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sexta-feira, 29 de outubro de 2010

MARCO D'ALMEIDA LÊ MÁRIO CESARINY



"Pastelaria"
Poema de Mário Cesariny
Interpretação de Marco D'Almeida
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DESCENTRAMENTO - POEMA - SYLVIA BEIRUTE

























DESCENTRAMENTO

a consciência do poema.
e por dentro da vida orgânica que 
autobiografa a continuidade: uma função capital:
a distracção informativa
do que dorme nos limites do seu mundo absoluto
com ausências e na
representação do que não está:
{a consciência do poema};
o prodígio do corpo fronteiriço, antivisceral,
o corpo que quer sair, 
marcar, morrer
na racionalidade de uma inconsciência.
o corpo do poema.
o corpo morto do poema.
o corpo vivomorto do poema.

Sylvia Beirute
inédito
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CINEMA: GAINSBOURG-VIDA HERÓICA

















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GONÇALO M. TAVARES: UMA VIAGEM À ÍNDIA

UMA VIAGEM À ÍNDIA

Já pude dar uma vista de olhos pelo novo livro de Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia. Ainda não o li nem sei se o poderei fazer nos tempos mais próximos. De todo o modo, li algumas das estrofes e pareceu-me uma opção de estilo interessante, vertente em que o autor é mestre, pela introdução, em todos os seus livros, de alguma inovação. De facto, uma prosa (re)cortada pode, na leitura, gerar uma respiração diferente, com efeitos até no próprio entendimento da obra de ficção. Pessoalmente dou muita importância ao estilo, sobretudo às pausas. Tenho a certeza que esta opção do recurso às estrofes, seguindo Os Lusíadas de Camões, dará ao corpo do livro necessariamente isso. Mas se virmos bem, e para quem leu os Livros Pretos do autor (Um Homem: Klaus Klump; A Máquina de Joseph Walser; Jerusalém; Aprender a Rezar na Era da Técnica), estes romances aparecem como algo fragmentários no seu discurso e estrutura narrativa. Creio que este Uma Viagem à Índia também participará disso, com a particularidade que acima referi. Gonçalo M. Tavares procura, em meu entender, e ao contrário de outro tipo de romancistas, preencher os espaços, erguer elos de ligação entre realidades (quer estas sejam paralelas, transversais ou de simples sobreposição). É isso que torna a obra deste autor tão apetecível, tão surpreendente.
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quinta-feira, 28 de outubro de 2010

ANTÓNIO RAMOS ROSA - O POEMA ABERTO E NU

O POEMA ABERTO E NU

Estar no mundo é ter a experiência de uma participação e ao mesmo tempo de uma separação irredutível. A distância que o homem sente em relação ao mundo tem uma correspondência na linguagem que é constituída por significantes em que o objecto ou o referente só está presente através da distância da palavra em relação ao objecto. Por isso se pode dizer que a presença do referente na palavra é a presença da ausência. É nesta distância que o poeta cria e constitui o poema que, no seu modo de ser, não representa nem traduz, porque o poema é o fruto de uma imaginação radical que segue mais as impulsões do inconsciente do que as determinações da razão e da consciência. Por isso a poesia é indeterminável. Contra o mito da totalidade racional e contra as determinações da sociedade, a poesia erige-se fiel ao mito da integridade do ser, ou seja, da união do divino e do terrestre, segundo a tradição das sociedades primitivas e da civilização grega, por exemplo. É assim que a separação ontológica do homem pode coincidir, em certos momentos, com a unidade primeira que o ser humano conhecer nos seus primórdios. E se formos mais longe, poderemos dizer até que o poeta reactualiza por vezes a unidade da matéria inorgânica a que todo o ser vivo tende a regressar, segundo Freud. É por esta razão que o poema é originário e irredutível na sua indeterminação. As energias que o promovem diferenciam-no de todo e qualquer modelo estabelecido pela representação social ou pela racionalidade da consciência. Vemos assim que a poesia é a abertura nua que não se pode delimitar, a intimidade mais pura e mais selvagem de algo que não podemos traduzir ou determinar segundo os esquemas da compreensão racionalizante. Todavia, o poema não é um enigma. Ele é evidente na sua obscuridade ou na sua claridade ofuscante. O poema é uma manifestação da origem ou, por outras palavras, da Vida absoluta, e por isso mesmo é um mistério real. O leitor, tal como o poeta, é um cego que não tem outra luz além daquela que o poema projecta sobre si.

