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quarta-feira, 21 de março de 2012

TONINO GUERRA - POEMA - CANTO NONO

CANTO NONO

Terá chovido durante cem dias e a água infiltrada
pelas raízes das ervas
chegou à biblioteca banhando as palavras santas
guardadas no convento.

Quando tornou o bom tempo,
Sajat-Novà o frade mais jovem
levou os livros todos por uma escada até ao telhado
e abriu-os ao sol para que o ar quente
enxugasse o papel molhado.

Um mês de boa estação passou
e o frade de joelhos no claustro
esperava dos livros um sinal de vida.
Uma manhã finalmente as páginas começaram
a ondular ligeiras no sopro do vento
parecia que tinha chegado um enxame aos telhados
e ele chorava porque os livros falavam.

Tonino Guerra
em O Mel
Tradução de Mário Rui de Oliveira, 
Assírio e Alvim, 2004 

sexta-feira, 2 de março de 2012

O AMOR EM VISITA - POEMA - HERBERTO HELDER

O AMOR EM VISITA

Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.

Cantar? Longamente cantar,
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas,
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes
ele - imagem inacessível e casta de um certo pensamento
de alegria e de impudor.

Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.
Ah! em cada mulher existe uma morte silenciosa;
e enquanto o dorso imagina, sob nossos dedos,
os bordões da melodia,
a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
- Ó cabra no vento e na urze, mulher nua sob
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
mulher de pés no branco, transportadora
da morte e da alegria.

Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei.

E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,
cantarei seu sorriso ardendo,
suas mamas de pura substância,
a curva quente dos cabelos.
Beberei sua boca, para depois cantar a morte
e a alegria da morte.

Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro
pescoço de planta,
onde uma chama comece a florir o espírito.
À tona da sua face se moverão as águas,
dentro da sua face estará a pedra da noite.
- Então cantarei a exaltante alegria da morte.

Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.

- Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
- Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura.

Entontece meu hálito com a sombra,
tua boca penetra a minha voz como a espada
se perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra - invento para ti a música, a loucura
e o mar.

Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso,
a inspiração.
E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa.
Vou para ti com a beleza oculta,
o corpo iluminado pelas luzes longas.
Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos
transfiguram-se, tuas mãos descobrem
a sombra da minha face. Agarro tua cabeça
áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou
aquilo que se espera para as coisas, para o tempo -
eu sou a beleza.
Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem
teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada beleza.

Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua noite e loucura,
não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ti
principiam o mar e o mundo.

Minha memória perde em sua espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas cresceram como religião
sobre a vida - e eu nisso demorei
meu frágil instante. Porém
teu silêncio de fogo e leite repõe
a força maternal, e tudo circula entre teu sopro
e teu amor. As coisas nascem de ti
como as luas nascem dos campos fecundos,
os instantes começam da tua oferenda
como as guitarras tiram seu início da música nocturna.

Mais inocente que as árvores, mais vasta
que a pedra e a morte,
a carne cresce em seu espírito cego e abstracto,
tinge a aurora pobre,
insiste de violência a imobilidade aquática.
E os astros quebram-se em luz sobre
as casas, a cidade arrebata-se,
os bichos erguem seus olhos dementes,
arde a madeira - para que tudo cante
pelo teu poder fechado.
Com minha face cheia de teu espanto e beleza,
eu sei quanto és o íntimo pudor
e a água inicial de outros sentidos.

Começa o tempo onde a mulher começa,
é sua carne que do minuto obscuro e morto
se devolve à luz.
Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras
com uma imagem.
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito
de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade
uma ideia de pedra e de brancura.
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,
que te alimentas de desejos puros.
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,
a sombra canta baixo.

Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,
onde a beleza que transportas como um peso árduo
se quebra em glória junto ao meu flanco
martirizado e vivo.
- Para consagração da noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida com a tua.

Oh teoria de instintos, dom de inocência,
taça para beber junto à perturbada intimidade
em que me acolhes.

Começa o tempo na insuportável ternura
com que te adivinho, o tempo onde
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida
ingénua e cara, o que pressente o coração
engasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espírito,
boa será nossa carne presa e morosa.
- Começa o tempo onde se une a vida
à nossa vida breve.

Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna
salina, imagem fechada em sua força e pungência.
E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado
em torno das violas, a morte que não beijo,
a erva incendiada que se derrama na íntima noite
- o que se perde de ti, minha voz o renova
num estilo de prata viva.

Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como sol
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.
- E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das nuvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.

Se te apreendessem minhas mãos, forma do vento
na cevada pura, de ti viriam cheias
minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses
em minha espuma,
que frescura indecisa ficaria no meu sorriso?
- No entanto és tu que te moverás na matéria
da minha boca, e serás uma árvore
dormindo e acordando onde existe o meu sangue.

Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
- Eu devo rasgar minha face para que a tua face
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.

As águas que um dia nasceram onde marcaste o peso
jovem da carne aspiram longamente
a nossa vida. As sombras que rodeiam
o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto
seu bárbaro fulgor, o rosto divino
impresso no lodo, a casa morta, a montanha
inspirada, o mar, os centauros do crepúsculo
- aspiram longamente a nossa vida.

Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho, no mosto aberto
- no amor mais terrível do que a vida.

Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz
o perfume da tua noite.
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua
e branca das mulheres. Correm em mim o lacre
e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca
ao círculo de meu ardente pensamento.
Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.
Em cada espasmo eu morrerei contigo.

E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,
casa de madeira do planalto,
rios imaginados,
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas
maravilhosas da noite. Ó meu amor,
em cada espasmo eu morrerei contigo.

De meu recente coração a vida inteira sobe,
o povo renasce,
o tempo ganha a alma. Meu desejo devora
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma
de crepúsculos e crateras.

Ó pensada corola de linho, mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada, imponderável -
em cada espasmo eu morrerei contigo.

E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.

.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

CENA CAMPESTRE - ANNA ENQUIST - POEMA

























CENA CAMPESTRE

A casa esperou por nós,
pensamos. O duplo renque de árvores
acena-nos que nos cheguemos. Num sussurro,
o rio vai escorregando cheio
entre as margens.

À hora exacta, o sol vai esconder-se
por trás dos campos. A escuridão
envolve a casa que nos protege.
Acendemos o fogo, bebemos
entre as paredes.

Vendi-me inteira à
segurança e debruço-me da janela.
Dormem cavalos e galos, a água
pisca o olho à lua, e eu a pagar,
sempre a pagar.


Anna Enquist
Rosa do Mundo – 2001 Poemas para o Futuro
Assírio & Alvim, 2001 
.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

ADRIANO WINTTER - POEMA - CÉU ÉBRIO

























Recentemente pude ler alguma da poesia do poeta brasileiro Adriano Wintter. Deixo a sugestão. 

CÉU ÉBRIO

bebeu
todo vinho
suave da noite
quebrou
sua taça
infinita de estrelas
e acordou
solarmente na rua
com bandos de aves
no terno azul


Adriano Wintter
in Revista Eutomia

ADRIANO WINTTER Nasceu em Porto Alegre/RS. Foi vencedor do Femup 2010, com o poema "os átilas", e integrou sua antologia. Tem outros poemas publicados nas Revistas Germina, Aliás e no Jornal Poesia Viva.
.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

BRASIL: SOLIVAN BRUGNARA - POEMA



O Brasil sempre esteve muito próximo da minha poesia. Há uns anos que estabeleço relações muito próximas com alguns poetas brasileiros. O meu livro inclusive teve algum destaque no Brasil, tendo ido alguns exemplares para o outro lado do Atlântico. É sempre interessante quando algumas pessoas que respeitamos escrevem sobre aquilo que fazemos. Por vezes vêem coisas que, aquando do nosso momento criativo, nós não pensamos, o que se torna muito gratificante, influenciando a nossa criação futura (falo por mim).

O poeta brasileiro Solivan Brugnara escreveu sobre a minha poesia de forma muito certeira e, sobretudo, muito original, em forma de poema, um belo poema como há muito tempo não lia um. Revejo ali um pouco do meu poema Aviso (in Uma Prática para Desconserto, 4águas, 2011) mas com uma dimensão completamente diferente.

