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Sábado, 31 de Julho de 2010

Um poema de Sylvia Beirute - Canção para Leonard Cohen

























CANÇÃO PARA LEONARD COHEN

enquanto nos faltarem fotografias
o futuro estará à deriva.
pero si. yes. la ciudad. a cidade.
a cidade que assinala a urgência no meu
vestido comprido e justo, saída do banco
com o dinheiro negro. the money.
money likes rain. chove.
é insuficiente dizer que chove.
é como dizer dinheiro. ou love. (love não
quer dizer amor). d'accord, got it, há 
máximos e mínimos. 
concepções copernicianas do espaço.
leonards cohens que espiam atrás de 
canções bifurcadas. gerações diferentes.
a realidade não dá conta do recado
because it depends on, you know, pois 
depende do expressável. representável.
não basta dizer «tudo tem uma duração».
é preciso dizer «tudo é uma duração».
pero si, chica.  la ciudad! a cidade. sim.
mas cala-te um pouco. a cidade
onde agora faz sol. sabe: o sol só é 
auto-expressável porque é cópia de si mesmo. 
todos os dias copia a fórmula recém-passada 
de aplanar nos rostos que vão
demolindo a arte de acordar. wake. up.
e nada resulta para mim.
e nem a metáfora é analgésico.
talvez seja a frequência do subterrâneo 
desta cidade de vídeo e respeito
onde cada medo seu espreita atrás de um outro
e um tédio urbano
me surrealiza o dom dos olhos.

Sylvia Beirute
inédito

Sexta-feira, 30 de Julho de 2010

Revista Aliás II/2010

E viva o jogo !

Aliás II/2010



Sim, nós perdemos a Copa de Mundo, perdemos Saramago e temos colhido uma série de más notícias todos os dias aqui no Brasil.

O desaparecimento de uma jovem e seu suposto assassinato por um ídolo do futebol tornou-se mais do que noticia de página policial para transformar-se no mais puro entretenimento... Horas e horas de "noticiário" sobre os protagonistas... Enfim, até final de julho, quando este editorial foi escrito, bastava ligar a TV para ser invadido por uma realidade sem Saramago e sem prêmio da vitória. Assim entramos nesta edição II/2010.

Justamente por isso que não podemos deixar a peteca cair. Devemos, sobretudo, criar novas alternativas de entretenimento, de cultura. E é por isso que trazemos esta nova edição com força redobrada, com o tal segundo fôlego dos esportistas.

"E viva o jogo!" foi a sugestão de pauta. A ideia não era falar da Copa, mas também da Copa. Optamos por levantar a ideia do jogo, da incerteza que ele envolve, das apostas que se faz, do inesperado... Principalmente porque isso tem tudo a ver com a arte.

O conto de Mariel Reis, traz o futebol, com ele o time América [por sinal time do escritor Marques Rebelo], e uma indigesta realidade de nossa história, a Ditadura. A partir do que foi uma época de jogadas nada esportistas, ele constrói um cenário carregado de lirismo. É este fôlego, que não deve ser perdido e que parece ser uma alternativa para a partida contra toda angústia. E não pense o leitor que a referência à sugestão de pauta esteja apenas no título ou ambientação de seu conto...

E, já que falamos de América e já nos remetemos a Marques Rebelo, sigamos com o "Onofre",que vem encher de realidade a seção dedicada ao escritor e acadêmico. Uma realidade que pode estar acontecendo agora mesmo na nossa esquina. Esta é a capacidade extrema de Marques Rebelo, que temos a honra de abrigar entre os nossos e sob a curadoria de José Maria Dias da Cruz.

Temos o ensaio cheio de "insights" do escritor e pianista Marcelo Moraes Caetano, co-editor e revisor da revista e que acaba de lançar mais um livro: "Caminhos do Texto" (Editora Ferreira, 2010). Nesta edição de Aliás, mais do que discutir questões ontológicas, que envolvem dois grandes ícones da cultura ocidental, seu texto abre uma brecha de luz ao perceber o que passa despercebido. Mistura as peças no tabuleiro, faz-nos botar a cuca para trabalhar e encontrar a melhor saída. As celebridades, os jogadores envolvidos? Hamlet e Édipo.

