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Segunda-feira, 28 de Fevereiro de 2011

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA - AMOR, PALAVRA, PAIXÃO, SACRIFÍCIO, FINITUDE

























AMOR

O amor é talvez a fronteira mais íntima de cada ser humano. É ao mesmo tempo a viagem mais longa que cada um de nós pode fazer. O amor implica uma consciência de si e a capacidade de estabelecer uma relação com o outro. Simone Weil dizia: "no princípio era a relação".


PALAVRA

A palavra, juntamente com o silêncio, é talvez o grande sintoma da nossa humanidade. As melhores palavras são aquelas que se parecem com o silêncio.


PAIXÃO

A vida sem paixão é uma vida diminuída. A paixão é o que dá o sentido da transcendência. Na paixão há emoção, entrega e sentimento de si. A paixão é a condição necessária para a experiência da plenitude e também para a experiência da solidão.


SACRIFÍCIO

O sacrifício é uma palavra inactual, é talvez a palavra que mais precisamos de descobrir, porque é uma palavra de gramática do amor, ao contrário do que se pensa. Não há amor que não inclua, no mais nuclear da sua vivência, a noção e a prática do sacrifício. O sacrifício é essa capacidade oblativa de se fazer dom e é a capacidade de amar até ao fim, até às últimas consequências. O sacrifício é muito impopular na nossa cultura, mas é algo que precisamos de voltar a pensar.


FINITUDE

A finitude é aquilo com que nos debatemos todos os dias. Todos os dias começam e acabam e isso não nos é indiferente. Por vezes é tranquilizante, mas, por outro lado, amplia a sede que temos de infinito.


José Tolentino Mendonça

José Tolentino Mendonça é poeta, padre diocesano, professor e investigador em Estudos Bíblicos na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa e capelão na Capela do Rato.
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AÇÚCAR-MATÉRIA - POEMA - SYLVIA BEIRUTE



















AÇÚCAR-MATÉRIA

já ter acontecido: 
à falta de um vício, ser-me proposto um exemplo 
de não exemplo, o projecto 
de ser uma mulher de açúcar, 
e reverberar a personagem no meu rosto. 
e nos anticorpos da pré-exibição 
ver um piazzolla, um piazzolla também de açúcar 
e uma composição instantânea, o tango 
de uma escalada em condição de cristal. 
sim, já ter acontecido, já ter acontecido muitas vezes: 
sermos feitos de açúcar, porque 
assim que a dança começa, piazzolla, 
sempre os corpos desabam.

Sylvia Beirute
in revista Cultura Entre Culturas n.º 2
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Quinta-feira, 24 de Fevereiro de 2011

REWIND & REPLAY - POEMA - SYLVIA BEIRUTE
























REWIND & REPLAY

enquanto a morte descansa em mim
o coração nasce de novo.

Sylvia Beirute
inédito
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Terça-feira, 22 de Fevereiro de 2011

SÍLVIO MENDES














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POESIA E REDUÇÃO DA PALAVRA

não me parece que escreva poesia para sempre. o que me atrai hoje na poesia é a sua capacidade de redução. escolher uma palavra central, como sempre faço, e fazer todo o texto girar em torno dela, com as suas palavras se reduzindo a ela, como se fossem suas derivações, seus novos significados. felizmente há leitores para este tipo de material, muito mais do que eu pensava, abrindo caminho para uma poesia underground portuguesa. e que poesia.
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SOB A VIDA O NADA NAVEGA NO FUTURO - POEMA - SYLVIA BEIRUTE





















SOB A VIDA O NADA NAVEGA NO FUTURO 

{a um homem bom}

sob a vida o nada navega no futuro.
interpomo-nos entre o destino e o sofá
que parece esquecer um homem bom.
o pouco esvazia todas as consequências,
pequenos delírios 
numa piscina de criança.
e é sempre a vida, sempre a sinfonia 
preenchendo os diálogos, a hora certa
que surpreende a exaustão de um anúncio 
prazeroso. e tu não pulas a superfície, 
não me distingues na chuva ácida. 
não conheces o medo que a nuvem carrega.
o momento nasce longo.
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Sylvia Beirute
inédito
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JOSHUA M. - PAISAGEM URBANO-DEPRESSIVA SOB O SILÊNCIO

























