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Terça-feira, 30 de Novembro de 2010

POLÓNIA: RYSZARD KAPUSCINSKI - POEMA - ESCREVI PEDRA

























ESCREVI PEDRA

Escrevi pedra
escrevi casa
escrevi cidade
parti a pedra
demoli a casa
destruí a cidade
e sobre o papel o rasto de luta
entre
criação e extermínio.

Ryszard Kapuscinski
Tradução de Pedro Calouste
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60 MINUTOS: MUSICAL SPIDER-MAN

Vendo no programa 60 Minutos os ensaios para o novo musical da Broadway Spider-man, sobretudo quanto à parte musical e tendo-me revisto nos processos, reflecti um pouco sobre a produção artística, o que está por detrás dela, a exigência que é necessária, a sensibilidade específica, a criação de momentos. Deliciem-se.


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Segunda-feira, 29 de Novembro de 2010

BEBÉS - POEMA - ANDREA BOCELLI

























como um gigante, orgulhoso e feliz,
pego o meu bebé nos braços, frágil, inocente e vivo
e como um pequeno pássaro ele se empurra contra o meu peito
abandonado, quieto e seguro por um instante, quase
deliciosamente o meu destino aparece como um sonho.

E eu vejo-me a mim mesmo, velho e cercado,
sentado aí, perto do fogo do carvão,
esperando a noite pela ansiedade de uma criança,
apenas para o ver voltar para casa
com o dom do seu sorriso, palavras e delicadeza.
é como uma promessa que encontra solução para a
enorme alegria de uma das suas carícias.

e então eu acordo e estou já esquecido
mas dentro de mim a alma armadilhada de criança me avisa
que este bebé recém-nascido é já mais importante para mim
do que a minha própria vida.

Andrea Bocelli
Tradução de João Muzzi
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AMO-TE ASSIM SEM CORPO - POEMA - SYLVIA BEIRUTE

poema visual de sylvia beirute

A disposição gráfica deste poema na imagem (clicar para ver maior) pertence a Carlos S. Marques.
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QUE HORAS TEM UM CORAÇÃO? - VERA L. T . SANTOS
























Este poema de Vera L. T. Santos que esta manhã li fez-me lembrar o meu Desejo Infinitesimal. Reproduzo-o.


Que horas tem um coração?
[junto do tronco e da terra onde a luz inventa a ausência]
Que horas tem a tua ausência?
[i.material]
Que horas tem este meu corpo?
[contorno lento, indizível sombra, vento negado]
Que horas tem uma palavra?
[que opacas mãos escavam neste instante]
Que horas tem esta hora em que o choro de um abraço se demora?
[imóvel boca em que a nuvem se desfaz]
Que horas temos nas horas em que somos?
É sempre tarde. Esta vertigem.
[atada às nossas mãos. longe daqui.]
Cardio.grafia
Temas Originais, 2010
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271 OBRAS DE PABLO PICASSO

Obras de Pablo Picasso

















Invariavelmente histórias como a das 271 obras de Picasso, desconhecidas até então, relacionam-se sempre com a questão monetária, uma arte à parte. Senão vejamos: à primeira vista, e pelos anos que passaram, dá ideia de que este electricista deteve as referidas 271 obras como alvo de contemplação, um gozo pessoal muito requintado. De seguida começamos a pensar melhor: tantos anos sem dizer nada e agora busca os certificados de autenticidade das mesmas. Provavelmente, e porque passou muito tempo, já ninguém lhe tira as obras, e o pobre homem, quem sabe levado pelos efeitos da crise internacional, resolveu arriscar. De todo o modo, deve ter sido penoso dispor durante tantos anos de uma fortuna considerável sem lhe poder tocar. O electricista já é velhote. Que goze alguns anos de boa vida. Que as obras sejam expostas.
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FINLÂNDIA: BO CARPELAN - POEMA

rosto de mulher bonita. poema
















onde me deixaste
onde me escondeste
antes de me deixares sozinho
nos dias precoces da primavera?
eu deixei-te
porque não conseguias existir
nem nos dias de mudança da
primavera, nem nos do outono
mas apenas quando os dias
estavam no seu tom mais pálido.

