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Terça-feira, 31 de Agosto de 2010

JOGO DAS CAIXAS


























JOGO DAS CAIXAS

odiava que lhe dissessem que era uma caixinha de surpresas. sobretudo por se considerar um caixote delas.


Sylvia Beirute
inédito

CESARE PAVESE - POEMAS - POESIA - BIOGRAFIA



















sb: série poetas


"O ócio torna as horas lentas e os anos velozes. A actividade torna as horas rápidas e os anos lentos."
                                                                                          Cesare Pavese


Cesare Pavese, contrariamente ao poeta que anteriormente apresentei (Gunnar Björling) é um poeta que concentra todo o seu discurso poético na linguagem que o suporta. Há como que um sentido de contemplação, de testemunho objectivo, mas sem retirar do todo, e da leitura deste todo, os pressupostos subjectivos, aqueles que são unicamente válidos a uma poética de qualidade.

Há em Pavese uma compreensão da nostalgia, como se a sua transparência perpassasse o corpo, se unisse a ele, alterando-lhe a carne e o modo de se expressar. Por isso, são frequentes as referências ao corpo humano, aquele onde habita a vida e a morte e se concentram os abatimentos do tempo. Este corpo aparece como sugestionável ao carácter da paisagem, à assimilação do cenário psíquico, aos fenómenos de que carece a afirmação pessoal.

Esta poesia, de estrutura longa e escorrida, mergulha na casualidade do quotidiano, reflectindo-lhe verificações existencialistas. Essa casualidade, presente em muitos outros poetas (falei em nisso, em particular, no caso de Ana Luísa Amaral), tem uma curiosidade interessante. Ela apresenta-se como ponte para a imaginação que o poema expressa, para as reflexões que ele enceta, ou meramente para uma busca pelo eu no rosto de outrem, como se as mesmas circunstâncias pudessem reproduzir o mesmo tipo de ser humano. Neste ponto parece-me óbvio que a sua poesia não se concentra nas palavras que a carregam, e estas afirmações serão uma espécie de retórica de afirmação a fim de fazer sobressair e notar a redução de espírito que este eu poético sente.


Veja-se, ilustrando o que disse, este poema, com o nome Disciplina:


DISCIPLINA

O trabalho começa ao romper do dia. Mas nós começamos,
um pouco antes do romper do dia, a reconhecer-nos
nas pessoas que passam na rua. Ao descobrir os raros
transeuntes, cada um sabe que está sozinho
e que tem sono — perdido no seu próprio sonho,
cada um sabe no entanto que com o dia abrirá os olhos.
Quando a manhã chega, encontra-nos estupefactos
a fixar o trabalho que agora começa.
Mas já não estamos sozinhos e ninguém mais tem sono
e pensamos com calma os pensamentos do dia
até que o sorriso vem. Com o regresso do sol
estamos todos convencidos. Mas às vezes um pensamento
menos claro — um esgar — surpreende-nos inesperadamente
e voltamos a olhar para tudo como antes do amanhecer.
A cidade clara assiste aos trabalhos e aos esgares.
Nada pode turvar a manhã. Tudo pode
acontecer e basta levantar a cabeça
do trabalho e olhar. Rapazes que se escaparam
e que ainda não fazem nada passam na rua
e alguns até correm. As árvores das avenidas
dão muita sombra e só falta a erva
entre as casas que assistem imóveis. São tantos
os que à beira-rio se despem ao sol.
A cidade permite-nos levantar a cabeça
para pensar estas coisas, e sabe bem que em seguida a baixamos.

Cesare Pavese, em Trabalhar Cansa (Lavorare Stanca)
Tradução de Carlos Leite


No poeta há um certo culto da solidão. Em certa medida creio que ele vê a capacidade de estar só como uma evolução, como força da mente que vence o instinto. Mas por outro lado, em contraponto, também haverá uma força (ou coragem) enquanto assunção de uma fraqueza, procura de encontrar o equilíbrio no hermetismo da representação. Em todo o caso é de notar a elegância no discurso, a organização mental da inteligibilidade como esboço de uma unidade viril que é o (seu) mundo. Assim, desta solidão Pavese faz um ritual: um ritual de conhecimento, de observação dos astros, de fazer notar a quebra de luz separando o dia da noite, um ritual de interacção com as coisas, como se por momentos ganhassem forma humana ao adquirirem a capacidade da companhia.

Por outro lado, o tema da morte está muito presente, como se fosse prenúncio de iminência, como se essa morte adquirisse ela mesma uma vida e contemplasse a vida deste sujeito poético, convidando-o a assistir, desde a sua cadeira, ao movimento do corpo que todos os dias se levanta e tem o dever de contemplar (ou enfrentar), com um sorriso mínimo que seja, esse conjunto de abreviações que é o contexto que nos calha.