paisagem urbano-depressiva sob o silêncio

as manchas ensombram a paisagem declarada e clamam para se apoderarem da atenção do turista, apanhando-o desprevenido, não lhe deixando outro campo de visão para onde correr;
há um sapo hiper-tanso atento às mudanças do papel de parede, rosáceas em curso, a cada passo o salto do sapo pára e observa o que mudou, examina o padrão e a sua unicidade;
os cigarros repousam distraidamente sobre a proximidade das poltronas e vão reinventando os cinzeiros, encenando cortinas de fumo no auge do carvão;
as portas ficam sempre longe ou atrás das fotografias, para que ninguém possa sair por elas e assim se guarde a eternidade do momento, com todos os retratados sempre presentes;
e tudo mais é espaço, é contraste de luz e sombra, uma sala cheia de fotões em anarquia perfeita, de feixes e corpúsculos animados por impulsos acicatados por descargas eléctricas superficiais;
os filamentos embutidos nos sóis caseiros incandescem para nos dar um lar de luz, iluminam tudo por breves instantes numa sala cheia de escuridão eterna;
as contas certas da energia tudo acendem enquanto a câmara gráfica continua a registar as latitudes, a guardar para si o segredo de uma parede manchada por um petróleo obscuro - depois de cada treva, sobrevem nova manhã;
um par de mesas de longas pernas imaginativas suporta os limites do cenário onde o espaço vital é continuamente inflamado pelas lentes;
sobre uma das mesas, o rodopio sonoro do cinzeiro kitsch; sobre a outra, uma cena camp passa inanimada numa televisão ligada em tons de sépia;
e tudo à menor dimensão de um sapo: de loiça ou de plástico; a terra dura vacila, é cada vez menos firme quando chove acidamente, cada vez menos chão para os nossos passos;
o vazio é lugar de onde saiu toda a gente para a rua, porque a rua é o melhor destinatário quando temos alguma coisa a dizer;
estão reunidos todos os espectadores do lado de fora do retrato de si mesmos, só assim se conseguem ver para lá da imagem do que são – obter uma perspectiva de sentido único;
e tudo em silêncio, por fora e por dentro, por todos os lados, até ao – tecto–falso - azul do improvisado céu virtual.
tudo cingido a uma paisagem retro, tudo sob o silêncio...

Joshua M.
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Segunda-feira, 21 de Fevereiro de 2011

PEDRO OOM E O SURREALISMO NA POESIA PORTUGUESA DO SÉCULO XX




















sb: série poetas

artigo publicado na revista brasileira Modo de Usar & Co.
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OLHOS - POEMA - SYLVIA BEIRUTE
























OLHOS

as lágrimas violam para fora
a beleza dos meus olhos.

Sylvia Beirute
inédito
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RICARDO REIS: POEMAS


























Da Verdade não Quero Mais que a Vida

Sob a leve tutela
De deuses descuidosos,
Quero gastar as concedidas horas
Desta fadada vida.
Nada podendo contra
O ser que me fizeram,
Desejo ao menos que me haja o Fado
Dado a paz por destino.
Da verdade não quero
Mais que a vida; que os deuses
Dão vida e não verdade, nem talvez
Saibam qual a verdade.

Ricardo Reis, in "Odes"
Heterónimo de Fernando Pessoa

*

Cumpre-te Hoje, não Esperando

Não queiras, Lídia, edificar no spaço
Que figuras futuro, ou prometer-te
Amanhã. Cumpre-te hoje, não 'sperando.
Tu mesma és tua vida.

Não te destines, que não és futura.
Quem sabe se, entre a taça que esvazias,
E ela de novo enchida, não te a sorte
Interpõe o abismo?

Ricardo Reis, in "Odes"
Heterónimo de Fernando Pessoa

*

Temo, Lídia, o Destino. Nada é Certo

Temo, Lídia, o destino. Nada é certo.
Em qualquer hora pode suceder-nos
O que nos tudo mude.

Fora do conhecido é estranho o passo
Que próprio damos. Graves numes guardam
As lindas do que é uso.

Não somos deuses; cegos, receemos,
E a parca dada vida anteponhamos
À novidade, abismo.

