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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

EDUARDO PITTA - O MESTRE DA ELIPSE


























O MESTRE DA ELIPSE

Nos jornais da província, é ou era frequente vir notícia do aniversário do juiz da terra, o trânsito de um notável, ou o matrimónio da filha do senhor presidente da Câmara. Não tem mal esse paroquialismo. É uma forma de "nobilitação" como qualquer outra.


Atingido o patamar nacional, a dimensão passa a ser outra. Por isso me causa estranheza o lastro provinciano de algumas manifestações associadas à morte de Eugénio de Andrade. Ouvir lamentar a fraca afluência de políticos "de Lisboa", ou, pior ainda, ver no cemitério do Prado do Repouso um dirigente partidário a perorar como se estivesse num comício, lembra fatalmente as ominosas práticas de certos regimes. Eugénio tem direito a ser tratado com respeito, significando isso que dispensa a lógica "apparatchik". Uma coisa é a comoção dos amigos próximos, merecedora de reserva, outra bem diferente a falta de pudor de quem não se coíbe de recordar quanto Eugénio lhe ficou a dever o "conforto" dos últimos anos. As Fundações existem para preservar a memória ou potenciar o estudo da obra dos patronos, sendo irrelevante a eventual (e muito rara) vertente doméstica.
Um poeta, e por maioria de razão um poeta com o perfil de Eugénio, sobrevive na obra que deixa. Ler os seus livros é a homenagem que lhe devemos. Lê-lo e manter o que dissemos enquanto vivia. Os poemas, os textos em prosa, tão esquecidos, tão pouco citados - quem se lembra da colectânea de 1968 onde nos fala de Pascoaes, Lorca, Pavia, Rosalía, Resende, Nobre, e outros, "Os Afluentes do Silêncio", precisamente -, as entrevistas que deu, e foram tantas que algumas passaram despercebidas, mas numa delas, livre de entrelinhas, idiossincrática entre todas, Eugénio não teve pejo em listar aquilo que detestava, o verbo é seu: fado, sebastianismo, filosofia portuguesa, o Papa, os militares, a obra de Camilo, Wagner, Elizabeth Taylor, os sonetos de Florbela Espanca, as praias do Algarve, o bispo de Braga, migas de bacalhau, o Ulisses de Joyce, a senhora Thatcher, Almada Negreiros, folclore, travestis, pupilos do exército, exibicionismo, sentimentalismo, surrealismo, poesia barroca, a arquitectura de Taveira, Almodóvar, os pastorinhos de Fátima, a poesia de Ginsberg, o carnaval brasileiro, a pintura de Rubens, os acrósticos, Andy Warhol, "O Retrato de Dorian Gray", louça das Caldas, Madonna, castelos da Baviera, pilhérias, comer com mais de uma pessoa, etc. Por contraponto, também dizia, na mesma entrevista, do que gostava: entre outras coisas, dos esquilos de Central Park, de Virginia Woolf, de Mozart, de Oxford, dos madrigais de Monteverdi, de Moby Dick, de espirituais negros, das dunas de Long Island no Inverno, das Goldberg Variations, de framboesas, de Walt Whitman, de coros alentejanos, da mãe, e de um verso de Cesariny: "Conto os meus dias, tangerinas brancas". As coisas amadas correspondem à imagem que lhe ficou colada. Mas qualquer coisa me diz que o Eugénio mais autêntico passa pelo inventário do abominado. Aos poetas não se exige que sejam "correctos", apenas se lhes pede genuinidade. Como disse Joaquim Manuel Magalhães, "transformá-lo no poeta oficial daqueles que não reconhecem os poetas maioritários [...] coloca-o na linha inquietante dos homenageáveis que se deixam homenagear." (cf. "Os Dois Crepúsculos", 1981, p. 93) Insistir na "veneração" acrítica é um disparate e um erro.
Um dos sintomas desse culto passa pelo branqueamento da homossexualidade de Eugénio. Lembro-o sem intuito de estabelecer qualquer tipo de "homonormatividade". Longe disso. Acontece que há uma coisa chamada identidade sexual, a qual, no caso de Eugénio, sofreu entorse sistemática. Se é verdade que tudo assenta numa "elemental" ambiguidade, falando e não falando "do que tanto se calava / ou só obliquamente referia", não podemos ignorar a obsidiante presença do corpo masculino: "As Janelas / abrem [...] para a extrema embriaguez / de um corpo nu nas areias. / / As janelas abrem para a loucura / da sombra de um lírio entre as pernas. / / Abrem para a luz extenuada / e masculina das colinas, / / para as águas tresmalhadas, / para a língua em chama nas virilhas [...]". A repressão teve a sua quota: nas edições anteriores a 1966, o último verso do poema VIII de "As Mãos e os Frutos" era "uma mulher pura como os animais". A partir desse ano passou a ser "um corpo aberto como os animais". É o triunfo do referente sem género. Mestre da elipse, Eugénio não mais parou de ser incensado.
Mas, onde quer que esteja, estou em crer que está a fazer figas pela "desforra". Eugénio soube sempre que o beija-mão nada tinha de inocente. Ter-se posto a jeito foi o ónus que sofreu pela tença.