António Ramos Rosa,
em A Parede Azul
(Estudos sobre poesia e artes plásticas)

sobre a obra poética de António Ramos Rosa, seguir este link.
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PAIS E FILHOS

















Acho perigosas as generalizações, excepto se essas generalizações se reportarem a uma experiência pessoal, ainda que vivida indirectamente. Creio que é o que acontece no texto que abaixo coloco a itálico, de cujo conteúdo, no entanto, não subscrevo na íntegra. De qualquer das formas, é comovente a forma como está escrito, a sensação de autenticidade que conseguiu passar, os arrepios que me causou.


Aquando do divórcio o mais difícil para mim foi perceber que o meu filho nunca teria o pai e a mãe juntos. Sentir que de alguma forma, constituir uma nova família seria roubar-lhe o pai duplamente. Isto talvez seja mais fácil para os pais que vivem maioritariamente com a criança, mas para aqueles que ficaram com dias no calendário para estar com o filho e uma série de regras e restrições, o sentimento de abandono, do lar, do filho, de ser pai a tempo inteiro, é uma perda que se sente quase irreparável. Na altura disse a mim mesmo que não teria outro filho. Que já tinha um e que não lhe podia roubar o amor entregando-o a outra criança. A criança abstracta que não amo. A criança sem data de nascimento, sem nome, sem corpo que tenha que cuidar. O filho de uma mãe que não conheço. As mulheres talvez queiram os filhos pelos filhos. É frequente ouvi-las dizer, ainda quando solteiras, que querem ter um filho, que querem ter uma catrefada deles, que deixaram um homem por este não querer ter nenhum. Mas os homens, se não todos pelo menos este, quer a mulher primeiro. E com a mulher então, daquela mulher, quer filhos. Quer um ou dois ou mais. Quer com aquela mulher filhos porque isso realizará ainda mais as virtudes do amor um pelo outro. Hoje sei que se essa mulher aparecer eu poderei querer voltar a ter filhos. Filhos de uma mulher que ame, porque só desse amor me podem nascer. Foi assim que o meu primeiro veio ao mundo, com o nome e o corpo da mulher que amava. Só de uma mulher que conheça e ame posso querer filhos. Não pelos filhos em si, mas pela mulher ela mesma.

CLÁUDIA LUCAS CHÉU - POEMA
























agarra-me pelos cabelos
faz renda de bilros comigo
quero ser um bibelot em cima da tv
espojada num naperon
a olhar para ti
absorto
nas legendas que vês

tanto estrangeirismo num parágrafo dá para fingir estar longe daqui

Cláudia Lucas Chéu
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quarta-feira, 27 de outubro de 2010

UMA LISTA ARREPIANTE



















Aqui
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BLECAUTE - REVISTA DE LITERATURA

Já está disponível o n.º 6 da Blecaute, revista brasileira de literatura.
 

terça-feira, 26 de outubro de 2010

CHRISTIAN GALI - COM UM BARCO NA MÃO - POEMA

























COM UM BARCO NA MÃO

O essencial para mim é ser acolhedor
tornar-me exactamente o contrário da indiferença
não atafulhar as algibeiras com palavras
mas antes despedaçar as que aí dormem
eu quereria apenas transformar-me num homem
tenho a idade de todos os desejos e da amizade
estou pronto a não abusar dos dias a viver
o mar não abandona nunca a praia
ele é eternamente tenaz
eu serei humanamente compreensivo.