Outra estudiosa e colunista da revista, Eugenia Gay-Brussino traz um texto para lá de essencial a nós artistas. Qual a especificidade do objeto obra de arte para o hitoriador? A arte "se deixa" analisar? Questões essenciais com as quais se debatem artistas e críticos são analisadas pela pesquisadora que usa como referência principal neste texto as concepções de Giulio Carlo Argan.
Na coluna de Bianca Tupinambá as ilustrações trazem o espírito do dia-a-dia das ruas do Rio de Janeiro, durante a Copa do Mundo, quando ainda pensávamos qual seria o melhor adversário para nós, Argentina ou Alemanha... Não pegamos nenhum dos dois, tomamos uma laranjada, não para refrescar, mas em cheio na nuca, a fruta. As ilustrações não cantam vitória, nem trazem desânimo. Trazem a aposta.

A crônica de Paula Cajaty, que foi finalizada antes da saída do Brasil da Copa do Mundo, lembra que o importante é o movimento que se faz durante a partida, mais do que a busca do resultado. É quando saboreamos a vida. Para falar disso ela domina a bola no pé e divide conosco suas reflexões sobre a produção do seu último livro: sexo, tempo e poesia (7 Letras, 2010).

A vida é sim muito mais do que o alvo ou a seta. A vida é movimento, a vida são "Transparências", como bem anuncia o título de um quadro recente do artista plástico José Maria Dias da Cruz e que apresentamos na coluna "Artes visuais". Transparências que nos fazem ver realidades através de outras. E por isso mesmo possibilitam alternativas de novas jogadas, novos passes, impasses e resultados quase sempre sob a égide das "Incertezas".

Incertezas que são, antes de tudo, possibilidades. Numa alternativa de mundo não-determinista, de mundos, antes de tudo, viáveis. Também é o que ressalta o texto da coluna do mesmo José Maria Dias da Cruz, em que aborda a questão da cor e antecipa novos estudos presentes eu seu mais recente livro, "O Cromatismo Cezanneano" (Edição do autor/2010). Fala sobre o cromatismo clássico e os impasses que este encontra. Oferece uma leitura a partir da relação de Cezanne com as cores e explica mais uma vez a ideia de cinza sempiterno, que lhe é bem cara e vem sido desenvolvida há bastante tempo por José Maria Dias da Cruz.

Outras realidades, outras linguagens, Susanna Bussato anuncia em sua contribuição à coluna Poemas: "Sob a luz /como se/ sumisse/ como se/ a luz/ submissa sentisse.// E este silêncio...// (Como se dissesse tudo e nada fosse...)" do poema cujo título é o último verso desta citação, e que está em parênteses, como um pensamento que hesitamos em levar ao outro e ainda assim chega ao mundo por nós e em nós, como se nada fosse...

Ainda em "Poemas", o poeta Ricardo Alfaya com: "Gol de placa entre lençóis". Ele que sempre foi um poeta das linhas secas, da poesia visual, vem flertando com o lirismo, denotando uma sensível mudança em sua poética.

Mariel Reis, nosso contista, está presente também exercitando a forma da poesia com o mesmo talento de seus já consagrados contos. Luis Serguilha, de quem só tínhamos publicado ensaios até agora, comparece com seu jogo sensorial de palavras.

João Felinto, traz a tradição da poesia popular com invenção. Sylvia Beirute, jovem poeta portuguesa, juntamente a Serguilha segue representando uma escritura de vanguarda no que isso tem de quebra de estrutura clássica da forma. Paula Cajaty, também colunista de Aliás, traz versos de seu recente livro: "sexo, tempo e poesia" (7 Letras, 2010), onde apresenta maturidade poética contribuindo com poemas de apuradas sensibilidades e delicadezas aliadas ao domínio da técnica.

Se tocamos no assunto do artesanato da poesia, sigamos com a de Leandro Jardim, com exercícios de metapoesia explícita. Parte de livro "Os poemas que não gostamos de nossos poetas preferidos" a ser lançado pelo selo Orpheu em 2010.