Bo Carpelan
Tradução de Pedro Calouste
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Domingo, 28 de Novembro de 2010

SOGHOMON SOGHOMONIAN - POEMA - DESEJO

Soghomon Soghomonian, poema, coraçao, asas























 DESEJO

Deixa a minha voz tremendo
ser encaixada no santuário do teu coração.
Oh minha asa,
Deixa-me ser parte de um arquejo
e voar para longe.

Soghomon Soghomonian
Tradução de Pedro Calouste

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DEUS E PEÇAS DE XADREZ: TIM MARTIN

deus e peças de xadrez- poema visual
 
Eu era a combinação de deus e peças de xadrez.

Tim Martin
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FRIEDERIKE MAYRÖCKER- NUM POEMA DE BRECHT

mulher na cama. poema de friedrike mayrocker






















NUM POEMA DE BRECHT

esta lágrima de que tens medo - quer dizer, esta
gota de chuva - pode abater o teu coração doce;
penso-o dias e noites, noites sem fim
(e pode ser um amante masculino também);
mas ele ou ela estiveram sempre muitíssimo
expectantes, tão cautelosos que até
essa lágrima - quer dizer, essa gota de chuva -
não mais os poderá aquecer. o ponto é o de que
tu não podes, com o teu amor, protegê-lo ou
protegê-la, em qualquer caso,
de alguma calamidade, etc.

Tradução de Pedro Calouste
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JOSEPH KOSUTH: ARTE CONCEPTUAL

















Joseph Kosuth  - Uma e três cadeiras, 1965


Uma das minhas fontes de inspiração é, sem dúvida, toda a arte conceptual. É a única que fornece uma riqueza de silêncio, dentro do qual qualquer artista, mesmo de uma arte quase oposta, consegue respirar e criar. Joseph Kosuth (Toledo, Ohio, 1945) é um desses artistas. Acaba por ser relativamente fácil sentar nesta cadeira e imaginar um mundo totalmente diferente. E é isso que deve ser a arte, e só poucas vezes o é: a criação de mundos.
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JÚLIO CARRILHO - DE REPENTE A TERRA - POEMA

magia. poema magia
















DE REPENTE A TERRA

De repente a terra. A descoberta das cores que a povoam. Do preto ao ocre. Cada tom a revelar os seus segredos. A passar mensagens. Incipientemente a acordar-me para as dores da luz penetrando forte pela consciência. Afinal só eram sombras o que eu percebia na inocência. Afinal a vida estava lá fora a contorcer-se. Mosaico de futuro a construir-se em cada um dos grãos de areia. A lângua de lama seca a repartir-se ao sol. É um expediente que quebra cada brilho para me arrumar o pensamento.

Júlio Carrilho
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CINCO MINUTOS DE LUA - POEMA - SYLVIA BEIRUTE

Lua e poema sobre a lua
















 CINCO MINUTOS DE LUA

eixo? cinco minutos. esta teoria. não 
será de outro modo: colocação objectual da 
epiderme de nós dois sozinhos. a nossa experiência
invisível no mundo que pontua o i, a estética
residual da boca correspondente às palavras  
que se dividem por outras palavras. 
umas bem menores. outras não ansiadas. ainda 
sem julgamentos ou outra maneira de apresentar
turbulências. ferramentas de música.
e o resultado de um mundo é sempre igual ao seu eixo. 
que hoje é cinco minutos.  metalinguagem. 
cinco minutos que é um atraso ou uma antecipação.
só o tempo o dirá. se ele ainda conseguir 
descrever a lua . enquanto silêncio iluminado.