Christian Gali
em Diário Ilustrado, 1958
Tradução de António Ramos Rosa
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segunda-feira, 25 de outubro de 2010

GERTRUDE STEIN - POEMAS, POESIA, ANÁLISE CRÍTICA, OBRAS




















sb: série poetas


A poesia de Gertrude Stein (3 de Fevereiro de 1874, Pittsburgh, Estados Unidos da América- 27 de Julho de 1946, Paris) é de orientação personalista, tentacular à mitificação das coisas simples, e com um lado argumentativo e filosófico que a faz estar muito à frente do seu tempo. E nem se diga que é apenas pelo conteúdo destes poemas. Gertrude Stein foi também uma criadora de objectos formais, experimentalista no avanço prático das razões dos seus poemas. Um dos aspectos essenciais que lhe moldam o estilo é o uso recorrente de repetições. O texto poético ganha um ritmo muito peculiar, força a menos paragens, e a respiração é suave. (Se eu lhe contasse ele gostaria. Ele gostaria se eu lhe contasse. / Ele gostaria se Napoleão se Napoleão gostasse gostaria ele gostaria. / Se Napoleão se eu lhe contasse se eu lhe contasse se Napoleão. / Gostaria se eu lhe contasse se eu lhe contasse se Napoleão./ Gostaria se Napoleão se Napoleão se eu lhe contasse. / Se eu lhe contasse se Napoleão se Napoleão se eu lhe contasse. / Se eu lhe contasse ele gostaria ele gostaria se eu lhe contasse. / Já. / Não já. / E já./ Já. - em "Se eu lhe contasse: um retrato acabado de Picasso", tradução de Augusto de Campos). Há nesta poesia, cuja forma é indissociável do seu conteúdo, e se confunde com ele, a busca pelo lado indirecto das coisas, aquele que, curiosamente, é muitas vezes o mais presente na vida humana. A vida é, pois, feita de indecisões, de realidades dentro de realidades, de dúvidas que aparecem com toda a resistência e mundividência. O corpus dos poemas de Stein respeita essa beleza natural das coisas, essa insurreição das palavras que a devem reproduzir e alargar o espírito. Por outro lado, esta poesia aparece como espaço de automeditação, campo de existência de uma cosmovisão expressa na errância das imagens, na retórica das pausas, nas contradições que dão segurança a uma autenticidade. Aí há uma decomposição dos elementos, que após tal facto adquirem uma autonomia complexa, ou melhor, um complexo de pequenos fragmentos, todos eles ascendendo ao todo temático, à expressão das suas consequências. Importa notar que não há em Gertrude Stein uma raiz lírica, ao contrário de muitos dos seus contemporâneos, havendo, pelo contrário, um espírito de vanguarda que ainda se mantém. Os poemas são híbridos, alguns próximos daquilo que eu chamo de "extrapoesia", procurando aspectos da dramaturgia, senão do ensaio. Stein era uma grande intelectual do princípio do século XX e talvez esse hibridismo da sua obra poética se deva ao contacto com personalidades das mais diversas áreas e tendências  (Pablo Picasso, Matisse, Georges Braque, Derain, Juan Gris, Apollinaire, Francis Picabia, Ezra Pound,  Ernest Hemingway e James Joyce, etc). A leitura desta poesia faz lembrar, em muitos aspectos, o surrealismo, embora na sua construção os processos sejam distintos. Stein procura, como se poderá ver na poesia abaixo seleccionada, os significados dentro dos significados, a decomposição dos sentidos e ideias, fazendo-o com expedientes mentais, sempre controlados por si.

Selecção de poemas:

STANZA II

I think very well of Susan but I do not know her name
I think very well of Ellen but which is not the same
I think very well of Paul I tell him not to do so
I think very well of Francis Charles but do I do so
I think very well of Thomas but I do not not do so
I think very well of not very well of William
I think very well of any very well of him
I think very well of him.
It is remarkable how quickly they learn
But if they learn and it is very remarkable how quickly they learn
It makes not only but by and by
And they can not only be not here
But not there
Which after all makes no difference
After all this does not make any does not make any difference
I add added it to it.
I could rather be rather be here.



STANZA II

Penso muito bem de Susan mas não sei o seu nome
Penso muito bem de Ellen mas não é o mesmo
Penso muito bem de Paul digo-lhe que não o faça
Penso muito bem de Francis Charles mas faço-o
Penso muito bem de Thomas mas não não o faço
Penso muito bem de não muito bem de William
Penso muito bem de qualquer muito bem dele
Penso muito bem dele.
É notável que rápido aprendem
Mas se aprendem e é muito notável a rapidez com que o fazem
Suponho não somente senão por e por
E podem não somente estar não aqui
senão não aí
O que afinal não faz diferença
O que afinal não faz nenhuma não faz nenhuma diferença
Adiciono o adicionado a isso.
Bem podia de preferência estar de preferência estar aqui.