MANIA DA SOLIDÃO

Como um jantar frugal junto à clara janela,
Na sala já está escuro mas ainda se vê o céu.
Se saísse, as ruas tranquilas deixar-me-iam
ao fim de pouco tempo em pleno campo.
Como e observo o céu — quem sabe quantas mulheres
estão a comer a esta hora — o meu corpo está tranquilo;
o trabalho atordoa o meu corpo e também as mulheres.

Lá fora, depois do jantar, as estrelas virão tocar
a terra na ancha planura. As estrelas são vivas,
mas não valem estas cerejas que como sozinho.
Vejo o céu, mas sei que entre os tectos de ferrugem
brilha já alguma luz e que, por baixo, há ruídos.
Um grande golo e o meu corpo saboreia a vida
das árvores e dos rios e sente-se desprendido de tudo.
Basta um pouco de silêncio e as coisas imobilizam-se
no seu verdadeiro sítio, como o meu corpo imóvel.

Cada coisa está isolada ante os meus sentidos,
que a aceita impassível: um cicio de silêncio.
Cada coisa na escuridão posso sabê-la,
como sei que o meu sangue circula nas veias.
A planura é água que escorre entre a erva,
um jantar de todas as coisas. Cada planta e cada pedra
vivem imóveis. Escuto os alimentos e eles alimentam-me as veias
com todas as coisas que vivem nesta planura.

A noite importa pouco. O rectângulo de céu
sussurra-me todos os fragores e uma estrela miúda
debate-se no vazio, longe dos alimentos,
das casas, distinta. Não se basta a si mesma
e precisa de muitas companheiras. Aqui no escuro, sozinho,
o meu corpo está tranquilo e sente-se soberano.

Cesare Pavese, em Trabalhar Cansa (Lavorare Stanca)
Tradução de Carlos Leite


*


ÉS A TERRA E A MORTE

És a terra e a morte.
A tua estação é a treva
e o silêncio. Não há coisa
que viva mais do que tu
afastada da manhã

Quando pareces despertar
toda tu és dor,
está-te no olhar e no sangue
mas não a sentes. Vives
como vive uma pedra,
como a terra dura.
E há sonhos que te vestem,
movimentos, soluços
que ignoras. A dor
Como a água de um lago
estremece e envolve-te.
Há círculos à flor da água.
Deixas que se desvaneçam.
És a terra e a morte.

Cesare Pavese, em O Vício Absurdo, & etc
(Tradução de Rui Caeiro)

*

A MORTE VIRÁ E TERÁ OS TEUS OLHOS

A morte virá e terá os teus olhos –
esta morte que nos acompanha
da manhã à noite, insone,
surda, como um velho remorso
ou um vício absurdo. Os teus olhos
serão uma palavra vã,
um grito calado, um silêncio.
Assim os vês cada manhã
quando, sob ti só, pendes
no espelho. Oh, que esperança,
nesse dia saberemos, também nós,
que és a vida e és o nada.

A morte tem um olhar para todos.
A morte virá e terá os teus olhos.
Será como deixar um vício,
como ver no espelho
ressurgir uma face morta,
como ouvir os lábios fechados.
Desceremos mudos ao abismo.


Cesare Pavese
em A Morte virá e Terá os Teus Olhos
Tradução de José Carlos Brandão


Poeta, romancista e tradutor (traduziu Daniel Defoe (Moll Flanders), Charles Dickens, Herman Melville (Moby Dick e Benito Cereno), James Joyce (Dedalus), Sinclair Lewis, John dos Passos, e Gertrude Stein), Cesare Pavese, em Agosto de 1950, deprimido e desiludido, tirou a sua própria vida, fazendo este mês (Agosto de 2010) sessenta anos desde a sua morte. 

Em 2008, graças ao mérito do esforço de Pedro Mexia, comemorou-se, de forma assinalável em Portugal, os cem anos do seu nascimento. Que este singelo texto lhe preste nova homenagem, introduzindo os meus leitores à beleza da sua poética.

Em Portugal estão editados:


*

artigo escrito por Sylvia Beirute
.

João Paulo Bernal: Poemas


















Divirto-me muito com este "é uma caixa, são meus discos", blogue de João Paulo Bernal. Agrada-me esta forma sem forma e toda uma naturalidade do dizer sensível, como se nos falasse ao ouvido, nos confessasse que ondas lhe passam por baixo dos pés, quais as razões daquele movimento estético. Será música? Amor? Um modo de entrega? Que descubra cada leitor.

ENFIM

Seus olhos que eu ainda não vi.
Só imagino qual vai ser a música, qual será o ritmo que vai definir a relação;
Se você vai preferir sushi ou churrasco;
Se sua mãe ainda te trata como criança(porque a minha ainda me trata)
Seu cabelo é liso ou enrolado?
Será que tem tatuagem?
Gosta das mesmas bandas que eu?
Vai me ensinar a falar eu te amo em islandês?
Um dia vai acordar no meio da noite e me fotografar dormindo só pra guardar meu sono eternizado dentro de um papel?
Vou te fazer feliz assim como você vai me fazer?
E eu, vou superar todas as suas expectativas quando te guiar pela cidade passando por todos os lugares que marcaram nossa relação só pra falar que eu quero passar por aqueles mesmos lugares 10, 20, 50 anos mais?