Sylvia Beirute
inédito
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Sábado, 27 de Novembro de 2010

MOÇAMBIQUE: JALL SINTH HUSSEIN - POEMA - TANGERINAS EM REDOR DE MINHA VIDA

”Tangerina




















TANGERINAS EM REDOR DE MINHA VIDA

Tangerinas em redor de minha vida:
geografia antiga
os hábitos frescos a infância como um rio
a mão poisada sobre muros sem tocar
breves as horas
e a leveza de cada tarde
nenhuma cicatriz no corpo
nenhuma solenidade.
Tangerinas como uma lenda até ao dia de hoje
- distância que às vezes ignoro.
Liberdade tão sagrada e tão nobre
como um gesto mudo e pobre.
Moçambique e meu bairro pequeno
aquelas coisas que voltam toda a vida
entre anos e deveres.
Tangerinas em redor dos meus lugares.

Jall Sinth Hussein
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A VIDA DE ROBERTO BOLAÑO

fotografia de roberto bolaño
















Via Desertações, este interessante documentário sobre a vida de Roberto Bolaño.
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CHACAL - COMO ERA BOM - POEMA

























COMO ERA BOM

o tempo em que marx explicava o mundo
tudo era luta de classes
como era simples
o tempo que freud explicava
que édipo tudo explicava
tudo era clarinho limpinho explicadinho
tudo era mais asséptico
do que era quando eu nasci
hoje rodado sambado pirado
descobri que é preciso
aprender a nascer todo dia

Chacal (Brasil, 1952)
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FIM DO CONTRA-INFORMAÇÃO


O Contra-informação já durava há muitos anos na RTP, mas não deixa de ser uma notícia triste. Era dos programas mais bem escritos da televisão portuguesa, tendo contribuído sem dúvida para o envolvimento do comum cidadão na política do seu país. Tenho reservas quanto ao facto de o conceito estar esgotado. Como as coisas andam, não me espantaria que tenha sido pelo preço dos bonecos.
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VERMELHO DOCE NUM LUGAR DE FORÇA - POEMA - SYLVIA BEIRUTE





















VERMELHO DOCE NUM LUGAR DE FORÇA

e chegar aqui e quebrar o tempo.
quebrá-lo exactamente no lugar onde outro
lugar nasce; e uma memória fica
para decorar o mesmo vazio.

Sylvia Beirute
inédito
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Sexta-feira, 26 de Novembro de 2010

ROLAND BARTHES POR GONÇALO M. TAVARES



Havia um homem que escrevia em fragmentos até o próprio nome. Assinava com metade da caneta, com metade da tinta e escrevia metade das letras. Mas havia outro homem, porque há sempre dois homens. Era um homem que escrevia em fragmentos que se multiplicavam como se entre eles estivesse a operação multiplicação.
Há quem escreva como num testamento: é uma linguagem que separa e deixa apenas parte a cada um. E há depois quem escreva com mão de agricultor: deixa mais do que acabou de deixar.
Ver duas vezes no mesmo dia um cego é torturar um cego. Porque o cego nesse dia nem uma vez te viu.

Gonçalo M. Tavares
em Biblioteca
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CAROLINA CAETANO - A PAREDE, A SUA VIDA - POEMA
























Um dia destes, com mais tempo, quero dedicar-me a uma reflexão sobre a poesia publicada na internet versus a poesia publicada em papel. Apesar de a densidade de qualidade mínima ser menor nas publicações online, parece-me que, feita uma selecção a partir dos poetas aceitáveis até aos bons poetas, haverá alguma vantagem para a poesia da internet. Claro que a isto não é alheio o facto de as editoras que editam poesia serem organizadas de um determinado modo, com fins diversos da qualidade estrita. O que é caricato, e aqui o meu ego levanta claramente, é que alguns blogues que se dedicam à poesia são muito mais lidos (e falo de uma leitura fiel, não as visitas simplesmente direccionadas pelo google) do que qualquer edição de poesia em Portugal ou no Brasil. Esta conversa vem a propósito do blogue da poetisa brasileira Carolina Caetano, que, por ter colocado o meu link no seu espaço, veio até ao meu "uma casa em beirute", facto que notei pelo meu sitemeter. A qualidade desta escrita dispensa qualquer comentário meu, adensando a discussão que acima lanço.

A PAREDE, A SUA VIDA

Para Marina.