Paula Cajaty, também colunista de Aliás, traz versos de seu recente livro: "sexo, tempo e poesia" (7 Letras, 2010), onde apresenta maturidade poética contribuindo com poemas de apuradas sensiblilidade e delicadezas aliadas ao domínio da técnica.

Se tocamos no assunto do artesanato da poesia, sigamos com a de Leandro Jardim, com exercícios de metapoesia explícita. Parte de livro "Os poemas que não gostamos de nossos poetas preferidos" a ser lançado pelo selo Orpheu em 2010.

Em "Ensaios" temos novamente o poeta e ensaísta português Luis Serguilha, que apresenta o trabalho de Gabriela Marcondes. Luis Serguilha cria em cima da obra do outro artista. Mais que isso, recria, assimila, transmigra (para utilizar um termo que o autor utiliza), e neste ato parece buscar comunicar ao leitor o afeto que o acometeu, mais do que falar da obra em si. Parece interessar ao ensaísta o que efetivamente a obra produziu nele, fruidor. Numa busca incansável através das palavras provoca sensações, afetos através de "brinquedos verbais" (como bem nomeou Suzana vargas, ao referir-se à obra do autor em uma palestra).

Se jogo de futebol é algo típico do brasileiro hexacampeão, Cazuza também é. Afinal é quem grita ainda: "Brasil, mostra tua cara, quero ver quem paga pra gente ficar assim" versos que se tornaram quase um "hino nacional paralelo". O músico, ícone dos anos oitenta é homenageado por nossa cronista musical Daniela Aragão. Depoimento sem falso "tietismo", de quem não tinha Cazuza como um de seus preferidos e por isso mesmo de quem sobre o tema emite um olhar mais arguto.

Sobre outras linguagens, Marcelo Scanzani, que é nosso cinéfilo, traz, numa análise despretensiosa e bem humorada, uma leitura dos filme "O sabor da melancia" e "Vive lamour," ambos de Tsai Ming-Liang. Importante notar a inusitada citação ao cantor de música brega, Barros Alencar.

O poeta Márcio Catunda, nosso colunista e que acaba de lançar sua "Emoção Atlântica" (Oficina Editores, 2010) traz o poema "Jogo perigoso". Usa e abusa da sonoridade da palavra, produzindo um som que mesmo poderia ser o das peças de xadrex num tabuleiro, do pé do jogador raspando no gramado, de uma velejador puxando a corda de seu barco, ou simplesmente o som áspero e agudo da angústia que antecede a tomada de decisão... Sim emoções trazem sons...

Por falar em outras linguagens, Marcelo Scanzani, que é nosso cinéfilo, traz para nós, numa análise despretensiosa e bem humorada, uma leitura dos filme "O sabor da melancia" e "Vive lamour, ambos de Tsai Ming-Liang.

Na minha coluna apresento o livro "Ponto Cego" (Mandarim/Siciliano,1999) de Lya Luft, que à época de seu lançamento não foi muito divulgado na mídia. Convido para um cafezinho em "Crônicas" e passo a bola para vocês!


Elaine Pauvolid

Aliás, goze!

Quarta-feira, 28 de Julho de 2010

Um poema de Tarso de Melo - Deserto


























(EXCERTO DE) DESERTO

13

PONTAS DE FACA abrem
de um canto a outro
a manhã — desterro em
meu deserto

uma mulher, seus filhos,
sacolas

um casal na noite
expande o vulto duro
de uma árvore

volta-se um
contra o outro
até cegarem
quem
os observa

Tarso de Melo
in Carbono

Segunda-feira, 26 de Julho de 2010

E a Menina Dança?








por um link que de lá veio cá parar, perdi-me no e a menina dança? , onde há tempos a Lola Rosso publicou um poema meu na rubrica "uma coisa em forma de assim". de entre todo aquele pequeno mundo de cultura, destaco as escolhas musicais, sempre surpreendentes.