João Paulo Bernal

SOBRE CLARICE LISPECTOR: BIOGRAFIA BREVE

























“Aquela pessoa rara que se parecia com Marlene Dietrich e escrevia como Virginia Woolf”, Clarice Lispector é uma das mais populares embora menos compreendidas dentre os escritores latino-americanos. Após anos pesquisando em três continentes e tomando como base dezenas de entrevistas e artigos previamente desconhecidos, Benjamin Moser demonstra como a arte de Lispector estava diretamente ligada à sua vida turbulenta. Nascida na Ucrânia em meio aos horrores pós-Primeira Guerra Mundial, a beleza, o gênio e a excentricidade de Clarice intrigaram o Brasil praticamente desde a sua adolescência. Why This World nos conta como essa menina precoce, através de longo exílio no exterior e complicados conflitos internos, amadureceu em uma grande escritora, e afirma, pela primeira vez, as raízes profundas da tradição mística judaica que a tornaram ao mesmo tempo herdeira de Kafka e a improvável a autora daquela que seja “talvez a maior autobiografia espiritual do século XX”. Da Ucrânia ao Recife, de Nápoles e Berna a Washington e Rio de Janeiro, Why This World revela como Clarice Lispector transformou os conflitos pessoais de uma mulher em uma arte universalmente ressonante.

Do livro Why This World, de Benjamin Moser
(tradução de Paula Góes)

Novidades Assírio & Alvim - Poesia

Até ao final do ano, surgirão os seguintes livros de poesia: Anthero, areia & água, de Armando Silva Carvalho; Se as coisas não fossem o que são, de Helder Moura Pereira; Apanhar ar, de Adília Lopes (com desenhos juvenis); Uma antologia de poesia chinesa, organizada por Gil de Carvalho (edição bilingue, 440 páginas); Corpo mortal e outros poemas inéditos, de Fiama Hasse Pais Brandão; As magias – Alguns exemplos – poemas mudados para português, de Herberto Helder (colecção Gato Maltês); O bebedor nocturno – poemas mudados para português, de Herberto Helder (colecção Gato Maltês); Papéis Surrealistas – Surrealist Papers, de Mário Cesariny; Um arco singular – Livro de horas – II volume, de Maria Gabriela Llansol; Poesia – uma antologia de Il Canzoniere, de Umberto Saba (selecção, tradução, introdução e notas de José Manuel de Vasconcelos).

via Bibliotecário de Babel

Segunda-feira, 30 de Agosto de 2010

LIE TO ME (série FOX) e POESIA


























Tendo visto um episódio da série Lie do Me (da Fox), pergunto-me se não haverá para aí estudiosos que pudessem detectar mentiras nas expressões faciais dos poemas (ou mesmo dos poetas). Está a perder-se, creio, uma boa oportunidade para que uma ciência humana empreste à outra (semi-humana?) algo para estudar. Afinal a questão do "o poeta é um fingidor" não perderá actualidade.

AFFAIR LITERÁRIO: POEMA de SYLVIA BEIRUTE


















AFFAIR LITERÁRIO

hoje: hoje li um poeta,
um poeta
de que não gosto
na tentativa de lhe
compreender 
as opções estéticas 
mas sobretudo as condições
de êxito das 
mensagens do seu 
orgulho exterior. hoje: 
hoje não deixei de me
sentir irrealizada e como 
que no meio 
de um affair literário.

Sylvia Beirute
inédito

Domingo, 29 de Agosto de 2010

GUNNAR BJÖRLING - POEMAS - POESIA - ANÁLISE CRÍTICA























sb: série poetas

GUNNAR BJÖRLING


Não podemos dar a verdade a quem quer decidir que aspecto é que ela deve ter.
                                                                                        Gunnar Björling

Transferir a vida, verificar as diferenças após a transferência, transmutação de um facto de uma realidade para outra realidade, sabendo que cada uma tem a sua obscuridade, o seu desígnio. Isto leva-me ao que tenho lido sobre o poeta Gunnar Björling (1887–1960, Helsínquia, Finlândia) e ao que ele próprio dizia sobre a sua poesia: uma poesia que não se incluía dentro das palavras que utilizava, usando um lado céptico na sua linguagem, como se fosse possível separar a linguagem do conteúdo.

Gunnar Björling foi, para muitos, o mais radical poeta da Finlândia e Suécia (era finlandês de expressão sueca), tendo-se dedicado a partir de certo tempo, e depois de ter sido professor (diz-se que as opiniões que nas suas aulas expressava eram menos convencionais, o que lhe traçou o destino), em exclusivo à poesia. Devido a este facto, viveu em condições miseráveis numa cave da cidade finlandesa de Helsínquia. Nesta cave recebia alguns jovens poetas, não só da Finlândia, mas de toda a Escandinávia, sendo na altura muito apreciado.