Devo-lhe ser este novembro custoso
como custaram-lhe as ingratas paciências
e o mês de agosto, não de menos, quando
tolos os meses se antecediam uns aos outros
antes embebia outras datas num só rolo
trouxe até a me pintar toda parede, e a parede
que afaga a colorir seus outros dedos
E suas datas mais próximas apetecem ou descansam
aos arredores da casa sua
a sua vida é besta, a sua vida é besta
e eu deitei-me sob ela
aos arredores da casa sua
a sua vida é besta, a sua vida resvala
escorrendo-me à cabeça
entornando pelas eiras
Se correr à calha a esta altura
a sua vida me aproveita, eu já sou outra parede
a minha vida é besta, a minha vida é besta.

Carolina Caetano
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EUA: STEPHEN CRANE - POEMA














In the desert
I saw a creature, naked, bestial,
Who, squatting upon the ground,
Held his heart in his hands,
And ate of it.
I said: “Is it good, friend?”
“It is bitter–bitter,” he answered;
“But I like it
Because it is bitter,
And because it is my heart.”


No deserto
Encontrei uma criatura, nua, bestial,
Que, agachada no solo,
Segurava entre as mãos o coração,
E comia-o.
E eu perguntei: “Está bom, amigo?”
“Está muito amargo,” respondeu-me;
“Mas eu gosto,
Porque é amargo,
e porque é o meu coração.”

Stephen Crane
Tradução de Pedro Calouste 


Stephen Crane (1 de Novembro de 1871 - 5 de Junho de 1900) foi um romancista norte-americano, poeta e jornalista. Nasceu em Newark, New Jersey. Morreu quando tinha 28 anos.

Quinta-feira, 25 de Novembro de 2010

PASSAPORTE - POEMA - SYLVIA BEIRUTE
























PASSAPORTE

sê vigilante. be on the watch. não consultes o passaporte.
ou o mapa de vagas para a construção subjectiva.
o teu atraso não passará por ela.
vê antes como se apaga um discurso de permanência olhando os
manifestos e encíclicas que os pulmões retêm. plenos de ar.
plenos de velha contemporaneidade e recusa que expira.

sê vigilante. aprende a trair. não uma grande traição, mas uma pequena 
e parcial morte ainda assim capaz de te colocar exactamente no 
mesmo lugar e circunstância mas com outro rosto,
com outra roupa, lendo ezra pound, talvez gertrude stein, olhando 
para um urinol como marcel duchamp o fez.

sê vigilante.
sobreviver é a arte de ser muitos.
o desconhecimento serve a inspiração.

Sylvia Beirute
inédito
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SEBASTIÃO UCHOA LEITE - POEMA - POST CARDS

























POST CARDS

Ezra Pound
(olhando
de viés)
MoVe aMONg the LoVers
of perfection aLONe

Gertrude Stein (mãos
no bolso do casaco)
boxeur das letras
com Alice B. Toklas em off

Rilke (dedos
cruzados) olhando
para baixo: "Rosa, ó pura
contradição, etc."

Mallarmé (xale xadrez
nos ombros) com a plume
"sur le vierge papier"

Eles pensavam que dominavam
essa áspide

Sebastião Uchoa Leite

Sebastião Uchoa Leite (1935-2003) nasceu em Timbaúba, perto de Recife, Brasil. Estudou direito e filosofia. Autor de vários títulos de poesia, obtendo o Prémio Jabuti de Poesia, em 1979, com a obra Antilogia.
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CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - UM BOI VÊ OS HOMENS - POEMA

























UM BOI VÊ OS HOMENS

Tão delicados (mais que um arbusto) e correm
e correm de um para outro lado, sempre esquecidos
de alguma coisa. Certamente, falta-lhes
não sei que atributo essencial, posto se apresentem nobres
e graves, por vezes. Ah, espantosamente graves,
até sinistros. Coitados, dir-se-ia não escutam
nem o canto do ar nem os segredos do feno,
como também parecem não enxergar o que é visível
e comum a cada um de nós, no espaço. E ficam tristes
e no rasto da tristeza chegam à crueldade.
Toda a expressão deles mora nos olhos - e perde-se
a um simples baixar de cílios, a uma sombra.
Nada nos pêlos, nos extremos de inconcebível fragilidade,
e como neles há pouca montanha,
e que secura e que reentrâncias e que
impossibilidade de se organizarem em formas calmas,
permanentes e necessárias. Têm, talvez,
certa graça melancólica (um minuto) e com isto se fazem
perdoar a agitação incômoda e o translúcido
vazio interior que os torna tão pobres e carecidos
de emitir sons absurdos e agônicos: desejo, amor, ciúme
(que sabemos nós?), sons que de despedaçam e tombam no campo
como pedras aflitas e queimam a erva e a água,
e, difícil, depois disto, é ruminarmos nossa verdade.

