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terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

ALGARVE - 12 POETAS A SUL DO SÉCULO XXI



Sairá em breve (ainda sem apresentações marcadas) a antologia de poesia Algarve - 12 Poetas a Sul do Século XXI (Editora Livros Capital), antologia que representa aquilo que alguns dos mais importantes poetas do Algarve (naturais ou adoptados) fizeram nos últimos anos. A antologia contempla poetas com obra de poesia publicada até à primeira década do século XXI e, para além de dez poemas por autor com respectiva biografia, tem ainda um ensaio crítico sobre cada poeta, ensaio esse escrito por outro poeta. Foi nesta modalidade que tive a honra de participar na obra, tendo escrito sobre a poesia de José Carlos Barros. Este é daqueles livros quase obrigatórios para quem gosta de poesia.  O prefácio é de António Carlos Cortez, poeta, professor e crítico literário.

Poetas antologiados:

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segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O MERCADO DA POESIA EM PORTUGAL




O MERCADO DA POESIA EM PORTUGAL

Muito interessante, porque dá que pensar, o mercado da poesia em Portugal, no qual me estreei com o meu livro "Uma Prática para Desconserto" (4Águas, 2011). Em geral, pelo feedback que me chega, as vendas têm sido muito aceitáveis, muito embora o destaque dado em jornais de referência tenha ajudado, naturalmente, na sua promoção. Mas sinto que ainda há uma grande fatia que, apesar de gostar do que vai lendo, ainda resiste ao acto da compra. Uma coisa peculiar é o facto de as pessoas que compram, incluindo uma boa parte de pessoas do Brasil, o fazerem directamente na editora, o que me faz acreditar que não o fazem por encontrarem o livro num espaço físico, mas sim por haver uma referência de alguém ou, simplesmente, por terem lido algo, eventualmente online, do livro. Fazer com que o número das pessoas que compram seja proporcional ao das pessoas que gostam é um desafio para os editores portugueses, estando, inclusive, em causa a sobrevivência do género. Acredito que haja ainda um campo para desbravar no que toca à rentabilização destes projectos, e que os livros de poesia não surjam apenas por carolice ou para a promoção pessoal de editores/autores.

Por outro lado, seria bom que os grandes autores de poesia em Portugal se transformassem nos grandes críticos de poesia deste país (Ana Luísa Amaral, Nuno Júdice, Amadeu Baptista, Gastão Cruz, etc). Tenho dificuldade em compreender como é que um autor de poesia falhado pode ser um crítico desse género. E, claro, esta situação não favorece em nada o estado de coisas acima descrito.
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sábado, 19 de março de 2011

SOU UM POETA EXTREMAMENTE INFLUENCIÁVEL E UM POUCO PLAGIADOR - ANTÓNIO RAMOS ROSA

SOU UM POETA EXTREMAMENTE INFLUENCIÁVEL E UM POUCO PLAGIADOR

A palavra “Poesia” não é para mim uma palavra densa, plena, isto é, uma palavra de significação inteiramente positiva. Há nela um vazio, uma névoa e uma tenuidade que se sobrepõe ao seu significado e o torna vago e quase imperceptível. Posso comparar esta impressão à sensação que sinto quando, à distância, olho os prédios altos e percepciono não a densidade dos seus moradores mas o vazio infinito que anula todo o pretensiosismo da vida humana. A palavra “poesia” parece-me afogada irremediavelmente num vazio que dilui a sua significação e a torna longínqua e apagada, quase desprovida de sentido. Mas não será essa diluição semântica, observou Mário, o que a torna extremamente poética, uma vez que, assim, é mais aberta e susceptível de nos transmitir o que há de inexprimível na poesia? Sim, talvez tenhas razão, admiti, mas essa palavra confrange-me não sei porquê. Sinto uma espécie de pudor ou vergonha, como se a poesia fosse uma matéria interdita e, de algum modo, inadmissível. Se é assim, objectou Mário, o que há de vago nessa palavra anula a pretensão ou imposição de um sentido dominante. Assim, o que há nela de impreciso vela o seu conteúdo e deixa-o indefinido. Por isso, essa palavra parece-me que não deveria suscitar nenhuma relutância pudica, porque é vaga e desprovida de um sentido positivo e determinado. Olha, Mário, esta questão parece-me destituída de sentido, como se estivéssemos a discutir o sexo dos anjos. Porque não aceitar simplesmente que o nome de poesia é um nome que nos transmite o seu conteúdo sem suscitar qualquer problema? E já agora, para contrabalançar a tendência teorizante dos nossos diálogos, proponho-te que falemos de assuntos mais circunstanciais e mais ligados à realidade imediata e particular. Estou a referir-me à minha experiência de poeta e não tanto no seu processo específico como no que respeita às suas determinações externas e a algumas circunstâncias ou episódios da minha biografia enquanto poeta. Mário disse-me então: Estou perfeitamente de acordo contigo. E, se me permites, colocar-te-ei algumas questões relativas à tua biografia de poeta. Em primeiro lugar, quero perguntar-te como se processou em ti o início da prática da escrita poética? Foi um processo fácil e espontâneo ou uma elaboração difícil e dolorosa? Respondi-lhe: Tenho uma certa dificuldade em explicar o que me levou à prática da poesia. O que sei de uma forma clara é que comecei a escrever porque amava os poetas que lia e com os quais me identificava ao ponto de os querer imitar. Este processo de identificação e de imitação determinou não só os primeiros poemas que escrevi mas também todos ou quase todos os poemas que até agora escrevi. Não tenho qualquer receio em afirmar que a originalidade dos meus poemas, sobre a qual, aliás, não tenho dúvidas, não é resultante apenas da singularidade do sujeito que sou mas também da confluência de inúmeras leituras que me estimularam e foram sempre decisivas na minha formação poética.