Chama-se Diretrizes Para um Poema ao Modo de Sylvia Beirute, e pode ser lido no blogue do poeta. 
.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

VIEIRA CALADO - POEMA - MAIS NADA




Alguns dos poemas do poeta do Algarve Vieira Calado remetem-me para um ambiente pessoano. Gostei deste Mais Nada.

MAIS NADA

Antes de morrer não vou dizer nada
porque nada iria servir para nada.

O que as outras pessoas querem que eu diga
já o disse.

O que os amigos querem que eu faça
já o fiz.

Só não lhes disse
que ao morrer não iria dizer ou fazer mais nada
porque não há nada mais ridículo
que dizer ou fazer o que quer que seja
ao morrer.

Vieira Calado
inédito lido no blogue do poeta
.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

PERGUNTEMA - GAVINE RUBRO - POEMA

PERGUNTEMA

{à Sylvia Beirute
& Luís Ene}

quantas cores tem o céu?
quantas metáforas
insere a palavra poesia?
quantos corações
vivem num só?
Quantos surrealismos
ainda respiram?
que sentimento
absorve o negro do ódio?
quantos poetas dizem
«dada»?
quantas facas tem cada boca?
e quantos dentes a faca?

como se conjuga o vermelho?
qual a velocidade dos sonhos?
onde mora o branco da folha?
quantas páginas tem
a palavra esperança?
quantas mentiras
para acabar o mundo?
e verdades para o seu
renascimento?

onde está Portugal?
em que corpo vivem agora
os grandes poetas do passado?
quantas hienas
num elogio?
qual o boomerang
da frontalidade?
onde param os bons livros?

quem morre hoje?
qual o Deus físico?
que palavra maior
que todas as outras?
que pseudónimo
sem corpo?
e que corpo
de nome verdadeiro?

o que se esconde debaixo
das folhas caídas?
com que proteger
as árvores nuas outonais?
que estações
para a destruição?

que crepúsculo escuro?
que inercia se move
nestas linhas?
que poema é este?!

Gavine Rubro
inédito lido na Célula Rubra
.

domingo, 6 de novembro de 2011

GISELA RAMOS ROSA - POEMA - QUANDO NASCI VOLTEI A REAPRENDER A TRADUZIR O MUNDO

























Merece muita atenção a poesia de Gisela Ramos Rosa, sobrinha do poeta António Ramos Rosa, grande vulto da poesia portuguesa e do mundo.

QUANDO NASCI VOLTEI A REAPRENDER A TRADUZIR O MUNDO

Quando nasci voltei a reaprender a traduzir o mundo maior em que nascia e aquele
primeiro mundo pele de minha mãe,

Era a luz voltando a entrar em relevo pelos olhos sem que
a memória anterior se tivesse extinguido

tradução e agenciamento, fluência e água amadurecendo a observação
reintegrei os gestos as formas e abri um aqueduto livre no coração
onde guardei em segredo imagens originais

compreendi que na folha em branco os espelhos se podem confundir
com a rigidez do olhar onde as pedras se fixam,
assentei o verbo na tradução das manhãs anteriores
da primeira pele descobrindo as camadas do Livro
com o brilho inquieto do real sobre as mãos

Gisela Ramos Rosa
inédito lido no blogue A Linguagem dos Rostos
.

sábado, 5 de novembro de 2011

RÚSSIA - GUENNÁDI AÏGUI - POEMA - MAIS UMA VEZ NA NEVE

























MAIS UMA VEZ NA NEVE

e então trauteias uma canção e eu me afasto
lentamente na neve (é como no passado: o corpo
que se evapora na penumbra,
em qualquer lugar cada vez mais distante);
uma tábua de madeira partida está lá fora,
lá entre o que sobrou
de uma cabana abandonada (cantando, sussurrando,
e chorando há muito tempo - e ao que parece
isso para a felicidade é bastante) e mais ao longe
a floresta
como
nos meus sonhos
abre-se - e começas a cantar
(embora fosse já indesejável,
uma vez que tudo acabaria)
tu prossegues cantando
(amadurecemos como uma eternidade profunda
que resplandece já sem nós)
tu continuas
cada vez mais surdamente
a cantar