em Claro enigma, 1951
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ISRAEL: YEHUDA AMICHAI - POEMA
























De todos os vazios entre os tempos,
de todas as distâncias entre as filas de soldados,
das brechas do tapume,
das portas que fechamos mal,
das mãos que não juntamos bem,
do vazio entre nossos corpos que não apertamos
um contra o outro?
nasce uma extensão vasta que se desdobra,
uma planície, um deserto,
por onde nossa alma irá sem esperança, depois da morte.

Yehuda Amichai
Tradução de Cecília Meireles
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CHARLES BUKOWSKI - POEMA - O ESTILO



















O ESTILO

o estilo é a resposta para tudo.
o modo fresco de encarar um dia chato ou perigoso.
fazer uma coisa chata com estilo é preferível a fazer uma
coisa perigosa sem estilo.
fazer uma coisa perigosa com estilo é o que chamo arte.
as touradas podem ser uma arte.
o boxe pode ser uma arte.
o amor pode ser uma arte.
abrir uma conserva de sardinhas pode ser uma arte.
não há muitos com estilo.
não há muitos que possam manter o estilo.
já vi cães com mais estilo que homens.
todavia poucos cães têm estilo.
os gatos têm-no em abundância.

quando hemingway pôs os seus miolos numa parede 
com uma shotgun, isso foi estilo.
às vezes as pessoas dão-te estilo.
joana d´arc tinha estilo.
joão baptista tinha estilo.
jesus.
sócrates.
césar.
garcía lorca.
conheci homens na prisão com estilo.
conheci mais homens na prisão com estilo do que fora dela.
o estilo é a diferença, um modo de o fazer, um modo de ser feito.
seis pássaros em silêncio numa poça de água, ou tu,
saindo da casa-de-banho sem me veres.

Charles Bukowski
Tradução de Pedro Calouste
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Quarta-feira, 24 de Novembro de 2010

NIKOLAI GOGOL: O INSPECTOR GERAL

EX-CRETA, DE VIRGÍLIO LIQUITO

FRANCIS PICABIA
























"Jean Coctrau por Francis Picabia"
Quadro de Francis Picabia
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ANDY WARHOL: O TEMPO DAS COISAS

 
Dizem sempre que o tempo muda as coisas, mas na realidade és sempre tu que as mudas.

Andy Warhol
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Terça-feira, 23 de Novembro de 2010

PARABÉNS, HERBERTO HELDER


















Aquele que considero o poeta português mais completo faz hoje 80 anos. Espero que Herberto Helder faça muitos mais e nos continue a inspirar com a complexidade e mistério dos seus poemas e livros.


O AMOR EM VISITA

Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.

Cantar? Longamente cantar,
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas,
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes
ele - imagem inacessível e casta de um certo pensamento
de alegria e de impudor.

Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.
Ah! em cada mulher existe uma morte silenciosa;
e enquanto o dorso imagina, sob nossos dedos,
os bordões da melodia,
a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
- Ó cabra no vento e na urze, mulher nua sob
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
mulher de pés no branco, transportadora
da morte e da alegria.

Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei.

E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,
cantarei seu sorriso ardendo,
suas mamas de pura substância,
a curva quente dos cabelos.
Beberei sua boca, para depois cantar a morte
e a alegria da morte.

Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro
pescoço de planta,
onde uma chama comece a florir o espírito.
À tona da sua face se moverão as águas,
dentro da sua face estará a pedra da noite.
- Então cantarei a exaltante alegria da morte.

Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.

- Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
- Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura.

Entontece meu hálito com a sombra,
tua boca penetra a minha voz como a espada
se perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra - invento para ti a música, a loucura
e o mar.

Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso,
a inspiração.
E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa.
Vou para ti com a beleza oculta,
o corpo iluminado pelas luzes longas.
Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos
transfiguram-se, tuas mãos descobrem
a sombra da minha face. Agarro tua cabeça
áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou
aquilo que se espera para as coisas, para o tempo -
eu sou a beleza.
Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem
teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada beleza.

Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua noite e loucura,
não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ti
principiam o mar e o mundo.

Minha memória perde em sua espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas cresceram como religião
sobre a vida - e eu nisso demorei
meu frágil instante. Porém
teu silêncio de fogo e leite repõe
a força maternal, e tudo circula entre teu sopro
e teu amor. As coisas nascem de ti
como as luas nascem dos campos fecundos,
os instantes começam da tua oferenda
como as guitarras tiram seu início da música nocturna.

Mais inocente que as árvores, mais vasta
que a pedra e a morte,
a carne cresce em seu espírito cego e abstracto,
tinge a aurora pobre,
insiste de violência a imobilidade aquática.
E os astros quebram-se em luz sobre
as casas, a cidade arrebata-se,
os bichos erguem seus olhos dementes,
arde a madeira - para que tudo cante
pelo teu poder fechado.
Com minha face cheia de teu espanto e beleza,
eu sei quanto és o íntimo pudor
e a água inicial de outros sentidos.

Começa o tempo onde a mulher começa,
é sua carne que do minuto obscuro e morto
se devolve à luz.
Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras
com uma imagem.
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito
de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade
uma ideia de pedra e de brancura.
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,
que te alimentas de desejos puros.
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,
a sombra canta baixo.

Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,
onde a beleza que transportas como um peso árduo
se quebra em glória junto ao meu flanco
martirizado e vivo.
- Para consagração da noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida com a tua.

Oh teoria de instintos, dom de inocência,
taça para beber junto à perturbada intimidade
em que me acolhes.

Começa o tempo na insuportável ternura
com que te adivinho, o tempo onde
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida
ingénua e cara, o que pressente o coração
engasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espírito,
boa será nossa carne presa e morosa.
- Começa o tempo onde se une a vida
à nossa vida breve.

Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna
salina, imagem fechada em sua força e pungência.
E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado
em torno das violas, a morte que não beijo,
a erva incendiada que se derrama na íntima noite
- o que se perde de ti, minha voz o renova
num estilo de prata viva.

Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como sol
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.
- E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das nuvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.

Se te apreendessem minhas mãos, forma do vento
na cevada pura, de ti viriam cheias
minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses
em minha espuma,
que frescura indecisa ficaria no meu sorriso?
- No entanto és tu que te moverás na matéria
da minha boca, e serás uma árvore
dormindo e acordando onde existe o meu sangue.

Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
- Eu devo rasgar minha face para que a tua face
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.

As águas que um dia nasceram onde marcaste o peso
jovem da carne aspiram longamente
a nossa vida. As sombras que rodeiam
o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto
seu bárbaro fulgor, o rosto divino
impresso no lodo, a casa morta, a montanha
inspirada, o mar, os centauros do crepúsculo
- aspiram longamente a nossa vida.

Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho, no mosto aberto
- no amor mais terrível do que a vida.

Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz
o perfume da tua noite.
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua
e branca das mulheres. Correm em mim o lacre
e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca
ao círculo de meu ardente pensamento.
Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.
Em cada espasmo eu morrerei contigo.

E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,
casa de madeira do planalto,
rios imaginados,
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas
maravilhosas da noite. Ó meu amor,
em cada espasmo eu morrerei contigo.

De meu recente coração a vida inteira sobe,
o povo renasce,
o tempo ganha a alma. Meu desejo devora
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma
de crepúsculos e crateras.

Ó pensada corola de linho, mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada, imponderável -
em cada espasmo eu morrerei contigo.

E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.

Herberto Helder
.