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sexta-feira, 12 de agosto de 2011

FOTOGRAFIA E TEXTO

FOTOGRAFIA E TEXTO

A fotografia tem desempenhado um papel importante no conceito deste blogue. É inegável. Uma boa fotografia pode impor uma determinada interpretação para a um texto. Os meus critérios de escolha são por vezes arrojados. A fotografia não representa fielmente a literalidade do texto. Por vezes até é o seu contraponto, a sua oposição, a sua negação. Porque também é assim que vejo a poesia. E é a poesia que verdadeiramente me interessa. A imagem é um acessório importante para provocar um efeito que pretendo. Nada mais. Gosto da poesia que respira em cada palavra. cada palavra como um centro gravitacional autónomo, com o poder de mudar o todo se nela nos detirvemos mais do que cinco segundos.

São interessantes as leituras que me vão chegando do meu livro "Uma Prática para Desconserto" (4Águas, 2011). Os poemas surgem necessariamente desacompanhdos de imagens. O que remete para a interpretação mais básica, mais literal, um pouco mais directa (o termo aqui é insultuosamente infeliz). Essa experiência tem-me feito regressar à génese, ao momento da sua redacção, ao seu sentimento. E que bom que tem sido.

Sylvia Beirute
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sábado, 1 de janeiro de 2011

PROSA - UMA CASA EM BEIRUTE (3)

















UMA CASA EM BEIRUTE (3)

            é sexta-feira e estou onde deveria estar. na casa da criança. vim como se a minha presença me tivesse sido solicitada, não como se visitasse. é uma diferença fundamental no espírito de quem visita. esta criança manda na casa. a influência da mãe sente-se sobretudo nos objectos. é como se eles segurassem a sua solidão, como se fossem uma operação matemática que não a solucionasse. os objectos não são incorruptíveis. sendo uma espécie de corpo reproduzido por fragmentos, são uma vida reduzida à unidade de medição «força». estes objectos não têm força. e tanto assim é que, após uma vista geral, constato que a sua maioria quase que não serve para nada, ainda que primitivamente tivessem uma utilidade. servem residualmente para representar a solidão daquela mãe, acentuada pela expressão da criança quando se lhe dirige. na verdade, é como se esta solidão presente pudesse andar para trás, para trás ao acto primeiro que lhe deu origem, ainda que na altura reinasse um total desconhecimento, um conhecimento cujo conteúdo se escondesse atrás de uma colina de alegria, senão de felicidade.

            e é como se o seu filho, a criança, Aiden o seu nome, o mesmo que no mercado há dias gritava «mãe, mãe», fosse fruto dessa árvore naquele tempo plantada, e ainda bebesse dos vícios posteriores. era como se Aiden representasse neste espaço e tempo o casamento falhado, a precipitação, o amor quebrado.

            e isto tudo é progresso. "só a tristeza de uns pode fazer a felicidade de outros. e só a felicidade individual de uns pode erradicar a tristeza de outros.", dizia Artan, que conheci há pouco num curta viagem de autocarro. "a tristeza é o ponto zero, para onde as pessoas descem. é como estar numa mina preso a setecentos metros de profundidade. a felicidade é, eu diria, uma espécie de ponto cinco. só as pessoas nesse ponto podem lançar convenientemente as cordas aos do ponto zero. os pontos juntam-se, dividem-se como uma média aritmética: cinco mais zero a dividir por dois: dois e meio e o equilíbrio do mundo. o importante equilíbrio. saúde mental.

            vim a este lar. não que me encontre num ponto cinco; mas em qualquer ponto que me encontre, acima do zero e dividido por dois, é lucro. por vezes quem lança as cordas também perde força e, sobretudo para as pessoas do estado cinco, o do êxtase, tal se afigura fundamental, pois que a felicidade, para ser qualitativamente durável, deve ser deste modo exercida. mas se eu perder força, baixando o meu nível emocional, garanto, se tiver êxito no incremento no nível geral desta família desmembrada, uma sustentação futura para a minha pessoa. um lucro de reserva.

            "o jantar está na mesa, senhora Carlaiz", diz Breena, a mãe. e eu desloco-me para a mesa.

Sylvia Beirute
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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

PROSA - UMA CASA EM BEIRUTE (2)

