Guennádi Aïgui
Versão livre de Pedro Calouste
a partir do francês


segunda-feira, 31 de outubro de 2011

JOÃO RUI DE SOUSA - POEMA - O RELÓGIO DA AMIZADE




















O RELÓGIO DA AMIZADE

Em cada relógio há sempre um amigo
que nos acorda, que suavemente nos percorre
os interstícios da alma, que nos assombra
com sinais discretíssimos de fraterna luz
ou que nos deixa, mesmo em minuto frágil,
um arco triunfal com tâmaras de afecto.
Nesse relógio há um lírio comestível
ou uma plena árvore com seus braços
de deslumbre, ou a mais ínfima erva
que por ele sobrevive à estrondosa queda
do granizo, à dissolução (inevitável) de casas
e areias, e mesmo ao advento da loucura.
É sempre tal relógio um rio profundo
onde a cor dum sol cheio, tantas vezes
reposto, tantas vezes presente em acenar
de címbalos e de búzios, pode acordar
em tons de uma aridez sombria, pode
deixar-nos tristes, sós e desolados,
numa gruta de horror frente ao deserto
- num recanto de sono e desalento.
Nesse amigo de sempre, um tal relógio
- com seus ponteiros de murta ou de veludo,
que saltam como lebres sobre as horas
ou são nichos de abrigo e cestos de avelãs –
é puro movimento e azul que estremece
o fio de cada dia, o voo do coração.
Mesmo em zonas de fogo e exaltação,
nesses lugares de praia mais sensíveis
(como o esplendor do corpo em combustão,
como o fremir da vaga e do desejo),
existe tal relógio, ó engrenagem mágica,
ó tiquetaque nítido, tão cúmplice.

João Rui de Sousa
em Revista Cultura Entre Culturas n.º4 
(Outubro de 2011)
.

sábado, 22 de outubro de 2011

D. H. LAWRENCE - POEMA- A INDECÊNCIA PODE SER SAUDÁVEL

























A INDECÊNCIA PODE SER SAUDÁVEL

A indecência pode ser normal, saudável;
na verdade, um pouco de indecência é necessário
em toda vida para a manter normal, saudável.

E um pouco de putaria pode ser normal, saudável.
Na verdade, um pouco de putaria é necessário em toda vida
para a manter normal, saudável.

Mesmo a sodomia pode ser normal, saudável,
desde que haja troca de sentimento verdadeiro.

Mas se alguma delas for para o cérebro, aí se torna perniciosa: 
a indecência no cérebro se torna obscena, viciosa, a putaria 
no cérebro se torna sifilítica
e a sodomia no cérebro se torna uma missão,
tudo, vício, missão, insanamente mórbido.

Do mesmo modo, a castidade na hora própria é normal e bonita. 
Mas a castidade no cérebro é vício, perversão.
E a rígida supressão de toda e qualquer indecência, putaria 
e relações assim leva directo à furiosa insanidade.
E a quinta geração de puritanos, se não for obscenamente 
depravada, é idiota. Por isso, você tem de escolher.

D. H. Lawrence
Tradução de José Paulo Paes
.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

ANTIRUBRIOGRAFIA - POEMA - GAVINE RUBRO

























ANTIRUBRIOGRAFIA

sou tão biografável como uma ervilha violeta.
uma espécie de legume do qual existem mais de seiscentos conjuntos verdes.
de mim o que há a dizer é que sirvo para tanto como um garfo
que sou tão grande como um circulo
e que existo nas gotas de chuva.

sou tão biografável como uma peúga
porque sou uma peça de roupa com pele que vai para lavar todos os dias
que estriça e minga
e mesmo assim prefiro andar descalço: já há aqui algo meu, descaí-me

andar descalço pelo alcatrão sujo das noites
ver nas pestanas a industrialização do assentimento
e dentro dos meus ouvidos vive um elefante-bebé.

tão biografável quanto uma folha
estática elástica e plástica para o chão,
tão biografável quanto um coral
e um fósforo aceso até ao preto da madeira.

potável como o vermelho
estátua como um comboio
independente como um peixe
isto nada e tudo isto:
tão etéreo e vivo
como um poema.