Naturalmente, os meus primeiros poemas não possuíam nível poético e só mais tarde, depois dos vinte e cinco anos, logrei escrever poemas de uma certa qualidade, como, por exemplo, “O Boi da Paciência”, que escrevi de um jacto, no primeiro andar do café Chave de Ouro. Esse poema nasceu, inesperadamente, com uma violência e uma espontaneidade que me surpreenderam, e foi então que o poeta que sou deu o seu primeiro passo. Esse poema, como, aliás, outros que escrevi posteriormente, não poderia surgir se eu não tivesse lido  deslumbradamente a obra de Carlos Drummond de Andrade, que fou um dos primeiros poetas a influenciar-me juntamente com Paul Éluard. Seria uma questão impertinente pretender saber o que seria especificamente meu e o que seria a contribuição do autor de “A Rosa do Povo”. Esse poema foi o resultado imediato de uma dolorosa experiência humana que veio a encontrar a sua formulação graças à influência libertadora desse grande poeta brasileiro. Supor que a influência e a originalidade constituem uma dicotomia é um erro solipsista e uma perfeita idiotice. As influências são, já por si, resultantes de uma receptividade pessoal em relação a tal ou tal obra e não indiscriminadamente a qualquer autor. Ninguém poderia escrever um poema sem ter lido outro poeta. Supor o contrário é admitir que o poeta é um ser isolado no mundo e, por conseguinte, sem o conhecimento do mundo literário ou, no caso dos poetas populares, sem a existência de uma tradição oral. Mas se é assim, perguntou-me Mário, por que é que os escritores têm tanto receio das influências e de serem acusados de as sofrerem? Penso, respondi, que esse receio se deve a uma falsa noção de originalidade que não tem em conta a sua relação com a confluência das obras que todo o escritor lê, a que não pode deixar de ser sensível e em relação às quais é sempre devedor. No que me diz respeito, esse receio não existe. Considero-me um poeta extremamente influenciável e até um pouco plagiador. Sobre alguns pequenos plágios que cometi em alguns dos meus livros, falar-te-ei daqui a pouco. Aliás, digo-te já que, sendo autor de alguns milhares de versos, me posso permitir cometer um ou outro plágio ou empregando outra palavra, talvez mais justa, uma ou outra incorporação, como o faziam os clássicos e, como por exemplo, Camões logo no primeiro verso de Os Lusíadas. Na verdade, sou extremamente receptivo em relação aos poetas que amo e admiro e os meus livros de poemas não seriam o que são, sobretudo alguns deles, se eu não tivesse lido determinados poetas que exerceram sobre mim uma atracção e um fascínio irresistíveis, tão irresistíveis como o desejo de os imitar e de integrar o que de novo eles traziam na minha escrita poética.

Verifico, porém, que esta fascinação que exercem certos poetas sobre mim e o decorrente desejo de os imitar não se traduz objectivamente numa obra destituída de originalidade e de cunho pessoal. Entre a obra que imitei ou tentei imitar e a obra que escrevi subsiste uma diferença essencial e é essa diferença que me leva a pensar que o meu livro possui a autonomia e a originalidade que considero imprescindíveis numa obra literária e que, de modo algum, foram prejudicadas pela influência que sobre ela exerceu outra obra. Pelo contrário, a influência pode ser decisiva para a descoberta da voz original do poeta que procura o seu caminho ou que, tendo-o encontrado, aspira a novos rumos para que a identidade se renove e se intensifique. Estive todo este tempo a ouvir-te sem te interromper, disse-me Mário, porque quis ouvir a tua argumentação até ao fim, tão interessado estava nela. Estou de acordo contigo, embora tenha ficado um pouco surpreendido, porque nunca pensei que a originalidade e a influência pudessem ser compatíveis. E há muita gente, tanto poetas como leitores, que não pensa assim. E até em Estocolmo, se se soubesse que tu, de vez em quando, cometes um plágio, não te atribuíam o Nobel. Sim, há muita gente que não estará de acordo comigo, porque acharia que a minha argumentação é paradoxal. Quanto ao Nobel, embora te pareça insincero, espero e desejo não vir a ganhá-lo, porque se isso acontecesse seria uma grande catástrofe para o meu sistema nervoso. O mundo da informação, e não só, cair-me-ia em cima, e lá se ia toda a minha tranquilidade, que tanto prezo. Além disso, penso que outros escritores seriam mais dignos desse prémio do que eu, como, por exemplo, Vergílio Ferreira, para só citar aquele que, além da originalidade e riqueza do seu estilo, possui uma dimensão filosófica que fez dele um grande pensador, e que nenhum outro escritor português possui. Reconheço a grandeza desse escritor e a de outros, que merecem o Prémio Nobel, mas, no que me diz respeito, embora seja suficientemente consciente do meu mérito, julgo que a grandeza não cabe a mim, sempre pensei assim, talvez por excessiva modéstia, e assim continuarei a pensar. Voltando aos teus pequenos plágios, sugeriu Mário, porque não me dás um exemplo ou dois desses plágios ou “incorporações”, como também tu lhes chamas. Sim, concordei, não receio fazê-lo. Referirei dois casos interessantíssimos e sumamente engraçados. Estava a trabalhar com um tradutor, aliás excelente, na tradução de um livro que foi editado em França. A certa altura, o nosso trabalho incidiu sobre três ou quatro versos de um poema do meu livro Volante Verde. A versão que o tradutor fizera não me pareceu satisfatória e sugeri-lhe então que traduzisse literalmente aqueles versos para francês. Objectou-me ele, peremptoriamente, que nenhum poeta francês escreveria aqueles versos assim. Retorqui-lhe então: Mas foi um poeta francês que os escreveu: Yves Bonnefoy. Efectivamente, eu incorporara esses versos desse poeta e traduzira-os literal-mente, de tal modo que a retroversão literal para francês coincidia exactamente com o original. Assim, os versos que incorporara no meu poema voltaram à origem sem perderem a sua identidade. O outro caso não é menos interessante, mas é um tanto humilhante para mim. Estava um dia a ler um texto de um poeta francês, Pierre Dhainaut, na revista Gradiva, num número de homenagem a Octavio Paz, quando deparei com uma frase que me deslumbrou, por ser extremamente poética. Imediatamente a traduzi e transformei num pequeno poema que publiquei mais tarde num livro. Curiosamente, o editor, para dar uma amostra da poesia contida nesse livro, inseriu esse poema na contracapa dessa obra. Achei graça, mas senti que essa escolha significava uma desqualificação da minha poesia. No entanto, parece-me que a meia dúzia de plágios que fiz (o maior deles foi uma tradução literal de cinco versos) se justificavam na medida em que, e desse modo, actualizam virtualidades implícitas no contexto original. Mas eu sei que há quem não aceite esta explicação…