A sua poesia começou por ser de imagens abertas, mas cedo o poeta subverteu as regras  (por vezes até da sintaxe) e essa poesia passou a conter-se dentro dos estritos limites da linguagem que criara. Mas essa linguagem, ao contrário do que se possa pensar, era, afinal, a linguagem pura do quotidiano, embora exposta de modo a criar outros sentidos, uma outra exposição do ser nas suas múltiplas manifestações, a que não é indiferente o facto de o poeta ser influenciado pelo dadaísmo. Björling chegou a dizer que a linguagem constituía o “médium poético”. E isto quererá dizer que a sua poética não pode, nem deve, ser contida (ou presa) nas palavras que a “representam”. E este verbo (representar) uso-o num sentido exacto, significando a parte pelo todo, ou seja, o “poema de palavras” como parte de uma “poesia de significados”, como que numa dimensão espiritual, análoga à dos humanos: carne e espírito.

Vejamos o que nos diz a sua poesia:


*

não fomos embora sem nome
a nossa vida era dar nome
e palavra e forma,
dar luz ao olho
dar pedra e a areia
para aprender que não aprendemos
e isso debaixo do nome do mundo
e o nome vai mais fundo
sem nome.

*

Corta, corta-
-te, a tua palavra
corta o teu
contorno, o que tu não
consegues explicar.
sê o que tu és,
sê aquela música,
sê tu, tu mesmo
como uma palavra-concerto
sê tu, como um escondido na mudez
do mundo,
um concerto sonhado.

*

Não tenho nome de pássaro e texto de erva
e do fundo de mim eu falo
ouvirei essa voz
pesquiso, encontro palavras: e vêm,
palavras vindo mais que o entendimento,
palavras e nenhuma é.

*

Onde eu navego as minhas próprias e grandes águas,
estou eu muito perto de ti
onde tu passeias
e falarei em breve uma língua
de tudo o que nós amamos.


Poemas de Gunnar Björling
(traduções inéditas de João Muzi)

obra publicada inclui:

  • Vilande dag (1922)
  • Kiri-ra! (1930)
  • Solgrönt (1933)
  • Fågel badar snart i vattnen (1934)
  • Att syndens blåa nagel (1936)
  • Där jag vet att du (1938)
  • Det oomvända anletet (1939)
  • O finns en dag (1944)
  • Ord och att ej annat (1945)
  • Och leker med skuggorna i sanden (1947)
  • Vårt kattliv timmar (1949)
  • Angelägenhet (1949)
  • Ett blyertsstreck (1951)
  • Träd står i sina rader (1952)
  • Att i sitt öga (1954)
  • Du jord, du dag (1957)
  • En mun vid hand (1958)
  • Hund skenar glad (1959)
  • Dikter (1959)
  • Allt vill jag fatta i min hand (efterlämnade dikter, 1974)
  • Jag viskar dig jord (1992)

Artigo escrito por Sylvia Beirute

AMADEU BAPTISTA: POEMAS























A NOITE DE PAVESE

Raras vezes me franquearam a porta
e deixaram entrar. A febre
sitia-me a alma e quem me vê
assusta-se do aspecto do meu rosto,
esta barba por fazer onde um rouxinol
se esconde. E mais ainda assusta
a minha altura, este lugar de vertigem
e palavras poderosas, a presença
de ilimitados segredos que ninguém quer conhecer,
o estremecimento que corre nos meus ombros.
Embora nada peça, sabem que sou um pedinte.
E quando entro nas casas os meus gestos afeiçoam-se a
alguma coisa enigmática que contorna o pavor e o entrega
por não se saber que espécie de vida
ou de morte vem comigo. Obviamente, eu abençoo quem
me deixa entrar, dou a entender
que alguma coisa brilha nas minhas mãos
e posso matar a fome com uma ou outra palavra próxima
do amor, um dedo nos cabelos de quem me recebe.
Subi as escadas que vão dar a esta casa em silêncio
e em silêncio aceitei que me aguardassem com as
inefáveis sombras que vejo nos outros e tento decifrar
para meu contentamento. Mandaram-me sentar
e deram-me de beber. Esse álcool
reconfortou-me a alma. E a minha gratidão expressa-se
deste modo, limpo e nítido, observando a mulher nesse
sem fim das coisas, onde todos os mistérios avançam
para uma explicação que a qualquer momento pode irromper 
do espírito como uma explosão.
Olho-te nos olhos e recebo as duas moedas
que me ofereces, o teu rosto é-me familiar
se recuar à infância e subitamente perceber
que também pertenci ao exercício desta árvore
que nesta sala se levanta. Em frente,
na fotografia que o meu olhar alcança
porque me alcança o olhar que dela
se desprende, inscreve-se o enigma que me fez
aqui chegar, mais que um rumor ou um fio ténue
com o nome de todas as coisas inesperadas que me
aconteceram na vida, sempre que me franquearam a porta 
e deixaram entrar. Agora, com a memória de ter estado
em tua casa e ter recebido a graça de alguma atenção, eu, 
que sou pedinte embora nada peça,
entrego-te este sulco da desordem
sobre a página em branco e agradeço-te
com o conhecimento de um outro mundo
ainda mais inexplicável. Não tendo havido
despedida, sabe que permaneço e na encruzilhada das dores
que me couberam viver 
não esquecerei o teu nome no dia
em que também tiver partido
e mais nenhuma luz houver além daquela
que ilumina o teu rosto na solidão da noite.
Os anjos esperam-me. Não me é possível demorar. 
Que me seja a alba a tua tolerância.