Gavine Rubro
.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

SARAH VIRGI- CLAUSTROFOBIA - POEMA

























Incrível como Sarah Virgi, poetisa do Algarve, aos 16 anos escreve tão bem. Como diria José Saramago, "dá vontade de lhe bater". Escolhi o poema que se segue. Apreciem.

CLAUSTROFOBIA

Valsa fechada de contornos poupados
Pelos metros da sala que não se alarga
De cantos subtis e contraídos, nos lados
Acentuada como se lá não estivesse ninguém.

Cada vez mais imóvel, a valsa agora
Dançando pela fundura alta, sem saída,
Onde as paredes deixam de ser brancas, a hora
É interrompida pela música que se esquece
De tocar e o passo cada vez mais convida
Os pés a ficar sem responder.

É preciso respirar, desafogar-se do medo,
Esmurrar o tapume cego dos limites,
Gozar cada toque de dedos na nota
Do piano leve, gizando lá fora,
As pautas de uma dança devota
Pela liberdade.

Fracos os que repetem:
Não fales, não grites, não te movas
Enquanto o espaço não o disser.

Sarah Virgi
inédito lido no Intercadências
.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

JOANA ESPAIN - POEMA

De qualidade inquestionável a poesia de Joana Espain.

daqui são dois pés
de substâncias amedrontadas
seguem-se de pequenos
não de sustentarem agudos das gaivotas
a chamar a sombra dos chapéus antigos
às mesmas paredes
mais o quê
não há mais água
a água lembra-se de toda a água que já foi
até voltar a ser-nos
(ouvi o mar ter conversas estranhas com a água dentro de mim
à janela redonda do décimo andar de um navio)
estou envolvida com outra coisa
se é um bicho sozinho no universo
no instante de uma cereja
a imaginar
para passar de me cair
(nem vazios que saibam coser)
caio-me mais do que me quero
onde só precisávamos de ver o chão
muito antes do tempo de dois pés 
.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

TOMAS TRANSTRÖMER - POEMA - INSEGURANÇA NACIONAL



Já há alguns anos que sigo a poesia de Tomas Tranströmer, tendo publicado neste blogue alguns poemas desde poeta sueco, agora Nobel da Literatura 2011. Não me parece ser um poeta muito acessível para a maior parte da massa crítica em Portugal, com a  bitola que se conhece. Em geral, não sou muito adepta de prémios literários (nunca concorri a nenhum), mas este Nobel (e alguns blogues e bloguinhos agora armam-se em grandes conhecedores e entendidos) foi para mim muito importante. Cheguei a falar sobre este autor a alguns supostos experts que me exclamavam um "epah...pois...e tal". E agora vejo esses em grande elogios ao autor. Conclusão: por cá não se sabe muitas vezes separar o trigo do joio, o jogo é outro. Mas não faz mal. Mais cedo ou mais tarde....


INSEGURANÇA NACIONAL

O subsecretário se inclina para frente e desenha um X
e as suas orelhas gotejantes balançam como espadas de Dâmocles.

Como uma borboleta sarapintada é invisível contra o chão
e então que o demónio se funde com o jornal aberto.

Um capacete usado por ninguém tomou o poder.
A mãe-tartaruga foge voando debaixo de água.

TOMAS TRANSTRÖMER
tradução inédita de Pedro Calouste
.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

RUY BELO - OS PÁSSAROS E AS ÁRVORES - POEMA




















OS PÁSSAROS E AS ÁRVORES

As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
... Os pássaros começam onde as árvores acabam
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
Deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
Quando o Outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
Mas deixo essa forma de dizer ao romancista
É complicada e não se da bem na poesia
Não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração

Ruy Belo
.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

A FAMÍLIA DA ROSA - POEMA - ROBERT FROST


























A FAMÍLIA DA ROSA

Uma rosa é rosa.
Sempre foi rosa.
Mas hoje alguém tenta
Fazer crer que uma pêra é rosa
E a maçã é vistosa
E a ameixa é também uma rosa.
E perguntam os amorosos
O que mais será rosa.
Tu, claro, és rosa –
Tu sempre foste rosa.

Robert Frost
versão de Pedro Calouste
.