Gertrude Stein
Tradução de Pedro Calouste
.
*
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STANZA XXXVIII

Which I wish to say is this
There is no beginning to an end
But there is a beginning and an end
To beginning.
Why yes of course.
Any one can learn that north of course
Is not only north but north as north
Why were they worried.
What I wish to say is this.
Yes of course.


STANZA XXXVIII

O que desejo dizer é isto
Não há princípio de um fim
Mas há um princípio e um fim
Para um princípio.
Porquê sim claro.
Qualquer um pode aprender esse norte claro
Não é somente norte mas norte como norte
Por que estavam eles preocupados.
O que quero desejo dizer é isto.
Sim claro.
 
Gertrude Stein
Tradução de Pedro Calouste

.
*
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IF I TOLD HIM: A COMPLETED PORTRAIT OF PICASSO

If I told him would he like it. Would he like it if I told him.
Would he like it would Napoleon would Napoleon would would he like it.
If Napoleon if I told him if I told him if Napoleon. Would he like it if I told him if I told him if Napoleon. Would he like it if Napoleon if Napoleon if I told him. If I told him if Napoleon if Napoleon if I told him. If I told him would he like it would he like it if I told him.
Now.
Not now.
And now.
Now.
Exactly as as kings.
Feeling full for it.
Exactitude as kings.
So to beseech you as full as for it.
Exactly or as kings.
Shutters shut and open so do queens. Shutters shut and shutters and so
shutters shut and shutters and so and so shutters and so shutters shut and so shutters shut and shutters and so. And so shutters shut and so and also. And also and so and so and also.
Exact resemblance. To exact resemblance the exact resemblance as exact
as a resemblance, exactly as resembling, exactly resembling, exactly in
resemblance exactly a resemblance, exactly and resemblance. For this is so.
Because.
Now actively repeat at all, now actively repeat at all, now actively repeat at all.
Have hold and hear, actively repeat at all.
I judge judge.
As a resemblance to him.
Who comes first. Napoleon the first.
Who comes too coming coming too, who goes there, as they go they share, who shares all, all is as all as as yet or as yet.
Now to date now to date. Now and now and date and the date.
Who came first. Napoleon at first. Who came first Napoleon the first.
Who came first, Napoleon first.
Presently.
Exactly do they do.
First exactly.
Exactly do they do too.
First exactly.
And first exactly.
Exactly do they do.
And first exactly and exactly.
And do they do.
At first exactly and first exactly and do they do.
The first exactly.
And do they do.
The first exactly.
At first exactly.
First as exactly.
As first as exactly.
Presently
As presently.
As as presently.
He he he he and he and he and and he and he and he and and as and as he
and as he and he. He is and as he is, and as he is and he is, he is and as he and he and as he is and he and he and and he and he.
Can curls rob can curls quote, quotable.
As presently.
As exactitude.
As trains
Has trains.
Has trains.
As trains.
As trains.
Presently.
Proportions.
Presently.
As proportions as presently.
Father and farther.
Was the king or room.
Farther and whether.
Was there was there was there what was there was there what was there
was there there was there.
Whether and in there.
As even say so.
One.
I land.
Two.
I land.
Three.
The land.
Three
The land.
Three
The land.
Two
I land.
Two
I land.
One
I land.
Two
I land.
As a so.
They cannot.
A note.
They cannot.
A float.
They cannot.
They dote.
They cannot.
They as denote.
Miracles play.
Play fairly.
Play fairly well.
A well.
As well.
As or as presently.
Let me recite what history teaches. History teaches.