Voltando à primeira parte da nossa conversa, atalhou Mário, parece-me que, embora de uma maneira não explícita, tu deprecias a poesia e ao mesmo tempo deprecias-te a ti próprio como poeta e parece-me que estas duas atitudes talvez se relacionem uma com a outra. Bom, retorqui, a minha noção de poesia nunca foi depreciativa. Pelo contrário… Sempre achei que a poesia permite o acesso a uma dimensão essencial do homem, que está atrofiada na sociedade actual, mas que é necessário manter viva para que o homem não seja reduzido à sua escravatura no sistema e para que possa um dia libertar-se dela e viver uma vida mais humana e mais livre. Parece-me que é a mais alta noção que se pode ter de poesia. Mas é, precisamente, por isso que a poesia não se circunscreve ao âmbito literário e aponta a uma realidade que é mais vasta e mais essencial do que ela própria. Digamos que a essência da poesia é revolucionária ou subversiva porque visa a mudança radical da vida. Il faut changer la vie, como dizia Rimbaud. No que me diz respeito, devo dizer-te que a minha auto-estima sempre foi deficiente, embora nos últimos tempos tenha subido um pouco devido a várias circunstâncias, talvez a uma certa maturidade e a uma melhor compreensão do meu próprio valor, para o que contribuiu, de algum modo, o reconhecimento de que tenho sido objecto. Mas isto é um problema pessoal que pouco ou nada interessa aqui. O essencial é a criação poética e é ela que me proporciona a mais profunda satisfação e me recompensa todas as vicissitudes e infortúnios, independentemente das homenagens e dos prémios, que têm vindo por acréscimo e, embora gratificantes, se situam na periferia e não no cerne da minha vida poética. 

António Ramos Rosa
em Prosas Seguidas de Diálogos
4 Águas
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quarta-feira, 16 de março de 2011

DEFINIÇÃO DE POESIA
























Poesia é a ciência humana que permite a captação da insustentabilidade.

Sylvia Beirute
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sexta-feira, 4 de março de 2011

MANOEL DE BARROS: POEMAS, POESIA, ANÁLISE CRÍTICA, BIOGRAFIA, BIBLIOGRAFIA














sb: série poetas


MANOEL DE BARROS
   
                      "Na Natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma."
                                                                                    Antoine-Laurent de Lavoisier


                              "Sabemos nós que poesia mexe com palavras e não com   
                                paisagens. Por isso não sou poeta pantaneiro, nem ecológico.   
                                Meu trabalho é verbal. Eu tenho o desejo, portanto, de mudar   
                                a feição da natureza, pelo encantamento verbal."
                                                                                                    Manoel de Barros


            Manoel Wenceslau Leite de Barros (Cuiabá, Brasil, 19 de Dezembro de 1916) é o que se poderia chamar de alma humana inevitável, clarividente no corpo fisicamente espiritual como se tudo tivesse visto antes de vir ao mundo. E que visão feliz é esta? O poeta do Pantanal escuda-se na simples dicotomia entre coisificação do homem e humanização da coisa, fixando no seu solo tais premissas, permitindo-se alterar a substância natural e a partir daí reconstruir, dar vida (no caso das coisas, muitas delas objectos próximos da inutilidade, ou desutilidade como ele próprio diria), retirar vida ou colocá-la lado a lado com as restantes coisas (no caso do homem). Por isso, está claro que é uma poesia directamente literal (do ponto de vista linguístico), sendo que porém a literalidade é uma literalidade diferida, resolvidos os pressupostos iniciais. Nos poemas há como que um reequilíbrio do mundo, do peso das coisas, da importância das pessoas umas face às outras; há uma comunicabilidade entre todos os elementos do mundo, a que não é alheio, talvez, o facto de Manoel de Barros ter nascido à beira do Rio Cuiabá, ter vivido em Campo Grande, onde foi fazendeiro e criador de gado. Esse contacto com a natureza fê-lo buscar incessantemente a génese, os pontos mínimos, os inícios de sociedade, os primeiros olhares em direcção à realidade, passando a ter, na sua poesia, o Pantanal como pano de fundo.

            Em Poemas Concebidos sem Pecado (livro ilustrado por Jorapimo) há uma busca pela essencialidade (“sob o canto do bate-num-quara nasceu Cebeludinho / bem diferente de Iracema / desandando pouquíssima poesia / e que desculpa a insuficiência do canto / mas explica a sua vida / que juro ser o essencial”), pela inocência de uma infância de traquinice, alegria e êxtase (são usuais as exclamações), e um certo deambulismo, contemplação e qualificação (“pela rua deserta atravessa um bêbado comprido / e oscilante / como bambu / assobiando”).
            Em Compêndio para Uso dos Pássaros (também o nome da Poesia Reunida do autor, em Portugal, editado pelas extintas Edições Quasi) há um aprimoramento da metáfora, que é aberta e narrativa, um esforço maior de retirar as coisas do contexto natural e introduzi-las num outro, bem mais visceral (ex: “Jacaré comeu minha boca do lado de fora”; “ainda estavam verdes as estrelas / quando eles vinham / com seus cantos rorejados de lábios. / Os passarinhos se molhavam de / vermelho na manhã / e subiam por detrás de casa para me / espiarem no vidro”).
           
            Na obra Gramática Expositiva do Chão, o autor adopta uma discursividade quase política tal a importância e o tratamento que dá às situações que retrata e poetifica. De modo a aumentar a intensidade do discurso, faz enumerações de objectos, alguns deles de uso pessoal, fazendo paralelismos entre realidades díspares, num discurso em que a harmonia final é eivada de compaixão, de esquecimentos parciais e de janelas abertas para um mundo retido no seu tempo e espaço.