BILLIE HOLIDAY: SOLO

Não tenho mais visões, não tenho obsessões,
sigo a trompete apenas, a ternura
é esse outro lado das coisas em que me perco
porque nada mais me chama e nada mais
revejo no lentíssimo torpor que pelas veias
senti outrora num azul imenso
que mais do que tocar-me me esvaía
no inferno do mundo e em seus ramais
de pura nostalgia, tristeza e desencanto.
Só ergo agora a voz para esquecer
e ter o olhar toldado para as coisas
que como grito lancinante escuto no silêncio
enquanto outras vozes me chamam,
outros indícios me vêm perturbar
quando pressinto a noite antíquissima
em que se esconde o sobressalto da serenidade 
do meu tempo. Nem já a sombra aguardo
ou o sentido destes brilhos espessos,
estas chamas que consomem o meu corpo
e a minha alma no mistério de tudo
e no liminar enigma que adensa nos outros
os sentidos, certa atenção venal, um desespero
que em fumos e rastros me pergunta
por esta vida que já não é minha
e no coração recebo como salvação e ruína.
Sigo a trompete, o subtil sinal da despedida.
Só ergo agora a voz para esquecer.


INTERVALO PARA LEONARD COHEN

E o mistério? Ainda transfiguramos
o mistério no rastro inacessível da verdade,
ainda trocamos o crepúsculo por outra linha fugaz 
no horizonte ígneo? A sombra fugitiva
que habita o nosso corpo, a alma,
a insegura alma de existirmos?

Nascem e morrem, as cidades,
sucedem-se os dias, as estações, os anos,
esfuma-se o tempo, foge entre os dedos a vida
que nos religa à fuga uma outra vez ainda,
a solidão ameaça, procura-nos a morte
com o medo de querermos instintivamente resistir,
a verdade efémera, o amor.

Outro cigarro?

Outro mistério, ainda,
na auréola de fumo sobre as cabeças
- e o mistério, a que devastação conclama?

O destino das coisas, o mundo de instantes
à deriva?


FRIDA KAHLO E OS DESENHOS DO MUNDO

Creio que a adolescência tocou o teu rosto
para fazer crescer a perturbação ainda hoje
visível no olhar, o 
modo surpreendente
como os cabelos deslizam para a brancura
são a prova inequívoca do enigma, o vaticínio
marca-te no rosto 
um pouco dessa tristeza avassaladora 
e ténue de quem atravessa
uma cidade para se perder no instante
de uma fonte, mão que toca a cor imponderável
das coisas para extrair do passado
uma medida de ferro, um fio de oiro,
um pássaro azul. Vejo-te passar nesse navio longínquo que 
há-de um dia pertencer ao vento, decifro o reflexo 
de um brilho que te sobe
para os ombros como o frágil ramo
de uma árvore vivaz e suavemente flutua
sobre a transparência para identificar o anjo
que te precede, um pouco após o sinal redutor
da inocência e a infinita doçura de quem foi
perseguido e arrancou das entranhas
subtílimos silêncios para resistir ao assédio
das pedras, os poderes aniquiladores, o rumo das coisas 
quando a tempestade triunfou
sobre a tempestade e a memória entregou
o resgate de não haver resgate.
Deste lugar te avisto e avisto o mar,
esta passagem conduz ao indizível encontro com
as estrelas, sol e noite, 
os mínimos percalços que a natureza desoculta das
sombras e faz  explodir em fragmentos translúcidos
onde se inscreve a mensagem,
uma última notícia do paraíso perdido
em que um traço de luz corresponde
ao augúrio da brisa, a voz secreta que nos une
e separa, a palavra onde o deslumbramento
é um labirinto que pela alucinação
percorremos no incontornável fulgor
de um momento perpétuo.

Amadeu Baptista

Rafael Costa: Poesia e Desenho

O blogue Poemarte é bastante interessante pois liga a poesia de Rafael Costa à arte visual do mesmo autor. Reproduzo:


























Esqueça a modernidade:
o contemporâneo é orgânico.

Não é preciso que se forjem chegadas e partidas,
nem que se coloque o homem dentro
de máquinas de aço e se precipite o processo:
das mãos surgirá naturalmente
o ser instintivo, àquele,
que de pré-histórico se resignou.