UMA CASA EM BEIRUTE (2)

            um nome. as pessoas reduzem-se a um nome. a linguagem agrava as coisas. as pessoas também se reduzem a linguagens. na realidade o nome e tudo o que ele comporta, como o chamar, o entoar, o evocar, reduz-se a uma linguagem. quando a criança me chamou, disse o meu nome: «Carlaiz», disse ela. disse-o de uma forma diferente. disse-o como se se desmoronasse a linguagem subjacente. eu nunca pensei no meu nome com esta sensação associada, concluí. nunca o meu nome conheceu uma matéria tão informe, sem opositor chamativo, com uma redução subliminar, própria do domínio do puro. Carlaiz, perguntava a criança, aceitas jantar connosco na sexta-feira? e eu pensava. eu não parava de pensar na primeira questão. disse «porque não?»  com um sorriso como se pudesse fugir sem pernas. «ainda tenho de tratar do meu contrato, acabei de chegar à cidade», acrescentei.
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            a questão filosófica mais importante numa pessoa sozinha no mundo, senão num espaço, maior ou menor, é a possibilidade (ou capacidade) de escolher a própria família. se for num espaço estrangeiro esse acolhimento é paradoxalmente mais efectivo. como que há um distanciamento natural entre quem recebe e quem chega, mas que aproxima pela descoberta, conquista, ou curiosidade radiográfica. mas que será isto? por que será assim?
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            de seguida propus-me a não responder a quaisquer perguntas que pudesse naturalmente formular. trazia muitas questões, procurava respostas. respostas daquelas que não perguntam de novo.  especialmente aquelas que não perguntam o mesmo que já fora perguntado.
            quando cheguei a casa rezei e chorei. tenho o hábito de fazer sempre duas coisas ao mesmo tempo. acoplá-las ainda que aparentemente de tal não sejam passíveis. rezar e chorar creio que, ao contrário de outras, são duas funções que se podem executar em conjunto. com o tempo, quando chorava instantaneamente, também rezava. era como se impusesse ao verbo um outro lado transitivo. e vivia a experiência. dir-se-ia que rezava o choro. certos contrários não fazem sentido. não podia dizer que chorava a reza, por exterior a mim.
           comecei a viver em beirute uma outra dimensão. a minha casa seria decorada segundo outros padrões, podia começar relações do zero, esconder o meu passado, desarticular-me por completo no exercício do ser individual.
            no meu ouvido ainda permanecia o meu nome dito pela criança: «Carlaiz».

Sylvia Beirute
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quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

PROSA - UMA CASA EM BEIRUTE (1)



















UMA CASA EM BEIRUTE (1)

            sair de casa sem saber como se sente é uma coisa perigosa. todas as coisas se contrapõem à base diária do sentimento. não conhecer tal fundamento é permitir a auto-estrada das emoções avulsas; ou pior, em caso de inacessibilidade da mesma ou pagamento de portagem não acessível ao bolso, a imposição de caminhos muito secundários, que vão dar às partes mais estranhas e surpreendentes do corpo. hoje saí de casa, coisa que não fazia há alguns dias. fi-lo como se o meu olho trocasse o ver pelo desempenhar. desempenhar no sentido de ser uma lagartixa às nove da manhã olhando as margens da rua, ou escutar através do olho clínico as margens da voz nas pessoas que usam as palavras na boca como cigarros. há minutos alguém o fazia. a palavra era «palavra». ele falava de palavras como se alguma vez lhes tivesse visto as tripas ou como se aquelas tivessem uma espécie de bicho da fruta. sair de casa tem destas coisas. mas não sair de casa também tem coisas. coisas como experimentar o infinito interior da paralisação dos abdómens mentais, das vírgulas emocionais que sempre devem existir para que o pensamento seja, como deve ser, um sujeito autónomo, com pernas, braços, equilíbrios frágeis, e outros elementos. porque se o pensamento não for um homem, estagna; não se reveste da dignidade da luta e possível conquista. o pensamento não pode ser teu. «o pensamento poderá ser teu», é este o slogan que deve ser usado.
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            eu agora não estou na rua, mas é como se estivesse, pois estive há pouco. a rua também prende palavras. palavras que embora não livres, pois se confinam ao universo da rua, são abertas. é uma razão para se sair de casa, a abertura da linguagem. ainda que tão aberta que o querer-dizer se fique pelos indícios. e o meu corpo começou a sentir palavras. até que uma senhora disse «os meus ossos são muito transitivos», e eu não percebi que tipo de linguagem era aquela: não sabia se ainda pertencia à linguagem aberta da rua, se à linguagem fechada do estar em casa e que erroneamente tinha sido colocada ali. o contexto não entendi, muito porque uma criança próxima de mim abusava da palavra «mãe», o que me perturbou o sentido momentâneo, sentido, talvez o sexto ou o sétimo, que nos faz perceber a realidade desde que haja um esforço sério naquele momento. se o momento passa e a apreensão não se faz, a sua reprodução tardia torna-se difícil, para não dizer impossível.
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            sair de casa sem saber o que se sente faz com que a existência seja uma quimera, completamente nua, para além de nua; como se o corpo nu ainda procurasse a sua nudez. levemente toquei no meu pescoço, e depois nos ombros como se este último gesto me pudesse fazer perceber a «questão transitiva» dos ossos. creio que não percebi, mas senti, sem  porém saber o que sentia. 
            e entrar em casa sem saber o que se sente é uma coisa perigosa. o relógio pariu uma hora nova, dentro da qual eu fui dormir. beirute estava finalmente em silêncio.

Sylvia Beirute
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