            Manoel de Barros acredita na superfície das coisas simples, na sua razão autónoma, aprofundando-lhes a estética, desdobrando-lhes a alma. Uma das características da sua obra é precisamente, e quanto a mim, este jogar com o superficial, sendo profundo; este jogar com os desnivelamentos dos elementos, mantendo-se verdadeiro e natural. O autor enquadra-se naquilo que ele chama de «vanguarda primitiva», virtude e dom pela fascinação e obsessão pelo primitivo, pelo elementar e selvagem. Mas há ainda um recriar deste natural. É um natural, eu diria, «infranatural», pois apropria-se dos elementos naturais e quase que lhes subverte a sua ordem mais irrepreensível.
            Por outro lado, esta busca pelo primitivo não quer dizer que ele sempre busque o puro, a purificação, o ausentar-se dos problemas mundanos. É sim, como se tem vindo a dizer, a criação de um novo mundo moldado por uma certa reprodução de um passado, uma busca por um certo alheamento, um olhar diferente, muitas vezes remetido para a infância, vislumbrando-se nas entrelinhas o enorme contraste com o mundo dos nossos dias, de que Manoel de Barros também faz parte.
            Assim, num dos poemas do livro Matéria de Poesia, ele faz o elogio à poesia, mas não, a meu ver, enquanto género literário. É mais do que isso. É a poesia enquanto vida, enquanto modo de vida (“todas as coisas cujos valores podem ser / disputados no cuspe à distância / servem para poesia”), enquanto (des)importância das coisas e busca pelo seu peso certo (“tudo aquilo que a nossa / civilização rejeita, pisa e mija em cima, serve para poesia”). Na obra vê-se um discurso dialogante. Os diálogos, principalmente na segunda parte do livro, dão-lhe vivacidade e dinamismo, a par com a pontuação expressiva (pontos de interrogação, exclamação e reticências).

            Dá-se no poeta como que uma reciclagem dos materiais poéticos. E isto também se explica com o facto de ele tudo tratar como Coisa, até aquilo que de mais humano há. Tudo é aproveitável, porque transformável, fundível (quase que a máxima de Lavoisier se aqui aplica). Há linguagens que se atravessam e deixam o seu uso normal em ordem a experimentarem um outro. Ainda no mesmo livro, ilustrando isso, diz o poeta: “a cidade mancava de uma rua até certo ponto; depois os cupins a comiam”. Este entrecruzar de linguagens, normalmente dentro do contraste interno da mesma dicotomia homem/coisa, sendo dinâmico, ora com imagens, ora com metáforas (por vezes próximas da alegoria), serve para encurtar as distâncias entre tudo, apresentando, em minha opinião, uma consciência de vida em sociedade, na coesão de um grupo. E que sentido tudo isto faz vivendo o autor num país que tem atravessado toda espécie de problemas, a que ninguém é (ou pode ser) alheio.


            Escrever é perpetuar um momento, verdadeiro ou não. Não escrever e sentir é respeitar a natureza (de passagem) do seu exército de músculos e civilizações de saudade. Diferente de gostar de escrever é apreciar sentir a língua invisível nas palavras quando surgem e se alojam num texto. Tudo isto se representaria num círculo que começaria em branco, apenas com o contorno a negro. O ponto central também estaria a negro e seria a fortaleza a que damos o nome de «sentir». Quando o acto começa, e as palavras surgem, o círculo começaria a colorir-se, de fora para dentro, com uma cor forte (podia ser vermelho). Com essa cor galopante dar-se-ia, ou não, a erosão da areia branca desse branco por colorir. A partir daí veríamos de que modo a fortaleza, o nosso ponto que indica o sentir, reagiria. Se se manteria inalterado esperando que o mar vermelho lhe tocasse, se sofreria com o efeito de arrastamento que o branco restante arrastado pela cor sofreria, se procuraria um outro círculo. Se o objectivo do acto fosse verdadeiro, a naturalidade do vermelho chegaria ao ponto negro, cobrindo todo o branco, o branco que representa o vazio. O ponto negro manter-se-ia inalterado naquele momento, deixando-se banhar a penumbra do bem-estar. Dentro desta minha imagem teórica, a poesia de Manoel de Barros surge como esta penumbra do bem-estar: o ponto negro no meio do círculo, com vermelho à volta. Há no autor, em função desta naturalidade, um escrever não escrevendo. Barros não faz da realidade e da escrita (com ficção ou sem ficção) realidades estanques. Ambas fazem parte do viver.

Poemas seleccionados de Manoel de Barros:
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INFANTIL
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O menino ia no mato
E a onça comeu ele.
Depois o caminhão passou por dentro do corpo do menino
E ele foi contar para a mãe.
A mãe disse: Mas se a onça comeu você, como é que
o caminhão passou por dentro do seu corpo?
É que o caminhão só passou renteando meu corpo
E eu desviei depressa.
Olha, mãe, eu só queria inventar uma poesia.
Eu não preciso de fazer razão.

Manoel de Barros
em Tratado geral das grandezas do ínfimo
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UM SONGO
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Aquele homem falava com as árvores e com as águas
ao jeito que namorasse.
Todos os dias
ele arrumava as tardes para os lírios dormirem.
Usava um velho regador para molhar todas as
manhãs os rios e as árvores da beira.
Dizia que era abençoado pelas rãs e pelos
pássaros.
A gente acreditava por alto.
Assistira certa vez um caracol vegetar-se
na pedra
mas não levou susto.
Porque estudara antes sobre os fósseis linguísticos
e nesses estudos encontrou muitas vezes caracóis
vegetados em pedras.
Era muito encontrável isso naquele tempo.
Até pedra criava rabo!
A natureza era inocente.

P.S:
Escrever em Absurdez faz causa para poesia
Eu falo e escrevo Absurdez.
Me sinto emancipado.

Manoel de Barros
Inédito



PARREEDE!