Rafael Costa
inédito

SYLVIA PLATH e RYAN ADAMS

























o meu amigo Pedro Calouste mandou-me um link interessante no seguimento do meu artigo sobre a poesia de Sylvia Plath. 

via A Origem das Espécies, de Francisco José Viegas, e mesmo a tempo, uma canção de Ryan Adams com o título "Sylvia Plath".

Sábado, 28 de Agosto de 2010

SYLVIA PLATH - POESIA - POEMAS - BIOGRAFIA POÉTICA - ANÁLISE CRÍTICA

























sb: série poetas

SYLVIA PLATH

Já muito se falou da vida pessoal de Sylvia Plath (Jamaica Plain, Massachusetts, 27 de Outubro de 1932 — Primrose Hill, Londres, 11 de Fevereiro de 1963) e por esse motivo pouco sentido fará expor aqui meros levantamentos históricos. A título de referência, indico (e aconselho) o filme Sylvia, realizado por Christine Jeffs, e bem protagonizado por Gwyneth Paltrow. A história de Sylvia Plath, ao fim e ao cabo (ainda que a relação com Ted Hughes seja muito particular), nem difere muito da ideia romântica de se morrer relativamente jovem, circunstância agravada (e aqui devia colocar aspas) por se tratar de uma mulher e em virtude de o seu desaparecimento ter sido sequência de suicídio.
Há exemplos de outros poetas que morreram em actos suicidas, como (cito de cor) Paul Celan, Cesare Pavese, Alejandra Pizarnik, os nossos Guilherme de Faria, Florbela Espanca, Mário de Sá-Carneiro, etc. Em relação a Sylvia Plath há uma espécie de culto em torno da sua vida, maior do que a reflexão pura acerca da sua poesia.

Vejo a poesia de Sylvia Plath como automarginal, isolamento de posições determinadas, como auto-interpretativa dentro da sua esfera ideal e muito íntima. Os contextos estabelecem-se com vocábulos identificadores, com uma “harmonia” negra e atmosfera de cariz confessional. Esta atmosfera muito própria, e aqui entra um aspecto que me parece interessante, apresenta-se, algumas vezes, transformada, como se a confissão viesse com timidez ou reservas, como se quisesse impor ao leitor uma barreira ou um simples modo indirecto de expor a vida.

Veja-se este Espelho (Mirror):

MIRROR

I am silver and exact. I have no preconceptions.
Whatever I see I swallow immediately
Just as it is, unmisted by love or dislike.
I am not cruel, just truthful -
The eye of a little god, four cournered.
Most of the time I meditate on the opposite wall.
It is pink, with speckles. I have looked at it so long
I think it is a part of my heart. But it flickers.
Faces and darkness separate us over and over.

Now I am a lake. A woman bends over me,
Searching my reaches for what she really is.
Then she turns to those liars, the candles or the moon.
I see her back, and reflect it faithfully.
She rewards me with tears and an agitation of hands
I am important to her. She comes and goes.
Each morning it is her face that replaces the darkness.
In me she has drowned a young girl, and in me an old woman
Rises toward her day after day, like a terrible fish.


ESPELHO

Sou de prata e exacto. Não faço pré-julgamentos.
O que vejo engulo de imediato
Tal como é, sem me embaçar de amor ou desgosto.
Não sou cruel, simplesmente verídico —
O olho de um pequeno deus, de quatro cantos.
Reflicto todo o tempo sobre a parede em frente.
É rosa, manchada. Fitei-a tanto
Que a sinto parte do meu coração. Mas cede.
Faces e escuridão insistem em separar-nos.

Agora eu sou um lago. Uma mulher se encosta a mim,
Buscando na minha posse o que realmente é.
Mas logo se volta para aqueles farsantes, o brilho e a lua.
Vejo as suas costas e reflicto-as na íntegra.
Ela paga-me em choro e em agitação de mãos.
Eu sou importante para ela. Ela vai e vem.
A cada manhã a sua face alterna com a escuridão.
Em mim se afogou uma menina, e em mim uma velha
Salta sobre ela dia após dia como um peixe horrível.

(Tradução inédita de Pedro Calouste)

*

Há nesta poesia como que um conjunto de cores escuras com leves reflexos de luz, a ideia de noite e de sair em camisa de dormir descalça pelo chão gelado. É, para mim, a noção de transgressão íntima que está em causa, os esconderijos da mente e do corpo, transgressão essa que se manifesta no silêncio rígido entre versos, na frieza da ausência de dúvida que o poema lentamente consome.

No universo plathoniano nem tudo aparece com explicação directa, embora os fragmentos se diluam no todo da substância e do estilo. O estilo é variável, não se prende em fórmulas prévias, e daí a grande riqueza e diversidade das suas experimentações. Os poemas parecem-me, e isto faz retomar uma velha discussão, fruto de uma relação entre um “eu” e outro “eu”, meditações que nem a leitura consegue, ainda que levemente, mudar. Esta postura de escrita oferece aos poemas uma naturalidade própria (ainda que sombria), como se fossem escritos (e talvez o tenham sido) directamente da voz, sem que a mão adultere o que aquela sabiamente diz e prefacia.