Sábado, 24 de Julho de 2010

Um poema de Sylvia Beirute - Revólver



















REVÓLVER

                                        {ao josé ferreira}

por fim: entre desejos lindos, estrita-
-mente prováveis, e contra-impulsos no
dorso, dia sim dia não, como que 
numa mistura clássica e fascinante,
substituo o corpo na competência 
de parir o tempo que resta 
no rebentar das águas de um 
instante principal em forma de 
edema e américas;
e entre desejar e não desejar, o vazio 
de cordas deseja e consegue: a certeza
de não cabermos numa
única possibilidade, o saber que há
um inverno de grande razão
na carne fria do nosso cesariny,
o ter o coração em riste no diadema 
solitário sob os olhos dos mi-
-nutos emperrados em direcção a meca,
o supor que a morte já
não admite exemplos
e um excesso de memória 
adivinha o futuro.

Sylvia Beirute
inédito

Quinta-feira, 22 de Julho de 2010

Um poema de Sylvia Beirute - Mondrian Falso

























MONDRIAN FALSO

café às dez da manhã, porque outro início me 
não ocorre agora neste lastro de fome e o escrito
deve começar, aqui numa londres primitiva
onde a transparência duplica a memória,
a inocência mata de olhos muito claros e em toda
a parte vê mondrians falsos; aqui onde
a raiz expande até ao caudal do quando-exílio
e o sistema do corpo e respectivo pulso preliminam 
a máscara infinitiva inconjugável com as coisas da arte.
às nove da manhã, antes da medula que agora existe
e que me afasta o corpo do sentir mais sedentário,
alguém me acordou com uma palavra hirsuta-
-mente insana e tão sem esperança
que me pareceu ter nascido de costas voltadas
para qualquer um dos seus significados.

Sylvia Beirute
inédito

Terça-feira, 20 de Julho de 2010

Um poema de Sylvia Beirute - Memória: Cidade dos Homens


























MEMÓRIA: CIDADE DOS HOMENS

e muito legítimo e definitivo
em todo o traço o dedo a fazer a significação
e a ocultação da vontade de se ligar
a uma cabeça métrica
eleita um bom cúmplice memorizador.
e daí muito legítima a memória sob os títulos
que a desvendam longitudinalmente
e mostram a cidade inteira
sob a retórica da boca do dia-a-dia.
e há, no final, aflição, aflição de ter de
dizer as cores com os ruídos do desejo,
de ter de beber os homens pelos entornos
que ainda transbordam do copo.

Sylvia Beirute
inédito

Um poema de Sylvia Beirute - Corpos Não Identificados


























CORPOS NÃO IDENTIFICADOS

amam-se os nossos corpos mortos.
amam-se num amor subterrâneo: os nossos corpos mortos.
amam-se os nossos corpos mortos num muro transparente
por onde vejo ainda: os nossos corpos mortos.
amam-se na ressonância do amanhecer que desperta
leve e docemente sobre a vitamina F que os seus cabelos
conservam: os nossos corpos mortos.
amam-se na respiração limpa dando caminho a uma
contemplação de cristais, a uma porta que ora:
os nossos corpos mortos.
amam-se no sonambulismo do primeiro acto, próximo
de uma prova contrária à sede que a nuvem rejeita:
os nossos corpos mortos.
amam-se numa súbita vontade que crucificou
a metamorfose do dia de hoje: os nossos corpos mortos.
amam a emulação palpável dos presentes na
cerimónia fúnebre: os nossos corpos mortos.
porque só depois do amor, descansa a morte.