Quando eu estudava no colégio, interno,
Eu fazia pecado solitário.
Um padre me pegou fazendo.
- Corrumbá, no parrrede!
Meu castigo era ficar em pé defronte a uma parede e
decorar 50 linhas de um livro.
O padre me deu pra decorar o Sermão da Sexagésima
de Vieira.
- Decorrrar 50 linhas, o padre repetiu.
O que eu lera por antes naquele colégio eram romances
de aventura, mal traduzidos e que me davam tédio.
Ao ler e decorar 50 linhas da Sexagésima fiquei
embevecido.
E li o Sermão inteiro.
Meu Deus, agora eu precisava fazer mais pecado solitário!
E fiz de montão.
- Corumbá, no parrrede!
Era a glória.
Eu ia fascinado pra parede.
Desta vez o padre me deu o Sermão do Mandato.
Decorei e li o livro alcandorado.
Aprendi a gostar do equilíbrio sonoro das frases.
Gostar quase até do cheiro das letras.
Fiquei fraco de tanto cometer pecado solitário.
Ficar no parrrede era uma glória.
Tomei um vidro de fortificante e fiquei bom.
A esse tempo também eu aprendi a escutar o silêncio
das paredes.

Manoel de Barros
em Memórias Inventadas, 
As infâncias de Manoel de Barros
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APRENDIMENTOS

O filósofo Kierkegaard me ensinou que cultura é
o caminho que o homem percorre para se conhecer.
Sócrates fez o seu caminho de cultura e ao fim
falou que só sabia que não sabia de nada. Não tinha
as certezas científicas. Mas que aprendera coisas
di-menor com a natureza. Aprendeu que as folhas
das árvores servem para nos ensinar a cair sem
alardes. Disse que fosse ele caracol vegetado
sobre pedras, ele iria gostar. Iria certamente
aprender o idioma que as rãs falam com as águas
e ia conversar com as rãs. E gostasse mais de
ensinar que a exuberância maior está nos insetos
do que nas paisagens. Seu rosto tinha um lado de
ave. Por isso ele podia conhecer todos os pássaros
do mundo pelo coração de seus cantos. Estudara
nos livros demais. Porém aprendia melhor no ver,
no ouvir, no pegar, no provar e no cheirar. Chegou
por vezes de alcançar o sotaque das origens.
Se admirava de como um grilo sozinho, um só pequeno
grilo, podia desmontar os silêncios de uma noite!
Eu vivi antigamente com Sócrates, Platão, Aristóteles –
esse pessoal. Eles falavam nas aulas: Quem se
aproxima das origens se renova. Píndaro falava pra
mim que usava todos os fósseis linguísticos que
achava para renovar sua poesia. Os mestres pregavam
que o fascínio poético vem das raízes da fala.
Sócrates falava que as expressões mais eróticas
são donzelas. E que a Beleza se explica melhor
por não haver razão nenhuma nela. O que mais eu sei
sobre Sócrates é que ele viveu uma ascese de mosca.


Manoel de Barros
em Memórias Inventadas, 
As infâncias de Manoel de Barros
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ÁRVORE

Um passarinho pediu a meu irmão para ser a sua árvore.
Meu irmão aceitou de ser a árvore daquele passarinho.
No estágio de ser essa árvore, meu irmão aprendeu de
sol, de céu, e de lua mais do que na escola.
No estágio de ser árvore meu irmão aprendeu para santo
mais do que os padres lhes ensinavam no internato.
Aprendeu com a natureza o perfume de Deus.
Seu olho no estágio de ser árvore aprendeu melhor
o azul.
E descobriu que uma casca vazia de cigarra esquecida
no tronco das árvores só presta para poesia.
No estágio de ser árvore meu irmão descobriu que as
árvores são vaidosas.
Que justamente aquela árvore na qual meu irmão se
transformara, envaidecia-se quando era nomeada para
o entardecer dos pássaros.
E tinha ciúmes da brancura que os lírios deixavam nos
brejos. Meu irmão agradeceu a Deus aquela
permanência em árvore porque fez amizade com muitas
borboletas.

Manoel de Barros
em Ensaios Fotográficos


RETRATO QUASE APAGADO EM QUE SE PODE VER PERFEITAMENTE NADA

1.

Gravata de urubu não tem cor.
Fincando na sombra um prego ermo, ele nasce.
Luar em cima de casa exorta cachorro.
Em perna de mosca salobra as águas se cristalizam.
Besouros não ocupam asas para andar sobre fezes.
Poeta é um ente que lambe as palavras e depois se alucina.
No osso da fala dos loucos têm lírios.

3.

Tem 4 teorias de árvore que eu conheço.
Primeira: que arbusto de monturo agüenta mais formiga.
Segunda: que uma planta de borra produz frutos ardentes.
Terceira: nas plantas que vingam por rachaduras lavra um poder mais lúbrico de antros.
Quarta: que há nas árvores avulsas uma assimilação maior de horizontes.

7.

Uma chuva é íntima
Se o homem a vê de uma parede umedecida de moscas;
Se aparecem besouros nas folhagens;
Se as lagartixas se fixam nos espelhos;
Se as cigarras se perdem de amor pelas árvores;
E o escuro se umedeça em nosso corpo.

9.

Em passar sua vagínula sobre as pobres coisas do chão, a
lesma deixa risquinhos líquidos...
A lesma influi muito em meu desejo de gosmar sobre as
palavras
Neste coito com letras!
Na áspera secura de uma pedra a lesma esfrega-se
Na avidez de deserto que é a vida de uma pedra a lesma
escorre. . .
Ela fode a pedra.
Ela precisa desse deserto para viver.

11.

Que a palavra parede não seja símbolo
de obstáculos à liberdade
nem de desejos reprimidos
nem de proibições na infância,
etc. (essas coisas que acham os
reveladores de arcanos mentais)
Não.
Parede que me seduz é de tijolo, adobe
preposto ao abdomen de uma casa.
Eu tenho um gosto rasteiro de
ir por reentrâncias
baixar em rachaduras de paredes
por frinchas, por gretas - com lascívia de hera.
Sobre o tijolo ser um lábio cego.
Tal um verme que iluminasse.

12.