Eduardo Pitta
publicado no Público
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domingo, 26 de setembro de 2010

LENDO CHARLES BUKOWSKI




















ON READING BUKOWSKI EM PONTA DELGADA
por Vamberto Freitas

Não, não tenho os mais de 45 livros de Charles Bukowski publicados em vida e após a morte, nem lá perto, mas tenho uma boa e essencial colecção da sua obra há muitos anos na minha estante. Bukowski faleceu em San Pedro, Califórnia, em 1994, aos 73 anos de idade. Para a quantia de cigarros e charutos que fumou enquanto bebia litros de cerveja, vinho e outras substâncias celestiais mas mortais, nada mal. Ou então tudo não passou de uma pose bem urdida ao longo da vida. Estou em crer que escrever tanto como ele, só com muitas horas, dias e anos de sobriedade. Alguns dirão que a sua mais do que “conturbada” prosa e poesia desmente precisamente este meu último palpite. O facto é que ele deixou as mais atrevidas, corajosas e indecentes páginas na literatura norte-americana de todos os tempos, nem Hunter S. Thompson se tornou a sua sombra na literatura da maldição, e Henry Miller parecerá um menino de escola dominical ao seu lado. Escreveu ao mesmo tempo dos Beat, a que alguns críticos ainda tentam associa-lo, mas ele só derramou desprezo sobre esses que ele chamava de oportunistas, os que desfrutaram do recém-descoberto amor que a Academia esquerdizada passou a dedicar a todo e qualquer rebelde intelectual a partir dos anos sessenta.
Bukowski levou ao extremo na sua vida pessoal e de escritor nada mais, nada menos do que a Pregação Americana do Individualismo: que a sociedade me deixe em paz, não se preocupe comigo, que eu sobrevirei como quiser e entender. Quanto às grandes ideias e ideais, estamos falados: dá no que tem dado, não me incluem no projecto ou no sonho. Nascido na Alemanha em 1920 de pai americano e mãe alemã, levado para a Grande Los Angeles aos três anos de idade, a sua vida foi sempre de desobediência amena aos ditames da cultura nacional e dos compatriotas vizinhos, esses que eu próprio conheci tão bem durante quase 27 anos a cortar e regar a relva aos sábados e a mexericar sorrateiramente tudo em sua volta, exactamente como num famoso conto de Raymond Carver. O filme “Barfly” feito em Hollywood, gente e cidade que ele só “usava” para cravar os seus magnatas ricos, hipócritas quase sempre no seu, digamos, “amor” por Bukowski, e sem grande imaginação, mostra-o na sua vivência sem regras: marginal, bêbado, sem vontade de trabalhar, amante por algumas horas e de companhia incerta, escritor (na altura) incipiente e sem noções de qualquer grandeza ou significado. Enfim, o supremo invejado de quem sonhou um dia ser verdadeiramente livre, mas sem ter necessariamente de dormir sob uma ponte. Tudo isso transparece em directo na sua prosa e poesia até ao fim da sua longa carreira. É certo que a poucos anos de morrer já desfrutava de algumas benesses (carro novo e vinhos mais finos, supõe-se), provindas da sua crescente fama no estrangeiro e no seu país.
Que tem de especial uma leitura ou (re)leitura de Bukowski em Ponta Delgada? Acontece que numa tarde de Domingo, de céu cinzento e tempo ameaçador, encontrei alguma poesia de Bukowski numa feira do livro local, que tem obras americanas em primeiras edições, graças à globalização em curso, digam outros o que disserem: Come On In! (New Poems), póstumo como ele havia planeado. Vim para casa e diverti-me à brava. Não foi só a delícia de ler inesperadamente mais uma vez Bukowski, olhando para solidão que é o mar dos Açores em dias como estes, como é o sentimento de estar sempre “longe aqui”. Depois, o contraste da liberdade absoluta de um poeta do mundo, mesmo que sempre quieto em casa, mas atento à tremenda ebulição das ruas, dos bairros, das cidades em redor, com a tímida vida de uma sociedade fechada e ainda cheia de medos e complexos de toda a ordem. Na sua linguagem crua, áspera, ofensiva, brutal, directa, Bukowski terá outra “mensagem” para cada um dos seus leitores: o “mundo” és tu, só pode ser tu, está em ti e dentro de ti, não culpes nem o lugar nem os outros, vive como quiseres, e mantém-te atento às tentativas de te vergarem a seu gosto e para o seu interesse. Fernando Pessoa, naturalmente de modo muitíssimo diferente, já tinha dito isto, mais ou menos, quando rejeitava para sempre ser “tributável”, como o queriam e o desejavam. Só que para além das suas imparáveis blasfémias contra a sociedade ou contra quem lhe aborrecesse num determinado dia ou circunstância, Bukowski escondia em si uma imensa erudição de autodidacta -- literatura europeia e americana, música clássica, especialmente – de que poucos outros escritores do seu atribulado tempo se podem gabar; não a ostentava nunca, deixava-a cair estritamente ao serviço de um outro poema, como fundo tranquilizador das suas noites solitárias, ou, mais raramente, como arma satírica na denúncia ou apreciação de outros escritores mais famosos e citados. É claro que foi sempre um autor de culto, no seu país e ainda mais no estrangeiro, particularmente na Europa. Tem todos os seus livros traduzidos em algumas doze línguas, fenómeno pouco habitual até entre os modernos mais canónicos em qualquer parte. Olhar para uma foto de Bukowski em todas as fases da sua vida, é ter medo dos estragos que o corpo humano pode sofrer, mas será também uma fonte de inspiração quando nos damos conta de como o espírito humano livre e determinado poderá sobreviver intacto, e até vingar gloriosamente, no assustador labirinto das sociedades modernas, que tenta aprisionar ou desviar algumas vidas.
Come On In! traz pouco de novo na vasta obra de Charles Bukowski, e creio que os seus fiéis leitores assim o desejavam – o regresso contínuo ao mundo íntimo e desvairado do seu poeta maldito, atirando o seu fogo em todas as direcções, raramente poupando-se a si próprio, ferida aberta desde a sua juventude sangrando, primeiro nas ruas do seu desespero, e eventualmente em páginas de absoluto corte com a Tradição literária do seu país, reinventando estéticas e alargando brutalmente o campo temático da poesia confessional que antes ou paralelamente com a dele se escrevia. You’re just a drunk who writes, said his wife/that’s better than a drunk who just drinks, said the writer.
Que ninguém se engane: do intimismo radical de Bukowski surgem retratos claríssimos de uma outra América, aquela que os americanos sempre pretenderam não existir fora dos seus guetos supostamente invisíveis e intocáveis. Façam o favor de entrar neste seu sujo e perigoso reduto. Ninguém em seu perfeito juízo quereria tal vida; resta-nos, isso sim, o fascínio de o ler e de o acompanhar ao longe nas suas sagas “loucas”, talvez as únicas que restam aos verdadeiramente corajosos. Bukowski viveu muitos dos seus anos de vida literária activa em bairros da classe média de San Pedro, sítio improvável para o quotidiano de um escritor da sua eventual estatura. Seria quase como que um outro desafio seu à placidez e pretensiosismo dos que perseguiam os outros sonhos da pregação oficial.

