QUERO UMA VIDA EM FORMA DE ESPINHA
Quero uma vida em forma de espinha
Num prato azul
Quero uma vida em forma de coisa
No fundo de um sítio sozinho
Quero uma vida em forma de areia nas minhas mãos
Em forma de pão verde ou de cântara
Em forma de sapata mole
Em forma de tanglomanglo
De limpa-chaminés ou de lilás
De terra cheia de calhaus
De cabeleireiro selvagem ou de édredon louco
Quero uma vida em forma de ti
E tenho-a mas ainda não é bastante
Eu nunca estou contente
Boris Vian
em Canções e Poemas
tradução de Irene Freire Nunes
e Fernando Cabral Martins
.
Deixo, onde li antes de escrever, um poema:
ResponderEliminarCHAMINÉ NOCTURNA
recorta a chaminé dentro do teu peito
pois dá sempre jeito tê-la
para por ela
fazer
(1)
sair um suspiro
(2)
soltar uma nuvem
(3)
apontar para o céu
recorta a chaminé
dentro do meu peito ergo
a catedral dum desejo inorgânico
(4)
como uma nuvem de fumo queimado
(5)
a chaminé
do poema necessário
para soltar um corvo curvo queimado!
(em direcção à lua ou ao sol apagado)