Vejamos este Os Manequins de Munique (The Munich Mannequins), escrito em 28 de Janeiro de 1963:


THE MUNICH MANNEQUINS

Perfection is terrible, it cannot have children.
Cold as snow breath, it tamps the womb

Where the yew trees blow like hydras,
The tree of life and the tree of life

Unloosing their moons, month after month, to no purpose.
The blood flood is the flood of love,

The absolute sacrifice.
It means: no more idols but me,

Me and you.
So, in their sulfur loveliness, in their smiles

These mannequins lean tonight
In Munich, morgue between Paris and Rome,

Naked and bald in their furs,
Orange lollies on silver sticks,

Intolerable, without mind.
The snow drops its pieces of darkness,

Nobody's about. In the hotels
Hands will be opening doors and setting

Down shoes for a polish of carbon
Into which broad toes will go tomorrow.

O the domesticity of these windows,
The baby lace, the green-leaved confectionery,

The thick Germans slumbering in their bottomless Stolz.
And the black phones on hooks

Glittering
Glittering and digesting

Voicelessness. The snow has no voice.



OS MANEQUINS DE MUNIQUE

A perfeição é terrível, não gera filhos.
Fria como o hálito da neve, ela tapa o útero

Onde os teixos sopram como serpentes,
A árvore da vida e a árvore da vida.

Desprendendo as suas luas, mês atrás de mês, sem nenhum propósito.
O jacto do sangue é o jacto do amor,

O sacrifício absoluto.
Quer dizer: mais nenhum ídolo, excepto eu

Eu e tu.
Assim, com a sua graça sulfúrica, nos seus sorrisos

Esses manequins se encostam esta noite
Em Munique, morgue entre Roma e Paris,

Nus e carecas vestidos com os seus casacos de pele,
Chupas-chupas de laranja com pau de prata

Intoleráveis, sem cabeça.
A neve deixa cair os seus pedaços de escuridão.

Ninguém perto. Nos hotéis
As mãos abrirão portas e deixar

Sapatos no chão para uma mão que engraxa
Com os seus dedos largos entrando amanhã.

Ah, a domesticidade dessas janelas,
As roupas de bebé, a confecção de folhas verdes,

Os espessos alemães dormindo com o seu desprezo inacabável.
E telefones pretos nos ganchos

Cintilando
Cintilando e digerindo

A mudez. A neve não tem voz.

(tradução inédita de Pedro Calouste)


*

O cansaço das emoções é um aspecto que me salta à vista. Há, por vezes, uma espécie de falso acompanhamento destas ao longo do poema. Este aspecto faz alterar, como se de um mapa se tratasse, a escala da verdade, remetendo o poema para a sua periferia.
Todavia, essas emoções paralelas e mixadas (como diriam os Rolling Stones), fazem uma soma, formam um todo-onanista (perdoem-me a metáfora), evitando o desfecho fatal e dramático na ponta final do texto, antes se espalhando (e alastrando) pelo poder manifesto de cada imagem. 

*

Por vezes penso em Sylvia Plath e nos seus poemas, incluindo aqueles com grande influência da Segunda Guerra Mundial. Talvez essa frieza de espírito me tenha ficado, talvez ainda arrepie as ruas que os meus dedos percorrem quando escrevo. Sinto-a numa pequena ilha do meu imaginário, recitando, vezes sem conta, o poema Paizinho (Daddy):


DADDY

You do not do, you do not do
Any more, black shoe
In which I have lived like a foot
For thirty years, poor and white,
Barely daring to breathe or Achoo.

Daddy, I have had to kill you.
You died before I had time---
Marble-heavy, a bag full of God,
Ghastly statue with one grey toe
Big as a Frisco seal

And a head in the freakish Atlantic
Where it pours bean green over blue
In the waters off beautiful Nauset.
I used to pray to recover you.
Ach, du.

In the German tongue, in the Polish town
Scraped flat by the roller
Of wars, wars, wars.
But the name of the town is common.
My Polack friend

Says there are a dozen or two.
So I never could tell where you
Put your foot, your root,
I never could talk to you.
The tongue stuck in my jaw.

It stuck in a barb wire snare.
Ich, ich, ich, ich,
I could hardly speak.
I thought every German was you.
And the language obscene

An engine, an engine
Chuffing me off like a Jew.
A Jew to Dachau, Auschwitz, Belsen.
I began to talk like a Jew.
I think I may well be a Jew.

The snows of the Tyrol, the clear beer of Vienna
Are not very pure or true.
With my gypsy ancestress and my weird luck
And my Taroc pack and my Taroc pack
I may be a bit of a Jew.

I have always been scared of *you*,
With your Luftwaffe, your gobbledygoo.
And your neat mustache
And your Aryan eye, bright blue.
Panzer-man, panzer-man, O You---

Not God but a swastika
So black no sky could squeak through.
Every woman adores a Fascist,
The boot in the face, the brute
Brute heart of a brute like you.