Vamberto Freitas 

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

ALEGADAMENTE JOSÉ PACHECO PEREIRA
























O PARADOXO DO ORNITORRINCO

Há dias ouvi José Pacheco Pereira, deputado e conhecido autor do blogue Abrupto, referir-se àquilo que o próprio chamava de "desrespeito ao princípio da presunção de inocência". E dizia a este propósito o referido senhor que os jornalistas portugueses, perante os indícios da existência de um crime, se esqueciam frequentemente de usar o advérbio "alegadamente" no tratamento da notícia, situação que contribuía para o julgamento público dos suspeitos. 

Não discordo, de todo, do que disse Pacheco Pereira, todavia parece-me uma ligeireza reduzir-se este assunto ao dito vocábulo. Porque todos nós vemos notícias todos os dias, notícias escritas com todos os "alegadamentes" do mundo e que nem por isso deixam de formar e condicionar a opinião das pessoas, indo muito para além dos factos tal qual devem ser relatados. 

Parece-me que Pacheco Pereira saberá disto muito melhor do que eu, mas provavelmente, como político experiente que é e sujeito inteligente, não se quis meter com um peso pesado da democracia, aquilo que é polémico, nada mais nada menos do que a liberdade de expressão dos órgãos de comunicação social, coisa  muito sensível, portanto. 

Talvez aqui faltassem umas regrazinhas e uma concretização do estatuto do jornalista, ou uma outra acção da alta autoridade para a comunicação social. Alegadamente responder-me-ia José Pacheco Pereira que é político. De certeza, digo eu que posso dizer o que me apetece e até escrevo poesia.

Sylvia Beirute