Ricardo Reis, in "Odes"
Heterónimo de Fernando Pessoa

*

Não só quem nos odeia e nos inveja

Não só quem nos odeia e nos inveja
Nos limita e oprime. Quem nos ama
Não menos nos limita
Que os deuses me concedam que, despido
De afectos, tenha a fria liberdade
Dos píncaros sem nada.
Quem quer pouco, tem tudo; Quem quer nada
É livre; Quem não tem e não deseja,
Homem, é igual aos deuses

Ricardo Reis, in "Odes"
Heterónimo de Fernando Pessoa

*

Colhe o Dia, porque És Ele

Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem: outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.

Por que tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.

Ricardo Reis, in "Odes"
Heterónimo de Fernando Pessoa

*

O Erro de Querer Ser Igual a Alguém

Aqui, neste misérrimo desterro
Onde nem desterrado estou, habito,
Fiel, sem que queira, àquele antigo erro
Pelo qual sou proscrito.
O erro de querer ser igual a alguém
Feliz em suma — quanto a sorte deu
A cada coração o único bem
De ele poder ser seu.

Ricardo Reis, in "Odes"
Heterónimo de Fernando Pessoa

*

Não Sejamos Inteiros numa Fé talvez sem Causa

Meu gesto que destrói
A mole das formigas,
Tomá-lo-ão elas por de um ser divino;
Mas eu não sou divino para mim.

Assim talvez os deuses
Para si o não sejam,
E só de serem do que nós maiores
Tirem o serem deuses para nós.

Seja qual for o certo,
Mesmo para com esses
Que cremos serem deuses, não sejamos
Inteiros numa fé talvez sem causa.

Ricardo Reis, in "Odes"
Heterónimo de Fernando Pessoa

*

Aos Deuses Peço só que me Concedam o Nada lhes Pedir

Aos deuses peço só que me concedam
O nada lhes pedir.
A dita é um jugo
E o ser feliz oprime
Porque é um certo estado.
Não quieto nem inquieto meu ser calmo
Quero erguer alto acima de onde os homens
Têm prazer ou dores.

Ricardo Reis, in "Odes"
Heterónimo de Fernando Pessoa
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Sábado, 19 de Fevereiro de 2011

ALFAMA: MAYRA ANDRADE / PEDRO MOUTINHO



Quando Lisboa anoitece
Como um veleiro sem velas
Alfama toda parece
Uma casa sem janelas
Aonde o povo arrefece

É numa água-furtada
No espaço roubado à mágoa
Que Alfama fica fechada
Em quatro paredes de água
Quatro paredes de pranto

Quatro muros de ansiedade
Que à noite fazem o canto
Que se acende na cidade
Fechada em seu desencanto
Alfama cheira a saudade

Alfama não cheira a fado
Cheira a povo, a solidão,
Cheira a silêncio magoado
Sabe a tristeza com pão
Alfama não cheira a fado
Mas não tem outra canção.

Ary dos Santos/ Alain Oulman
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Quinta-feira, 17 de Fevereiro de 2011

CORRENTES D'ESCRITAS 2011 - PROGRAMA









O Encontro de Escritores de Expressão Ibérica Correntes D'Escritas 2011, que terá lugar de 23 a 26 de Fevereiro, irá trazer à Póvoa de Varzim cerca de 65 escritores de 12 países, sendo que 22 participam pela primeira vez no evento, informou Luís Diamantino destacando a presença de Eduardo Lourenço. Em evidência, entre os participantes, Laborinho Lúcio, antigo Ministro da Justiça, que fará a Conferência de Abertura, no dia 23, às 15h30, no Auditório Municipal.

Outro dos momentos altos do Encontro referido pelo Vereador da Cultura é a Sessão Oficial de Abertura, no Casino da Póvoa, onde será feito o anúncio dos vencedores dos quatro concursos literários, o Prémio Literário Casino da Póvoa, no valor de 20 mil euros, o Prémio Literário Correntes d’Escritas/ Papelaria Locus, que tem 82 trabalhos a concurso, o Prémio Conto Infantil Ilustrado Correntes d’Escritas/ Porto Editora, que contou com a participação de 56 escolas, e o Prémio Fundação Dr. Luís Rainha, atribuído pela primeira vez este ano, e ao qual concorreram 12 trabalhos de poveiros ou dedicados à Póvoa de Varzim. Ainda na Sessão de Abertura, destaque para o lançamento da Revista Correntes d’Escritas nº 10, dedicada a Luísa Dacosta, uma “poveira de coração”, que já foi distinguida com a Medalha de Mérito pela Câmara Municipal da Póvoa de Varzim.