You stand at the blackboard, daddy,
In the picture I have of you,
A cleft in your chin instead of your foot
But no less a devil for that, no not
Any less the black man who

Bit my pretty red heart in two.
I was ten when they buried you.
At twenty I tried to die
And get back, back, back to you.
I thought even the bones would do.

But they pulled me out of the sack,
And they stuck me together with glue.
And then I knew what to do.
I made a model of you,
A man in black with a Meinkampf look

And a love of the rack and the screw.
And I said I do, I do.
So daddy, I'm finally through.
The black telephone's off at the root,
The voices just can't worm through.

If I've killed one man, I've killed two---
The vampire who said he was you
and drank my blood for a year,
Seven years, if you want to know.
Daddy, you can lie back now.

There's a stake in your fat, black heart
And the villagers never liked you.
They are dancing and stamping on you.
They always *knew* it was you.
Daddy, daddy, you bastard, I'm through.


*


*


PAIZINHO

Não serves, não serves,
Não serves mais, sapato preto
Em que eu vivi como um pé
Trinta anos, pobre e branca,
Mal me atrevendo a respirar ou atchim.

Paizinho, eu tive de matar-te,
Morreste antes que eu tivesse tempo,
Mármore pesado, saco repleto de Deus,
Estátua medonha de dedo grande cinzento
Do tamanho de uma foca de Frisco

E uma cabeça no Atlântico mais esquisito
Onde ele derrama o verde-feijão sobre o azul
Nas águas da lindíssima Nauset.
Eu costumava rezar para te recuperar
Ach, du.

Na língua alemã, na vila polaca
Aterradas pelo rolo
Das guerras, guerras, guerras.
Mas o nome do lugar é vulgar.
Diz o meu amigo polaco

Que há uma ou duas dúzias.
Assim nunca soube onde tu
Fixaste os pés, as tuas raízes,
Contigo nunca consegui falar.
A língua presa no maxilar.

Arame farpado.
Ich, ich, ich, ich,
Mal conseguia dizer.
Em qualquer alemão estavas espelhado.

E a linguagem porca
Uma máquina, uma máquina
Em vapores leva-me como judia.
Uma judia para Dachau, Auschwtiz, Belsen.
Comecei a falar como uma Judia.
Acho que é boa ideia ser Judia.

A neve do Tirol, as cervejas clarinhas de Viena
Não são muito puras ou genuínas
Com a minha angelical cigana, o meu destino estranho
E as minhas cartas de tarot, cartas de tarot
Eu posso ser um pouco Judia.

Sempre me provocaste medo,
Com a tua Luftwaffe, a tua conversa vazia.
E o teu bigode lavado
O olho ariano, muito azul.
Homem-panzer, homem-panzer, oh tu_

Não Deus, mas uma suástica.
Tão negra que nem céu.
Qualquer mulher adora um Fascista,
A bota na cara, o bruto
Bruto coração de um bruto da tua espécie.

Estás de pé na pedra, paizinho,
Na imagem que trago comigo,
Em vez do pé, o queixo partido,
Não menos canalha por isso, oh não
o homem que partiu em dois
o meu lindo e vermelho coração.

Eu tinha dez anos quando foi a enterrar.
Aos vinte anos, eu tentei morrer
E voltar, voltar, voltar para ti.
E até pensei que os ossos serviriam.

Mas não me deixaram,
Juntaram os meus bocados com cola.
E então eu soube o que fazer.
Fiz um modelo de ti,
Homem de preto, com um aspecto de Meinkampf

E o amor de tortura e torniquete.
E eu disse eu aceito, eu aceito
E então, paizinho, finalmente estou acabada.
Arranquei o telefone preto da ficha,
As vozes já não se arrastam até aqui.

Se matei um homem, matei dois_
O vampiro que me disse seres tu
E bebeu o meu sangue por um ano,
Sete anos, se queres saber
Paizinho, podes voltar para trás.

Há uma estaca no teu coração negro e gordo
E os homens da vila nunca gostaram de ti.
Eles dançam e espezinham-te.
Eles sempre souberam que eras tu.
Paizinho, paizinho, seu canalha, estou acabada.
(tradução inédita de Pedro Calouste)


*

A poetisa tinha influências literárias de Anne Sexton, Theodore Roethke, W. D. Snodgrass, T. S. Eliot, Ted Hughes, W. S. Merwin, Wallace Stevens, W. B. Yeats,  etc.

Obra:

The Colossus and Other Poems (1960), colectânea de poemas;
The Bell Jar (1963), romance
Ariel (1965), poemas;
Crossing the Water (1971), colectânea de poemas;
Johnny Pannic and the Bible of Dreams (1977), livro de contos e prosa;
The Collected Poems (1981), poesia inédita;

*

Ligações:

artigo escrito por Sylvia Beirute