Sylvia Beirute
inédito

Súbito - José Manuel Teixeira da Silva


























SÚBITO

Súbito, nem se sabe porquê, irrompem algumas pré-histórias.
Na primeira é uma história que invento, precisamente uma história, a primeira história. Recomeço-a eternamente. Escrevo e torno a escrever a sequência inicial, a única que existirá. Um homem parte, a noite vem antes do tempo, cai mais de repente, descrevem-se minuciosamente os mecanismos da tempestade, o momento de suspensão, o bater interior do espaço parado. Grandes nuvens correm nos seus olhos. Está preso ao passado que lhe escorre com a chuva, mas sente o apelo da viagem, um coração que insiste. Surge o comboio fulgurante, trovões e relâmpagos, é a hora. No fim da linha, um dia, chegará à cidade que abandonou, o ar tão fácil de respirar.


in A Minha Palavra Favorita, Centro Atlântico, 2007

Segunda-feira, 19 de Julho de 2010

Um poema de Inês Lourenço - Conta de Pero Vaz de Caminha


























CONTA DE PERO VAZ DE CAMINHA

O homem do Guarani tosse
e espirra constantemente, enquanto
serve os cimbalinos em chávena escaldada
ao dono da residencial Grande Rio
e à striper brasileira. Ela discute no seu
português com adoçante
a conta da electricidade, que no seu país
não entra no contrato.

Inês Lourenço
in Logros Consentidos 

Domingo, 18 de Julho de 2010

Cinema: O Escritor Fantasma

 
 
 
 por Isadora Sinay
 
 
O Escritor Fantasma, novo filme de Roman Polanski revisita algumas características marcantes do estilo do diretor: o suspense, a paranóia e o ambiente claustrofóbico. O filme acompanha um escritor fantasma, nunca nomeado, contratado para redigir as memórias de um controverso primeiro-ministro britânico, contudo, as coisas parecem mais complicadas do que a primeira vista, já que seu predecessor morreu afogado de forma suspeita.

Polanksi é um mestre do mistério e, sendo assim, sustenta a ação pelas longas duas horas e meia de filme graças a sutis reviravoltas narrativas. Mas mais do que conduzir bem uma narrativa intrincada, Polanski é um cineasta de atmosfera e aqui ela é extremamente fria, organizada, higienizada sem lugar para falhas, um mundo de eficiência completa. A fotografia é acinzentada e a direção de arte trabalha com tons neutros, criando um atmosfera de extrema riqueza minimalista, imersa em um mundo ainda mais hostil, o de uma pequena ilha gelada no litoral de Massachussets.

Assim, o diretor constrói um suspense eficaz com elementos que fazem parte da sua obra, construindo um filme de estilo. Contudo, como a recorrência dos elementos formais parece querer indicar, trata-se de um filme extremamente autoral, em que o diretor se estampa nas escolhas de plano, de locação, de atores e em cada momento da trama.

 
A crítica aos Estados Unidos é pungente: uma sociedade de controle, mas, ao mesmo tempo, moralmente fluída, em que se pode ultrapassar a fronteira da humanidade para alcançar o inimigo, em que tramas são ungidas em uma espécie de cúpula do poder — ainda que se trate do grande advogado da democracia. Polanski, como seu personagem, é um encarcerado, pode fugir, pode conquistar aliados e até mesmo descobrir o que se passa por trás de sua perseguição, mas de certa forma será pego e sua liberdade é sempre provisória.

Se há no filme rancor há também a capacidade do artista de transformar sua experiência em universal e a casa de alta tecnologia parece refletir não só a gaiola dourada do diretor, mas a do mundo que afasta as relações humanas e as substitui por profissionais, pela conveniência de um romance com a secretária.

Dessa forma, O Escritor-Fantasma é a volta de Roman Polanski aos seus grandes filmes: a tensão e a paranóia de O Bebê de Rosemary, a claustrofobia de Cul-de-Sac e Repulsa e a crítica ácida de Faca na Água. O filme é ainda o retrato de seu rancor e sua repulsa pelo país que de certa forma adotou e um exercício estilístico, com fotografia impecável, direção de arte extraordinária, atores excepcionais e planos muito bem executados. No fim, este filme parece ser mais próximo de uma obra pessoal ao mesmo tempo em que se trata de um exercício de excelência de um gigante encarcerado. 

Lido Aqui

Sábado, 17 de Julho de 2010

Um poema de Mariana Campos - Convite




















CONVITE

sinto-me estranha. como se um deus 
me tirasse pra dançar 
uma música que nunca ouvi.