SE EU CONTASSE: UM RETRATO ACABADO DE PICASSO

Se eu lhe contasse ele gostaria. Ele gostaria se eu lhe contasse.
Ele gostaria se Napoleão se Napoleão gostasse gostaria ele gostaria.
Se Napoleão se eu lhe contasse se eu lhe contasse se Napoleão. Gostaria se eu lhe contasse se eu lhe contasse se Napoleão. Gostaria se Napoleão se Napoleão se eu lhe contasse. Se eu lhe contasse se Napoleão se Napoleão se eu lhe contasse. Se eu lhe contasse ele gostaria ele gostaria se eu lhe contasse.
Já.
Não já.
E já.
Já.
Exactamente como como reis.
Tão totalmente tanto.
Exactidão como reis.
Para te suplicar tanto quanto.
Exactamente ou como reis.
Fechaduras fecham e abrem e assim rainhas. Fechaduras fecham e fechaduras e assim fechaduras fecham e fechaduras e assim e assim fechaduras e assim fechaduras fecham e assim fechaduras fecham e fechaduras e assim. E assim fechaduras fecham e assim e assado.
Exacta semelhança e exacta semelhança e exacta semelhança como exacta como uma semelhança, exactamente como assemelhar-se, exactamente assemelhar-se, exactamente em semelhança exactamente uma semelhança, exactamente a semelhança. Pois é assim a acção. Porque.
Repita prontamente afinal, repita prontamente afinal, repita prontamente afinal.
Pulse forte e ouça, repita prontamente afinal.
Juízo o juiz.
Como uma semelhança a ele.
Quem vem primeiro. Napoleão primeiro.
Quem vem também vindo vindo também, quem vem lá, quem vier virá, quem toma lá dá cá, cá e como lá tal qual tal ou tal qual.
Agora para dar data para dar data. Agora e agora e data e a data.
Quem veio primeiro Napoleão de primeiro. Quem veio primeiro. Napoleão primeiro. Quem veio primeiro, Napoleão primeiro.
Presentemente.
Exactamente eles vão bem.
Primeiro exactamente.
Exactamente eles vão bem também.
Primeiro exactamente.
E primeiro exactamente.
Exactamente eles vão bem.
E primeiro exactamente e exactamente.
E eles vão bem.
E primeiro exactamente e primeiro exactamente e eles vão bem.
O primeiro exactamente.
E eles vão bem.
O primeiro exactamente.
De primeiro exactamente.
Primeiro como exactamente.
De primeiro como exactamente.
Presentemente.
Como presentemente.
Como como presentemente.
Se se se se e se e se e e se e se e se e e como e como se e como se e se. Se é e como se é, e como se é e se é, se é e como se e se e como se é e se e se e e se e se.
Cachos roubam anéis cachos fiam, fiéis.
Como presentemente.
Como exactidão.
Como comboios.
Tomo comboios.
Tomo comboios.
Como comboios.
Como comboios.
Presentemente.
Proporções.
Presentemente.
Como proporções como presentemente.
Pais e pois.
Era rei ou quarto.
Pois e vez.
Uma vez uma vez uma vez era uma vez o que era uma vez uma vez uma vez era uma vez vez uma vez.
Vez e em vez.
E assim se fez.
Um.
Eu aterro.
Dois.
Aterro.
Três.
A terra.
Três.
A terra.
Três.
A terra.
Dois.
Aterro.
Um.
Eu aterro.
Dois.
Eu te erro.
Como um tão.
Eles não vão.
Uma nota.
Eles não notam.
Uma bota.
Eles não anotam.
Eles dotam.
Eles não dão.
Eles como denotam.
Milagres dão-se.
Dão-se bem.
Dão-se muito bem.
Um bem.
Tão bem.
Como ou como presentemente.
Vou recitar o que a história ensina. A história ensina.
.
Gertrude Stein
tradução de Augusto de Campos
adaptado por Pedro Calouste

*

Obra Inclui:
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Ligações Úteis:
Revista Sibila - Gertrude Stein: Um Fracasso Moderno
Revista Modo de Usar & Co, por Augusto de Campos
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Artigo de Sylvia Beirute
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domingo, 24 de outubro de 2010

POEMAS LIDOS EM VOZ ALTA

Em boa hora Ricardo Domeneck leu o post com um poema de Angélica Freitas. Alertou-me para o  myspace da poeta com leitura de poemas pela própria do seu livro Rilke Shake (São Paulo, Cosac Naify, 2007). Imperdível.