Seu França não presta pra nada -
Só pra tocar violão.
De beber água no chapéu as formigas já sabem quem ele é.
Não presta pra nada.
Mesmo que dizer:
- Povo que gosta de resto de sopa é mosca.
Disse que precisa de não ser ninguém toda vida.
De ser o nada desenvolvido.
E disse que o artista tem origem nesse ato suicida.

13.

Lugar em que há decadência.
Em que as casas começam a morrer e são habitadas por
morcegos.
Em que os capins lhes entram, aos homens, casas portas
a dentro.
Em que os capins lhes subam pernas acima, seres a
dentro.
Luares encontrarão só pedras mendigos cachorros.
Terrenos sitiados pelo abandono, apropriados à indigência.
Onde os homens terão a força da indigência.
E as ruínas darão frutos

Manoel de Barros
em O Guardador de Águas
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Obra inclui:
  • 1937 — Poemas concebidos sem pecado
  • 1942 — Face imóvel
  • 1956 — Poesias
  • 1960 — Compêndio para uso dos pássaros
  • 1966 — Gramática expositiva do chão
  • 1974 — Matéria de poesia
  • 1980 — Arranjos para assobio
  • 1985 — Livro de pré-coisas
  • 1989 — O guardador das águas
  • 1990 — Gramática expositiva do chão: Poesia quase toda
  • 1993 — Concerto a céu aberto para solos de aves
  • 1993 — O livro das ignorãças
  • 1996 — Livro sobre nada
  • 1996 — Das Buch der Unwissenheiten - Edição da revista alemã Akzente
  • 1998 — Retrato do artista quando coisa
  • 2000 — Ensaios fotográficos
  • 2000 — Exercícios de ser criança
  • 2000 — Encantador de palavras - Edição portuguesa
  • 2001 — O fazedor de amanhecer
  • 2001 — Tratado geral das grandezas do ínfimo
  • 2001 — Águas
  • 2003 — Para encontrar o azul eu uso pássaros
  • 2003 — Cantigas para um passarinho à toa
  • 2003 — Les paroles sans limite - Edição francesa
  • 2003 — Todo lo que no invento es falso - Antologia na Espanha
  • 2004 — Poemas Rupestres
  • 2005 — Riba del dessemblat. Antologia poètica — Edição catalã (2005, Lleonard Muntaner, Editor)
  • 2005 — Memórias inventadas I
  • 2006 — Memórias inventadas II
  • 2007 — Memórias inventadas III
  • 2010 — Menino do Mato
  • 2010 — Poesias Completas
Artigo de Sylvia Beirute
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terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

POESIA E REDUÇÃO DA PALAVRA

não me parece que escreva poesia para sempre. o que me atrai hoje na poesia é a sua capacidade de redução. escolher uma palavra central, como sempre faço, e fazer todo o texto girar em torno dela, com as suas palavras se reduzindo a ela, como se fossem suas derivações, seus novos significados. felizmente há leitores para este tipo de material, muito mais do que eu pensava, abrindo caminho para uma poesia underground portuguesa. e que poesia.
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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

PEDRO OOM E O SURREALISMO NA POESIA PORTUGUESA DO SÉCULO XX




















sb: série poetas

artigo publicado na revista brasileira Modo de Usar & Co.
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terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

SAUDADE DE ÁGUA - MEMÓRIAS DE FARO - LUÍS ENE (LIVRO)
























Uma cidade pode conhecer-se de diversas formas. Luís Ene, no seu novíssimo livro Saudade de Água - Memórias de Faro, tem uma proposta que me parece, à primeira vista, interessante. Trata-se do recorte de alguns fragmentos da cidade de Faro na forma de micro-histórias (por vezes apenas micro-descrições ou simples exposições de um estado de alma). É a reinscrição de um lugar pela inserção cirúrgica de vida humana nele, com as suas dinâmicas, os seus devaneios, os seus sonhos. Há alguma poesia nestes textos, combinada com alguma filosofia, sendo que tudo isto é filtrado pela afirmação de um eu que deambula, sempre à procura de um outro.

A obra será apresentada hoje à noite no Draculea Café Bar.


Excertos:

A estação dos caminhos-de-ferro

A estação dos caminhos-de-ferro, assim como as saídas de Faro, eram pontos de fuga no desenho emocional da cidade. As saídas de Faro, sobretudo a saída para Lisboa, nunca eram para nós as entradas de Faro. Também à estação se ia para sair de Faro, para fugir de Faro e não mais voltar. A hora marcada no sólido relógio verde da gare era sempre a hora da partida anunciada.

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O ponto preciso

Entre a tasca dos viveiristas e mariscadores e o quartel dos Bombeiros Voluntários, entre a vergonha e a alegria do encontro e da separação, é nesse ponto preciso que estamos e sempre estaremos. Entre o que foi e o que podia ter sido.

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Salvação

Sentado na esplanada, no fim de uma tarde de Verão, aborrecia-me de verde quando avistei, do outro lado da rua, uma pequena árvore. Parecia uma noiva ruborizada, inocente e maliciosa, incapaz de esconder a sua alegria. Quis escrever sobre ela (ou sobre o que senti ao vê-la), mas desisti depois de várias tentativas. Hoje lembrei-me dela, mas logo percebi que continuo a não ser capaz de revelar o seu (meu) mistério. Só não destruí este texto porque me ocorreu, enquanto o escrevia que, na sua impossibilidade, ele diz afinal a razão porque escrevo.


Luís Ene
em Saudade de Água - Memórias de Faro
Edição: Cão Danado
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quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

ANTOLOGIAS DE POESIA - DO INATINGÍVEL

















ANTOLOGIAS DE POESIA - DO INATINGÍVEL

Esta coisa das antologias de poesia tem mais que se lhe diga. Em bom rigor, talvez só quem antologie se sinta plenamente identificado com esse resultado final. As escolhas são tantas, os estilos tão diferentes, que se torna uma inevitabilidade esse facto. Quantos de nós, ao lermos uma antologia de poesia, não passámos um autor à frente por não gostarmos dele? Quantos de nós já não criticámos um antologiador pelas suas escolhas? Está sempre a acontecer. E, vendo bem, se assim não fosse, cairíamos sempre na "objectividade" dos mesmos nomes, aqueles que se tornaram populares e, às vezes, "popularuchos", ainda que muito devam à qualidade. Com isto quero dizer que quem organiza uma antologia é responsável por ela, tratando-se, tão-somente, de escolhas pessoais. Por isso não se pode, a meu ver, criticar uma antologia enquanto objecto.

