
- Eu devo rasgar minha face para que a tua face
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.

As águas que um dia nasceram onde marcaste o peso
jovem da carne aspiram longamente
a nossa vida. As sombras que rodeiam
o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto
seu bárbaro fulgor, o rosto divino
impresso no lodo, a casa morta, a montanha
inspirada, o mar, os centauros do crepúsculo
- aspiram longamente a nossa vida.

Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho, no mosto aberto
- no amor mais terrível do que a vida.

Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz
o perfume da tua noite.
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua
e branca das mulheres. Correm em mim o lacre
e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca
ao círculo de meu ardente pensamento.
Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.
Em cada espasmo eu morrerei contigo.

E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,
casa de madeira do planalto,
rios imaginados,
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas
maravilhosas da noite. Ó meu amor,
em cada espasmo eu morrerei contigo.

De meu recente coração a vida inteira sobe,
o povo renasce,
o tempo ganha a alma. Meu desejo devora
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma
de crepúsculos e crateras.

Ó pensada corola de linho, mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada, imponderável -
em cada espasmo eu morrerei contigo.

E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.

.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

ALGARVE - 12 POETAS A SUL DO SÉCULO XXI



Sairá em breve (ainda sem apresentações marcadas) a antologia de poesia Algarve - 12 Poetas a Sul do Século XXI (Editora Livros Capital), antologia que representa aquilo que alguns dos mais importantes poetas do Algarve (naturais ou adoptados) fizeram nos últimos anos. A antologia contempla poetas com obra de poesia publicada até à primeira década do século XXI e, para além de dez poemas por autor com respectiva biografia, tem ainda um ensaio crítico sobre cada poeta, ensaio esse escrito por outro poeta. Foi nesta modalidade que tive a honra de participar na obra, tendo escrito sobre a poesia de José Carlos Barros. Este é daqueles livros quase obrigatórios para quem gosta de poesia.  O prefácio é de António Carlos Cortez, poeta, professor e crítico literário.

Poetas antologiados:

.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

ANTOLOGIA DE POESIA: MEDITAÇÕES SOBRE O FIM - OS ÚLTIMOS POEMAS (HARIEMUJ, 2012)



Segundo o blogue Porosidade Etérea:

Está quase a chegar às livrarias a Antologia de Poesia "Meditações sobre o fim – os últimos Poemas" (os últimos poemas escritos antes da morte) da jovem editora Hariemuj, (dirigida por Maria Quintans e Vítor Marques da Cruz) e que contém poemas dos seguintes autores:
Alice Macedo Campos, Ana Hatherly, Ana Paula Inácio, Ana Salomé, António Gregório, Bénédicte Houart, Bruno Béu, Casimiro de Brito, Catarina N. Almeida, Cláudia Lucas Chéu, Duarte Braga, Filipa Leal, Hugo Milhanas Machado, Inês Fonseca Santos, Inês Ramos, Joana Jacinto, Joana Serrado, João Barrento, João Bosco da Silva, João Camilo, Joaquim Cardoso Dias, Jorge Menezes, Jorge Vicente, Leila Andrade, Maria do Sameiro Barroso, Maria Sousa, Nicolau Santos, Nuno Brito, Pablo Javier Pérez López, Pedro S. Martins, Raquel Nobre Guerra, Ricardo Tiago, Rodrigo Miragaia, Romério Rômulo Campos Valadares, Rui Almeida, Sylvia Beirute, Tiago Nené, Victor Oliveira Mateus. 
.

MÍNIMO - POEMA - SYLVIA BEIRUTE





















MÍNIMO

és um bocado do que te refizeste. coberto de deslumbres. com um grande deus que te sai pelas orelhas. não há medidas. há preenchimentos. preenchimentos e vazios. e vazios.

Sylvia Beirute
inédito
.

CENA CAMPESTRE - ANNA ENQUIST - POEMA

























CENA CAMPESTRE

A casa esperou por nós,
pensamos. O duplo renque de árvores
acena-nos que nos cheguemos. Num sussurro,
o rio vai escorregando cheio
entre as margens.

À hora exacta, o sol vai esconder-se
por trás dos campos. A escuridão
envolve a casa que nos protege.
Acendemos o fogo, bebemos
entre as paredes.

Vendi-me inteira à
segurança e debruço-me da janela.
Dormem cavalos e galos, a água
pisca o olho à lua, e eu a pagar,
sempre a pagar.


Anna Enquist
Rosa do Mundo – 2001 Poemas para o Futuro
Assírio & Alvim, 2001 
.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

ECLÉTICO AZUL - POEMA - SYLVIA BEIRUTE



























ECLÉTICO AZUL

quanto mais
quanto mais ainda menos
e o receio das palavras
de tentar ainda mais
ainda menos
um espelho de água
uns olhos frios
uma carne contra as notícias
quanto mais
quanto mais ainda menos
ir dormir
ir pedir razões ao subconsciente
ir nascer de uma ideia
não pensada
quanto mais
quanto mais ainda menos
ainda amanhecer na desculpa pendente
de grau superior
ainda pesar a metáfora e perder nela
a comparação
ainda calcular a cor e ver nela a dor
quanto mais
quanto mais ainda menos
ainda menos porque ainda mais
ainda mais mais.