Sexta-feira, 16 de Julho de 2010

Um poema de Nydia Bonetti - Esquinas




















ESQUINAS

faço versos porque já morri
tanto e tantas vezes
mas não encontro o caminho de casa
onde era mesmo que eu morava?
no acaso me lanço
no espaço em branco longe dos apegos
flutuo
há uma curva no rio – havia mesmo um rio?
tinha botas de sol – ainda tenho pés?
há um lugar onde as almas se encontram
os corpos são frascos
de vidro - não eram potes
de barro?
há janelas que nunca se abriram
cortinas transparências
o vento - havia mesmo o vento?
podia ouvir seu sopro
ao menos uma carta eu poderia ter escrito
na próxima esquina quem sabe
no próximo verso

Um poema de Roberto Piva - Boletim do Mundo Mágico


















faleceu há pouco tempo um dos poetas da lusofonia que mais contribuiu para a minha formação poética e que traça claramente a distinção perfeita entre a prosa e a poesia. para quem não conhece, fica um poema do poeta brasileiro roberto piva.


BOLETIM DO MUNDO MÁGICO

Meus pés sonham suspensos no Abismo
minhas cicatrizes se rasgam na pança cristalina
eu não tenho senão dois olhos vidrados e sou um órfão
havia um fluxo de flores doentes nos subúrbios
eu queria plantar um taco de snooker numa estrela fixa
na porta do bar eu estou confuso como sempre mas as
galerias do meu crânio não odeiam mais a batucada dos ossos
colégios e carros fúnebres estão desertos
pelas calçadas crescem longos delírios
punhados de esqueletos são atirados no lixo
eu penso nos escorpiões de ouro e estou contente
os luminosos cantam nos telhados
eu posso abrir os olhos para a lua aproveitar o medo das nuvens
mas o céu roxo é uma visão suprema
minha face empalidece com o álcool
eu sou uma solidão nua amarrada a um poste
fios telefônicos cruzam-se no meu esôfago
nos pavimentos isolados meus amigos constroem um manequim fugitivo
meus olhos cegam minha mente racha-se de encontro a
uma calota minha alma desconjuntada passa rodando

Roberto Piva
em Paranóia 

Quinta-feira, 15 de Julho de 2010

Um poema de Sylvia Beirute - Escrito para crise de ciúmes (ou um indivíduo inglês)





















ESCRITO PARA CRISE DE CIÚMES
(ou um indivíduo inglês)

era um indivíduo inglês que admiro.
não tanto a poeticidade no raciocínio,
não tanto a sua inclusão nas pretensões
dos sismos, o seu repor-se no mesmo sítio
não inteiramente igual;
era um indivíduo
inglês que admiro e que me sorriu e
fotografou na prestidigitação do parque,
no círculo perfeito da dialéctica do meu repúdio
pelo passado puramente geográfico, que é
lei das duplicações; vi-lhe os olhos, sim, e
vi que ainda sabiam azulecer
e juro pelos factos que não são verdade
que ainda tinha o cordão umbilical
e que trazia um espelho numa mão
sempre apontado para as nuvens
que naufragavam na minha concreção privativa;
e num amanhã de um outro tempo: verás talvez
este escrito para crise de ciúmes
respirado noutro formato,
com todos os termos que a minha total
ausência de indução me hoje não deixará governar;
e aí sim:
verás como o conteúdo de uma imagem
ainda pode ensinar o passado;
ou o seu cadáver. 