Ontem passei pelo blogue Do Inatingivel, que sempre tem trazido boas propostas de poesia, e encontrei uma coisa que provavelmente já ali estaria há algum tempo e eu não dei conta. Uma pequena lista de 26 nomes de poetas, o que daria, pensei, uma pequena antologia de poesia. Nunca li nada de alguns dos que ali estão, mas fiquei de imediato com vontade de compilar esses nomes e ler esse resultado enquanto antologia; talvez procurasse nos poemas desses poetas algumas correspondências para que a antologia tivesse alguma coerência temática. Mas depois ao ver o meu nome, por cima do nome de Jorge de Sena, corei e acho que desisti na ideia. Todavia, fica a nota para as escolhas pessoais correspondentes à leitura de alguém que muito entende de poesia.

Por ordem, a proposta do referido blogue é: Gabriel de Mariz; Sophia de Mello Breyner; Casimiro de Brito; Fernando Pessoa; Silvia Chueire; Shakespeare; Maria Azenha; Maria Costa; D.H. Lawrence; Gabriela Rocha Martins; Hercília Fernandes; Gauche; Rumi; Vitorino Nemésio; Graça Pires; E.E. Cummings; Fred Matos; Sylvia Beirute; Jorge de Sena; Luísa Henriques; William Ernest Henley; Herberto Helder; Mirze Souza; Manuel António Pina; Mariana Botelho; Isabel Jorge Catarino.
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segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

REVISTA MUNDO CONTEMPORÂNEO 3.ª Edição


Revista Mundo Contemporâneo, 3.ª Edição, a quem agradeço o interesse pela literatura que vou tentando fazer. Obrigada a toda a equipa e em especial ao Diogo da Costa Leal.
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ENTREVISTA A MANOEL DE BARROS

















 O TEMA DA MINHA POESIA SOU EU MESMO

Entrevista a Manoel de Barros, por André Luís Barros

A natureza nunca mais foi a mesma depois de passar por suas frases. O poeta pantaneiro Manoel de Barros, que está lançando um novo ajuntamento de versos e vida, o Livro sobre nada (Editora Record) , se considera acima de tudo um “fazedor de frases”: “A frase para ser boa precisa ser uma coisa ilógica, o ilogismo é muito importante pois a razão diminui a poesia”, ensina. Avesso a entrevistas, quanto mais por telefone, Manoel de Barros, considerado por muitos o maior poeta brasileiro vivo, concordou em concedeu conversar com o caderno Idéias, por telefone, de sua casa em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, onde vive a quatro horas de sua fazenda de criação de gado e costuma sair à tarde para “desenferrujar” e bicar umas pingas com amigos. Com simplicidade, o autor de livros como Compêndio para uso dos pássaros (1960), Arranjos para assobio (1982), Livro de pré-coisas (1985) e O guardador de águas (1989) falou sobre paixões literárias, o gosto pelo ócio e por programas divertidos na televisão, como Os trapalhões e até o mexicano Chaves e lembrou até um insuspeitado passado no Partido Comunista. “Mas nunca fui afeito a grupos, gerações, não podia mesmo durar muito naquele partido. Hoje, conquistei o ócio, o que é muito importante para o poeta”, comemora.



André Luís Barros - O senhor só ficou famoso como um grande poeta depois dos 70 anos. Isso foi algo planejado, ou aconteceu por acaso?
Manoel de Barros – Isso é negócio do meu temperamento. Nunca tive projeto, só livro. Também nunca achei que precisasse me isolar no Pantanal para compor melhor. Sou pantaneiro, nasci aqui, só podia viver e escrever mesmo sobre as coisas daqui. Mas nunca tive preocupação em aparecer muito, ser uma pessoa conhecida, isso é sincero mesmo. Eu queria só fazer poesia. A minha vergonhez explica muita coisa. Sou tímido por temperamento, é possível que só seja poeta por causa disso. Sou um ser abúlico, tenho minhas contradições e tento me encontrar através da poesia. É claro que sucesso é bom, ser amado, admirado pela poesia é bom, quem disser que não está mentindo. Fui descoberto de repente, as pessoas começaram a me perceber. Nunca na minha vida fui de participar muito de grupo. Acho que em poesia também não pertenço a nenhuma geração, a tal geração de 1945 não é a minha, e vejo outros poetas, como João Cabral de Melo Neto, que não é de geração nenhuma. Aliás, como classificar o Rimbaud? Em que geração classificamos o Augusto dos Anjos? Eles são simplesmente grandes poetas.

ALB – O senhor conheceu, tem uma grande admiração e até prometeu um livro sobre João Guimarães Rosa. O primeiro livro dele, o inédito Magma, será lançado em breve. Onde está o livro prometido?
MB – Foi adiado. O Ênio Silveira tinha me sugerido fazer esse livro e eu topei o negócio, fiquei animado. Mas quando fui escrever, em vez de ser minha, a frase que saía era do Rosa. É que eu tinha relido muita coisa dele e fiquei impregnado. Não convém isso, não é bom porque você acaba mergulhado mesmo na obra do autor, acaba afogado. Anos atrás eu tinha tentado fazer um ensaio quase lingüístico sobre o conto Cara-de-Bronze, do Rosa, de que gosto muito. Mas me embananei todo, no meio. Eu não falo mais que três línguas e o Rosa conhecia língua demais, achei que seria possível fazer o ensaio mas ficou muito difícil. Disseram que o Magma não é tão bom quanto os outros livros do Rosa. Realmente ele tinha talento mesmo era para a prosa, e o engraçado é que ele foi poeta no fim da vida. Geralmente o sujeito é poeta aos 18 anos, quando aparecem as espinhas, e depois pode virar prosador. Mas há versos perfeitos no livro Ave, palavra, seu último livro, e Tutaméia e A terceira margem do rio são pura poesia. Eu sou mais de fazer frases, sou bom em criar frases.