Ainda no myspace da autora:

Angélica Freitas (Pelotas, 1973) é uma poeta e tradutora brasileira. Publicou o livro Rilke shake (São Paulo: Cosac Naify, 2007). Participou de vários encontros de poetas e festivais internacionais, como o Festival Latino-americano de Poesía Salida al Mar (Buenos Aires), o Poquita Fé, em Santiago do Chile, e é uma das convidadas do Poesie Festival em Berlim, dedicado em 2008 à poesia lusófona. Seus poemas foram publicados em várias revistas impressas e eletrônicas, como Inimigo Rumor (Rio de Janeiro, Brasil), Diário de Poesía (Buenos Aires/Rosário, Argentina), águasfurtadas (Lisboa, Portugal), Hilda (Berlim, Alemanha) e Aufgabe (Nova Iorque, Estados Unidos), e figura na antologia Cuatro Poetas Recientes del Brasil (Buenos Aires: Black & Vermelho, 2006). É co-editora, com os poetas Marília Garcia, Fabiano Calixto e Ricardo Domeneck, da revista de poesia Modo de Usar & Co. Traduziu poetas argentinas como Susana Thénon e Lucía Bianco.
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ANGÉLICA FREITAS - ÉPILOGO - POEMA




















Tenho andado a escrever sobre Gertrude Stein e, ao tentar encontrar poemas em português da autora, deparo-me com este poema da brasileira Angélica Freitas, poetisa de que conheço alguma coisa, uma vez que é umas das pessoas que edita a prestigiada revista brasileira Modo de Usar & Co, juntamente com Ricardo Domeneck, Fabiano Calixto e Marília Garcia.

ÉPILOGO

gertrude stein cabelo dos césares
alice olhos negros de gipsy
josephine baker djuna barnes
nós cinco na sala de espelhos
eu era alice e djuna era josephine
gertrude stein era gertrude stein era gertrude stein
na saída gertrude me puxou pelo braço
e me disse muito zangada: não achei graça
no que você publicou nos jornais
me derrubaria como um tanque da wehrmacht
não fosse por ezra que passeava ali com seu bel esprit
lésbicas são um desperdício ele disse
você já ouviu falar em mussolini? 

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INSTITUTO CERVANTES: MIGUEL HERNÁNDEZ

























Curiosa forma de celebrar o 100.º aniversário do nascimento do poeta espanhol Miguel Hernández. O Instituto Cervantes de Manila (Filipas) está a organizar uma leitura non-stop dos seus poemas, e que começará no dia 28 deste mês. O aniversário do poeta é no dia 30 e pergunto-me se a leitura não se estenderá até esse dia, uma vez que já estão inscritas centenas de pessoas para procederem às leituras. 

Um poema de Miguel Hernández:


CHEGOU TÃO FUNDO O BEIJO

Chegou tão fundo o beijo
que trespassou e emocionou os mortos.

O beijo trouxe um brio
que arrebatou a boca dos vivos.

O profundo beijo grande
sentiu lábios breves ao afundar-se.

Esse beijo que quis
enterrar os mortos e semear os vivos.

Miguel Hernández
Tradução de Pedro Calouste

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REVISTA INÚTIL N.º 3






















Pouco se sabe ainda sobre o novo número da revista literária Inútil. Duas coisas são certas: "Pele" será a temática e Maria Teresa Horta a convidada central.

Recordo que participei no número anterior com alguns poemas de minha autoria, e comentei aqui todo o seu conteúdo literário.

A foto que se vê acima é de Rui Aguiar.
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POEMA PARA BOB MARLEY - SYLVIA BEIRUTE
























POEMA PARA BOB MARLEY

.......................................Os ventos que às vezes tiram / algo que amamos, são os /
.......................................mesmos que trazem algo que / aprendemos a amar.


...........................................................................................Bob Marley

um círculo de luz não inclui o seu interior.
o discurso não inclui uma ironia em marcha lenta.
um animal de estimação não inclui o seu pensamento.
o que finge não inclui o que reverbera.
o que reverbera não inclui consciência alguma.
o que dói não inclui a sua emoção prévia.
todo o prévio não inclui linguagens finitas.
os espelhos não incluem tudo o que devolvem.
uma ansiedade não inclui a dimensão exacta do acto.

o teu amor: não me inclui a mim.
porque o que funde não inclui o que permanece.

Sylvia Beirute
inédito
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SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN: AS PESSOAS SENSÍVEIS - POEMA
























AS PESSOAS SENSÍVEIS

As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra

"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"
Assim nos foi imposto
E não:
"Com o suor dos outros ganharás o pão".

Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito

Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem.

Sophia de Mello Breyner Andresen
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