Luís Diamantino informou ainda que o programa do Correntes d’Escritas conta com as habituais mesas de debate, cujos temas escolhidos são versos retirados de cada um dos livros finalistas do Prémio Literário Casino da Póvoa. Assim sendo, expressões poéticas dos diferentes autores candidatos ao Prémio servirão de mote para as mesas. Também as sessões nas escolas, que irão decorrer em todas as escolas E.B. 2/3 e Secundárias do concelho, terão como ponto de partida um verso de Luísa Dacosta, “Procuro a palavra”. Para além disso, e com o mesmo tema, irão realizar-se sessões com escritores, no Diana Bar, para alunos de várias escolas de Vila do Conde, Famalicão, Porto e Santa Maria da Feira.

“Infelizmente, no Correntes também falamos das pessoas que por cá passaram e não voltam a passar”, desabafou o Vereador, revelando que, na Sessão de Encerramento, Carlos Pinto Coelho e Malangatana serão lembrados e “iremos falar e ouvir falar dos bons momentos que guardamos com estas duas presenças marcantes em anteriores edições do evento cuja ausência é notada, não só aqui, mas também na cultura portuguesa”.

O Vereador referiu que durante os quatro dias terão lugar 30 lançamentos de livros, na Casa da Juventude, onde também irá decorrer a Feira do Livro, e no Axis Vermar, que acolhe ainda sessões de poesia.

Luís Diamantino destacou o papel do Casino da Póvoa que, como patrocinador principal do Encontro, é um “incentivo muito forte” e que, este ano, para além de acolher a Sessão de Abertura e atribuir o Prémio Literário Casino da Póvoa, colabora com a publicação do catálogo da exposição “Rostos e Pessoas” de Hélder J.T. de Carvalho, que estará patente no Museu Municipal e será inaugurada no dia 23. A Fundação de Serralves também coopera através da Exposição “Poesia Experimental Portuguesa”, da Colecção da Fundação de Serralves que estará na Biblioteca Municipal.

As associações culturais poveiras Octopus e Varazim Teatro organizam sessões de cinema e teatro, respectivamente: no dia 17, será apresentado O Filme do Desassossego, de João Botelho, e no dia 24, será exibido um filme de Miguel Gonçalves Mendes que retrata a relação entre José Saramago e Pilar del Río, José e Pilar. A 19 de Fevereiro, às 22h00, irá subir ao palco do Auditório Municipal a peça Bela Dona, Apalavrado 3 de Pedro Eiras.

O Vereador referiu-se também às parcerias estabelecidas com a Booktailors – Consultores Editorais e com a Revista LER para a divulgação, no Encontro, dos vencedores dos Prémios de Edição LER/Booktailors e com a Universidade do Porto e com o Jornal de Letras, Artes e Ideias (JL) para a atribuição do Prémio Reportagem Correntes d’Escritas/JL. A Universidade vai seleccionar um grupo de alunos do curso de Ciências da Comunicação que acompanharão diariamente o Correntes d’Escritas elaborando trabalhos de reportagem em vários formatos. No final, cada aluno fará uma reportagem final, sobre a globalidade do Encontro. A melhor será publicada no JL, na versão impressa ou online, de acordo com a peça realizada.

Para além do Casino da Póvoa, o Correntes d’Escritas conta, para a sua organização, com o apoio de “parceiros privilegiados, que estão connosco desde a primeira hora”, como adjectivou Luís Diamantino. São eles a Papelaria Locus, o Cineclube Octopus, o Varazim Teatro, a Porto Editora, o Instituto Cervantes, a Norprint e o Axis Vermar, a que se juntaram, a BMcar, o Governo Argentino, a Embaixada do México.

Luís Diamantino assinalou também a comparticipação do Turismo de Portugal acrescentando que “a aposta cultural da Câmara Municipal que promove a Póvoa de Varzim além fronteiras tem tido o apoio do Turismo de Portugal”.