ALB – O seu trabalho é mais fragmentado.
MB – Cada vez mais. O próprio mundo está obrigando a gente a se fragmentar. É uma falta de unidade, o homem moderno não tem mais as grandes unidades, como Deus. A gente não tem crença em mais nada, aliás, toda a arte deste século é fragmentada, ninguém defende mais uma ideologia, hoje. O homem não acredita mais nem em ideologia, as religiões estão se fragmentando, o protestantismo está se dividindo, o cristianismo.

ALB – O senhor é religioso?
MB – Sim, tenho formação católica, estudei dez anos interno em colégio de padre. Evidente que depois de alguns anos eu era comunista. Foi minha fase libertária, fui filiado ao Partido. Foi ali que conheci o Carlos Lacerda. O Apolônio de Carvalho me botou lá, depois ele foi da dissidência do Partido. Fui companheiro do Lacerda, que na época era muito diferente do que ele se tornaria, era comunista mesmo.

ALB – Até que ponto a despreocupação com o dinheiro é importante para o poeta?
MB – Levei vários anos até conquistar o ócio, isso é importante para o poeta, ele não pode ter a cabeça virada só para coisas a resolver. Fiquei muitos anos arrumando minha vida, saldando dívidas, atendendo papagaio. Há oito anos, cheguei aqui pra Mato Grosso, tomei pé aqui. Agora estou vagabundo, tenho direito a isso. Herdei uma fazenda, em campo aberto, terra nua, sou fazendeiro de gado, vaca, não sou “o rei do boi, do gado” mas vivo bem. Este é o meu caso: enquanto estava tomando pé da fazenda não escrevi uma linha. Mas sabemos de outros casos, como o Dostoiévski, que escreveu perseguido por dívidas, ou o Graciliano Ramos, que além das dívidas ainda tinha família pra criar.

ALB – Qual é o tema do poeta?
MB - O tema do poeta é sempre ele mesmo. Ele é um narcisista: expõe o mundo através dele mesmo. Ele quer ser o mundo, e pelas inquietações dele, desejos, esperanças, o mundo aparece. Através de sua essência, a essência do mundo consegue aparecer. O tema da minha poesia sou eu mesmo e eu sou pantaneiro. Então, não é que eu descreva o Pantanal, não sou disso, nem de narrar nada. Mas nasci aqui, fiquei até os oito anos e depois fui estudar. Tenho um lastro da infância, tudo o que a gente é mais tarde vem da infância. Nesse último livro meu, Livro sobre nada, tem muitos versos que vieram da infância. Tem um poema que se chama “A arte de infantilizar formigas”. Num vídeo que fizeram sobre mim, o rapaz chega uma hora que pergunta: “Escuta aqui, o senhor escreveu que formiga não tem dor nas costas. Mas como é que o senhor sabe?”. Outro rapaz me escreveu do Rio, diz que freqüenta as aulas de um professor muito inteligente em energia nuclear, física, poesia e romance, e ele fez a pergunta, que é um verso meu: “Professor, por que a 15 metros do arco-íris o sol é cheiroso?”. O professor, que tinha estudado Einstein e outros autores, disse: “Essa pergunta não vou responder, é absurda”. Ou seja, encabulou. Creio que a poesia está de mãos dadas com o ilógico. Não gosto de dar confiança para a razão, ela diminui a poesia.

ALB – Como é seu dia-a-dia?
MB - Pela estrada, chego a minha fazenda em quatro horas, estou bem perto do Pantanal. Agora o clima é seco, e dá para correr de carro. Mas quando a estrada enche, só de avião. Fico em casa lendo, escutando músico, vejo televisão. De manhã, fico escrevendo, terminando livro, fazendo entrevista.

ALB - Hoje, o senhor lê que autores?
MB – Já li muita coisa séria, além dos escritores, li filosofia, Nietszche, Kant, Walter Benjamim, Adorno, essas coisas. Mas hoje tô lendo mais porcaria mesmo, quero descansar a cabeça. E estou com a vista meio ruim. Vejo também muitas coisas engraçadas na TV, o Didi e o Dedé (Os trapalhões), o Chaves, sabe quem é?, aquele chato mexicano. E escuto muita música. De tarde, saio pra tomar umas pingas, enquanto meu fígado não arrebentou. Mas às vezes sofro aqui nessa cidade. A poesia faz da gente uma espécie de mito, e as pessoas acabam fazendo da gente uma imagem diferente da realidade. Tem gente aqui que pensa que eu vivo isolado, sozinho, sem amigos, falam que eu sou intratável. Não sou isolado, não.

ALB – Como nasceu seu amor pelo trabalho da linguagem?
MB – Sempre tive uma preocupação com a palavra, com as frases. No colégio interno, os padres me deram o Padre Antônio Vieira para ler. Ele era um grande frasista, se preocupava com a ressonância verbal interna das frases. Em linguagem, ele muitas vezes não era tão católico assim. Depois que comecei a ler o Vieira não parei mais de prestar atenção nas frases. Sou um fazedor de frases. O que é o verso? É uma frase, uma unidade rítmica, que tem como característica ser ilógica. O ilogismo é muito importante para o verso.

ALB – O senhor citou o poeta francês Rimbaud. Fale um pouco dele.
MB – Foi o poeta mais importante para mim. Aprendi com ele uma certa promiscuidade dos sentidos na natureza. Ele tinha uma linguagem própria, toda sua, aquela coisa do “trouver la langue” (“encontrar a língua”).

ALB – O senhor citou também João Cabral de Melo Neto. O que acha de sua obra?
MB – O Cabral é o maior poeta brasileiro de todos os tempos. É um arquiteto da palavra, sabe o que faz com ela. Tem um ritmo dele, totalmente dele, é diferente de todos os outros e tinha que ser, pois ele é um ser. João Cabral é muito limpo.

Fonte: Caderno Idéias, Jornal do Brasil.
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