Sylvia Beirute
inédito

Quarta-feira, 14 de Julho de 2010

Um poema de Dirceu Villa - O Cutelo



















O CUTELO

São ossos. E às vezes, a banha amarela nos ossos;
e às vezes, o sangue vermelho nas unhas.
São porcos, ou são as cabeças dos porcos,
penduram num gancho as cabeças,
ou a cara de estúpida morte dos porcos
no vidro embaçado do açougue.
Ou o branco, mas branco embebido de rosa,
o sangue no sonho de tripas,
sonha o açougueiro: que empunha o cutelo.
E o branco avental que se banha
ou que bebe, o sangue que salta dos nervos
num abraço com ossos, onde vibra o cutelo,
e como brilha o cutelo que corta:
é essa a virtude do aço no punho, que sobe,
ou a ameaça na roda vazia que o prende
no espaço do açougue, visível aos olhos,
anúncio de corte. Ou espeta seu fio numa pedra,
e o único olho vazio se concentra, à espera da carne.
São cortes na pedra lanhada de sangue,
ou fendas, de onde a morte o espreita,
açougueiro no sonho vermelho, acariciando
o fio afiado, o sorriso sutil do cutelo,
que corta. E então o cutelo é outra coisa:
nem porcos, nem nervos, nem ossos,
nem mesmo o açougueiro que o sonha,
mas parte extensiva do braço que o vibra,
e parte indelével do que ele mutila,
o fio afiado, o sorriso sutil do cutelo, que corta.

Dirceu Villa
na revista Modo de Usar & Co

Segunda-feira, 12 de Julho de 2010

Um poema de Sylvia Beirute - Crítica de Poesia


























CRÍTICA DE POESIA

gostei da distância precoce. da oralidade. da
existência no outono com a grandeza de espírito
de vários sentidos férteis. das horas que aceitam
os tempos verbais como aceita o céu
as nuvens muito brancas.
aboliria os dias que morrem sozinhos e, sobretudo,
as contracções de cor nos desejos por explicar.
surpreendeu-me os bichos sobre os materiais e
o modo como estes reagiram
às suas palavras sem proibições ou desespero;
excitou-me o facto de ele não te merecer
ou alcançar, embora talvez critique que nesse
poema que escreveste, belo como aquilo que
não pretende iluminar o futuro, haja
claramente um problema de auto-representatividade, 
um não estar em todos as faces, em todos os vértices,
em todos os fogos abertos,
em toda a esterilidade solúvel de todas as geografias
involuntárias e invisíveis às derrotas dos olhos.

Sylvia Beirute
inédito

Um poema de e.e. cummings - A minha mente é


























A MINHA MENTE É

a minha mente é
um grande naco de irrevogável nada que toca
e saboreia e cheira.
e a audição e a vista continuam batendo
e lascando com ferramentas
afiadas e fatais.
e numa agonia de cinzéis sensuais eu realizo
contracções do corpo
de crómio e executo avanços no cobalto.
porém eu
sinto que inteligentemente estou sendo alterado
e que devagar
me vou tornando algo ligeiramente diferente, de facto
eu mesmo,
em seguida impotente, proferindo guinchos lilás
e um falar alto de cor escarlate.

e.e. cummings
tradução de João Muzi

Um poema de Thomas Bernhard - O meu bisavô era negociante de banha

















O MEU VISAVÔ ERA NEGOCIANTE DE BANHA

O meu bisavô era negociante de banha
e hoje
toda a gente o conhece ainda
entre Henndorf e Thalgau,
Seekirchen e Köstendorf,
e todos ouvem a sua voz
e se juntam
à sua mesa,
que era também a mesa do Senhor.
Em 1881, na Primavera,
decidiu-se pela vida: plantou
uma parreira junto à parede da casa
e reuniu os mendigos;
a mulher, Maria, a da fita preta,
deu-lhe mais mil anos.
Ele inventou a música dos porcos
e o fogo da amargura,
falava do vento
e do casamento dos mortos.
Ele não me daria nenhum pedaço de toucinho
para os meus desesperos.

Thomas Bernhard
em Na Terra e no Inferno
Tradução de José Palma Caetano

Just Let Me Say Who Am I - um poema de Katrina


























JUST LET ME SAY WHO AM I

Caetano me espera eufórico na cama
lençol branco de 1969
esparramado em alguma lembrança em 2010
amor envelhecido nos nossos corpos
como vinho tinto suave.
É tão lírico
pensar assim em nós
em nós
que não se desatam
em promessas.
Perdidos no paraíso
que termina
talvez na próxima canção
linha tênue
entre o seu sorriso e o meu
faixa riscada que se repete
enquanto sabemos que o mundo
é o nosso nome.

Katrina
no blogue Lixo de Textos