Susana Saraiva, do Casino da Póvoa, referiu que “é uma honra estarmos associados ao Encontro e podermos patrocinar o Prémio, porque o Correntes d’Escritas é, efectivamente, um evento que dá imensa projecção à Póvoa de Varzim”. Para além disso, e seguindo uma linha de apoio à Cultura desenvolvido por esta entidade, o Casino apoia a publicação de um catálogo da exposição “Rostos e Pessoas” de Hélder J.T. de Carvalho. (daqui)

PROGRAMA CORRENTES D'ESCRITAS 2011

Dia 23 (quarta-feira)

17h00 – 1.ª MESA: 

«Falta futuro a quem tem no presente as ambições/passadas»

- Aida Gomes
- Almeida Faria
- Eduardo Lourenço
- Fernando Pinto do Amaral
- Maria Teresa Horta
- Ricardo Menéndez Salmón

Moderador: José Carlos de Vasconcelos

Dia 24

10h30 2.ª MESA: 

«Eu começo depois da escrita»

- Ignacio del Valle
- João Paulo Cuenca
- Júlio Conrado
- Karla Suarez
- Maria João Martins
- Miguel Miranda

Moderador: Carlos Vaz Marques

15h00 3.ª MESA: 

«A minha arte é uma espécie de pacto»

- David Toscana
- Juva Batella
- Luís Represas
- Manuel Jorge Marmelo
- Mário Lúcio Sousa
- Ricardo Romero

Moderador: Rui Zink

17h30 4.ª MESA: 

«Nua de símbolos e alusões é a poesia»

- Ana Luísa Amaral
- Carmen Yáñez
- Conceição Lima
- Gastão Cruz
- Ivo Machado
- Uberto Stabile

Moderador: Francisco José Viegas

Dia 25

10h30 5.ª MESA:

«As palavras são apenas uma memória»

- César Ibáñez París
- Ignacio Martínez de Pisón
- João Paulo Borges Coelho
- Mário Zambujal
- Nuno Júdice
- Rui Zink

Moderador: João Gobern

15h00 6.ª MESA: 

«Espalho sobre a página a tinta do passado»

- Alberto Torres Blandina
- António Figueira
- Francisco José Viegas
- Inês Pedrosa
- Maria Manuel Viana
- Paulo Ferreira

Moderador: José Mário Silva

17h30 7.ª MESA: 

«A obra que faço é minha»

- Álvaro Magalhães
- David Machado
- Francisco Duarte Mangas
- João Manuel Ribeiro
- José Jorge Letria
- Vergílio Alberto Vieira

Moderador: Ivo Machado

Dia 26

10h30 8.ª MESA:
«Não há palavras exactas»

- José Manuel Fajardo
- Kirmen Uribe
- Nuno Crato
- Pedro Vieira
- Raquel Ochoa
- valter hugo mãe

Moderador: Onésimo Teotónio Almeida

16h00 9.ª MESA: 

«Nada no mundo deve ser subestimado»

- António Victorino d’Almeida
- Luis Sepúlveda
- Manuel Rui
- Mário Delgado Aparaín
- Onésimo Teotónio Almeida
- Yvette K. Centeno

Moderadora: Maria Flor Pedroso
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Quarta-feira, 16 de Fevereiro de 2011

RECEITA DA COCA-COLA COM COENTROS?















 
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CHORAR - POEMA - SYLVIA BEIRUTE
























CHORAR

adoro para sempre a interpretação
da personagem.
volto a dizer
que aprecio as telelágrimas
como trabalho competente do corpo 
que transforma.
e enforma
os títulos existentes no prazer da propagação 
de uma meia-noite
de existência avulsa, de obsessão indomesticável
como protagonista ela-mesma
da suavidade nostálgica e ilógica
da faculdade de prosseguir.
volto a dizer: adoro para sempre a interpretação
da personagem.
mas devolvo as telelágrimas.
odeio chorar.