Sylvia Beirute
inédito
.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

THE GIFT: BLINDNESS (DO ÁLBUM «PRIMAVERA», 2012)



Forgive my blindness
Forgive my blindness
Forget my distance

I was breathing
I guess I was just breathing

So many years to tell you friend, all I needed was a good man

Forget my blindness
Forgive my blindness
Forgive my distance

Remember me
Remember my birthday remember I'm here
To take the smiles and the blows
You're more than a friend

The Gift
Tema: Blindness
Álbum: Primavera
Ano: 2012


sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

O DIA DE REIS E AS ROMÃS

Creio que a palavra crise e a palavra superstição andam, por vezes, de mãos dadas. Dizem que no Dia de Reis convém ter romãs em casa para que haja prosperidade para o resto do ano (e também saúde, paz e amor). De todo o modo, mesmo para quem não acredite nestes dizeres populares e nesta tradição, sempre se pode dizer que a romã, rico em vitaminas A, C e E, é um fruto que faz muito bem à saúde. Dizem até que o consumo frequente reduz até 30% o risco de enfarte, entre outros benefícios.

CIDADE-RAPAZ - POEMA - SYLVIA BEIRUTE

















Escrever poemas eróticos de qualidade é muito difícil. Mas sinto-me imensamente feliz com o que exprimi neste poema. 

CIDADE-RAPAZ

quero viver contigo 
numa cidade-rapaz
e jantar num restaurante situado no ombro
talvez mais tarde um passeio pelo peito
esconder-me contigo na floresta do peito
oh mas nunca conhecer 
esse rapaz que é cidade
nem o seu coração que bate como trovoada
a sua insanidade saudável
mas no final do dia 
quero deitar-me contigo
ouvindo a sua respiração suave
{entrando na sua respiração aí suave}
e falar para esta cidade 
em forma de corpo indecente
esperando suas reacções mais espontâneas
seus sonhos mais nefastos
e quando a cidade acordar 
fingir-nos-emos 
mitológicos como a dissolução
dos cúmplices
e viveremos atrás dos olhos
num interstício da alma.

Sylvia Beirute
inédito
.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

ENTARDECIMENTO - POEMA - SYLVIA BEIRUTE



















ENTARDECIMENTO

nada pior do que entardecer
na infância de qualquer pequeno nada.
não soube guardar a criança.
não soube iluminar o silêncio
com palavras anónimas.
é uma espécie de lado inverso
da felicidade (o lado mitológico das 
cidades, como diria al berto).
e eu fi-lo.
vivi intensamente e fabriquei coisas
com palavras que também elas
viviam intensamente.
e entardeci como o retrato que envelhece
com o rigor do tempo,
com o lado didáctico da questão séria. 
e a criança apareceu hoje, vi-a no sorriso
de uma outra, feliz, muito feliz.

Sylvia Beirute
inédito
.

LUÍS MONTENEGRO, A MAÇONARIA E A LOJA MOZART



Algo vai muito mal na política quando esta deixa de ser transparente. Não me parece que o exercício de um cargo político (ainda para mais um cargo político de relevância nacional) seja compatível com a simples presença ou a qualidade de membro em organizações secretas (ou discretas, como eles dizem usando o eufemismo). É algo que atinge os pressupostos da vida pública e com consequências negativas na relação entre as instituições do estado e os cidadãos. Quem decide escolher o caminho da vida político-partidária tem necessariamente obrigações. Não é admissível, numa questão que está longe de ser da vida meramente privada, que um político como Luís Montenegro, líder parlamentar do PSD, e supostamente pertencente à Loja Mozart (loja maçónica), se dê ao luxo de não responder à perguntas que lhe são dirigidas acerca desta ligação. E digo que não é da vida meramente privada uma vez que os tentáculos destas organizações são bem conhecidos, estabelecendo-se em muitas questões acima das instituições ditas oficiais. E que tal se o primeiro-ministro se pronunciasse acerca desta questão? E se fosse o primeiro-ministro que pertencesse à maçonaria? Quem controlaria o estado afinal? Em quem votaríamos?
.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

SAM RIVERS (1923-2011)



Fuchsia Swing album, same song. Personel: Sam Rivers: Tenor Sax Jaki Byard: Piano Ron Carter: Bass Tony Williams:Drums
.

domingo, 25 de dezembro de 2011

FORMA DE FICAR - POEMA - SYLVIA BEIRUTE


























FORMA DE FICAR

os estilhaços formam números.
como se eu não pudesse falar de outra coisa
ou de outra
forma de ficar.
eu posso queixar-me a cada minuto.
eu posso ser o centro do meu universo
a cada minuto.
sentir a falta de paulo leminski.
e os estilhaços formam números porque
os procuram.
assim como o silêncio procura uma palavra
que o cale para sempre.
i am done with it.
i just don't care, you know?
done. done com a forma de ficar
e de provar o dilúvio.
done with my own elements 
que não
afluem a qualquer outro sono
maior na véspera 
de um mundo novo.

Sylvia Beirute
inédito
.