Sylvia Beirute
inédito
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UMA CASA EM BEIRUTE - LAYOUT















estou a pensar mudar o layout deste blogue. se algum designer quiser contribuir, aceito algo dentro da temática da «casa», tal como o actual. se alguns contribuírem, haverá lugar a uma escolha. os créditos do layout ficarão, como não podia deixar de ser, visíveis.
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Terça-feira, 15 de Fevereiro de 2011

SUZANA GUIMARAENS - POEMA - SPOKEN WORD
























SPOKEN WORD

A poesia
a poesia
a poesia
é - pergunto - esse sacolejar de asas transparentes
de inconscientes e possessos anjos?
A poesia – pergunto – a poesia
é esse alar de cinza terrestre em embrião celeste?
A ascensão das fezes e da urina em verso livre ou em rima?
Sumo pontífice, Hierofante
a Metáfora Insondável, o Indescobrível?
Ou o Vómito, deusa em mim?

O corpo pede
(poesia)
mas o mundo fede e a lama bruta invade
e talvez nunca se chegue a saber como se mede
– a poeira e a cinza, sim –
mas [nunca a poesia] e isto que agora somos
: porque já não é tão fácil encontrar trilhos
porque entretanto o preto acinzentou
porque já não há fascistas nem revolução
só os carreiristas, os liberais capitalistas
os compulsivo-consumistas e a podridão dos excedentes
o contrabando legal de estupefacientes e os recipientes ambulantes
; depois há os laptops e os PDAs e os iPods e os iPhones
e os SmartPhones e os BlackBerries
o Skype, a Wikipedia e o Photoshop
o facebook e o bodybook, as webcams e os webcums
os nano-tubos carbónicos e o plasma e as casas inteligentes
os quotidianos frenéticos e os carros eléctricos (“ai, não tem!?... mas, olhe que devia!”)
as relações pragmáticas e as seitas idiossincráticas
as fátimas dogmáticas, as fátimas cépticas e as fátimas… relativas
(“Valha-me Nossa Senhora de Fátima!”)

– “a questão é” quando compreenderei o Outro
com ou sem estilo, terapia ou High Tech.
E é normal que, entretanto, os silêncios, as fomes e as prisões permaneçam
e que os jornais se continuem a enfardar como a bíblia-sem-Saramago
com os filmes e as novelas e as séries e as revistas e os desfiles e os jogos
e os jogos e os desfiles e as revistas e as séries e as novelas e os filmes
até que um diabo de ligas te possua e tu adormeças que nem um anjo.

É: a tua alma cede, mas o teu espírito pede
(sem saberes, mas pede)
poesia e justiça
– o fio de lã e o labirinto –
a justiça, todavia, perdeu-se algures fora do labirinto
porque era um travesti zarolho e confuso
e a poesia e a poesia e a poesia não aparece nem faz nada
a poesia apenas é a poesia e anda por aí e não pede para ser mais nada
nem te pede rigorosamente nada
: para acreditar ou votar ou algemar ou imolar ou casar ou explodir
nem sequer para rimar
; apenas o rigor intuitivo-intuitivo-intuitivo da criação além prosa
e o amor pelo que crias
e a libertação do que crias
e seres a Santíssima Trindade na polpa dos dedos.
(respira)


Sabes que não pões pão na boca de ninguém
nem na tua
mas és a mãe, és o pai e és a cria
e és livre, até de ti
; não sabes como, nem entendes
nem interessa, mas és
e, quando és,
a rosácea estremece
a mão obedece
e é aí que desce

a Poesia?
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Segunda-feira, 14 de Fevereiro de 2011

DIA DOS NAMORADOS - POEMA - SYLVIA BEIRUTE






















DIA DOS NAMORADOS

o amor 
passou-se no tempo em que não havia medo.
não havia paredes subidas.
as manhãs eram remotas como rosas.
os ontens uma mitologia condigna.
a pátria era tão labiríntica quanto uma lágrima.
tão imprevisível quanto o ofício de um deus.
o amor passou-se no tempo em que ainda não tinha nome,
em que os segundos eram uma espécie de sangue,
e a tarde podia ser uma só palavra
na órbita de uma outra palavra.
o amor passou-se neste poema para pessoas sós,
passou-se como mera reprodução de um tempo
em que não havia corpos, logo
corações distantes.
mas ainda assim o amor existe: mesmo sendo 
um ontem, mesmo sendo uma lágrima,
mesmo sendo uma rosa esquecida
num quarto azul.

Sylvia Beirute
inédito
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